Terça-feira, Novembro 18, 2003

Mestre Alberto Cutileiro

Não sei se algum dos leitores foi alguma vez afectado pelo vírus do coleccionismo, do modelismo, ou a mania das miniaturas, da construção, da reprodução à escala - ou se tem algum amigo assim, doido por soldadinhos de chumbo, uniformes, kits de aviõezinhos e tanques, sonhando reproduzir batalhas e regimentos, enchendo garagens e sótãos com prateleiras alinhadas em parada, ou de peças desalinhadas do equipamento militar a montar e a pintar, de mistura com óleos, tintas e pincéis.
Deve ao menos conhecer um doente assim.
Nesse caso, não erro se afirmar que já ouviu falar da "Casa do Cavaleiro à Porta".
É um lugar lendário, um centro de culto onde todos vão procurar o que em mais sítio nenhum se encontra, ou o esclarecimento e a informação impossíveis de encontrar.
É assim há muitas décadas. Nenhum maníaco no país inteiro desconhece a "Casa do Cavaleiro à Porta", na Rua das Furnas, em São Domingos de Benfica, bem perto da Igreja das Furnas e do Jardim Zoológico de Lisboa, anunciada na rua por aquela singular tabuleta com o cavaleiro pintado.
E certamente que aquele que falou do lugar falou também da figura mítica que ali se encontrava; o sumo sacerdote daquele culto, o supremo artista das reproduções e dos restauros, o sábio que podia desfazer qualquer dúvida sobre a minúcia que faltava. Curiosamente, a generalidade dos fanáticos que falavam na casa e no personagem ignoraram sempre o nome; mencionavam sempre o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta .... e também não sabiam que do mundo inteiro afluíam solicitações idênticas.
Para a minha geração, distraída, ele foi sempre e apenas o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta; faleceu ontem, com 89 anos.
Para quem o conhecia mais de perto era o Mestre Alberto Cutileiro, artista eborense, antigo Director do Museu de Marinha, exímio desenhador, pintor e restaurador, com atelier na capital.

“Um marquês em mangas de camisa que chamava camaradas aos operários”

Passando no dia 20 de Novembro mais um aniversário do fuzilamento de José António, no pátio da prisão de Alicante, em 1936, resolvi afixar aqui as palavras do seu testamento político, escrito por ele a 18 de Novembro de 1936, após ter conhecido a decisão que o condenava à morte (justiça célere e expedita, como por vezes se reclama em Portugal: sentença a 17, execução a 20 – sem apelo nem agravo nem outros expedientes dilatórios).
O título acima é uma frase desdenhosa do conhecido historiador marxista Hugh Thomas, que sempre me pareceu conter mais verdades na sua ingénua tentativa de catalogação caricatural do que foi capaz de compreender o seu ilustrado autor.
Aqui ficam então os trechos relevantes desse testamento político (a tradução é idónea, de José Miguel Alarcão Júdice).

“Testamento redigido e assinado por José António Primo de Rivera y Saenz de Heredia, de trinta e três anos, solteiro, advogado, natural e residente em Madrid, filho de Miguel e Cacilda (falecidos), na Prisão Provincial de Alicante, a dezoito de Novembro de mil novecentos e trinta e seis.
Condenado ontem à morte, peço a Deus que, se não me livrar desse transe, me conserve até ao fim a coragem da resignação com que o aguarde e, ao julgar a minha alma, o não faça pelos meus merecimentos, mas pela medida da sua infinita misericórdia.
Assalta-me o escrúpulo sobre se não será vaidade e excesso de apego às coisas da terra querer neste momento apreciar alguns dos meus actos; mas como, por outro lado, arrastei a fé de muitos camaradas meus em número muito superior as minhas possibilidades (bem conhecidas por mim, ao ponto de escrever esta frase com a mais clara e estrita sinceridade), e como até levei muitos deles a arrostar riscos e responsabilidades enormes, parecer-me-ia grande ingratidão afastar-me de todos sem nenhuma explicação.
Não é preciso repetir agora o que tantas vezes disse e escrevi sobre o que os fundadores da Falange Espanhola queríamos que ela fosse. Espanta-me que, já passados três anos, a imensa maioria dos nossos compatriotas persistam em julgar-nos sem ter começado, nem ao de leve, a entender-nos e até nem ter procurado nem aceitado a menor informação. Se a Falange se consolidar duradouramente, espero que todos percebam a dor por se ter derramado tanto sangue, por não se nos ter aberto uma brecha entre a raiva de um lado e a antipatia do outro. Que esse sangue derramado me perdoe a parte que tive em provocá-lo, e que os camaradas que me precederam no sacrifício me acolham como o último deles.
Ontem, pela ultima vez, expliquei ao Tribunal que me julgava o que é a Falange. Como em tantas ocasiões revivi os velhos textos da nossa familiar doutrina. Uma vez mais, observei que muitíssimas caras, inicialmente hostis, se iluminavam, primeiro por assombro e depois com simpatia. Nos seus olhos parecia-me ler esta frase: "Se soubéssemos que era assim, não estávamos aqui!» E, certamente, não estariam ali, nem eu ante um Tribunal Popular, nem outros matando-se nos campos de Espanha. Não era já possível, no entanto, evitar isso, e eu limitei-me a retribuir a lealdade e a valentia dos meus queridos camaradas, ganhando para eles a atenção respeitosa dos meus inimigos.
Isso fiz, e não procurar para mim, com falsa nobreza, a reputação póstuma de herói. Não me considerei responsável por tudo nem me ajustei a nenhuma outra variante de padrão romântico. Defendi-me com os melhores recursos da minha profissão de advogado. Talvez venha a haver comentadores póstumos que me censurem não ter preferido a fanfarronada. Cada um faz o que lhe parece melhor. A mim, para além de não ser actor principal em tudo que está a decorrer, parecia-me monstruoso e falso entregar sem defesa uma vida que ainda podia ser útil e que me não foi concedida por Deus para a queimar em holocausto à vaidade como girândola de fogo de artifício. Além de que não descia a ardis reprováveis nem comprometia ninguém com a minha defesa, antes, cooperava na de meus irmãos Miguel e Margot, processados comigo e ameaçados de penas gravíssimas (...).
Outra coisa tenho de rectificar. O isolamento absoluto para com o exterior em que vivo desde a altura da revolta militar foi quebrado por um jornalista norte-americano que, com permissão das autoridades daqui, me pediu algumas declarações em Outubro. Até conhecer, há cinco ou seis dias, o processo instruído contra mim, não tive notícia das declarações que me eram atribuídas pois nem os jornais que as trouxeram nem nenhuns outros me eram acessíveis. Ao lê-las agora, declaro que entre os vários parágrafos que se dão como meus, designadamente fiéis na interpretação do meu pensamento, há um que afasto completamente: o que censura os meus camaradas da Falange por cooperarem no movimento insurreccional com «mercenários vindos de fora». Nunca disse nada de semelhante, e ontem mesmo o declarei solenemente no Tribunal, apesar de me prejudicar por o dizer. Eu não posso injuriar as forças militares que prestaram em África enormes serviços a Espanha.
Nem posso lançar daqui censuras a camaradas que ignoro estarem agora sábia ou erradamente dirigidos, mas que de certeza tentam interpretar na melhor boa fé, pese embora a incomunicação que nos separa, as minhas regras e doutrinas de sempre. Queira Deus que a ardorosa ingenuidade dos meus camaradas não seja nunca aproveitada noutro serviço que não o da Espanha grande com que sonha a Falange.
Oxalá seja o meu sangue o último que se perca em discórdias civis. Oxalá o povo espanhol, tão rico em qualidades profundas, encontre já na paz, a Pátria, o Pão e a Justiça”.


Segunda-feira, Novembro 17, 2003

MÚSICA BRASILEIRA

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.


Olavo Bilac, “Poesias”

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Aproxima-se o tradicional convívio do 1º de Dezembro!
Está em marcha a organização do jantar e ceia, que são de obrigação.
Preparem-se, e visitem o site dos Antigos Alunos, onde aproveitam para se informar - e inscrever.

Eça de Queiroz em Évora

Os factos assentes e geralmente conhecidos são simples e fáceis de resumir.
José Maria d’Eça de Queiroz formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1866. Em Dezembro desse ano, com 21 anos, surge em Évora expressamente para fundar e dirigir o bissemanário da oposição “Districto de Évora”.
Logo a 6 de Janeiro de 1867 foi publicado o primeiro número do periódico. Daí em diante dedicou-se a escrever o jornal, que lá foi saindo todas as Quintas-feiras e Domingos.
A redacção e administração (substantivos colectivos que serviam, como muitas vezes ainda acontece, para encobrir realidades efectivamente singulares) estavam instaladas na Praça D. Pedro IV, n.º 3-A. Ou seja, traduzindo para os eborenses de hoje, ficavam naquele primeiro andar por cima da Pastelaria Violeta, mas com entrada pela Praça Joaquim António de Aguiar, o popular Jardim das Canas, onde está aliás colocada uma lápide evocativa da presença do escritor nesta cidade.
Na edição de Domingo dia 4 de Agosto de 1867 o jornal publicava uma curta nota de despedida em que Eça secamente declarava que “desde o dia 1º de agosto deixou de ser o redactor e diretor político do jornal “Districto de Évora”, e, desligado da empresa fundadora, dá como terminada a sua responsabilidade material, moral, politica e litteraria”.
Esse número de 4 de Agosto já ostentava como “proprietário e responsável” Francisco da Cunha Bravo, a quem a empresa tinha sido trespassada.
Portanto, o último número da responsabilidade de Eça foi o de Quinta-feira dia 28 de Julho de 1867.
Entretanto, nesse mês de Agosto de 1867 o nosso escritor regressou para Lisboa, de onde tinha vindo pouco mais de sete meses antes.
Tudo isto é por demais conhecido, e felizmente estão também publicados os escritos do “Districto de Évora”.
Mas aqui ao Manuel Azinhal sempre o intrigou o que nesta história não é conhecido (pelo menos não encontrei explicado em parte nenhuma, pode ser que seja ignorância crassa).
Repare-se na expressão usada por Eça: declarava-se desligado do jornal “desde o dia 1º de agosto”; não desde o dia 28 de Julho em que tinha saído o último número dirigido por si.
Terá isto algum significado? Seria que o contrato que o trouxe tinha duração convencionada até final do mês de Julho?
Não sei. Mas não tenho dúvidas que contrato havia. Dizendo claramente (esperando que ninguém se ofenda...): Eça de Queiroz, que nada ligava a Évora e que nunca aqui havia posto os pés, era evidentemente uma caneta alugada.
Um rapaz talentoso, que já se tinha feito notar pela sua queda para as literatices e para a polémica, que estava recém formado, e desempregado. Alguém terá conhecido o moço, já apontado como brilhante valor da nova geração, e que em Lisboa procurava glória – e no imediato pelo menos algo que lhe garantisse a sobrevivência – e lhe fez uma proposta que ele no momento não podia recusar..
Teria que ser alguém que frequentasse o meio social, político e literário lisboeta. E alguém com interesses e actividades políticas na oposição de então. E alguém cujos interesses estivessem sediados ou fortemente ligados a Évora.
E, evidentemente, alguém com capacidade financeira para criar e sustentar um jornal em Évora, e contratar, instalar e sustentar também o encarregado de tal tarefa, o nosso José Maria.
Quem seria que pagou o “Districto de Évora”, e pagou também, consequentemente, a estada de Eça de Queiroz em Évora?
Estas são as questões mais relevantes para a história do “Districto de Évora”, e para a compreensão da política local nesse curto período.
Não sendo eu um conhecedor profundo da vida política e social da cidade no período em causa, tenho no entanto uma suspeita. Só vejo um capitalista que a meu ver reunia os requisitos todos que enunciei, e com interesses políticos e económicos em Évora que justificavam o empreendimento. Mas é apenas palpite, intuição – nada tenho para o comprovar. Deixo o assunto para quem saiba mais.

Domingo, Novembro 16, 2003

Fala apócrifa de Camões para hoje

Exaltei o passado, num presente
Triste, apagado, vil.
Mas havia o futuro, mar em frente,
Para epopeias d’África e Brasil.

Doído, condenei,
A cobiça e a traição.
Mas tinha, ao alto, um rei
Por pai e capitão.

Só quando a pátria amada
Cedeu às ambições alheias,
A minha voz ficou calada,
Parou o sangue em minhas veias.

Só quando o rei de Portugal
Deu a alma ao Céu
E o corpo nu no areal
Não mais, musa, não mais fui eu.

Quis quanta vez ressuscitar!
Bastava um rasgo de heroísmo,
Asa de esperança, súbito, a rasar
O abismo.

E logo o pulso me pulsava,
A voz subia na garganta
E o que há de mim em mim gritava:
Canta!

Mas novas nuvens da desgraça
Encobriam as praias portuguesas
E o ímpeto da raça
Naufragava em baixios e baixezas.

Hoje, o presente
É ainda mais vil e apagado e triste
Porque, no mar em frente,
Nenhum futuro existe.

A cobiça e a traição,
e não um rei, é hoje quem governa:
dorme, pois, para sempre, coração!
Sê tu, silêncio, a minha pátria eterna!


António Manuel Couto Viana
(publicado originalmente em “A RUA”)

O mito da igualdade

Que todos os homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Quando são precisos funcionários públicos, até os governos mais “democráticos” fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos teoricamente iguais. Mas, na realidade, quando abstractamente analisamos a sociedade “democrática”, pensamos ou agimos em termos de igualdade dos homens, ou pelo menos – o que na prática vem a ser o mesmo – procedemos como se estivéssemos certos de que os Homens são iguais.
A quantidade de tempo durante o qual eles estão empenhados em pensar ou agir politicamente é muito reduzida quando comparada com todo o período das suas vidas; mas as breves actividades do homem político exercem uma influência desproporcionada sobre a vida diária do homem trabalhador, do homem a divertir-se, do homem pai e marido, do homem senhor de propriedades. Daí a importância em se saber o que ele pensa na realidade e porque é que o pensa.
Os políticos e os filósofos políticos falaram, muitas vezes, acerca da igualdade do Homem como se fosse uma ideia necessária e inevitável, uma ideia em que os seres humanos têm de acreditar, exactamente como têm de acreditar em noções tais como peso, calor e luz. O Homem é “por natureza livre, igual e independente”, diz Locke, com a segurança de alguém que sabe que está a dizer qualquer coisa que não pode ser negada. Era possível citar literalmente milhares de afirmações semelhantes. “É preciso ser-se louco”, diz Graco Babeuf, “para negar tão manifesta verdade”.
No entanto, do ponto de vista do facto histórico, a noção de igualdade humana é um produto recente, e, longe de ser uma verdade directamente apreendida e necessária, é uma conclusão tirada de assunções metafísicas preexistentes. Nos tempos modernos as doutrinas cristãs da irmandade dos Homens e da sua igualdade perante Deus foram invocadas em apoio da democracia política. Muito ilogicamente, no entanto. As famílias têm os seus patetas e os seus homens geniais, as suas ovelhas ranhosas e os seus santos, os seus êxitos mundanos e os seus falhanços. A igualdade perante Deus não significa a igualdade entre os Homens pela simples razão de que comparadas com uma quantidade infinita todas as quantidades finitas podem ser consideradas iguais. Perante Deus, ele é o ser absoluto e objectivo; é o portador de valores eternos. Mas na vivência dinâmica é o ser subjectivo e diferente que todos conhecemos da realidade prática.
Os escritores que no decurso do século XVIII forneceram à moderna democracia política a sua base filosófica não se voltaram para o cristianismo para encontrarem a doutrina da igualdade humana. Eles eram, quase sem excepção, escritores anti-clericais para quem a ideia de aceitar qualquer auxílio da Igreja teria sido extremamente repugnante. Além disso, a estrutura da Igreja, orientada e organizada para as suas actividades terrenas, não lhes ofereceu qualquer auxílio, mas sim uma franca hostilidade. Ela representava, ainda mais que o estado monárquico e feudal, aquele princípio medieval, hierárquico e aristocrático contra o qual, precisamente, os igualitários protestavam. A origem da ideia moderna da igualdade tem de encontrar-se na filosofia de Aristóteles, que na verdade, como veremos, não era lá muito “democrática”. Vivendo, como o fazia, numa sociedade detentora de escravos, ele considerava a escravatura como um estado necessário das coisas. Estamos portanto perante uma contradição. Esta incoerência revelar-se-ia ao longo da história, na medida em que os bem-pensantes de todas as épocas souberam pôr de um lado o romantismo, se assim se lhe pode chamar, das suas concepções metafísicas sobre o Homem, e do outro lado a realidade – a sua vivência de classe -, a contradição evidente da igualdade humana. No entanto esta falácia romântica viria a influenciar decisivamente o espírito esclarecido dos demo-liberais, pois é na teoria da igualdade humana que a democracia moderna encontra a sua justificação filosófica e uma parte, pelo menos, da sua força motriz. Os preconceitos “democráticos” parecem, àqueles que os acarinham, sagrados, bem como moralmente certos, verdadeiros. A democracia é natural, boa, justa, progressiva, e assim por diante. Os seus opositores são reaccionários, maus, injustos, anti-naturais, etc. Para um vasto número de pessoas, a democracia tornou-se uma ideia religiosa que é dever tentar pôr em prática em todas as circunstâncias, indiferentemente dos requisitos práticos de cada caso particular. A metafísica da democracia, que na origem próxima foi a racionalização dos desejos de certos homens, como Rousseau, por exemplo, para melhorarem a sua sociedade, tornou-se numa teologia universal e absolutamente verdadeira, que “é do mais alto dever de toda a Humanidade pôr em prática”. Assim, Portugal tem de ter a sua democracia, não porque o governo democrático seja melhor do que o governo indemocrático que existia (verifica-se que se está a tornar incomparavelmente pior) mas porque a democracia, em toda a parte e em todas as circunstâncias, está certa.
Tratámos até aqui do pressuposto primário de onde flui toda a teoria e prática da democracia – que todos os homens são iguais. No entanto as investigações científicas do nosso século permitem tirar conclusões completamente contrárias. Desde que se abandonem os preconceitos metafísicos e se desça à investigação do biotipo humano, a realidade é bem diferente.

(in “Camarada”, “jornal do combate nacional-revolucionário”, Maio de 1976. Como se verifica pela análise dos textos, o autor é o mesmo dos dois já atrás publicados sobre a tecnocracia. Não digo o nome, para que não fiquem a saber tanto como eu).

Sábado, Novembro 15, 2003

Reconquista

Surgiu actualizado, e com o vigor e a acutilância que o caracterizam, o “Reconquista”, site libertário, monarquista e nacionalista.
É uma voz independente, livre e original – que atrai tanto mais quanto mais se afasta do pronto-a-vestir ideológico corrente.
Desafio a que façam uma visita todos os que se sintam tocados pelo menos por uma das três definições do lugar – libertário, monarquista e nacionalista. Com as restantes cada um logo tratará de ajustar as contas que tiver.

Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 16 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III)
(Em todos os dias de Segunda-Feira a Sábado é às 19 horas, no mesmo local)

Em Perolivas, Reguengos de Monsaraz: às 18. 30 horas, na Capela de São José
Rua do Forno, n.º 25, em Perolivas, Reguengos de Monsaraz

Ainda a tecnocracia

Os actuais regimes demo-liberais caracterizam-se por serem dirigidos na prática não por um homem ou uma equipa política agindo através de instituições visíveis e definidas, mas sim pelo poder de uma casta de alguns milhares de directores dependentes do sector privado ou do sector público, tendo recebido a mesma formação, únicos iniciados no funcionamento complexo da economia moderna da qual preservam ciosamente os segredos, mantendo os outros num estado de conhecimento fragmentário.
Motivados mais pela vontade de poder dada pela manipulação das forças económicas que pelo simples desejo de enriquecer – já satisfeito –eles têm uma consciência profunda da sua superioridade. O seu desdém pelos outros homens, que eles não vêem senão através de estatísticas e gráficos económicos, é total. Para eles as comunidades humanas não passam de enormes sociedades anónimas das quais o funcionamento anárquico deve ser ordenado pela criação de um grande mercado planetário racional e normalizado. Os senhores ocultos do capitalismo estão bastante próximos dos seus colegas soviético, pelos quais têm uma visível admiração. Eles aderem aliás em grande número aos esquemas marxistas que justificam as suas ambições em linguagem pseudo-filosófica. Pouco ansiosos de publicidade, desdenham a prática política, que lhes é submissa, camuflam o seu poder real por trás do pára-vento que são as instituições, os políticos, os fabricantes de opinião.
A cortina das grandes palavras (democracia, socialismo, liberdade, progresso) permite-lhes enganar o povo e mantê-lo sujeito.
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TECNOCRACIA: fase actual da evolução das sociedades capitalista e comunistas, fundadas sobre um mesmo conceito materialista da tecnologia e uma mesma filosofia da indiferenciação. É caracterizada pelo poder da casta (particularmente implantada em Portugal), pelo estabelecimento de um plano económico ditado por tecnocratas, pelo estrangulamento das profissões independentes e pelo emprego de técnicas de anestesia e sujeição nas populações exploradas. O Mercado Comum é uma realização tecnocrática.
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(in “Combate”, “órgão nacionalista de acção revolucionária”, Outubro de 1977)

Sexta-feira, Novembro 14, 2003

"Talent de bien faire"

Já agora, os queridos leitores farão bem em frequentar um outro blogue que encontrei na minha vagabundagem pela blogosfera: "Portugal e Espanha".
Interessante, profundo - e de actualidade cada vez mais premente.
Para além do seu tema favorito (o relacionamento com os nossos vizinhos do lado), ainda se lembrou do aniversário da morte do Infante D. Henrique (infame D. Henrique, lhe chamava a esquerda da minha juventude ...), a 13 de Novembro, e da divisa pessoal deste, o seu célebre "talent de bien faire".
Notável, numa terra dominada toda ela por inequívoco "talent de rien faire"...

O fogo dos deuses

Não há dúvida: o espírito sopra onde quer, e quando quer. Mas no que respeita a blogues é notoriamente parcial.
Vejam o “Nova Frente” e descubram o que quero dizer.

Congresso Nacionalista

Recebemos da respectiva Comissão Organizadora, para divulgação, o texto seguinte.

“Vai realizar-se nos dias 15 e 16 de Novembro de 2003, em Lisboa, o II Congresso Nacionalista Português, com carácter não partidário.
O Congresso enquadra-se dentro daquilo que, na generalidade, se tem designado por Movimento Nacionalista – um movimento intelectual, cultural e político, de criação de correntes de opinião e de pensamento nacional – com os seguintes objectivos:
- Apurar e debater o que pensam os nacionalistas sobre o presente e o futuro da Nação.
- Definir os princípios capazes de recriar ideias de Portugal e de unir os portugueses.
- Despertar os espíritos para os eventuais perigos que correm a nossa soberania, liberdade e independência, perante ameaças como o centralismo europeu, entre outras.
É absolutamente assumido pelo Congresso, como espaço de debate que é, que cada participante – orador ou assistente – pensa pela sua cabeça e diz com liberdade e responsabilidade pessoal, razão pela qual a organização do Congresso não se compromete com comentários, opiniões e conteúdos emitidos nas comunicações e nos debates.
Local: Hotel Roma (Sala Veneza).
Mais informações podem ser obtidas em: www.nacionalismo-de-futuro.blogspot.com

Gottfried Benn

O poeta de “Morgue” não é certamente das minhas maiores simpatias; mas, enfim, marca uma época ... lá vai.


FRAGMENTOS

Fragmentos,
descargas de alma,
coagulações do século vinte -

cicatrizes - interrompido curso da aurora do mundo,
as religiões históricas de cinco séculos demolidas,
a ciência; rachas no Parténon,
Planck correu com a sua teoria dos quanta
ao encontro de Kepler e Kierkegaard confundiu tudo -

Mas noites houve que tinham as cores
do pai primigénio, repousadas, fluidas,
irrevogáveis no seu silêncio

de perpassante azul,
cores do introvertido,
e então uma se compunha,
as mãos nos joelhos pousadas,
como um camponês, singela
e ao quieto beber dada
por harmónicas dos servos -

e outras
dadas aos íntimos arquivos,
tensões dos arcos,
pressões de estilizados edifícios
ou demandas do amor.

Crises da expressão e ataques de erotismo:
eis o Homem de hoje,
o interior um vácuo,
o contínuo da personalidade
garantido pelas roupas
que duram dez anos se o tecido é bom.

O resto fragmentos,
semi-tons,
trechos de música nas casas vizinhas,
spirituals, negros ou
Ave-Marias.


Gottfried Benn (tradução de Jorge de Sena)

Quinta-feira, Novembro 13, 2003

Lucas Pires e Brasillach

Também em Portugal o fascínio de Brasillach exerceu intensa atracção sobre inúmeros jovens intelectuais que descobriam através dele “o fascismo imenso e rubro”, numa imagem vigorosa e pura, longe dos compromissos e das concessões a que o tempo, a política, e o poder, por vezes obrigam.
A figura do jovem poeta condenado à morte que, ouvindo a sentença, na sala de audiências em que alguém exclamava “c’est une honte!”, logo corrigia “c’est un honneur!”, inflamava os espíritos e os ideais.
O fuzilado de Fresnes foi aliás motivo de inspiração ao longo dos anos para sucessivos autores: assim de memória estou a lembrar-me de poemas, estudos ou simples artigos de Rodrigo Emílio, José Valle de Figueiredo, João Conde Veiga, Amândio César, António José de Brito e .... Francisco Lucas Pires.
Durante toda a segunda metade da década de sessenta um dos mais empenhados e entusiastas clercs da militância coimbrã, da geração que começa no “Combate” e culmina no “Itinerário”, na “Oficina de Teatro”, e na “Cidadela”, foi Francisco Lucas Pires.
O pequeno artigo que aqui transcrevo, fica como uma curiosidade datada. Lucas Pires, nascido em 1944 e falecido em 1998, teria 20 anos quando o escreveu.
Comme le temps passe …”


Brasillach cumpriu-se...

Brasillach veio declarar a violência ao seu mundo, e mataram-no.
Desde Cristo que é assim: os que vieram para escandalizar são mortos, mas depois regressam e já ninguém se pode libertar da sua escandalosa presença.
Aos carrascos deixou a sua morte - o remorso; a nós deixou-nos a sua vida - o exemplo.
Exemplo de juventude que se identifica pela insolência e pelo espírito, ele foi novo até na generosidade com que dispersou os seus talentos. Até nisso integral.
A juventude é uma coisa e a idade outra. Mas a Brasillach nem sequer foi permitido atingir a idade em que os homens se costumam tornar velhos. Melhor: assim nos ficou a memória de uma imagem de juventude inteira: da física e da espiritual.
Foi ainda dessa maneira total que ficou connosco. O seu testemunho não está destinado à guarda dum erudito conservador de museu - está destinado à fidelidade dos seus voluntários camaradas - .
Por isso melhor cumpriremos, colectivamente, a tarefa e o cinismo de o testemunhar. É a melhor homenagem que devemos à sua magnífica lição de camaradagem - a nossa própria camaradagem.
A sua permanente atitude de afronta contra a hipocrisia e o cinismo e a audácia com que se manifestou a coragem reúnem-nos de novo, para confirmar a unidade original do espírito na unidade da acção.
Brasillach cumpriu-se: «Daqui a 20 anos ouvirão outra vez falar de nós». Ele preveniu-os.



Francisco Lucas Pires (Diário da Manhã, Fevereiro de 1965)


A revista “Itinerário”

Em textos já publicados mais para trás, fiz várias referências e citações retirados da revista “Itinerário”, todas datadas de 1966. Vem a propósito então fornecer uma breve explicação do que foi a revista “Itinerário”.
Em minha opinião, que julgo bem acompanhada, a mais elevada e conseguida publicação dos sectores intelectuais conotados habitualmente com a direita situada fora do regime, ou extrema direita, desde a segunda grande guerra até à actualidade, foi o “Tempo Presente”, que dominou o período situado entre 1959 a 1961 e marcou todas as gerações posteriores. A altíssima qualidade da produção inserida nos seus vinte e sete números permanece bem patente para quem se disponha a investigar.
Depois disso, durante os anos sessenta, os mesmos sectores só passaram a ter expressão pública com o jornal “Agora”, naturalmente centrado muito mais no imediato, virado que era para o combate político – isto para além de alguma colaboração solta, no “Diário da Manhã” ou no “O Debate”. Mas isto passava-se em Lisboa.
Entretanto, em Coimbra, mantiveram-se sempre importantes e valiosos núcleos de uma direita (sobretudo académica, mas não só) doutrinada e interveniente, apoiada nalguns mestres como Miranda Barbosa e Braga da Cruz, e activada por novos protagonistas que iam chegando.
A primeira publicação de relevo, por voltas de 1961 e 1962, foi o jornal “Combate”, de que foi director o então muito jovem José Valle de Figueiredo.
O “Itinerário”, revista de actualidade cultural, foi a mais importante realização da direita coimbrã no período que vai de 1965 até ao aproximar do fim dos anos sessenta.
Aproximando-nos e entrando na década de setenta temos que considerar como tal a “Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra” e a “Cooperativa Livreira Cidadela”, centros polarizadores da actividade intelectual da direita, na cidade do Mondego, no fim dos anos sessenta e até ao 25 de Abril – sublinhando-se aqui a fronteira definida pela tempestade da crise académica de 1969, embora naturalmente vamos encontrar numa e noutra fase muitos nomes que marcam a continuidade, tal como aconteceria também se considerássemos os primeiros anos de sessenta, estes assinalados pelo referido “Combate”, dirigido por José Valle de Figueiredo.
O “Itinerário” tinha como proprietário Aníbal Pinto de Castro, e teve sempre como Director e Editor o escritor João Conde Veiga, já mencionado aqui a propósito da sua ligação a Vila do Conde.
O Conselho de Redacção era constituído por António Leite da Costa, Armando Luiz, Carlos Alberto de Faria, João Bigotte Chorão e José Pinto Mendes.
Os redactores eram Amiel Bragança Miranda, José Ávila Costa, J. Carlos Falcão Lucas e Manuel Cirilo da Rocha.
Colaboraram com a revista, pelo menos, Álvaro Bastos Araújo, Álvaro Ribeiro, Aníbal Pinto de Castro, António Ayres, António Carlos de Carvalho, António d’Oliveira Santos, António Leite da Costa, António Manuel Couto Viana, António Quadros, António de Sèves Alves Martins, Armando Luiz, Armor Pires Mota, Arnaldo Miranda Barbosa, Artur Lambert da Fonseca, Azinhal Abelho, Carlos Alberto de Faria, Fernando de Freitas Coroado, Fernando Guedes, Fernando Pacheco de Amorim, Francisco Lucas Pires, Gonçalo Sequeira Braga, Guilherme Braga da Cruz, Heitor Chichorro, Horácio Caio, João Bettencourt, João Bigotte Chorão, João Conde Veiga, José Manuel Pereira da Silva, José Pinto Mendes, José Valle de Figueiredo, Jorge Ramos, Juan Soutullo, Lobiano do Rego, Luís Amoroso Lopes, Luís Andrade de Pina, Manuel Gama, Maria de Lurdes Hortas Moreira, Mário António, Miguel Anacoreta Correia, Miguel Freitas da Costa, Navarro de Andrade, Nuno de Miranda, Nuno de Sampayo, Paulo Novais, Pedro Madeira, Pinharanda Gomes, Rodrigo Emílio, Ruy Galvão de Carvalho, Victor Cepeda Mangerão e Zarco Moniz Ferreira – fora os que esqueço.
Além dessa colaboração, a revista publicou ainda textos inéditos ou traduzidos de D. António dos Reis Rodrigues, Natércia Freire, Raul Leal, Gustave Thibon e Michel de Saint Pierre – também ressalvando as faltas.
Eis o que me ocorre – a partir dos arquivos da memória e de uns papéis velhos. As falhas não são intencionais.

Quarta-feira, Novembro 12, 2003

Brasil

Brasil onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.

Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.


Miguel Torga

Um quase inédito de António Sardinha

Em 1981, há já vinte e dois anos, o semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, publicou sob o título “Um inédito de António Sardinha” um soneto do autor datado de 1916.
Não está acompanhado de nenhuma explicação, pelo que nada sei sobre o modo como o poema ali chegou.
Teria sido algum familiar do poeta? Existiam sobrinhos de António Sardinha, mas não sei de relações de algum com a redacção do semanário.
Nessa altura ainda era viva a viúva de António Sardinha, Sra. D. Ana Júlia, vivendo em Elvas na sua Quinta do Bispo.
Mas até pela sua idade e pelo seu afastamento da turbulência lisboeta não creio possível que tenha sido ela a oferecer o soneto a alguém ligado ao jornal.
Fico portanto na ignorância. Quanto aos motivos da sua falta de publicação em vida do autor eles percebem-se bem, face ao teor dos versos.
O soneto, sentido e belíssimo, versa sobre o drama pessoal de Sardinha, o mais íntimo dos seus desgostos. Homem de família, sentia-se amputado do que mais queria, marcado para sempre pela morte do único filho, ainda de berço. A ausência ficou para sempre presente em todos os momentos da sua vida – que se iria velozmente, sem ter conhecido a velhice que o poema ternamente antevia.
Gostaria que os leitores apreciassem tanto como eu este soneto, que, a meu ver, enfileira entre os mais belos da língua portuguesa. E cabe sem favor em qualquer antologia de poemas de amor, como ainda recentemente vi nos escaparates.


Soneto do desalento

Deita a cabeça sobre os meus joelhos,
- descansa a tua dor na minha dor.
Como seremos nós em sendo velhos?
Como seremos nós então, amor?

Agora ainda os lábios são vermelhos.
Temos ainda mocidade e cor.
Mas que seremos nós, em sendo velhos,
Quando nas veias nos faltar calor?

Como é que iremos nós contando os dias,
sem ter um filho, com um berço em casa,
deserto, frio, como as coisas frias?

Oh, esse berço embala-o docemente!
E assim cantando à dor que nos abrasa
que bom será o envelhecer da gente!


António Sardinha (1916)

A tecnocracia

Literalmente entendido, tecnocracia significa “o governo dos técnicos”. Trata-se portanto de um conceito utilizado para designar uma das mais significativas alterações ocorridas nos últimos anos, em todos os aparelhos de estado. De facto, tem-se assistido, de há bastante tempo para cá e progressivamente, à chamada de especialistas para a engrenagem do Poder, por parte dos seus detentores.
Assim, tanto a Oeste como a Leste, processa-se uma cada vez maior predominância e influência dos “técnicos” na vida política. Sequela ou não, consequência ou não, do positivismo do século XIX, o que é facto é que estamos perante uma vaga avassaladora de cientismo, inimigo da verdadeira ciência, e, o que é mais grave, inimigo do humano.
É preciso considerar que o avanço científico do século XIX foi positivo, enquanto se tratou de dar combate ao obscurantismo de épocas recuadas. Mas, por outro lado, negativo, na medida em que convenceu muita gente e principalmente os marxistas de que a aplicação de métodos científicos à vida social traria a felicidade ao homem.
Qual foi o raciocínio? Tratando-se de ciência infalível e perfeita (era assim aceite) ela poderia eliminar a imperfeição do próprio homem. Formou-se assim um conceito deturpado do papel da ciência e da tecnologia na vida humana. Passou-se pois a reduzir a solução dos problemas sociais a uma espécie de engenharia social. Mas o que qualquer “especialista” parece não compreender até hoje é que o humano é qualitativo, e, portanto, os problemas humanos não se poderão resolver com meras fórmulas de quantidade.
Contradição, é a dita imperfeição humana (caso para perguntar em nome de quê é ela assim denominada ...) não passar de características dialécticas inerentes à própria natureza.
Quanto à “ciência”, não é ela isenta de características de classe. Nem ela nem os tecnocratas. Neste sentido, é evidente que não se pode falar deles como uma classe, mas sim como uma camada, camada essa que, por enquanto, vai só prosseguindo nos seus próprios objectivos de camada, consubstanciados nos objectivos da classe que os contrata : a “classe dirigente”. Mas a gravidade desta questão é que a ideologia tecnocrática tende a espalhar-se para além dos limites da sua camada originária, como um veneno mortal, insidiosamente ministrado. Trata-se disto, mas não apenas disto.
Hoje já se está a assistir ao nascimento de algo a que se pode chamar o “homo tecnocraticus”, o cibernantropo. Uma nova forma de homem, no pensar, no ser, no estar, num actuar que, de humano, provavelmente nada tem.
Por outro lado, que o poder recuperou e foi recuperado pela ideologia tecnocrática é também um factor extremamente evidente nas duas superpotências. Não governa mas proporciona a governação. É que cada vez mais os técnicos impõem os seus pontos de vista, reclamando-se de “objectividade científica”, utilizando-se desse conceito para iludir o problema palpável da sua posição, também objectiva, no sistema. Mas não fiquemos por aqui. Curiosamente, também costumam eles afirmar que não são burgueses, mas sim “homens modernos”.
Uma maneira fácil, defensiva e hábil, de se subtraírem à crítica social. Mas há ainda mais do que isso: estão tentando atingir a posição de uma casta intocável e detentora do saber absoluto. Por esse motivo pactuam com o Poder.
No entanto, em certos países, como os U.S.A., a sua ideologia propagou-se de tal modo que hoje o Poder já se encontra nas suas mãos. Reunindo todos os sinais e sintomas é lógico deduzir que, dentro de alguns anos, a maioria dos países do mundo serão governados pela tecnocracia, logo pelos tecnocratas.
E que será o governo da tecnocracia? A resposta tem sido constantemente dada por muitos ficcionistas atentos ao mundo em que vivem, só que a maior parte dos seus leitores, por via de um abaixamento da sua própria capacidade crítica e imaginação, julgam estar na presença de um delírio persecutório. O governo da tecnocracia será um novo totalitarismo uniformizante, onde se verificará uma significativa inversão. Em vez dos métodos brutais de repressão usual (pouco eficazes e pouco consentâneos com a mentalidade tecnocrática) imperará um sistema para alienação total dos homens, alienação essa conseguida por meio de psicodrogas e de novos e vários consumismos. Será o paradoxo do génio, a solução final proposta pela tecnocracia e posta em movimento por ela para obviar problemas da sociedade humana. A fórmula última pode ser já hoje resumida: o amor dos escravos à própria escravidão!
Mas não paremos aqui. Devemos ir mais longe e esse mais longe é a “ditadura da cibernética”. Não é o que se pode chamar uma hipótese porque essa ditadura é decorrente das características do “tecnocraticus erectus”, o cibernantropo.
Esse ser limpo, asséptico, certeiro, equilibrado como o bom cientifista, detestará, até com horror (claro que já não sentirá horror) quaisquer sinais de desequilíbrio individual ou social. Admirador profundo da perfeição auto-limitante da máquina, procurará identificar-se com ela na sua auto-regulação automática. Lógicamente, ele vai abominar a emoção, a espontaneidade, e todos os factores que colidam com o princípio sagrado da economia. O princípio da economia é o princípio da execução de objectivos sem as mínimas divagações. Sem desperdícios! É o princípio que preside ao anti-espírito da máquina. A máquina é perfeita, no âmbito das suas limitações: as limitações de uma objectividade mecânica. Mecanizar o homem é sem dúvida destruir a sua subjectividade e isto é destruir o próprio homem. Caminhará o mundo para uma ditadura cibernética onde os homens-máquinas e as máquinas suprimirão os homens-homens? Não é tão remota a hipótese como parece. Ela será um facto se se verificar a predominância ideológica de camadas que advoguem a necessidade de o homem se adaptar a uma ciência e a uma técnica. Eis porque a utilização da ciência e da técnica para o bem estar dos homens e à sua medida, terá de passar pela destruição do mito tecnocrático tanto a Leste como a Oeste.


(Nota: o texto supra foi escrito e publicado em 1977, quando ainda não se discutia o fim da história, nem se via iminente a queda do império soviético.)

Terça-feira, Novembro 11, 2003

Safa!

Tenho sempre a curiosidade de ir espreitar de onde vêm os visitantes que aqui chegam trazidos pelas pesquisas na net.
Até agora o mais original foi uma visita que resultou de uma pesquisa por "burro lusitano+adopção".
Ignoro se o visitante ficou satisfeito, mas suspeito que não encontrou o que pretendia (digo eu ...).
Agora encontro outra visita determinada por uma pesquisa por "João de Deus Pinheiro".
Esta é demais! Pode o incógnito visitante ir bater a outra porta, que aqui não há disso.

A rainha de Espanha, constitucionalissimamente falando

Traduzimos para o nosso blogue uma broma (séria!) do ilustre Professor Rafael Gambra, que, embora não recente, ganhou especial actualidade, atentos os acontecimentos.

Aqui tratamos o tema da futura Rainha de Espanha só em hipótese ou possibilidade – futuríveis, como dizem os filósofos -, mas sempre dentro do marco constitucional vigente.
Isto assente, pensamos que a futura Rainha de Espanha pode ser um negro homossexual, companheiro sentimental ou parceiro de facto do Rei, de religião muçulmana ou sem religião.
Porque não? Pensa-se espontaneamente que deve ser uma mulher. Mas isto seria com mentalidade preconstitucional e antidemocrática. A Constituição baseia-se na igualdade e na não discriminação. Se as mulheres podem ser militares ou guardas civis, porquê um homem não poderá ser rainha ou consorte ou parceiro do rei? Esta discriminação sexual está politicamente abolida.
E porque há-de ser heterossexual? Isso dependerá da livre orientação sexual do monarca. Outra discriminação do passado.
E porquê de raça branca? Discriminar raças é a mais odiosa discriminação para uma mente democrática. Racismo puro.
E porquê católica? Esta discriminação seria hoje odiosa até para o Vaticano progressista.
Assim, pois, uma Rainha varão, negro, homossexual e muçulmano seria uma opção politicamente correcta. E objectar algo, fascismo puro.


Os estudantes e a Universidade

"A imagem de correntes a fechar simbolicamente a Universidade não está de acordo com a justeza de reivindicações ...
Talvez fosse mais ousado e criador decidirem todos frequentar as aulas, as bibliotecas; exigirem acesso aos computadores, aos laboratórios e aos projectos de demonstração experimental; solicitarem novas metodologias de aprendizagem, exigirem que os melhores professores ensinassem nos primeiros anos, que o ensino tutorial fosse obrigatório em disciplinas com elevadas taxas de repovações ... Seria exemplar exigirem que as universidades funcionassem (....)

(Veiga Simão, no semanário "O Diabo" de hoje, 11 de Novembro)

Combatentes

“Tinham-nos dito, no momento em que deixámos a terra natal, que partíamos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença, tantos benefícios concedidos às populações que têm necessidade do nosso auxílio e da nossa civilização.
“Pudemos verificar que tudo isso era verdade, e, visto que era verdade, não hesitámos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar a nossa juventude, as nossas esperanças. Não lamentamos nada, mas enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem-me que em Roma se sucedem as intrigas e as conspirações, se desenvolve a traição, e que muitos, hesitantes, perturbados, cedem com facilidade às piores tentações do abandono e aviltam a nossa acção.
“Não posso acreditar que tudo isso seja verdade e, no entanto, guerras recentes mostraram até que ponto podia ser pernicioso um tal estado de espírito e ao que ele podia levar.
“Suplico-te, tranquiliza-me o mais breve possível e diz-me que os nossos concidadãos nos compreendem, nos defendem, nos protegem como nós próprios protegemos a grandeza do Império.
“Se tudo fosse diferente, se tivéssemos de deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre as pistas do deserto, então, cuidado com a cólera das Legiões!”


Marcus Flavinius (Centurião da 2ª Coorte da Legião Augusta, a seu primo Tertullus, em Roma)

Segunda-feira, Novembro 10, 2003

Crónicas satânicas de Rodrigo Emílio

Por 1982 publicou o Rodrigo Emílio no semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, algumas “crónicas satânicas”, colocadas expressamente sob a égide evocadora de Céline, “bagatelas para um massacre”.
Transcrevo uma das crónicas, ora amarga ora bem humorada, em que não escapa às alfinetadas o então novo “Futuro Presente”, fundado no ano anterior por Jaime Nogueira Pinto, António Marques Bessa, António Maria Pinheiro Torres, Nuno Rogeiro, Vítor Luís, Duval Bettencourt Gomes e Manuel Avides Moreira.
Era também a época em que a aragem que vinha da Polónia começava a sentir-se em todo o Ocidente.


Perguntas e (más) respostas

P. - Para variar, não quererás responder hoje ao questionário de Proust?
R. - Bem sabes que nunca gostei de me “proustituir”.
P. - Sendo assim, não insisto. Já vejo que pouco mudaste.
R. - Enganas-te, meu velho. Dantes, era eu um português “de longo curso” ...
P. - Então, e agora?
R. - Agora, sou um português “de via reduzida”.
P. - Morador?
R. - Na Avenida das Descobertas, 108, - 5º Império.
P. - Profissão?
R. - Candidato a “deportado”.
P. - Por onde?
R. - Pelo Jardim Etológico de Lisboa.
P. - Estado: interessante?
R. - Não. Deplorável.
P. - A brincar, a brincar, quantos anos tens tu?
R. - Tenho trinta de liberdade e sete de democracia. Logo... deita-lhe as contas.
P. - A teu ver, que resta hoje do “peito ilustre lusitano”?
R. - Restam umas quantas “peitaças” de comício ... e pouco mais.
P. - A tua ocupação favorita?
R. - Perder tempo. Adoro perder tempo.
P. - Nesse caso, porque não te transferes para o futuro presente?
R. - Mal por mal, prefiro ficar-me pelo “passé simple”.
P. - Pois acho que fazes pessimamente. O futuro presente, tanto quanto sei, é hoje uma “coutada” muito concorrida.
R. - Foi sempre e sempre há-de ser. Nesta e em todas as repúblicas do mundo ...
P. - Se não é pedir-te muito, pretendia, já agora, que arriscasses um diagnóstico sobre os males que afligem a 2ª República.
R. - A 2ª República debate-se com os problema da 3ª idade. E se a idade não perdoa, a 3ª muito menos ... Bem o sabes por ti. Que mais queres que eu te diga?! ....
P. - Olha lá, menino: que cheiro esquisitíssimo vem a ser este?!....
R. - Tens razão. Cheira a “água de Polónia” que tresanda!... Mas é bom sinal. Não te dê isso cuidado.
P. - Que tens sido na vida?
R - Um paciente coleccionador de facadinhas nas costas.
P. - Lá inimigos, portanto, atrais tu ...
R. - Em quantidade que davam para formar, à vontade, uns oito pelotões de fuzilamento!
P. - És nacionalista?
R. - O mais possível.
P. - E exerces?
R. - Faço o que posso.
P. - Flor que mais prezas?
R. - A flor-de-lis.
P. - Flores que te despertam maior antipatia?
R. - As flores de retórica.
P. - Qual é a reforma que mais admiras?
R. - A Contra-Reforma.
P. - Que gostava tu de ser neste mundo?
R. - Agente secreto de Deus.
P. - Por que razão?
R. - Cá por coisas ...
P. - Cor que sobremodo abomines?
R. - A cor de convicção quando foge.
P. - .......................!
R. - E por hoje, meu velho, encerrei para obras. (Para obras literárias, bem entendido....) Assim sendo põe-te a mexer. Desampara a loja. Vai “chagar” outro!


Rodrigo Emílio

Felizes são

Felizes são os jovens que chegaram
Depois de mim, quando eu ainda dormia
Sob os escombros da minha alegria.
Felizes são os jovens que chegaram.

Erguem no ar grinaldas matinais.
Escuto as vozes com eles chegadas
Mais claras do que as finas madrugadas.
Erguem no ar grinaldas matinais.

Não creias, derrubado caminhante,
Na Terra vã do teu contentamento
Sem a celebração do pensamento.
Não creias, derrubado caminhante.

O mistério da vida renovada
Abre as portas simétricas da morte.
Onde o mais destruído? Onde o mais forte?
O mistério da vida renovada!

Felizes são os jovens que chegaram
Depois de mim, quando eu ainda dormia
Sob os escombros da minha alegria.
Felizes são os jovens que chegaram.


Fernando de Paços
(in “A Rua”, 1981)

Domingo, Novembro 09, 2003

Globalização

Perante a mundialização, a única resistência eficaz é a defesa das identidades, nacionais, regionais, culturais, religiosas ou outras.
Face à massificação, opor a diversidade e a identidade.

Dois romancistas

Brasillach tece em romance as coisas que amou, Nimier vai contra as coisas que não pode amar.”
(João Conde Veiga, in “Dos Hussardos - Nota sobre Roger Nimier e a sua Histoire d’un amour”, "Itinerário", n.º 7)

O “Contrato Social”

Uma sociedade é um grupo de seres diferentes organizados para fazer frente a necessidades comuns.
Em qualquer espécie sexualmente reproduzida a igualdade dos indivíduos constitui uma impossibilidade natural. Portanto a desigualdade deve ser considerada como a primeira lei dos agrupamentos sociais, tanto na sociedade humana como em qualquer outra. A igualdade de oportunidades deve ser considerada entre as espécies vertebradas como a segunda lei. As sociedades de insectos podem incluir geneticamente determinadas castas, mas isso não pode ocorrer entre as espécies vertebradas. Cada ser vertebrado, exceptuando somente algumas espécies raras, goza de igualdade de oportunidades para desenvolver as suas potencialidades.
Enquanto que uma sociedade de seres iguais – quer se trate de babuínos, gralhas, leões ou homens – representa uma impossibilidade natural, a sociedade justa constitui uma meta realizável. Dado que o animal, ao contrário do ser humano, raras vezes se vê tentado a perseguir o impossível, em poucas ocasiões se nega ao realizável na sua sociedade.
A sociedade justa, segundo a vejo, é aquela em que existe ordem suficiente para a protecção dos seus membros, por diversos que sejam os seus dotes, e desordem suficiente para que cada indivíduo tenha oportunidade de desenvolver o seu potencial genético, qualquer que ele seja. Este equilíbrio entre ordem e desordem, cujo rigor varia de acordo com as condições ambientais, é o que eu considero como o contrato social, equilíbrio que, no meu entender, por se tratar de um imperativo biológico, ficará bem patente à medida que investiguemos entre as espécies.
A violação do imperativo biológico trouxe o fracasso do homem social. Embora sejamos vertebrados, temos ignorado, desde os primeiros tempos da civilização, a lei da igualdade de oportunidades. Embora sejamos seres que se reproduzem sexualmente, pretendemos hoje que não existe a lei da desigualdade, e, de ilustrados que estamos, enquanto perseguimos o impossível, impossibilitamos o realizável.
Triste será a manhã em que a diversidade dos homens se tenha desvanecido como a última estrela com o brilho da aurora: se temos de despertar numa manhã como esta, então peço a Deus que leve a minha vida durante o sono.
E apesar de tudo, sabendo-o ou não, esta é a manhã porque nos esforçamos: você e eu, capitalistas, socialistas, amarelos, brancos, morenos. É a manhã pela qual os professores apelam em conjunto com os polícias, aquela que tem sido exaltada pelas filosofias dos últimos dois séculos; a manhã da igualdade, do reflexo condicionado e colectivamente induzido, a manhã da realidade igualitária, de um mundo feliz, da ordem sem discussão, das sombras sem distinção, da resposta uniforme ao estímulo uniforme, a manhã da tintilante campainha da ovelha dirigindo-se à pastagem. Prefiro não despertar nela.
É a manhã que exaltamos e pela qual rogamos nas nossas organizações industriais, nas nossas granjas colectivas, nos nossos concílios eclesiásticos, nos nossos procedimentos governamentais, nas nossas relações entre estados, nas nossas correctas súplicas de que todos sejamos iguais algum dia. É a manhã contra a qual a juventude, sabendo-o ou não, se levanta em protesto. E é a manhã que, louvados sejam os céus da nossa origem, não amanhecerá nunca. (...)
Da mesma forma que a vida é maior que o homem, assim também é mais sábia do que nós. Da mesma maneira que a evolução nos tornou possíveis, assim também a evolução estabelecerá um juízo final. Da mesma forma que a selecção natural nos qualificou e acolheu, assim a selecção natural nos desqualificaria e rejeitaria se permitíssemos que nos vencesse essa tentação do impossível, do “hubris”. Mas essa desolada manhã cinzenta não a veremos nunca, porque umas leis mais fortes que você e eu, com imparcial e imperecível harmonia, ante um tribunal nocturno e no decurso das trevas do homem, nos condenarão à extinção como espécie. Ou, o que é mais provável, nos obrigarão a guardar a observância das leis da carne.


Robert Ardrey


Sábado, Novembro 08, 2003

"Não pagamos! Não pagamos! Não pagamos!"

Contaram-me há muitos anos uma pequena história dos anos sessenta, em que o protagonista era um cineasta italiano, não sei se Fellini, numa ocasião em que passava na rua e calhou ver-se no meio de uma daquelas batalhas rituais entre um grupo de estudantes universitários, militantes de causas de extrema-esquerda, e a polícia chamada para dominar o tumulto. No meio da gritaria ouviam-se slogans que falavam em "filhos do povo".
O tal cineasta passante fazia ponto de interrogação e questionava: "filhos do povo? Mas onde estão os filhos do povo? São os estudantes ou os polícias?"
A estorinha lembrou-me muita vez, sobretudo no tempo em que frequentava a universidade; como era chique aquela malta! No meu tempo, conheci na Faculdade de Letras de Lisboa, como activissimos líderes trotskistas, pelo menos um conde e um marquês ...
Veio-me isto agora de novo à lembrança devido ao cíclico recrudescer das manifestações dos sofredores estudantes universitários portugueses.
Como vibram aquelas almas com as injustiças deste mundo, em viva solidariedade com os deserdados da fortuna!
Como são elevados e generosos os sonhos que os alimentam!
Nem me atrevo a comentar, tal a delicadeza dos sentimentos que estão à vista.

Enfim: a propósito do triste espectáculo da contestação protocolar, reverenciada por todo o mundilho venerador da falsa irreverência, convencional e pré-programada, surripiei uma síntese brilhante ao vizinho Isidoro de Machede, que pode não ir comigo à missa mas é bicho da terra, autêntico e verdadeiro, com a escola da vida, e não franguinho de aviário criado a farinhas, hamburguer e cola.


Mote principal: “Não pagamos”.
É curto, muito curto. Esperava que dissessem que esta universidade não serve porque está desligada da realidade. Esperava que proclamassem que esta universidade não serve porque vive olimpicamente fechada sobre si mesma, ignorando, regra geral, o local e a região onde está instalada. Esperava que se insurgissem contra o facto da maioria dos cursos existentes estarem descontextualizados do mercado de trabalho. Esperava que se rebelassem contra esta universidade por continuar a produzir funcionários “doutores” cinzentos para um país cinzento. Esperava que propusessem uma discussão séria e alargada sobre a universidade que faz falta na construção de um país a cores.
Nada disto, antes pelo contrário. Continuam apenas bem trajadinhos e defensores de práticas iniciáticas do tempo da maria cachucha, verdadeiramente ofensivas da dignidade a que cada um tem direito. Quanto a reclamações, ficamos pelo “não pagamos” aconchegado de mais uma mão mal cheia de ideias atamancadas, manifestas sob a forma de uma fotocópia truncada de um tempo em que ainda não havia fotocópias.
Onde deveria haver pujança, rebeldia e ideias inovadoras, há apenas um reflexo de uma anquilosada juventude desentendida com um país igualmente desentendido consigo próprio. Vamos longe!



Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 9 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D: Afonso III)

Em Monforte: às 18. 30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

João Conde Veiga

Em tempos, julgava que Vila do Conde se chamava assim por ser a terra do João Conde Veiga (conhecido vilacondense ... nascido em Soure); depois cresci, e aprendi que não, também era a terra de José Régio, e outra gente boa – e parece que se chama assim desde há muitos séculos.
Entretanto, passaram anos, décadas mesmo. João Conde Veiga continua a batalhar por Vila do Conde.
Eu por mim fazia-o Presidente da Câmara. O que a cidade ganhava, com um poeta, e guitarradas de Coimbra!
Mas deixemos os sonhos, e vamos às memórias.
Em Outubro de 1966 completavam-se dez anos sobre o levantamento de Budapeste contra o regime comunista. Assinalando o aniversário da revolta, o “Itinerário”, revista de actualidade cultural, então publicada em Coimbra, publicou um vibrante editorial do seu director, João Conde Veiga, sobre os acontecimentos trágicos e heróicos de dez anos antes.
E para ilustrar a homenagem acrescentou algumas belas fotos desses acontecimentos, e um poema alusivo, do próprio director.
O aniversário das chacinas que sobrevieram à revolta, nesses, já longínquos, últimos dias de Outubro e primeiros dias de Novembro do ano de 1956, passou agora, sem uma palavra que o lembrasse nos grandes meios de comunicação de massas.
Hoje a Hungria já não está ocupada pelos blindados soviéticos, nem amordaçada pelo regime comunista. O sangue dos mártires de 1956 frutificou em novas auroras de liberdade.
Mas tantos mortos, tantos !!!
Fiquemos antes pelos versos.


Já o vento se levanta
na bruma d’alvorecer
o poeta espera e canta
milagres d’acontecer.
Mil rosas caem das mãos
esparsas pelos caminhos
apanham-nas os irmãos
que nas vão dar aos vizinhos.
Aberta bruma desperta
os ritmos do coração
jorra luz da noite aberta
colhe-se o gládio na mão.

Quem desvendou o antigo
solo do meu país?!
Quem profanou, inimigo,
os nossos numes civis?!
Quem colheu a nossa espiga
no campo fértil do rio?!
Quem subjugou à quadriga
cavalos do nosso brio?!

É vingança em nós clamada
A vingança que não cala,
Vem desperta a madrugada:
É só colher, ir buscá-la!



João Conde Veiga


Sexta-feira, Novembro 07, 2003

Libertação

Quando amanhã os banqueiros
Fugirem dos palácios roubados
E em vez deles homens verdadeiros
Forem monges, poetas e soldados

Então, na mão direita de Deus
Rolará a Terra.
E será perfeita.


Pedro Homem de Mello

Humor Negro

Notícia da TSF:
"Eduardo dos Santos vai combater corrupção.
O presidente do MPLA, garantiu, esta sexta-feira, que vai combater a corrupção e o comportamento negativo de alguns dirigentes. José Eduardo dos Santos falava no início da VIII reunião do Comité Central do partido, que prepara o Congresso
".

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Atenção rapaziada: aproxima-se o 1º de Dezembro!
Parece que já está em marcha a organização da tradicional ceia.
Preparem-se, e visitem o site dos Antigos Alunos, onde vem tudo explicadinho.

Ezra Pound

Os versos que seguem foram publicados em Agosto de 1980 no boletim “Intervenção Nacionalista”, do movimento que teve o mesmo nome.
O tradutor não vem identificado, mas creio não haver motivo para dúvidas: foi certamente o Goulart Nogueira.
Ei-los.


Grande Deus, se estamos condenados a ser sonhos, apenas,
deixa que os nossos sonhos façam tremer o mundo
e que, sonhando, sejamos donos do mundo.
Deixa que sejamos sombras que façam tremer o mundo
e que do mundo nos apoderemos, apesar de nos sabermos sombras.

Deus Todo-Poderoso, se os homens são como pálidos e enfermos espectros
que hão-de viver nestas névoas e doces penumbras
e tremem com a ameaça das horas sombrias
ou delas fogem com o passo rápido;
se esses teus filhos, ó grande Deus, criaram finezas tão efémeras,
peço-te que pegues no caos e que engendres
alguma nova linhagem titânica que amontoe as colinas
e anime, outra vez, a terra.


Ezra Pound

Quinta-feira, Novembro 06, 2003

João Cidade

João Cidade foi o nome dado no baptismo ao mais universal dos santos alentejanos.
Da sua terra, Montemor-o-Novo, surge agora um blogue com o seu nome: João Cidade.
E logo atrás dele outro vem, lançando Palavras de Fogo.
Aproveito esta nota de boas vindas para lembrar o santo que tão arredio anda das nossas lembranças.
Dos lisboetas, sobretudo, que são gente superficial e apressada.
Tropeçam todos os dias no Chiado, e não sabem quem era o irrequieto alentejano que ali ficou perpetuado.
E passam todos os dias pela sua paróquia de São João de Deus, e pela bela igreja da Praça de Londres, sem conhecerem que se trata do nosso João Cidade.
Pois assim é: em tempos o Cardeal Cerejeira criou novas paróquias em Lisboa, e a uma delas foi dada a honra de homeanagear o santo de Montemor. Em sua honra também se ergueu o templo onde a paróquia veio a ficar instalada.
Por ali paroquiou várias décadas o inesquecível Padre Teodoro - e também a este fazem por o esquecer aqueles que mais o deviam lembrar.
Mas não vou adiante, para que não digam que nada de positivo encontro para realçar.
Tenho: aqui há alguns anos o António Manuel Couto Viana publicou uma delicada homenagem ao santo. A antologia "S. João de Deus na Poesia Portuguesa". Está editado na "Nova Arrancada".

O PERIGO ESPANHOL E OLIVENÇA

Não pretende este trabalho analisar profundamente o problema do “Perigo Espanhol”, mas tão só reflectir sobre um caso concreto, muitas vezes relacionado com a problemática de se tentar “adivinhar” qual poderia ser o futuro de Portugal se, por qualquer motivo, ficasse sob o domínio de Madrid.
Antes, talvez seja de recordar as palavras de Jordi Pujol, dirigente da Catalunha, ao “Expresso” de 12 de Outubro de 2002: «...imagine que em 1640 a sublevação Portuguesa tinha sido derrotada, e que desde então até hoje Portugal estivesse incorporado (...) em Espanha; Portugal teria sofrido a supressão das Instituições Políticas, do poder Administrativo Português, a perseguição da sua cultura e a proibição do ensino do Português nas escolas, na administração, na comunicação social e, inclusivamente, durante muitas e muitas décadas, a proibição de que se editassem livros em Português ou até mesmo que se desse catequese em português. Imaginem (...) que hoje a Praça dos Restauradores se chamasse Praça Felipe III e a Alameda D. Afonso Henriques se chamasse Alameda Felipe I.»
Será interessante discutir se Jordi Pujol estará ou não a exagerar. Não nos é possível saber o que sucederia exactamente se Portugal tivesse perdido no conflito de 1640-1668. Ao fim ao cabo, só há um caso concreto, e é esse que aqui se vai analisar, de um território de cultura portuguesa unido com Madrid. Trata-se da região de Olivença.
Não é possível saber se, unido a Espanha, Portugal seria transformado numa Gigantesca Olivença. Talvez a dimensão de território e o peso da população não tivessem permitido tal. Todavia, mesmo sem se chegar à situação do “Território das Oliveiras”, causa alguma apreensão pensar simplesmente que se poderia chegar a uma situação intermédia, de tal forma negativa em certos aspectos ela se apresenta hoje em Olivença. É que... intermédia seria ainda bastante mau!
Já se sabe. Olivença foi conquistada por Espanha em 1801. Segundo a interpretação diplomática portuguesa, o tratado que se seguiu foi anulado em 1807, e tal anulação foi reconhecida pela Europa em Viena de Áustria em 1815, em documento assinado por Madrid em 1817.
O problema começa aqui. Mais de 80% dos Oliventinos desconhece tais factos, e acreditam que Olivença foi trocada por Campo Maior, ou que veio para Espanha no dote de uma Rainha, ou qualquer outra historieta sem fundamento histórico.
Mas há mais. Em nenhuma escola de Olivença se ensina a verdadeira História da região, mas tão só a História de Espanha. E isto desde há duzentos anos. O Oliventino cresce a aprender (e a lutar por) uma história que não é sua.
É verdade que se ensina português em Olivença actualmente. Mas só no Ensino Primário. No Secundário, tal não foi autorizado. E, claro, aprende-se o Português como algo de folclórico, algo de exterior à região. O velho português alentejano, falado pelos idosos, é desvalorizado. Não há continuidade geracional.
A nível de consciência colectiva, o Oliventino tem poucas referências. Os seus apelidos e a toponímia, sempre que possível, foram adulterados, traduzidos, mudados. E não vislumbram esforços no sentido de reverter tal situação.
Os apelidos “sobreviventes” são explicados das formas mais engenhosas possíveis. Por exemplo, a mais comum é dizer que se tem um antepassado vindo de Portugal. Após falar com vinte oliventinos, mais de metade afirma ser essa a origem do seu nome. Donde se conclui, com espanto, que das duas, uma: ou os locais não têm consciência de que os nomes eram quase todos portugueses na sua terra durante séculos e séculos, ou que vagas de imigrantes portugueses escolheram misteriosamente a região de Olivença para se instalarem... opção obviamente ilógica.
Como se imagina, é desconcertante ouvir dizer que nomes como “Vidigal” ou “Valério” são espanhóis... principalmente neste último caso, pois um dos heróis da resistência Lusófona em Olivença chamava-se Vicente Vieira Valério, que, por não querer escrever em castelhano, ficou sem recursos para sobreviver. Contam-se pelos dedos das mãos os oliventinos que conhecem este nome.
É chocante ouvir um professor de História de Olivença, de apelido Silva, dizer que os Portugueses não devem reclamar o território, tal como os espanhóis não reclamam Campo Maior...
Muitos outros exemplos podiam ser dados, como o de se argumentar que o nível de vida é superior em Espanha (nunca se diz que já foi superior em Portugal; nessa época a Ditadura Franquista reprimia todo o sentimento português; e, claro, esquece-se que o nível de vida de Gibraltar é superior ao de Espanha), o de se dizer que Olivença só cresceu sob domínio espanhol (recorde-se que, em 1801, Olivença era comparável a Elvas e Badajoz, e que no século XIX decresceu... mesmo porque muita população foi obrigada a refugiar-se em Elvas, Alandroal, Vila Viçosa, etc. ), ou o de se dizer que entre 1297 (Tratado de Alcanizes ) e 1801 Olivença foi território espanhol ocupado por Portugal!!!
Apenas os Monumentos dão aos Oliventinos alguma noção de que algo não-espanhol existiu na localidade... e mesmo assim com algumas confusões. O casario, tradicionalmente igual ao meridional português, vai sendo demolido ou abandonado. As chaminés alentejanas vão desaparecendo... bem como as janelas estreitas e os “poiais”.
As autoridades locais, mais “abertas” em democracia que noutros tempos, não conseguem resolver tais contradições. Pelo menos os monumentos estão muito bem cuidados e aproveitados, e nesse campo só se pode aplaudir. Mas... são corpos sem “alma”!
Todavia, mantêm-se vivos inúmeros preconceitos antiportugueses, baseados em concepções “culturais” absurdas, falseadas, mesmo xenófobas. Que não nasceram do acaso. Houve uma “Desportugalização” intencional e legislada (não esquecendo a proibição da língua desde o século XIX), variando de intensidade mas sempre presente, e nunca esquecendo a repressão franquista, época em que tal política foi particularmente intensa.
È espantoso o que se pode encontrar em Olivença, se se aprofundar a análise Histórica aos aspectos sociais, culturais, económicos, ou outros. É toda uma destruição de uma cultura, uma negação da história, uma perversão das consciências.
Dir-se-á que Olivença é uma região de 454 quilómetros quadrados, e um caso pontual. Como alguém já disse, uma “ Borbulha” nas relações Luso-Espanholas.
E, contudo, uma “ borbulha “ com duzentos anos, tratada com tanto desrespeito na sua substância, submetida a tantos atropelos, não permite encarar com optimismo uma eventual União de Portugal e Espanha.
Talvez Madrid ainda não o tenha compreendido, mas a sua persistência em não reconhecer dúvidas (diplomáticas) sobre a posse do território, em “calar” qualquer queixa portuguesa, alimenta, e muito, aquilo que alguns consideram um mito: o “Perigo Espanhol”.
Mas diga-se também, em abono da verdade, e quase a concluir, que o “Perigo Espanhol”, a existir, deverá ser também fruto do pessimismo português. O hábito de, por tudo e por nada, se descrer das capacidades portuguesas, de se considerar que o País “não vale a pena”, e que os portugueses são pouco inteligentes ou incapazes, não ajuda em nada à afirmação, saudável e não chauvinista, de Portugal.
Veja-se o caso de Olivença: há duzentos anos que se chora a sua ocupação, mas, para além do não-reconhecimento da presença espanhola, pouco se tem feito. Salazar, que tão nacionalista surge no pensamento de tantos, sabia o que o Franquismo estava a fazer na cidade: descaracterização total! E todavia, nunca interpelou Franco a tal propósito.
Políticos e élites (escritores, jornalistas, etc.) continuam a evitar falar de Olivença. Como se receassem um anátema. Continuam sempre a considerar que não é o momento oportuno. E há duzentos anos que pouco se faz. Porque é politicamente incorrecto. Porque é de direita. Porque é de esquerda. Porque as relações com Espanha são desfavoráveis. Porque as relações com Espanha são óptimas. Porque não devemos perseguir ilusões.
“Não. As ilusões nunca são perdidas” - dizia Bento de Jesus Caraça – “Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos de história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta sem enxergar no horizonte nada a que se entreguem”.
Talvez o “Perigo Espanhol” esteja, afinal, nas limitações de cada um dos portugueses.


Estremoz, 21 de Outubro de 2002

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Quarta-feira, Novembro 05, 2003

Vivaz

E ainda uma palavrinha de agradecimento ao Mário Simões, mestre e operário do jornalismo alentejano, que do seu Vivaz nos dirige elogios imerecidos.
Vocês não vêem, mas acho que estou a corar.
Obrigado!

Mais Um

Acrescento também ligação para o Portalegreblog, que acabo de descobrir.
Há sempre mais coisas no céu e na terra, e na blogosfera, do que sonha a nossa vã filosofia.

Dias Bravo

Um blogue é um espelho da vida. Num momento rimos, e logo de súbito uma notí­cia nos fere e cala.
Embora já esperada, a morte de Dias Bravo, hoje de manhã, não pode deixar de doer a quem o conhecia.
Nestes tempos em que soa tão estranha qualquer concepção de serviço, Dias Bravo era, integralmente, um homem de serviço.
Serviço do outro - trabalhando incansável na causa da justiça, a quem dedicou, no seu estilo humilde e simples, mais de quarenta anos de vida.
Serviço do outro - também na sua dedicação à  Fé em que acreditava, e que fez dele o vulto mais universalmente aceite e respeitado das igrejas evangélicas portuguesas.
José António da Rosa Dias Bravo, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, alentejano, nascido em 1935, em Juromenha, Alandroal, falecido esta manhã em Lisboa, era sem favor ou dúvidas uma das personalidades mais marcantes da Justiça portuguesa nestas últimas décadas.
Trabalhou até ao fim, ignorando a "doença prolongada", ciente que um homem vale pela regra que serve.
Já estará junto de Deus, ele que O procurou toda a vida.

Beirões

Manuel Azinhal é de sua natureza um manifesto vivo contra a xenofobia; alentejano fundamentalista, vibra todavia, em família, quando está entre transmontanos, como já aqui ficou consignado a propósito dos barbos da Foz do Sabor e de um inolvidável bulho em Peredo (com vénia ao Aviz...)
E o mesmo acontece com os beirões; sempre lhe calharam ao jeito. Gosta de beirões - autênticos, activos, rijos e teimosos - mesmo que tenham nascido no Congo Belga ou em Cabinda.
Certo é que da Beira também era o João Brandão, conhecido combatente liberal do século XIX, mas mesmo no Alentejo nem todos nascem perfeitos.

Boa Onda

Aditei aos links o "Portalegre a Crescer".
Assim passo a passo se vão firmando na blogosfera as fronteiras do reino da açorda, realidade que define os limites naturais do Alentejo.
Este escrevinhador, Manuel Azinhal de sua graça, também por andanças do destino habitou em tempos idos em Portalegre, a olhar para a escadaria da Senhora da Penha.
O Jardim do Tarro era então o seu habitat natural, o Cadislegre o lugar da bica e do jornal.
Bicho curioso e de feitio explorador, conheceu então Castelo de Vide, e Marvão, e a Portagem, e a Serra de São Mamede, até a estrada que nos leva e traz a Valência de Alcântara.
Aquela entrada em Portugal, vindo de Cáceres, pelo portal natural onde de súbito se descobre imponente o cerro granítico de Marvão, é a mais bela de toda a terra lusitana.
O Norte Alentejano está subrepresentado na blogosfera: às armas, gente!

Eleições à porta

Para crítica social e lições de sociologia política e eleitoral temos aqui à mão o Conde de Monsaraz, que já há mais de cem anos os retratava a corpo inteiro.
Da sua “Musa Alentejana”, leia-se esta deliciosa caricatura do notável local dos finais de oitocentos.


O Senhor Morgado

O senhor morgado
Vai no seu murzelo,
Todo empertigado.
É um gosto vê-lo,
Próspero, anafado,
Véstia alentejana,
Calça de riscado:
Homem duma cana!
Vai, todo se ufana –
De ir tão bem montado
E ela na janela ...
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai nas próprias pernas,
Todo bandeado;
Tem palavras ternas
Para cada lado.
Quando passa, sente
Que é temido e amado;
Fala a toda a gente,
Topa um influente:
“Sou um seu criado”...
Eleições à porta
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai na sege rica
Todo repimpado:
Ai que bem lhe fica
O chapéu armado,
E a comenda ao peito
E o espadim ao lado!
Que homem tão perfeito!
Deputado eleito,
Muito bem votado,
Vai para o Te Deum,
Seja Deus louvado!


Conde de Monsaraz

Terça-feira, Novembro 04, 2003

Para Vila do Conde

Agradeço ao Vilacondense a presteza da resposta; e deixo aqui prometidas mais umas evocações que ligam a essas bandas. Em breve ....
Por hoje fica só uma aguarela.

Até Senhora da Guia,
Me deixava ir devagar,
Até à Senhora da Guia,
Que entra já dentro do mar,
Como uma pomba que as ondas,
Receassem de levar;
Talvez como uma gaivota,
Colhida num vendaval...
Ou rosa branca, trazida,
Quem sabe de que lugar,
Que embaraçando nas pedras,
Ficasse ali sem murchar,
O pé metido no rio,
E a flor já na água do mar.


José Régio

Ainda a massificação

O Miniscente fez uma referência benevolente a um escrito que ficou aqui para trás.
Porém, crítico e inteligente, caminha do comentativo para o propositivo e daí para o interrogativo.
Não lhe sei responder. O tempo, grande detector de mentiras e ilusões, irá dando respostas.
Mas fiquei com a sensação de que Luís Carmelo, que não consta ser religioso, é todavia homem de muito mais fé do que eu.

Coisas do Diabo

E se o Dr. Manuel Monteiro agora vai confessar-se ao "Público", e dizer coisas que acha avançadas e bué de progressistas, certamente porque lhe disseram lá na última reunião que era preciso não se deixar acantonar na extrema-direita, mais espantosa ainda é a prática dos contestatários socialistas encherem as páginas centrais do semanário "O Diabo" todas as terças feiras.
O José Rebordão deve divertir-se com a coisa, por entender que assim põe os outros a dizer o que ele gosta, mina ainda mais a chafarica do Largo do Rato e de caminho vende mais uns exemplares (também alarga o seu espaço, como o Dr. Monteiro julga fazer ...)
O que não se percebe é o que leva os dirigentes socialistas em causa a escolherem aquele local para espanejarem as suas diatribes (é o termo certo).
Há tempos era o Candal; hoje é Henrique Neto, malhando incessantemente no Ferro. Será que mais ninguém lhes atura os desabafos?

Segunda-feira, Novembro 03, 2003

Quem tudo quer tudo perde

O chefe do novo Partido da Nova Democracia deu uma entrevista de apresentação ao “Público”.
Começa assim:
Manuel Monteiro deixou no início do ano o seu partido de sempre, o CDS, para fundar a Nova Democracia, um partido que, diz, pretende romper com o actual sistema. Será um partido tão diferente do CDS que até admite ir ao encontro de um eleitorado que defenda a legalização de algumas drogas e a interrupção voluntária da gravidez”.

O Alentejo a crescer

Aqui o Manuel Azinhal tem um gostinho especial pelo Alandroal. Feita a aproximação pelo Redondo, ou por Vila Viçosa, ou vindo de Elvas, ou a partir de Reguengos, sente-se ali a emoção autêntica de descobrir o mundo como era antes do plástico e da poluição. Tudo respira ainda silêncio e autenticidade. Alandroal, Terena, Juromenha..... terras do Lucefecit, entre a Serra de Ossa e o Guadiana, mirando Olivença que saudosa nos olha do outro lado. Raízes profundas da pátria antiquissima e eterna: outeiro de São Miguel da Mota, santuário de Endovélico, ermida da Boa Nova, castelos como sentinelas a desafiar o tempo.
Em Juromenha, os ecos da tragédia do Batalhão Académico, quando a minha universidade, reitor à frente, fechou as aulas e partiu para a guerra - para morrer quando lhe chegou a notícia da vitória, na explosão do paiol, enquanto no céu explodiam foguetes de alegria.
Povo, povo, eu te pertenço ...
Bem vindos à blogosfera! Este entusiasmo todo foi para saudar o aparecimento do Alandroal.
Aproveito para dar também as boas vindas a outro blogue com sede na capital da blogosfera (para quem não saiba, é Avis). Agora surgiu o Bentos e Bentinhos. Que cresça e apareça!
É tão grande o Alentejo....

O estudo da História

Lemos também um blogue de nome “A Monarquia Portuguesa”.
O nome é um tanto pesado, mas o empreendimento é valioso e bem intencionado. Quer rememorar a História.
Vindo de gente que se topa à légua estar nos alvores da mocidade, a coisa é ainda mais de louvar.
Os tempos modernos exigem o desprezo pela história: o apagar da memória é uma fase necessária no processo de anestesiamento colectivo.
O rolo compressor do nivelamento global passa também por aí.
Um povo que não se conhece não pode amar-se, nem defender-se. Está pronto a aceitar as imagens que os outros lhe sirvam de si próprio.
Viva pois a História; o futuro há-de ser daqueles que tiverem a mais longa memória.


Vila do Conde

Descobrimos mais um blogue de gente simpática, de escrita escorreita e agradável, sem imposturices tolas nem arrebiques de estilo: O Vilacondense.
Tem ainda mais para nos agradar: é um blogue situado, com raiz na terra.
Já tinha aqui ficado, mais para trás, uma referência saudosa para Vila do Conde, a propósito de Régio (“lembra-me Vila do Conde, entre pinhais rio e mar...)
Reiteramos as saudades.
E já agora fica uma pergunta: Eça de Queiroz, afinal, nasceu na Póvoa ou em Vila do Conde? Anda o povinho intrigado.
As biografias conhecidas davam-no como nascido na Póvoa, quase sómente devido a um seu desabafo (descreveu-se como “um pobre homem da Póvoa de Varzim”); mas têm sido lançadas dúvidas, e agora até o Prof. José Hermano Saraiva andou a mostrar uma casa em Vila do Conde onde, a seu ver, provavelmente o homem terá nascido.
Por aí já decifraram o mistério?

Domingo, Novembro 02, 2003

Os Santos

Marmelos e romãs, amêndoas e nozes, castanhas e figos secos, passas, batatas-doces ....
São os santos, senhores, é dia de comprar, aviar, provar.
Ou guardar, que dá sorte para o ano inteiro.
Dos campos de Alvito aos vinhedos de Borba, feiram-se os Santos. É feirar, é feirar.
E depois é esperar pelo São Martinho, quando se vai à adega e prova o vinho.

Fernando Viscaíno Casas

Neste domingo morreu Fernando Vizcaíno Casas.
Era um español íntegro, valente e simpático. Um grande escritor e um conversador e humorista impagável.
Tinha nascido em Valência, a 23 de Fevereiro de 1926. De sua profissão original advogado laboral, tornou-se um fenómeno de popularidade e de vendas quando se lançou a escrever a crónica divertida do processo de transição e subsequente democratização de Espanha, com todo o seu cortejo de ridículos, grandes e pequenos.
O seu poder de observação e genial capacidade para descrever com ironia certeira a sociedade espanhola da sua época fizeram com que as suas obras chegassem ao espantoso número de quatro milhões de exemplares vendidos.
Foi então considerado como um "fenómeno sociológico" e chamado "mister bestseller" - sem que no entanto lograsse o reconhecimento dos círculos da cultura oficial.
Bem fácil de compreender a quem tenha lido as suas sátiras...
Destacam-se os títulos: "Contando los 40", "La España de la posguerra", "Café y copa con los famosos","Niñas...¡Al salón!","De Camisa Vieja a chaqueta nueva","...Y al tercer año resucitó","...Y habitó entre nosotros", "Las Autonosuyas", "Isabel, camisa vieja", "Viva Franco(con perdón)", "Cien años de honradez", "Los rojos ganaron la guerra", etc. Creio que dois ou três foram traduzidos e editados em Portugal (lembro-me pelo menos de "Meninas à sala!" e "Ao terceiro ano ressuscitou").
Os seus últimos êxitos foram as suas memórias, publicadas en três volumes.
Distinguiu-se sempre pela boa disposição, pela amabilidade, pela sua plena disponibilidade para todos os que procuravam o seu convívio e a sua ajuda - sem nunca vacilar na fidelidade aos seus ideais de toda a vida.
O Céu ficou a ganhar.

Criacionismo

"O Homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer.”

Leonardo Coimbra

O Problema da Filosofia Portuguesa

«Tudo depende não de aclimatar, não de continuar, mas de recomeçar uma tradição; tudo depende da eleição de um ponto de partida e da acção de um escol que venha a revelar em actual expressão ontológica o pensamento implícito nos documentos teológicos, políticos e literários que assinalam os decisivos passos da vida do nosso povo, e que venha a formular em sistema ou sistemas a filosofia própria da fisionomia nacional.»

Álvaro Ribeiro, 1943

Sábado, Novembro 01, 2003

Um sábio que vendia tractores

Num daqueles prédios sem graça de Santo António dos Cavaleiros, num apartamento igual a todos os outros, mora há muitos anos um cidadão pacato em que nenhum olhar se detém.
Como os demais moradores, veio de longe. Nasceu em Quadrazais, entre penhascos a mirar a Espanha, em 1939.
Das serranias da Guarda rumou à capital – e aportou ali. Desde meados da década de sessenta que ocupa fielmente um lugar entre os paroquianos daquele lugar em tempos deserto.
Todas as manhãs, cedinho, o formigueiro imenso dos dormitórios acorda, e os vizinhos buscam os transportes e o emprego.
O nosso homem, humilde e indistinto, segue também entre os mais. Passa Frielas, de fugida, e marcha até Moscavide, ou Sacavém, ou lá o que é, onde a fealdade dos edifícios e das barracas violenta a paisagem.
Trabalha no departamento comercial de uma grande empresa que vende maquinaria agrícola.
Rectifico: trabalhava. Reformou-se há pouco tempo. Completou o limite de tempo que a um honesto empregado se exige para vender tractores, escarificadores, grades de discos, e outros apetrechos que tais.
Entretanto, sem que isso adivinhasse quem contactava com o empregado comercial afável e discreto, ele estudava e escrevia.
Não me perguntem como, que milagres não se explicam. Mas estudava e escrevia. E investigava. Sempre. Muito. Estudava e escrevia, sempre e sem parar.
Sobre filosofia, história, teologia, literatura, poesia, filologia, sobre Portugal ou sobre a Guarda, sobre a Igreja ou sobre a cabala, sobre o falar de Quadrazais ou sobre Platão, ou Aristóteles, ou Heidegger, ou Leonardo, ou Álvaro Ribeiro, ou José Marinho.
Acreditem que o seu saber não cabe nas minhas pobres palavras. E a enormidade da sua obra já escrita enche bibliotecas – e não de saber vão e inútil, bom para os ratos e as traças.
Quando me perguntam qual é o mais importante dos portugueses vivos, eu faço uma pausa. Penso um momento no que ficará quando assentar a poeira do tempo. E respondo, sereno: para mim, é o Pinharanda Gomes.

Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 2 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D: Afonso III)

Em Fátima: às 11. 30 horas, na Casa do Menino Jesus de Praga
Rua da Imaculada Conceição, n.º 8 (entre a Capela de Santa Luzia e o Convento das Clarissas)
Bairro Moita Redonda

António de Navarro

Poeta dos mais representativos da Presença, no dizer de Régio.
Nasceu em Vilar Seco, Nelas, em 1902, faleceu em Lisboa, em 1980.
Foi-lhe atribuído o "Prémio Camilo Pessanha", no ano de 1974.
Publicou como obras finais do seu itinerário poético “O Acordar do Bronze” e “Guitarras em Madeira d’Asa”.


Sensação musical para embalo de almas

Onde a vida foi, fugitiva,
a forma inatingível,
a pura música cativa
e livre, como um sensível
alheio a nós, e sendo-nos,
há só o puro longe, o pólen
em suspensão e estige
de ausência - pétalas cismantes
recortando a sua origem
não em nós, na morte de instantes.


António de Navarro


Sexta-feira, Outubro 31, 2003

Terra e Povo

Porque me agarro, cada vez mais, à minha identidade cultural alentejana?
Simples. Os reflexos identitários são num povo o equivalente a um sistema imunológico.
Garantes de sobrevivência.
Hoje o localismo aparece-me como alternativa global à globalização.
Quanto mais locais mais universais; e mais longe do impulso geral para o cinzentismo e a indiferenciação próprios das ideologias dominantes.
O enraizamento, ou a queda no homem abstracto e uniforme sonhado por todas as engenharias sociais.
That's the question!

Gente Fina

Como uma desgraça nunca vem só, e para que nada falte ao infeliz Dr. Ferro, a Dra. Fátima Felgueiras vem lembrar que existe e lança vigorosa campanha para as eleições autárquicas em Felgueiras.
Vem tudo no jornal A Voz de Felgueiras, e merece leitura cuidada.
Para além de muito mais, a dado passo diz a senhora:

"É uma vergonha que um Secretário-Geral do maior partido da oposição não hesite, nem por um segundo, e decida afundar o PS – consigo e com o seu melhor amigo – num escândalo que, ao que sabemos, nada tem a ver com actividade política.
(...) É no mínimo muito estranho que o líder de todos os socialistas só meta as mãos no fogo por um amigo indiciado por 15 crimes de violação de menores!"

José António

Neste ano de 2003 completaram-se cem anos sobre o nascimento de José António, a 24 de Abril de 1903; passam sessenta e sete anos sobre o seu fuzilamento, a 20 de Novembro de 1936; e setenta anos sobre o acto de fundação da Falange, a 29 de Outubro de 1933.
Pelo que sei, mesmo em Espanha tais efemérides têm passado e passarão razoavelmente despercebidas. A Espanha actual prefere esquecer.
Em Portugal, onde o impacto e o conhecimento da obra e da personalidade de José António nunca alcançaram mais que núcleos muito limitados de admiradores, apesar da expressão que aqui também teve, in illo tempore, um precário movimento nacional-sindicalista, os aniversários referidos terão por destino passar inteiramente esquecidos.
E todavia, mesmo assim, a figura do mártir de Alicante alimentou também entre nós sonhos e paixões de gerações que no seu discurso e no seu exemplo pensaram encontrar o caminho da verdade política.
Quando eu, imberbe ainda, começava a minha pessoal caminhada pelas andanças da política, José António surgiu como uma revelação. No meu pequeno grupo recebemos todos com entusiasmo quase devoto o livrinho que José Miguel Alarcão Júdice lhe dedicou, editado em 1972, em Coimbra, pelas Edições Cidadela (agora não surge entre a bibliografia do autor), e creio que foi a admiração daí nascida que explica, em parte, a adesão logo dias depois do 25 de Abril ao Movimento Federalista Português (esquisito nome para uma organização onde ninguém era federalista; mas tudo tem a sua explicação).
O Júdice estava lá ...
O MFP surgiu logo no princípio de Maio de 1974, tendo à frente Fernando Pacheco de Amorim e Costa Deitado. Veio a falecer de morte matada em 28 de Setembro de 1974, crismado já então de Partido do Progresso. E os que não foram levados a conhecer a obra prisional do Estado Novo foram então conhecer a Espanha, a salto, que então ainda havia fronteiras, e bem guardadas.
Foram cinco meses de vida; todavia, tão intensos que marcaram para sempre uma geração, como marcaram um país. Muitos dos jovens dos núcleos nacional-revolucionários existentes em Coimbra, no Porto e em Lisboa tinham seguido naturalmente atrás de Miguel Júdice, de José Valle de Figueiredo, de Miguel Seabra, de Manuel Rebanda, de Diogo Miranda Barbosa, de Manuel Sobral Torres, e de outros que lhes davam garantias. E foram apanhados no turbilhão.
Os precavidos, que não vão a foguetes, tinham formado entretanto o MAP, Movimento de Acção Portuguesa, mas esses não eram os jovenzinhos inconscientes que nós éramos – e essa é outra história. Mas lá que não tiveram mais sorte, isso também é verdade.
Como o propósito era evocar José António, deixo aqui um pequeno artigo que Jaime Nogueira Pinto, então também na verdura da mocidade, publicou vai já para trinta e seis anos.

UMA JUVENTUDE

Escrever sobre José António Primo de Rivera é para nós como falar «dum irmão mais velho, que, antes de nascermos, tivesse abandonado a casa paterna», para correr mundo e morrer longe, um desses retratos amarelecidos, cartas e papéis em arca velha, uma história a recontar, um exemplo a seguir... Tudo isso nos legou José António e por tal, três décadas volvidas o achamos na juventude, e na juventude o temos como modelo, como padrão, como símbolo, como caminho...
Folheio o volume das Obras Completas reunidas e prefaciadas por Agustin del Rio Cisneros. Das páginas dos discursos, das notas políticas, das narrativas das batalhas, deste memorial, deste diário duma Alma e dum Movimento vejo recortar-se, imprimir-se, indelével, na imaginação e na manhã dos dias, a figura do Jovem César, um Espírito, um Destino, um Homem. Bardèche, num livrinho que muitos temos à cabeceira, Qu`est-ce que le Fascisme, escreveu: «...O único doutrinador de quem os fascistas do após-guerra admitem as ideias quase sem reservas, não é nem Hitler, nem Mussolini, mas o jovem chefe da Falange que um destino trágico poupou às agruras do poder e aos compromissos da guerra. A escolha deste herói não é puramente sentimental. Ela mostra tudo o que existe de idealismo no mito fascista. E contém mais, um testemunho: os fascistas preferem os seus mártires aos seus ministros. Como toda a gente».
Preferimos os nossos mártires... Creio que é verdade e talvez aí esteja uma das nossas virtudes que são nossas fraquezas.
Preferimos José António a outros mestres tão coerentes, talvez mais ortodoxos, talvez mais lúcidos... Porque para nós ele significa a Coragem, a Fidelidade, a Alegria, a Juventude, o «sentido ascético e militar da Vida», queremos esse Paraíso difícil, implacável, onde se está de pé com os Anjos. Como ele somos jovens e temos Camaradas, como ele pedimos ao Senhor Deus das Tempestades e das Batalhas, que nos dê o Caminho mais difícil e mais justo, leve a capitólios ou rochas tarpeias não importa, mas que seja o nosso Caminho. E que o sigamos com a mesma Fidelidade, a mesma Alegria, o mesmo Amor, com que José António o trilhou, desde sempre, por boas e más horas, do Discurso da Comédia àquela manhã de Novembro, em Alicante, quando uma vez mais o rubro do Sangue e o negro da Terra se fundiram no epílogo dum «destes combates em que se deixa a pele e as entranhas».


Jaime Nogueira Pinto (In «Agora», n.º 332, pág. 7, 25.09.1967)


Quinta-feira, Outubro 30, 2003

Três meses

Ao findar Outubro, no cair da folha, o “Sexo dos Anjos” completa três meses.
A melancolia do Outono bate forte, fortemente.
Mas continuo, gostando de me sentir de vez em quando como dos seus gatos dizia o meu conterrâneo Fialho de Almeida: “miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca”.
Presunção, claro. A água benta que não falte.


José Valle de Figueiredo

Poeta e crítico literário, nascido em Tondela, em 1942.
Em tempos director do jornal Combate e da revista Commedia.
De um rigor oficinal vigilante, só razões exógenas ao "dizer poético" o não tornam mais compartilhado.
Um dos poetas urgentes dos tempos novos.


CANTO PARA A JUSTA ACLAMAÇÃO DE VISEU

Palavra declamada em pedra,
que à arte mineral e pura se deu,
senhorial e descobridora,
com sílabas de granito
se abriu ao mundo:
foi além e acolheu-se
ao mar antigo e à terra estranha,
à gente remota e afeiçoada.
Daquela janela saudosa,
como verso que se faz poema
no curso vário, secular,
do alto se desvelou e viu,
e a novo canto se deu:
arte viva, grã cidade, Viseu.


José Valle de Figueiredo

Outra de Nelson Rodrigues

Como já tinha referido, Nelson Rodrigues participou activamente na campanha de recolha de fundos para evitar o fim da revista “Permanência”, de Gustavo Corção. Aproveitou mesmo para isso a tribuna de que dispunha no jornal “O Globo”, lançando daí o apelo bem humorado que segue (repare- se como parece fácil dizer coisas sérias a sorrir).
Fica aqui de presente, tanto para os que cultivam o prazer da leitura, puro e simples, como para aqueles que adicionalmente cultivam o hábito reflexivo de ler e pensar.

CARTA AO MILIONÁRIO BRASILEIRO
1
Meu caro milionário paulista. Não, não. Melhor será dizer: brasileiro. Meu caro milionário brasileiro: em primeiro lugar, devo dizer-lhe que não sinto nenhum preconceito contra o rico. Fica-lhe muito bem a sua fortuna e vou-lhe dizer mais: desejo do fundo da alma que você tenha uma casaca. Se a tem, creia-me: está justificado o fato de você ter nascido.
2
Nem pense que a casaca seja um dado frívolo, intranscendente. Sabe você por onde se demonstra o nosso racismo jamais confessado? Por um fato muito mais dramático do que se imagina: até hoje, não se viu um preto brasileiro de casaca. Não importa que os nossos sociólogos ponham a mão no fogo por uma democracia racial que nunca existiu. Primeiro, a casaca; depois, a sociologia.
3
Mas como ia dizendo: não tenho o preconceito contra a fortuna e tenho o preconceito oposto, ou seja: contra a miséria. Entendo que o Dom Hélder ame a miséria, ame a mortalidade infantil, ame a fome. Tudo isso é o seu ganha-pão. Por uma questão de sobrevivência e de turismo (ele, que viaja tanto), interessa-lhe que o Nordeste apodreça de fome infantil e adulta. Mas eu quero, inversamente, a multiplicação dos ricos.
4
Está escrito que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Escrevo isso e já uma dúvida me ocorre: será “fundo de uma agulha” ou “buraco de uma agulha”? Em ambas as hipóteses, tanto faz. Não sei se é católico e, em caso afirmativo — que tipo de católico? No passado, o católico era simplesmente católico. Mas hoje tudo mudou. Os “padres de passeata”, ditos “progressistas”, questionam todos os dogmas e, até, acham graça nos dogmas. Uns são católicos-marxistas, outros católicos sem vida eterna, e ainda outros “católicos-maoístas'“, ou “católicos-fidelistas” etc. etc. Só não são católicos.
5
Se meu caro milionário está na linha de D. Hélder e Dr. Alceu, a história do camelo e da agulha não passa de fábula de “gibi”. Mas quero crer que você seja um católico de verdade e não dos falsamente chamados “progressistas”. E, nesse caso, entre o efêmero e o eterno, você terá escolhido a eternidade.
6
Mas pergunto: entrará você no reino dos céus? Façamos aqui uma breve meditação sobre o seu destino efêmero e o seu destino eterno. Na Terra ou por outra — no Brasil, ser rico é um risco. Duas forças o ameaçam: de um lado, o comunismo; de outro lado, o anticomunismo. O que o salva do comunismo é o comunista. Com que inépcia, cegueira, obtusidade, irrealismo, alienação o comunista liquida o comunismo.
7
Resta o anticomunismo, que, por um ressentimento ingênuo, também não gosta dos ricos. Outro dia, dizia-me um milionário: “Ainda vou-me disfarçar de ceguinho.” Não brincava. Falo muito no ceguinho da Rua do Ouvidor. É o que toca ao violino sempre o mesmo tango: “La Cumparsita”. E o meu amigo milionário, nas suas fantasias, imagina-se de óculos escuros, bisando eternamente “La Cumparsita”. Gemeu: “O ceguinho da Rua do Ouvidor está muito mais seguro do que os milionários do Brasil.” Certamente, há, no seu pânico, um relativo exagero.
8
Eu me pergunto se você será ou não um herdeiro. Fez a sua fortuna ou se a recebeu, de graça? Em ambas as hipóteses, não há mal nenhum. Admitamos que seja um milionário de berço. Antes da primeira chupeta, já era milionário. Resta saber que destino escolheu para a sua herança. Você a dinamizou, você a potencializou, você injetou-lhe a sua vontade criadora?
9
Não sei se você passa muitas vezes pela Avenida Atlântica. É o meu caminho diário. Aquelas máquinas, aqueles guindastes, aquelas estacas, aquelas dragas, tudo aquilo parece a fundação do mundo. Todas as manhãs, faço o caminho do Forte ao Leme. E sinto que a praia da véspera não é a mesma do dia seguinte; que o mar é outro; que as dunas conquistam o mar. E como a praia muda, e muda o mar, e as espumas, tudo começa a mudar. É um delírio. Eis o que eu quero dizer: o seu dinheiro pode transformar também a realidade. Pode fazer inventar outras praias, outros mares, outros horizontes, outras ilhas.
10
Quero saber se você, meu bom milionário, tem feito horizontes, ilhas, praias. Há de gostar de uísque. Ou por outra: não gosta, mas toma uísque. Ninguém gosta e todos se encharcam de uísque. Está maravilhosamente certo. Ninguém bebe o que quer, ninguém come o que quer, ninguém tem a mulher que quer. Também finge que adora o seu jardim. Mandou Burle Marx fazê-lo. E o seu jardim só tem uma cor: um verde obsessivo, apavorante, alucinatório. Nós sabemos que não há nada mais feio do que uma cor sem as outras. E as visitas invejam o seu insuportável jardim e acham Burle Marx um gênio.
11
Você gosta de ter, nas imediações, decotes ideais. Nada disso o impedirá de atravessar o buraco da agulha (não o estou chamando de camelo). Mas o que é que você faz ou que é que você tem feito? O Brasil está para ser feito, nós temos de fazê-lo. Você nasceu, e como justifica o fato de ter nascido? É milionário e o acusam de ter dinheiro. Estão contra você o comunismo e o anticomunismo. E é possível que você mesmo, em suas insônias, faça uma autoflagelação.
12
Estou dizendo tudo isso para lhe fazer um pedido, meu bom milionário. Não quero de você nada de épico, de sublime. Pelo contrário. É um pequeno ato, de uma infinita modéstia. Sim, ato humilde, que não vai absolutamente promovê-lo. Ninguém vai saber que você o fez, senão você mesmo. É o seguinte: há, no Brasil, uma revista católica chamada Permanência. Imagino o seu pânico: “Revista católica?” Não se assuste, meu caro milionário. Permanência é uma desesperada batalha contra os “assassinos da Igreja”.
13
Não sei se você sabe, e, se não sabe, fique sabendo: a maioria absoluta, a quase unanimidade das revistas católicas são feitas, precisamente, pelos anticatólicos. Outro dia, li um pequeno jornalzinho e lá Cristo é apresentado como um guerrilheiro. Sim, como um assassino. Dirá alguém: “Mas o guerrilheiro não é assassino.” Acontece, porém, que é perfeitamente — assassino. Sabemos que qualquer guerra é monstruosa. Na última, morreram milhões e milhões de pessoas. Essa abundância cadavérica chega para o nosso horror. Pois a guerrilha é a mais infame das guerras, a chamada “guerra suja”. Direi, apenas, que é a guerra sem prisioneiro, que não admite prisioneiros, que mata prisioneiros. Você entende? Se quem mata prisioneiros não é assassino, quem o será?
14
Permanência constitui uma dramática exceção. É uma das raras, raríssimas revistas católicas feitas por católicos e não pelos inimigos da Igreja. Vive e sobrevive graças ao esforço abnegado e solitário de uma meia dúzia. E, sem meios promocionais, é pouquíssimo conhecida. Imagino que você, milionário, diga: ”Eu nunca a li.” E outros dirão: ”Nem eu, nem eu.” Não importa que ninguém a tenha lido. Mesmo sem um único leitor, Permanência precisa existir, continuar, não morrer.
15
Bem. Vamos ao pedido. Eu queria, milionário, que você fizesse o seguinte: mandasse um cheque para Permanência. Ninguém saberá, ou por outra: saberá aquele que o receber. Mas não mande uma quantia pequenina e vil. Se você, milionário, me pedisse uma sugestão, eu diria: um cheque de vinte milhões antigos. Gostaria de saber se, entre os milionários brasileiros, há um capaz desse gesto de amor. Se você fizer isso, meu amigo, o camelo passará pelo buraco da agulha. Sua doação será um momento da consciência católica.

NELSON RODRIGUES
(O Globo, 27-12-69)

«Vencer a matéria pelo espírito. O que seria preciso era a formação de um escol. A Filosofia Portuguesa é que tem o segredo da espiritualidade necessária para a transformação do Mundo. Não podemos esquecer Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, e muitos outros. Mas, se é a Filosofia Portuguesa que tem o segredo dessa espiritualidade, os mais novos é que têm o segredo da transmutação. Se os jovens forem na corrente actual, então está tudo perdido. Nota-se, de facto, muitos jovens interessados no pensamento português. Se daqui resulta algo, só Deus é que sabe. Nós temos é de fazer as coisas.»

(António Telmo)

Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Blogues

Eu já conhecia o melhor blogue do Chiado.
E descobri agora o melhor blogue de Seia.
E o melhor blogue de toda a Beira Interior.

António José de Brito

António José Aguiar Alves de Brito, nascido a 22 de Novembro de 1927, no Porto, e no Porto residente, construiu ao longo do último meio século, em constante labor intelectual, uma obra de cuja vastidão e importância não parecem dar-se conta nem sequer os amigos.
Pensador comprometido com o seu tempo, longe da imagem tranquila do sábio de biblioteca, moveu-se sempre por uma preocupação de rigor e fundamentação que fizeram dele um dos casos mais sérios de vocação filosófica em toda a segunda metade do século XX em Portugal.
Ao acaso da memória, entre obras que tenho e outras que não tenho ou não encontro, elaborei a amostra que vou deixar aqui já a seguir, de títulos de livros publicados por António José de Brito.
Ficam por ordem alfabética, que outra organização implicaria trabalho a que não posso dedicar-me. Espero com isto impressionar, e motivar alguém a interessar-se, e ler – com o profundo respeito que merece um trabalho que não tem igual em Portugal, e não sei se terá similar em qualquer outro pensador vivo encontrável na família política em que orgulhosamente se insere.
Permanecem de fora, evidentemente, os inumeráveis exemplos dispersos da sua actividade de publicista, espalhados ao longo dos anos, desde a juventude até à actualidade, por jornais e revistas de desigual valor e notoriedade.
Quase todos os livros referidos são hoje muito difíceis de encontrar; sugiro mesmo assim que sejam procurados na Hugin e na Nova Arrancada, onde é possível que alguns deles estejam disponíveis.

- A propósito de juízos de existência
- Contradição e identidade
- Destino do nacionalismo português
- Diálogos de doutrina anti-democrática
- Estudos de Filosofia
- Filosofia contemporânea
- Le point de départ de la philosophie et son développement dialectique
- Nota sobre o conceito de soberania
- O problema da filosofia do direito
- O professor Jacinto Ferreira e o destino do nacionalismo português
- Para a compreensão do fascismo
- Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário: Alfredo Pimenta, António Sardinha, Charles Maurras, Salazar
- Para uma filosofia
- Pensamento e realidade em Leonardo Coimbra
- Positivismo e idealismo na ética
- Razão e dialéctica: estudos de filosofia e história da filosofia
- Reflexões acerca do integralismo lusitano
- Sageza e ilusões da filosofia
- Será o homem uma pessoa?
- Uma “defesa do racionalismo”, no Porto, na segunda metade do século XIX
- Valor e realidade

Os católicos e a política

Nestes tempos mais próximos tem sido muito falado o apelo do Papa João Paulo II aos cidadãos católicos para que se empenhem na coisa pública, surjam activos na defesa dos princípios e valores que lhes são próprios, usando dos meios que a legalidade vigente lhes oferece e proporciona.
Cumpre observar que essa orientação não é nova, e antes tem sido uma constante nos ensinamentos papais desde a parte final do século XIX.
Em Portugal esse empenhamento traduziu-se logo nos primórdios do século, numa época de tormentas várias, pela criação do Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra, sempre associado a Salazar e Cerejeira, e posteriormente no Centro Católico, que viria a ter papel importante durante a primeira república na mobilização da opinião pública católica. Na fundação destes dois organismos salienta-se a presença prestigiada do professor Diogo Pacheco de Amorim, que para além do seu contributo pessoal prolongou ainda o seu legado à causa deixando sucessores, filhos e netos que ao longo do século marcaram presença em todos os momentos decisivos da vida nacional.
Este prólogo destina-se a explicar porque fica hoje aqui um curioso documento, não muito conhecido, todavia do maior relevo para a compreensão da acção política dos católicos durante a primeira república, e especialmente as suas relações com o sidonismo, no curto período em que esse movimento marcou a actualidade.

Manifesto do Centro Católico

Aos católicos portugueses:
Vimos, em nome do Centro Católico, expor aos católicos portugueses, em termos sinceros, francos e leais, o que se nos afigura ser na hora presente dever seu indeclinável.
Começaremos por definir a missão do Centro.
Não pretende este constituir um partido, que desça à arena política para disputar o poder.
Outra e mais alta é a sua ambição. Agremiando os homens de crenças vivas e acendrado patriotismo, sem distinção nem sacrifício de ideais políticos para fazerem imperar na vida pública os princípios cristãos de justiça e caridade e reivindicarem e defenderem os direitos e liberdades da igreja.
Como cidadãos, querem os católicos ver assegurada a sua liberdade religiosa sem ofensa dos direitos de outrem.
Propõe-se ainda o Centro exercer acção moderadora sobre as paixões políticas, defendendo os interesses superiores do país, sobranceiros às competições partidárias, como supremo critério da vida pública.
É singularmente difícil e incerta a situação actual, mercê das convulsões internas e dos perigos externos.
Cá dentro, a disciplina social abalada; os princípios fundamentais da ordem esquecidos ou violados; o espírito cristão enfraquecido; a vida económica e financeira profundamente perturbadas.
Lá fora, achamo-nos envolvidos na terrível guerra mundial, solidários com os nossos aliados. Cumpre-nos afirmar bem alto os direitos da nossa gloriosa nacionalidade e manter integro o seu património territorial.
Antes e durante este período crítico da vida nacional a demagogia sectária calcou aos pés todos os direitos e desencadeou as mais ruins paixões. Viram-se os católicos despojados das liberdades essenciais de culto, de associação, de ensino e consumada a apostasia do Estado pela quebra das relações seculares com a Santa Sé.
Máxima foi a nossa culpa. Não tínhamos organizado a defesa, mercê de comodista individualismo, propenso à passividade resignada e ao menosprezo do dever cívico.
A revolução triunfante em 8 de Dezembro último veio iniciar de surpresa a emancipação do país do jugo demagógico, que sobre ele pesava.
Por isso de norte a sul aclamaram entusiasticamente todas as classes sociais, sem distinção de opiniões, o actual Chefe do Estado, prestigioso caudilho daquele movimento libertador.
A parte sã do país manifestou - por modo mais significativo que uma consulta eleitoral - que daria todo o apoio a quem lhe garantia ordem, administração honesta e patriótica, respeito das consciências, exercício das legítimas liberdades.
A essas solenes demonstrações correspondeu o formal apelo do sr. dr. Sidónio País ao concurso patriótico de todos, sem distinção de crenças, nem de ideais políticos, à união de todos os bons portugueses para salvarem a Pátria nesta hora angustiosa.
Essa obra reparadora foi iniciada.
No que respeita a liberdade religiosa, algumas demonstrações de boa vontade foram dadas aos católicos e prometeu-se-lhes a reforma dessa lei odiosa e iníqua, que durante sete anos fora declarada pedra angular e paládio intangível, a lei chamada de separação e que foi apenas instrumento de expoliação e opressão. O que a Igreja sofreu e nós com ela, tratados como párias num país católico!
Veio a reforma prometida, mas, por lamentável contradição, não correspondeu a nossa expectativa, nem traduziu o propósito justiceiro do Chefe do Estado.
Derrogaram-se, é certo, alguns preceitos odiosos da antiga lei, mas outros permaneceram vigorando, em estranha antinomia com o critério anunciado.
Urge modificar a actual situação legal da religião católica entre nós, embora em regimen de separação; pondo-se termo ao funesto conflito entre o Estado e a consciência religiosa da grande maioria da nação.
Por esse propósito justiceiro e pacificador - que parece ser o do actual ministro da justiça -, importa orientar sem demora a acção governativa e parlamentar em matéria religiosa.
A primacial manifestação destas tendências deve ser um pronto e leal entendimento com a Santa Sé, consoante o exigem iniludivelmente os superiores interesses do país e o Centro Católico tem insistentemente reclamado.
Vai-se proceder a eleições para confirmar o mandato revolucionário que investiu o sr. dr. Sidónio País na presidência da república e para escolha dos membros de câmaras constituintes.
Qual o dever dos católicos em tal conjuntura?
Definiu-lho em termos claros e iniludíveis a última Pastoral colectiva. Devem votar e votar bem, preferindo os candidatos que melhores garantias derem de apoiar as suas reivindicações. Para isso importa que se façam recensear e que procurem esclarecer a consciência dos eleitores, acerca do alcance moral do acto que vão praticar.
Ao problema religioso junta-se o problema da ordem, da honesta e patriótica administração.
É no sr. dr Sidonio País que a nação confia para o resolver neste momento angustioso.
Por isso, devemos conceder, por desinteressado patriotismo, a ele e ao governo a que preside, apoio leal e franco, contribuindo para lhe fortalecer o prestígio pela consagração dos votos da grande massa conservadora.
Podemos e devemos fazê-lo sem quebra de dignidade, nem sacrifício dos nossos princípios.
Tem de ser reformada a Constituição.
Esforcemo-nos por fazer expurgar dela preceitos incompatíveis com a verdadeira liberdade da consciência. Cooperemos para que se fortaleça o poder executivo, libertando-o da abusiva invasão de atribuições pelo parlamentarismo, que em vez de exercer apenas a sua missão legislativa, sujeita os governos a tutela humilhante e corruptora, e impede a continuidade e salutar desafogo da sua acção.
Aconselhamos pois as católicos a dar o seu voto ao sr. dr. Sidónio Pais para a presidência da república.
Quanto à escolha de candidatos, depende de circunstâncias regionais. Onde a nossa organização nos permite fazer vingar uma candidatura do Centro, outra não pode ser a solução. Fora desses casos impõem-se os acordos honestos e dignos com o Governo e com os partidos que nos mereçam confiança sobre a base do apoio às nossas reivindicações essenciais.
Para unidade da acção, que a torne mais eficaz, as combinações eleitorais devem ser submetidas à Direcção Geral do Centro, à qual compete, segundo o regulamento, orientar e dirigir superiormente as trabalhos de acção eleitoral.
Fica assim traçada a linha de conduta que em consciência se nos afigura mais consentânea com a defesa dos superiores interesses da Religião e da Pátria.
Para a zelo dos católicos apelamos, cheios de confiança, pedindo-lhes que cumpram o seu dever.

Porto, 14 de Março de 1918.

A Direcção Geral do Centro,

José Fernando de Sousa
Diogo Pacheco de Amorim
Alberto Pinheiro Torres

Terça-feira, Outubro 28, 2003

Pedro Homem de Mello

O poeta D. Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello nasceu no Porto a 6 de Setembro de 1904 e veio a morrer na mesma cidade a 5 de Março de 1984.
Deixou vasta obra marcada por um lirismo profundamente português, nascido da sua própria vivência íntima e numa sentida e autêntica sintonia com o povo.
Foi muitas coisas na vida; advogado, professor ... sempre e sobretudo poeta.
A popularidade veio-lhe mais da sua actividade como estudioso e divulgador do folclore português, tarefa que o apaixonou durante décadas, e que o levou desde as romarias do Minho até aos programas da televisão.
A sua poesia espraiou-se por muitos livros: “Caravela ao Mar”, “Segredo”, “Há Uma Rosa na Manhã Agreste”, “Grande grande era a cidade”, “Eu Hei-de Voltar um dia”, “Eu Desci aos Infernos”, “Grande Poeta é o Povo”, “O Rapaz da Camisola Verde”, “Bodas Vermelhas” ....
Mas nunca ela, que tinha nascido do povo, teria alcançado a glória da voz do povo se não fora o encontro com Amália. Mágico casamento, que nos deu, entre o mais, “Fria claridade”, “Prece”, “O rapaz da camisola verde”, e, acima de tudo, “Povo que lavas no rio”.
Dou-vos hoje de presente “Povo que Lavas no Rio”, do Poeta D. Pedro.


Povo que lavas no rio

Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Há-de haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
Um beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seios...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

PEDRO HOMEM DE MELO

Segunda-feira, Outubro 27, 2003

"Há dois mistérios capazes de atrair a morte e de a aniquilar: escrever e amar, experiências originárias e últimas, a morte da morte ..."
(Vintila Horia, in Viagem aos Centros da Terra)

Nelson e Corção

Tenho a certeza que a primeira vez que li um artigo de Nelson Rodrigues foi em 1975, nas páginas de “O Dia”.
O quotidiano lisboeta, dirigido então por Vitorino Nemésio ou já por David Mourão Ferreira, ou pelos dois, não recordo bem, publicava pequenas crónicas do grande escritor brasileiro.
Fixei o momento porque o sabor único e inconfundível daquela prosa vigorosa, viva, envolvente, a visão daqueles pedaços de vida que ali ficavam expostos, com um toque de humor incomparável, constituíram de imediato um deslumbramento, uma descoberta que nunca mais esqueci.
Não se escrevia assim em Portugal – e ainda hoje se pode dizer o mesmo.
Desde então nunca mais afastei a minha atenção do formidável Nelsão. Entretanto, passou tempo, e muitos outros partilham o gosto. Não era assim nessa época, em que o autor era aqui um desconhecido, e pouco ilustre.
Mas falo de Nelson para falar de Corção.
Este nem depois de morto logrou o reconhecimento. Continua no índex.
Não por falta de empenho de Nelson: sempre, até ao fim, este exaltou o amigo em todas as oportunidades que lhe deixavam. Sempre sublinhou a grandeza do vulto cultural que os bloqueios imperantes condenavam ao silêncio.
A dedicação de Nelson chegou ao ponto de andar a fazer peditório a favor da “Permanência”, a revista de Gustavo Corção, lutando contra o iminente encerramento pela razão do costume.
Fica aqui o artigo, que já tinha prometido: uma crónica de Nelson Rodrigues sobre a personalidade de Gustavo Corção.


Tudo em Corção é Amor

Outra figura brasileira consagrada pelos palavrões: - Gustavo Corção. Ninguém diria, de maneira sucinta e inapelável: "É uma besta!" Bem que as esquerdas gostariam que o fosse. Mas os seus piores inimigos sabem, e não teriam o cinismo de negar, que Gustavo Corção é uma das inteligências mais sérias do Brasil. Certa vez aconteceu-me uma passagem extraordinária com o grande pensador católico.
Era domingo. Voltava eu, não sei se de um clássico ou de uma pelada. Na saída do Estádio Mário Filho, alguém me chama. Volto-me e dou de cara com um amigo, uma flor das esquerdas, um doce radical como o Antônio Calado ou como o Hélio Pelegrino. Eu e o amigo caminhamos no meio da torcida. Acontecera um empate e ninguém gritava. A multidão tinha algo de tristeza fluvial no seu lerdo escoamento. Então, o meu companheiro falou: - "Estou besta! Com a minha cara no chão!" Pensei que ele, Fluminense como eu, estivesse desiludido com o Tricolor (realmente, o meu clube não compra ninguém). Mas ele continuou: - "Nunca pensei que o Corção..." Fez uma pausa e repetiu: - "Estou besta! besta!"
Entre parênteses, esse meu amigo tem, pelo Corção, um ódio comovente. Não lhe diz o nome sem acrescentar... Acrescentar não. Não lhe diz o nome sem lhe antecipar um palavrão. Chega ao nome pelo palavrão. E, súbito, falava do inimigo com uma impostação diferente e, mesmo, inédita. Perguntei-lhe: - "Mas estás besta por quê?"
Esquecia-me de dizer que o meu amigo levava um radinho de pilha. Abriu uma pausa na conversa para ouvir os comentários do João Saldanha e as gravações dos "goals". Só depois do Saldanha é que voltamos ao Corção. Rádio desligado, e o outro me perguntou, na sua impressão profunda: - "Leste o artigo que ele escreveu? Que escreveu sobre o filho? Ó rapaz! O artigo do Corção sobre o filho?"
Não era um artigo do dia ou da véspera. Da sua publicação, transcorrera toda uma semana. E, através dos sete longos dias, o artigo do Corção ficara badalando dentro do meu amigo, como um sino inexorável. Membro da "festiva", freguês do "Antonio's", havaiano de praia, relera o inimigo umas quinze vezes. E a cada leitura a sua perplexidade era cada vez mais amarga. Súbito, via um novo Corção, um Corção jamais suspeitado, um anti-Corção.
Vejam vocês: - o grande prosador escrevera uma página sobre o filho, Rogério. Foi um artigo de funda e dilacerada ternura. O nosso Rogério estava no Vietnam, como um dos representantes do Brasil. Lá, as balas não escolhem, não discriminam, e tanto estouram a cara de americano, como de brasileiro. E havia no artigo todo um amor insuportável, e uma solidão desesperadora.
O assombro do meu amigo tinha a sua lógica. Durante anos, criara, e recriara, dia após dia, uma imagem hedionda do "reacionário". Ele imaginava que, se o Corção passasse a mão pela face, havia de sentir a própria hediondez. Nunca lhe ocorrera que aquela besta-fera pudesse ter costumes, usos, gestos, como outro qualquer. Impossível um Corção tomando cafezinho ali na esquina; inadmissível uma gargalhada do Corção, ou um assovio do Corção. E aquele Corção pai, simplesmente pai, e simplesmente terno, e simplesmente infeliz, e simplesmente órfão do próprio filho, contrariava toda uma imagem feita de palavrões, de insultos, de baba.
Mas, vejam toda a operação psicológica do meu amigo. A princípio não entendera uma palavra, tão desconhecido, tão estrangeiro, tão alienado parecia aquele Corção vergado, sofrido, perdidamente solitário. Só depois é que, limpando a figura dos palavrões, dos ultrajes, das calúnias, é que o freguês do "Antonio's" pode chegar à luz última e verdadeira do inimigo.
Por fim, quem estava infeliz, na volta do Estádio Mário Filho, era o membro da festiva. A partir daquele momento, os seus palavrões soariam falsos aos próprios ouvidos. O meu amigo estava comovido e, pior, furioso com a própria comoção.
E, então, chegou a minha vez. Não me lembro de tudo o que disse de Gustavo e de Rogério. O esquerdista ouvia só, numa desesperada impotência para negar a imagem que eu ia elaborando de Corçâo. Expliquei-lhe que tudo em Corção é amor; poucas pessoas conheço com tanta vocação, tanto destino, para o amor. O que parece ódio, nos seus escritos, é ainda amor. Amor que assume a forma das grandes e generosas procelas.
Bate forte, muitas vezes. Mas sempre por amor. Está fatalmente ao lado da pessoa e contra a antipessoa. É a luta que o apaixona. Todos os dias, lá vai ele atirar o seu dardo contra as hordas da antipessoa. Eis o que eu repeti para o meu amigo das esquerdas: - o Corção tem um coração atormentado e puro de menino.
Quem o sabe ler, percebe em todos os seus escritos o pai de Rogério, sempre o pai de Rogério, querendo salvar milhões de filhos, eternamente.


Nelson Rodrigues

In “O Óbvio Ululante”, Livraria Eldorado Editora, 1968, pp. 164-166


Domingo, Outubro 26, 2003

Ser liberal em Portugal

Na Catalaxia publicou o Rui um valioso texto em que, primeiro, dá notícia do lançamento no Porto de um livro de Carlos Abreu Amorim, com o título “É difícil ser liberal em Portugal”.
Porque se trata de duas pessoas que me merecem estima e consideração, como já ficou patente neste blogue por três ou quatro referências, não quero deixar passar em branco o acontecimento.
Antes do mais, porém, confesso, neste ponto dirigindo-me mais aos dois mencionados, que o título me causou um sorriso, ao mesmo tempo divertido e amargo. Não porque não acredite que é efectivamente difícil ser liberal em Portugal; admito perfeitamente, até porque em Portugal é habitualmente difícil ser seja o que for, desde que se queira ser com inteireza e carácter.
Todavia, inevitavelmente, tenho que observar que há opções bem mais dolorosas; fosse o Carlos por outros caminhos e logo veria como em vez da intensa actividade cívica que se lhe conhece teria por destino fatal a irremediável morte civil, quando não pior (dependeria dos momentos históricos).
Ser liberal, ainda assim, não me parece das coisas mais inconvenientes.
Mas isto são desabafos pessoais, de menor importância. O que mais queria salientar era a parte substancial do texto do Rui, onde este alinhava as múltiplas razões pelas quais, a seu ver, a seiva salvífica da ideologia liberal nunca foi recebida e assimilada pelo débil organismo da nação portuguesa.
O seu raciocinar enuncia algumas observações de indiscutível pertinência, relevância e actualidade, na caracterização que faz da sociedade portuguesa e das suas fragilidades. Mas não basta descrever o doente.
Perdoar-me-à, mas, embora ressalvando a valia do artigo, parece-me que este se detém onde deveria prosseguir.
O que deixa escrito são em geral constatações factuais. Mas quais as razões fundas para essa incompatibilidade radical? Quando a criança não se alimenta há que analisar os motivos.
Existe alergia congénita? Ou o produto não tem as propriedades precisas?
O bébé não sabe mamar? Ou essa mama é que não dá leite?

A obra intangível do Dr. Abílio Fernandes

Frequentes vezes, conversando longe de Évora, pessoas as mais diversas romperam espontaneamente em elogios à gestão municipal que foi aqui vigente ao longo de um quarto de século. Os elogios eram sempre estranhamente iguais. “fui outro dia a Évora. Que beleza! Vocês têm muita sorte em terem lá aquele presidente de câmara! Tudo tão preservado, tão cuidado ... uma maravilha!”.
Como já estava habituado a tais desabafos, geralmente fazia cara de ponto de interrogação: “Porquê tal elogio?” Os meus interlocutores admiravam-se, e engasgavam-se. “Então... não se está mesmo a ver? Não diz toda a gente? Tudo tão bem conservado! Tantos e tão belos monumentos!!!”.
A conversa acabava neste ponto. Observava divertido que nenhum dos monumentos era obra desta gestão autárquica; e que não me parecia grande mérito esse de conservar. Os cargos em causa não têm por missão a destruição do que existe. Conservar o que se recebe é o mínimo dos mínimos no cumprimento das obrigações.
Fiquei porém com uma ideia assente: na gestão da imagem, sobretudo para o exterior, foi o poder autárquico dominado durante 25 anos por Abílio Fernandes realmente mestre indiscutível.
Para dentro da cidade nem tanto; nunca por cá ouvi os rasgados elogios correntes na imprensa bem pensante ou na opinião moldada por esta.
Com efeito, findo o período histórico em questão, nada se encontra que possa servir de emblema, de marca de orgulho ou distinção para os responsáveis pelo poder local durante este passado quarto de século.
Nada, para além da tal conservação – e mesmo a este respeito os indígenas têm visão um tanto diferente do forasteiro que aqui passou uma vez como turista, ou viu algures umas reportagens.
Outros poderiam gabar-se – e lembro que ainda estão vivos pelo menos outros dois antigos presidentes de câmara desta cidade, Henrique Chaves e Serafim Silveira – de legados pessoais imperecíveis: “no meu tempo lancei e inaugurei as piscinas municipais”; “no meu mandato planeei e executei a zona de urbanização n.º 1 ou n.º 3” ....
Abílio não: ficam como sinais do seu tempo quatro ou cinco rotundas, e o monumento ao bombeiro ...
Mas conservar é realmente escasso mérito; repare-se que mesmo num conservador de museu actualmente é consensual que essa virtude não basta; pretende-se que anime o sítio, que faça do seu espaço um centro vivo de difusão da cultura, não que seja um guardião de memórias mortas.
Conservar é virtude capital em congelador ou arca frigorífica; espera-se mais de um governante.

Sábado, Outubro 25, 2003

Nostalgia

"O facto de sermos habitados por uma nostalgia incompreensível seria mesmo assim o sinal de que existe um além".
(Eugéne Ionesco)

Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 26 de Outubro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III)

Em Monforte: às 18. 30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

Livreiros on line

Tanto quanto conheço, os principais locais de venda por correspondência de livros e outros produtos culturais na net de língua francesa, para quem procura vencer a censura difusa mantida pela ditadura intelectual das esquerdas, são os que se seguem:

La Librairie Nationale
Libre Diffusion
Librad
Charlemagne Diffusion

Aqui fica a informação, como resposta a alguns pedidos, e para utilidade geral.

Sexta-feira, Outubro 24, 2003

Congresso Nacionalista

Da Aliança Nacional recebemos para divulgação a notícia da realização em Lisboa, a 15 e 16 de Novembro de 2003, do II Congresso Nacionalista Português, sob o lema “Sobre a terra e sobre o Mar”.
Os organizadores sublinham a necessidade de “produzir aquilo que, com propriedade, se costuma designar um pensamento político”, já que “não existe um pensamento nacional fundamentado, sério e credível para o Portugal do séc. XXI. Ou seja, faz falta que os nacionalistas se unam, debatam e definam os princípios que devem orientar o seu pensamento e a acção, para conduzir a Nação à unidade, por caminhos de liberdade, responsabilidade e soberania”.
Concluem os organizadores que “o I Congresso Nacionalista Português, realizado há dois anos, em 13 e 14 de Outubro de 2001, iniciou um trabalho importante, desbravador, no sentido de um pensamento nacionalista novo para Portugal. Um considerável avanço se conseguiu”.
"Queremos continuar esse trabalho com o II Congresso Nacionalista Português".
Todas as informações sobre a iniciativa, bem como os textos do I Congresso (que, antes do mais, merecem leitura atenta e crítica) encontram-se disponíveis no blogue da Aliança Nacional.


Ramalho na Vidigueira

Sobre as relações entre o cante alentejano e a música litúrgica já muito se escreveu (Cónego Alegria, Monarca Pinheiro, Jorge Raposo...), e com entendimentos diversos. Veja-se a propósito este excerto que retirei da correspondência de Ramalho, relatando uma curiosa observação pessoal vivida em 1888.

Passei a 4ª feira em Viana, e vim à noite para a Vidigueira. Ontem, 5ª feira, trouxeram em procissão da vila para aqui a imagem de Nossa Senhora das Relíquias, que tinha ido desta igreja do convento para a igreja da freguesia a pedir chuva. Não se imagina o que são estas procissões do Alentejo, que eu nunca tinha visto. 5 ou 6 mil pessoas acompanham os guiões e o andor, vestidas de festa e atirando foguetes. Toda essa gente canta em coro durante todo o percurso da procissão. Perdi todas as ilusões que tinha a respeito da superioridade da música coral do Minho. Os alentejanos são muito mais músicos do que os minhotos. Os homens quando cantam em grupos de cinco ou seis põem logo em combinação os seus diversos timbres de baixos, barítonos e tenores e tiram efeitos de terceto. Os cânticos em coro são lindíssimos. Ontem com a igreja, que é grande, apinhada de gente, o coro de todas as vozes parecendo fazer um balanço de onda do altar-mor até à porta do fundo, era de um efeito inesperado e profundamente comovente pela música e pela devoção de toda a gente. Ontem fizeram a festa da despedida da Senhora na vila. Hoje é que é a festa aqui com missa cantada, sermão, ladainha e arraial na quinta. A decoração do adro com bandeiras e festões de murta e um arco foi dirigida por mim. Aqui, realmente, não se pode estar melhor.”

(Ramalho Ortigão, em carta a sua mulher, datada de uma sexta-feira de 1888)


Arqueobibliografia

No "Católico e de Direita" questiona-se a ausência de Gustavo Corção nas letras portuguesas. A interrogação é oportuna, e foi logo respondida pelo próprio: são frutos do tempo.
Mas nem sempre o desconhecimento foi total: houve uma época em que Corção era lido e seguido em certos meios intelectuais católicos lusitanos. Estes é que mudaram, quando Corção não mudou. Tal como aconteceu no Brasil com Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), primeiro compagnon de route e mais tarde, depois do seu aggiornamento, alvo predilecto das setas de Corção. Tudo tem a ver com o dilúvio do progressismo católico.
Dessa primeira época ficou a edição em Lisboa de duas obras de Corção: "A descoberta do outro", editado em 1943 e 1955, e "Lições de Abismo”, editado em 1955. Ou seja: a última edição data de 1955!
Mas para melhor compreensão do que digo leia-se o prefácio de António Alçada Baptista à edição de 1955 de "A descoberta do outro". Coisas dos vencidos do catolicismo, para usar a expressão de Rui Belo já adoptada também por João Bénard da Costa, dois desses ilustres vencidos, como Alçada.
Depois de todas as rupturas consumadas, Corção ficou a ser património exclusivo dos reaccionários subsistentes. Sei que esteve em Lisboa em 1973, onde se deu ao convívio das hostes. Leia-se a este respeito o que escreve João Bigotte Chorão no seu "Reino Dividido (Diário 1969-75)".
Há também uma curiosa alusão a Corção num poema de Rodrigo Emílio, denotando estima e conhecimento; o poeta ameaça ir também para Pasárgada, "pra junto de seu Manuel", e apela "você me cede um corcel? / decerto cede, Corção" ...
E termino, que o postal já vai longo. Mas um dia destes vou publicar aqui um velho artigo de Nelson Rodrigues a propósito do ostracismo decretado contra Gustavo Corção em terras de Vera Cruz.

Ramalho em Évora

Évora ainda é para mim a mais simpática das terras portuguesas, mas tanto a estragam de dia para dia que nunca venho cá que não encontre mais alguma coisa de novo destruída e aniquilada. Compreendo que em poucos anos (se eu chegasse a vivê-los) não poderia cá voltar para não morrer de saudade. Quantas faltas já que me dão sincera vontade de chorar. Os lindos conventos das freiras; a bela sala dos actos da antiga Universidade; os antigos paços do concelho dos quais só agora encontro o entulho no chão! Que calamidade! Que maldição de Deus caiu sobre esta terra! Da velha pintura tão gloriosa, valendo incalculáveis milhões, pouquíssimo ou nada existirá daqui a quarenta anos. Os quadros que desta vez examinarei de perto e detidamente, estão-se a desfazer carcomidos pelo caruncho, e ninguém pensa em os amparar gastando alguns mil réis com eles. É de cortar o coração”.
(Ramalho Ortigão, em carta a sua mulher, datada de 24 de Maio de 1907, em Évora)

Não admira que ande há tanto tempo o Joaquim Palminha da Silva a inventariar “Évora desaparecida”, nas colunas do “Diário do Sul”...


Quinta-feira, Outubro 23, 2003

Escrita

"Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros."
(Eugéne Ionesco)

Descobertas

Num blogue expressamente dedicado aos estudos sobre a guerra civil espanhola, o estudioso responsável informa o venerável público que o ditador Franco chamava-se na realidade Francisco.
Francisco Franco, e era natural de Ferrol.
Diz corrigir assim anterior informação onde por lapso lhe tinha chamado José António.
Segundo ele, o tal José António, com que fez confusão, era o chefe da Falange, filho do ditador Miguel Primo de Rivera.
Fiquei esmagado. Que novas descobertas ainda virão dali?

E para descontrair ...

Novo escândalo circula já por aí.
Parece que Ferro Rodrigues perdeu a cabeça e agrediu um grupo de escuteiros.
Os moços vestiam todos camisolas a dizer "Corpo Nacional de Escutas".

Coisas sérias

Ninguém tem dedicado tanta e tão sistemática atenção e análise aos desenvolvimentos políticos relacionados com o processo judicial chamado da Casa Pia como o "Do Portugal Profundo".
Recomenda-se leitura igualmente atenta e sistemática.

Passarinhos e passarões

O aparelho de justiça é uma rede para apanhar passarinhos; quando por acidente lá cai um passarão rasga-se e rompe-se por todos os lados.
Repare-se no caso chamado da Casa Pia: perante o panorama mais recente, não há já lugar para ilusões. O consenso que se estabeleceu entre aqueles que contam em Portugal é simplesmente a defesa da estabilidade de uma classe que se sente ameaçada. Ou seja, o instinto de conservação da classe política vai sobrepor-se a tudo.
No fim disto aqueles que efectivamente pensaram que era possível esclarecer alguma coisa dos chamados crimes da Casa Pia vão ficar por aí amargurados, afastados, demitidos, até mal vistos porque perturbaram o repouso das instituições ...
Agora já nem se fala de pedofilia, ou de crianças abusadas.
Só se ouve o apelo pelas "coisas importantes" ... a violação do segredo, o escândalo das escutas, o abuso da prisão preventiva, o desrespeito das garantias dos arguidos, as nulidades de processo ...
No fim, o único condenado vai ser o Bibi, que é feio, porco e mau .. e é pobre, desgraçado e sem família, nem influência política ou social.
Como convém.

Sessão sobre Barrilaro Ruas

A Sociedade Histórica da Independência de Portugal organiza, nesta Quinta-Feira, dia 23 de Outubro, pelas 17h30, no Palácio da Independência, uma sessão em que será evocada a vida e a obra de Henrique Barrilaro Ruas.
Estivesse eu na capital e não faltaria; mas sendo isso impossível solicito a todos os que puderem que compareçam em minha representação.
Vale a pena, por vários motivos.
Primeiro, obviamente, pelo tema; a vida e a obra de Henrique Ruas merecem a evocação de todos os que se interessam por estas coisas da cultura e do pensamento lusíada.
Depois, pela veneranda instituição: a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, de que aqui o Manuel Azinhal é sócio há muitos anos, é, desde a sua fundação, no século XIX, um baluarte seguro na defesa da independência e soberania de Portugal.
Finalmente, last but not the least, é uma oportunidade para quem não conhece ficar a conhecer o espaço físico do Palácio, e estou a pensar nos milhares e milhares que passam diariamente naquele Largo de São Domingos sem sequer olhar; os que já conhecem sempre podem rever, e recordar com a natural emoção.
E a acrescer a tudo isto os habitués destes lugares selectos da blogosfera podem ficar a conhecer, em sua pessoa, ali em directo e ao vivo, o vizinho dos “Caminhos Errantes”, o jovem doutorando Alexandre Franco de Sá, que será um dos discursantes.
Digam lá que não é um programa aliciante para o fim de tarde!!

Mais Horia

Ainda sobre as edições portuguesas de Vintila Horia, escreve o "Nova Frente" a acrescentar que, embora não conheça mais nenhum livro em português, para além dos que já foram aqui mencionados, merece ser salientado um notável prefácio do romeno ao livro "Introdução à Etologia", de António Marques Bessa, saído pelas Edições do Templo, em 1977 ou 1978.
Fica aqui registado; e a propósito acrescento eu que pela mesma época publicou António Marques Bessa na mesma editora o "Ensaio Sobre o Fim da Nossa Idade", com abundantes ecos do convívio intelectual com Vintila Horia.
Frutos de Madrid - o exílio, já aqui o escrevi, faz bem até à poesia. Mais genericamente, pode afirmar-se com segurança que faz bem a toda a literatura.

Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Que desastre!

Ainda a propósito de edições de livros de Vintila Horia em Portugal, mais correcções e aditamentos:

1 - "Deus nasceu no exílio", tradução de Rocha Júnior, prefácio de Daniel Rops, edição de "A. M. Teixeira & C. Filhos Lda", Lisboa, 1961;

2 - "Deus nasceu no exílio", tradução de Isabel Gentil Penha Ferreira, edição da Ambar; esta afinal é recente, de 2002, e por isso, em princípio, será fácil de encontrar.

3 - "Viagem aos Centros da Terra (depoimentos sobre o estado actual do pensamento, das artes e das ciências)", tradução de Virgílio Godinho, Tomás Gonçalinho de Oliveira, Maria Amália Sotomaior, Lisboa, Verbo, 1972.

4 - "Introdução à literatura do século XX (ensaio de epistemologia literária)", tradução de João Maia, edição da Arcádia, Lisboa, em 1978.

E estou a ver que isto não fica assim..

A idade não perdoa

Mal tinha afixado o meu postal sobre Vintila Horia, logo o atentíssimo Pedro Guedes me dirige o primeiro correctivo: existe tradução e edição portuguesa de "Deus nasceu no exílio", sim senhor. A obra foi editada pela editorial Ambar, há muito tempo.
Reza a apresentação que "o romeno Vintila Horia inspirou-se no exílio de Ovídio para narrar os últimos dias de um poeta, condenado ao desterro (...)"
Fica aqui a constar a minha pública humilhação.

Borges de Macedo

E já agora que falo de livros, faço questão de dar nota da aparição recente de um ensaio de Jorge Borges de Macedo, editado pela “Gradiva Publicações”, e encontrável em qualquer sítio.
Chama-se o livro “Da Crítica da Ciência à Negação da Ciência”.
Recomenda-se a todos os que tiveram a honra e o gosto de conhecer um dos mais cultos e inteligentes pensadores portugueses, e mais ainda a todos os que não o conhecem e bem fariam em conhecer.
Fica um aperitivo: «Em vez da eternidade, temos a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.»
Pois é. Como diria Vintila Horia, as visões do mundo baseadas numa essencial aspiração à “homogeneidade macrofísica” estão com os dias contados.

Vintila Horia

Na sequência da publicação neste meu blogue de citações de Vintila Horia, retiradas do livro “Viagem aos Centros da Terra”, perguntam-me sobre edições portuguesas de obras do escritor.
Vintila Horia (nascido em Segarcea, Roménia, em 1915, falecido em Madrid, em 1992), foi um escritor marcado pelo tema do exílio, em que viveu a maior parte da sua vida (primeiro em França e na Suíça, depois, e por muitos anos, em Espanha), bem como pela sua oposição ao regime comunista e ao sovietismo que dominava a sua terra natal – e dominava também a intelectualidade francesa, quando aí aportou, o que muitos amargos lhe causou.
Não tenho outra forma de responder à solicitação que não seja arriscando as imprecisões da memória. Se alguém puder corrigir os lapsos, agradeço que o faça, escrevendo do mesmo modo para o endereço que consta do blogue.
Julgo que as edições portuguesas de obras de Vintila Horia são hoje praticamente impossíveis de encontrar.
Existe edição portuguesa, muito antiga, da "Viagem aos Centros da Terra", de que tenho um exemplar.
Com uns anos menos, existe um livrinho de João Bigotte Chorão intitulado "Vintila Horia ou um camponês do Danúbio", que foi editado pelas "Edições do Templo" na altura em que Vintila Horia veio a Portugal.
Com efeito, Horia, que vivia em Madrid, esteve em Lisboa a convite da "Renovação" (não sei se o convite terá partido do Coronel Santos e Castro, se de José Valle de Figueiredo, que conhecia certamente o escritor visto ter vivido em Madrid, se foi mesmo de Chorão, dado que este era o que melhor conhecia, e conhece, a obra e o autor).
O certo é que Vintila andou por aí, deu entrevistas, proferiu uma conferência muito concorrida no “Sheraton”, e o apresentador e mestre de cerimónias foi sempre Bigotte Chorão.
Bastantes anos mais tarde saiu a "Introdução à Literatura do Século XX", para mim o trabalho mais importante de Vintila, sobretudo pelo seu lado ensaístico.
E é tudo o que me lembro de edições portuguesas de ou sobre Vintila Horia.
Curiosamente, não conheço tradução portuguesa de "Dieu est né en éxil”, romance que consagrou o exilado romeno, por em 1960 ter sido agraciado com o Prémio Goncourt – que aliás o autor recusou, em reacção à campanha política então desencadeada contra ele.
De igual modo não conheço traduções de “Journal d'un paysan du Danube” (1966) ou “Persécutez Boèce” (1987), obras marcantes no itinerário de Vintila.
Mas, como comecei por dizer, creio que as afirmações que deixo estarão eivadas de incorrecções involuntárias. Fico grato pelas emendas que generosamente surgirem.



De novo Manuel Bandeira

A minha particular disposição trouxe-me outra vez à mente o já falado Bandeira; o tal São João Baptista do modernismo brasileiro....
O seu poema mais famoso e conhecido fica muito bem aqui hoje. Isto está de fugir, meus meninos ...


VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Terça-feira, Outubro 21, 2003

Quando António Sérgio exaltava o fascismo

Naquele Ocidente dos anos Vinte, desfeitas pela I Grande Guerra as ilusões do velho liberalismo, desgovernados os países pelas classes partidocráticas que se debatiam na confusa podridão dos interesses particulares e das intérminas discussões inúteis, afloravam em toda a parte, com mais ou menos violência, os primeiros focos da subversão comunista. A Alemanha era então olhada, mais do que a Rússia, como o grande condutor da futura revolução marxista, cujo carácter fundamental ainda não fora necessário disfarçar em face das realidades que o contradiziam.
Daí resultaram as reacções do espírito nacional como facto comum a todos os países da Europa.
Em Portugal, onde a velha partidocracia tomara aspectos particularmente desordeiros, verificara-se a primeira reacção com Sidónio Pais, ainda antes do findar da guerra. Era, porém, uma reacção de tipo meramente pessoal. Isto é: tinha por conteúdo a esperança na acção de um só homem, excepcional é certo, mas um só homem, sem um corpo de ideias estruturado, nem uma organização dotada de um projecto de acção e de uma mística, dos quais ele tivesse apenas a alavanca do comando.
Com a morte de Sidónio sucedeu inevitavelmente ficar apenas o Sidonismo, ou seja a fidelidade saudosa dos amigos à memória de uma personalidade ímpar. Fora disso, havia no País forças com virtualidades de intervenção, como o Integralismo Lusitano, mas este ainda na fase de crescimento, com preocupações mais intelectuais de que realização política.
A grande expressão europeia contra a putrefacção da partidocracia e na tentativa de superar a revolução marxista foi o Fascismo italiano. Quando o comunismo afixou depois o epíteto de fascista em todas as escolas de pensamento ou vectores de acção política, económica, social, ou mesmo simplesmente filosóficas, que não fossem marxistas, embora se afastasse do rigor da expressão e da realidade dos factos, prestava homenagem ao vigoroso impulso nacionalista do partido de Mussolini.
Foram muitos, imensos, os que então o aplaudiram. Importa, porém, distinguir o fascismo dos primeiros tempos, no irromper do seu espírito heróico, do fascismo desesperado do fim, encurralado entre as delirantes ambições germânicas e as da coligação capitalista-sovietista dos anos Quarenta.
O insuspeito Edmond Dumesmil, com todo o seu republicanismo, escrevera ao Rapel de 12 de Setembro de 1923:
«Se as ideias democráticas parecem em decadência desde a guerra, é porque os povos experimentados pela dura escola das trincheiras já não se contentam com a carne podre da ideologia.
Os democratas, ou aqueles que tal se crêem, dão o exemplo funesto da inorganização do esforço, da desordem dos métodos, da anarquia das ideias. Eis porque os povos experimentados pela guerra, ou nascidos para a liberdade no seio da paz, e que sentem a necessidade vital de se refazerem ou de se constituir, procuram, por instinto, a ordem pela autoridade

Foi por aquela mesma época que António Sérgio escreveu no diário A Pátria, de Nuno Simões, um artigo que veio a ser esquecido, tanto por ele próprio - que esqueceu, coitado, tanta coisa! - como pelos seus companheiros de antifascismo.
Nesse artigo, intitulado Fascismo e Primo-de-Riverismo, comentava ele o golpe de Estado de Primo de Rivera, que pouco antes sacudira a Espanha, estabelecendo uma ditadura que durou mais de seis anos. Era um mau exemplo para a turbulenta democracia portuguesa. Falava-se já muito, entre nós, na necessidade de uma ditadura militar, e o grupo da Seara Nova, alarmado, publicaria em Novembro daquele ano uma carta aberta ao Presidente da República, Teixeira Gomes, recentemente eleito, na qual denunciava o perigo desta ditadura. Um mês depois, diga-se de passagem, António Sérgio era nomeado ministro da Instrucção, lugar onde não conseguiu por sinal aguentar-se mais de dois meses.
Mas voltemos ao artigo de Sérgio, que é do teor seguinte:
"Na Espanha a revolução, uma vez senhora do Estado, decreta a criação do somaten nacional; na Itália, um somaten nacional, espontaneamente organizado nas entranhas do país, faz a revolução; na Itália a revolução tem por símbolo um feixe de varas, que um vínculo uniu, colocando-lhe ao meio a machadinha; na Espanha não houve varas, nem o vínculo para as unir; tão-só o machado, que por sinal é uma espada; na Itália vemos uma árvore que saiu de um germe na terra mãe, onde criou suas raízes, para depois subir, subir, subir, até dar um dia como fruto o governo de Mussolini; na Espanha surge repentinamente um fruto artificial, espetado numa espada, que depois procura lançar para a terra as raízes que não teve; o fruto dita, por decreto, a criação das suas raízes.
Está nisto, supomos nós, a diferença essencial dos dois movimentos, e a imensa inferioridade do espanhol em relação ao italiano.
Em Itália, o movimento foi moral, social, nacional, criado com espírito, com coração, com generosidade, com esto, com fraterna elevação de ideias; houve clara inteligência e sentimento fervorosíssimo. E em Espanha?
Em Itália (por outras palavras) há verdadeira religiosidade, larguíssima nobreza de pensamento. Eis aqui a jura dos 15.000 fascistas de Placença:
"Pelo sangue dos nossos 2.000 mártires, que invocamos como testemunhas e juizes dos nossos actos, nós, os Camisas Negras de Placença, juramos que durante um ano não usaremos em nossas pessoas nenhum oiro, prata, ou quaisquer metais ou pedras preciosas. Trabalharemos fervorosamente sem salário pelo bem da nossa Pátria. Daremos todos os nossos ornamentos supérfluos para um fundo destinado a custear obras que tenham por objecto a bondade, a civilização, a beleza, o melhoramento cívico."
Ideias positivas, clara e concretamente concebidas, atmosfera de generoso e religioso sentimento: tais são as condições de uma reforma criadora. Tudo se facilita quando o movimento político sai das ideias positivas claramente concebidas e dos sentimentos positivos religiosamente generosos; tudo se dificulta se o movimento, ao contrário, começa por ser político, na acepção estreita dessa palavra, feita por políticos profissionais (ou por militares) e ainda mais se é vago nas ideias, e principalmente negativista.
A situação de Primo de Rivera, portanto, é muito menos nítida que a de Mussolini. O movimento de Mussolini sai de um movimento nacional; Primo de Rivera tem de criar, encarrapitado no poder, o movimento donde devia ter saído. Mussolini, tendo sido um socialista, tem a noção dos problemas sociais; Primo de Rivera, um puro militar, anda à procura de quem o ensine.
Por enquanto a tarefa é fácil, à altura da inteligência de um contínuo: verificar se todos os funcionários comparecem; se os há em excesso, substituir vereações por comissões, acusar os políticos de imoralidade, etc.: coisas que exigem coragem, tesoura, força, mas que se podem realizar sem inteligência e sem saber. Em suma: a parte negativa da obra. Útil e louvável, sem dúvida nenhuma, mas fácil e negativa. Ora isto não basta; o pior é que não basta. A Espanha necessita de uma obra positiva e criadora. O problema é se Primo de Rivera, quando a parte negativa estiver pronta, terá já reunido em torno de si aquela porção de pensamento claro, de ideias positivas, de competências técnicas, de sentimento religioso com que contou e com que conta o ditador italiano. Os gentiles de Espanha, por enquanto, parece que não são dos riveristas. Aí vejo eu a dificuldade.
Se volvermos de Espanha os nossos olhos para o problema cá da casa, verificaremos que Primo de Rivera (se me não engano, o que é possível e até provável) se parece com Sidónio Pais, estando arriscado, portanto, a cair no charco de incompetência em que foi resvalando, desde princípio, o Rivera português: Mussolini, porém, não se parece absolutamente nada com o que tem aparecido em Portugal - não dizemos pela sua pessoa, o que para o caso menos importa, mas no movimento de que brotou. Existe (dizem) quem queira fazer por cá o que se fez na Itália e se fez na Espanha. Distingamos. O que se fez na Espanha, creio eu, seria possível em Portugal, afora os óbices acidentais; o que se fez na Itália, não. Por outras palavras: em Portugal há pessoas como Primo de Rivera, e acaso também como Mussolini (concedamo-lo); há generais, capitães e soldados, como os de Espanha; mas nada que se pareça, por enquanto, com os Camisas Negras do italiano.
That is the question."



Barradas de Oliveira A Rua», n.º 220, pág. 19, 28.08.1980)

"L’homme cet inconnu"

Alexis Carrel foi Prémio Nobel da Medicina em 1912.
A Academia Sueca honrou com isso os trabalhos do ilustre professor francês (também com nacionalidade americana, o que é menos conhecido), nomeadamente sobre a sutura dos vasos sanguíneos e a recolha de tecidos, que fazem dele um pioneiro de toda a cirurgia, e sobretudo das técnicas de transplante de órgãos.
Mais tarde, no ano de 1935, Alexis Carrel publicou um livro que gozou logo de grande notoriedade, e ao longo das décadas seguintes teve edições sucessivas, tornando célebre o autor.
O livro em causa, “O Homem esse desconhecido”, desenvolvia as sua reflexões sobre o homem, a ecologia, a hereditariedade biológica, a ideia de selecção, além do mais.
Passados os tempos, o livro caiu no esquecimento.
Entretanto, o cientista e professor de Medicina, que foi também um dos mais famosos convertidos ao catolicismo numa época de conversões célebres, ficou com o seu nome em quarenta ruas e hospitais de múltiplas cidades francesas, em pública homenagem ao seu trabalho de cientista, de professor, e de médico nos hospitais franceses.
Há uns tempos, os comissários políticos da esquerda bem pensante descobriram o livro outrora famoso e depois esquecido. E as concepções sociológicas e antropológicas de Carrel mereceram severa reprovação – não são nada correctas, politicamente falando.
Daí nasceu uma frenética campanha de apagamento da memória, com manifestações, comissões, petições, abaixo-assinados, e toda a costumeira parafernália das encenadas indignações: o nome de Alexis Carrel tem que desaparecer das ruas e hospitais franceses, e o autor deve ser para sempre sepultado no esquecimento.
Estabelecida a lista e fixada a agenda, a depuração avança. Tremendo perante as imposições do politicamente correcto, as instituições foram cedendo uma a uma.
Naquele afã tão característico de reescrever os nomes das coisas, até agora vinte e duas cidades desbatizaram ruas e hospitais, retirando o nome de Alexis Carrel. A mais recente limpeza foi o nome do Hospital de Compiégne, onde Carrel foi director e onde a sua acção durante a guerra salvou milhares de vidas.
Conto isto para o caso de algum leitor encontrar por aí algum exemplar do livro maldito, ou saber de alguma biblioteca que o tenha: tire fotocópias, guarde, esconda, não diga a ninguém. Big Brother está atento e vigilante.


Segunda-feira, Outubro 20, 2003

Inspirada inspiração

Senhoras e senhores, caríssimos amigos: é bem verdade! Em cada português habita um poeta! E, inopinadamente, também eu fui tocado pelas musas.
Aqui fica à apreciação geral o fermoso fruito da minha inspiração.

O projecto

Chego agora à conclusão
Que neste mercado blogal
O meu blogue pobrezinho
Não é concorrencial.

Sem uma remodelação
Para mudar a fachada
Não passa da cepa torta
Não ganha prémios nem nada.

Já tenho um projecto porreiro
Aqui em cima da mesa
O que não tenho é dinheiro
Para enfrentar a despesa.

Mas não desisto no caminho,
E nem fico atrapalhado,
Que eu até tenho um padrinho
Muitíssimo bem situado.

E o tal projecto a final
Irá merecer, não duvido,
Após aprovação estatal,
Subsídio a fundo perdido.

E o meu blogue renovado
Enfim moderno e actual
Vai dominar o mercado
Na nossa aldeia blogal.

Vai ser um defensor certo
Dos princípios liberais
Mercado livre e aberto
Sem distorções desleais.

E, palpita-me o coração,
De cabeça feita aos louros,
Conquista a consagração
Dos prémios do Mata Mouros!

Domingo, Outubro 19, 2003

Afinal em que ficamos?

Peço mil perdões pela ordinarice, mas hoje excepcionalmente o meu blogue vai baixar o nível – até ao socialismo vulgar.
Isto por força do caso tão falado de terem vindo a público as gravações das conversas em que o chefe máximo dos socialistas proclamou, solene e enfático, “tou-me cagando para o segredo de justiça”.
Na sequência dessa divulgação, emitiu o Partido Socialista um comunicado indignado onde reclama contra a violação do segredo de justiça e apela ao rigoroso respeito por este.
Naturalmente que fiquei com dúvidas quanto à verdadeira posição dos socialistas sobre o segredo de justiça.
Afinal cagam ou não cagam?
E se eles cagam ... porque não hão-de cagar os outros? Ou há moralidade ou cagam todos!
Ou será que querem cagar sozinhos? Eles cagam ... e os outros ... respeitam?!!
Ou ainda, derradeira hipótese, cagam ... mas não queriam que se soubesse?

Vinícius de Moraes

Como bem lembrou o “Nova Frente”, o poeta Vinitius de Moraes (foi batizado com t e não com c) nasceu a 19 de Outubro de 1913.
Faria portanto 90 anos no dia de hoje, se não tivesse partido num dia já remoto do Verão de 1980.
Vinicius, como escolheu chamar-se, alcançou a fama universal com a bossa nova – quantas voltas ao mundo terá dado a sua “Garota de Ipanema”!
Mas para além das glórias musicais foi realmente um extraordinário cultor da arte poética, dedicando-se especialmente à difícil arte do soneto – na senda de Camões, de Bocage, de Florbela e de Sardinha, exímios sonetistas.
Para não ficar atrás do “Nova Frente” assinalo este dia como um soneto de Vinicius, creio que um dos mais perfeitos, e mais conhecidos.
O “Soneto da Fidelidade”, que o poeta fez para sua primeira mulher, Tati (depois teria muitas outras, pois também nisso se esmerou até ao exagero).


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.