Terça-feira, Novembro 25, 2003

Fascistas!

E como têm notado alguns bloggers mais vigilantes, parece que andam por aí uns perigosos fascistas a pedir música.
Pois que vão ao sítio certo, e descarreguem à vontade.

Giovinezza, Giovinezza, primavera di bellezza
nella vita e nell'asprezza, il tuo canto squilla e va.

CELESTINO DAVID

Nasceu na Covilhã, em 1880 e faleceu em Évora, em 1952, depois de ter vivido quase meio século no Alentejo, onde constituiu família e do qual foi sempre entusiasta e apaixonado.
Como poeta, publicou: "O Livro de um Português"; "Alentejo Terra de Solidão"; "Poemas Regionais"; "Évora Rapsódia de Imagens" e "Poemas Alentejanos".
Além dos livros, deixou também larga descendência, entre filhos, netos e bisnetos - não sei se também plantou árvores ou não, mas é certo que obra não lhe falta.

PRELÚDIO

Da terra alentejana as graças canto
Em versos claros de lirismo e cor.
Traduzo a vida, a luz e tudo quanto
Distingue e doira o meu país de amor.

Com devoção exalto, ao céu levanto:
O vinho feito sol, o trigo em flor,
A lã divina, a calma do seu manto,
A carne, o pão, e o tempo criador.

A vida escuto, a sua origem traço,
Da seiva ausculto a vibração que morre
Em voz e cor de cântico disperso...

Com alma e fé a linda terra abraço,
Aspiro o forte aroma que a percorre
E tento dá-lo, vivo, a cada verso...


Celestino David

João Branco Núncio

Em Novembro de 1976, no primeiro número da revista “A Semana”, de Miguel de Araújo, surgiu uma comovente despedida a João Branco Núncio, na hora do seu desaparecimento. Foi escrita por Mascarenhas Barreto, multifacetado autor, muito mais conhecido pelas suas incursões na História (o “Colombo Português”) do que pela sua vertente de aficionado.
Aqui fica essa vibrante homenagem a Mestre João Branco Núncio (a ele que nunca gostou que lhe chamassem mestre...), o maior vulto da tauromaquia portuguesa, nobre figura de alentejano, cavaleiro e lavrador.


UM HOMEM: João Branco Núncio

Que outra figura poderia escolher para breve antecâmara de crónicas taurinas?
Raros homens, neste século de galopante putrefacção do carácter, reuniram, como ele, tão altas virtudes de português autêntico: o amor à terra, a coragem moral e física, a generosidade discreta - quase humilde - o sacrifício abnegado nas mais cruéis circunstâncias.
Vejo-o fechando na mão tisnada um punhado de torrão seco, enquanto os olhos perscrutavam um céu desesperadamente nu de ansiada chuva. Na luta contra a terra, conquistara honradamente os frutos que generosos só são quando por eles se sangra um trabalho tenaz, constante.
Vejo-o fechando na mão tisnada o ferro com que, nas arenas ardentes de sol e emoção, desafiava o toiro, na mais nobre e tradicional festa popular portuguesa. Na luta contra a fera, soubera grangear o mais alto troféu de um toireiro: a admiração, o amor do povo que, ali, com ele se irmanava na valentia instintiva, no gosto por essa arte cinética secular.
Vejo-o, enfim, fechando na mão tisnada as rédeas amargas, quando vilmente espoliado da enxada que sempre trouxera na carne para desbravar a terra, empunhava agora a única que lhe restava - na alma: a do toireio equestre.
A este trouxera a inovação, o sentido simplista de síntese e medidas, e uma grandeza inolvidável.
Não só como Centauro se oferecera aos toiros. De igual, lidava-os a pé, de capote e muleta; corria-os em campo aberto, na euforia do derrube, no apadrinhamento da apartação dos bezerros - a mesma euforia e também o mesmo anseio criador com que sofria o despontar e o envigorar das searas, dos arrozais, da vida que só a terra dá e o homem rouba...
Com Núncio passou o toireio equestre a definir-se por axiomas diferentes, magistrais. Poder-se-à dizer que se tornou fronteira de estilos na lide montada: antes de Núncio; depois de Núncio. Contudo, na sua modéstia natural parecia não se aperceber de que criara uma nova era tauromáquica que seus contemporâneos seguiriam: os cânones nuncistas.
Como Juan Belmonte, para o toireio a pé, João Núncio foi expoente máximo para o toireio a cavalo. Em crónica futura se falará desta Arte.
Nasceu João Alves Branco Núncio a 15 de Fevereiro de 1901, na Herdade de Parchanas, de São Romão, para onde seu avô, Joaquim Mendes Núncio, lavrador da Golegã, se trasladara, em 1878. Aí, em Alcácer do Sal, cingiu esporas. Aos 13 anos, a 23 de Agosto de 1914, toireou pela primeira vez em público, num cavalo - Teodoro - que fora de Manuel Casimiro, quando a glória da "Festa Brava" equestre se disputava entre este cavaleiro e o Morgado de Covas. Depois, alternando com seu pai, Inácio Augusto Murteira, surgiu na Praça de Évora, a 20 de Setembro desse mesmo ano, "não apenas como um caso de precocidade, mas também, e principalmente, como deslumbrante revelação artística" - aplaudiu a crítica: era a sua segunda corrida.
Finalmente, veio a hora da regra tradicional: na tarde de 27 de Maio de 1923, António Luís Lopes concedeu-lhe a alternativa, na Praça do Campo Pequeno. Ele próprio a concederia, mais tarde, a onze cavaleiros tauromáquicos: Dr. Fernando de Andrade Salgueiro e Dom Vasco Jardim (1938), Francisco Murteira Correia (1943), Eng.° José Rosa Rodrigues (1944), Dom Francisco de Mascarenhas (1945), Francisco Sepúlveda (1952), Gastón dos Santos (1954), seu filho, Eng.° José Barahona Núncio (1962), Eng.° José Samuel Lupi e Alfredo Conde (1963), Frederico Cunha (1968) e José João Zoio (1972).
Em Espanha, onde múltiplas vezes ergueu as praças de entusiasmo e admiração, foi o primeiro cavaleiro português a matar toiros, a cavalo, a estoque. Em Portugal, consagrou-o o povo como sendo "o maior". Era-o, de facto: o maior vulto da história do toireio a cavalo em todo o mundo.
Depois, não mais parou de empolgar as arenas, senão quando o acidente da queda de um cavalo aniquilou seu filho e o desgostou para sempre de honrarias, ovações.
Contudo, aos 75 anos - salvados três cavalos do assalto infame da negra saga de ocupações predatórias - não lhe faltou coragem para enfrentar, de novo, a vida nos redondéis. Por fim, na Golegã, quando serenamente preparava um dos corcéis, veio a enfrentar a morte - derradeiramente.
Estava a cavalo, enforquilhado na sua sela-charrua; pés bem firmes nos estribos da honradez, da dignidade.
Pelos olhos nublados, entre terra e céu, ter-lhe-iam desfilado, nos cenários edénicos verde-azuis das lezírias e calmosos verde-pardos das charnecas, essas montadas fiéis em que se prolongara a sua imagem cavaleira: Relâmpago, Santander, Pregonero, Alpompé, Lidador, Numerário, Quo Vadis, Pincelim, Sultão, Gaio, Malhinha, Marialva, Temporal, Gaiato, Ribatejo, Glorioso, Garoto e tantos outros, crinas ao vento, alados como pégasos. Também os toiros, não como adversários de violência animal, mas como nobres lutadores leais (que não os homens semeadores de ódio) e sobretudo aquele inesquecível Trompeta que foi base da sua ganadaria de sangue Urquijo.
Inscreveu-se Núncio ao centro de um triângulo: Toiro, Cavalo, Terra. Triângulo iluminado de amor, quase signo da Pátria que ele visceralmente vivia. Nunca a traiu. Quem da vida faz altar de trabalho e esperança não pode - não sabe trair.
À terra desceu, entre o amor dos homens - não da escassa escumalha arrebanhada por traidores rapaces, mas do povo-Povo, em cujas veias corre sangue puro, como os ares lavados das manhãs campestres: seiva da própria terra.
Morto para a Pátria - com a Pátria -, outro triângulo mais alto o ilumina: o signo de Deus.


Mascarenhas Barreto

1º de Dezembro

Os meus amigos já pensaram como vão comemorar o 1º de Dezembro?
Lembrem-se que um dia destes pode ser proibido ...

PARA UMA ALTERNATIVA

A insistência nas causas profundas da crise ou decadência nacional contemporânea - o espírito do arrivismo, oportunismo e amoralismo sistemáticos, de uma classe dirigente sem princípios nem objectivos comunitários - leva à consideração de uma alternativa consubstanciada na restauração, numa perspectiva metapolítica, de uma ética e de uma concepção do mundo, do Estado, da Sociedade, como corpo de valores anterior â formulação pragmática das soluções. Mas esta ética ou concepção metapolítica não pode ser confundida nem com uma ideologia - uma mundivisão com tendência para o reducionismo e para o receituário programático geral - e ainda menos com uma cartilha de postulados preceituais, que encerram, magicamente, a verdade das verdades. A vivência ética do Estado e da Política não se corporiza nem espartilha em dogmas ou vademecuns, mas realiza-se na pesquisa e na realização existencial dos Valores, admitindo a prova contraditória e aceitando o juízo e a sanção da comunidade.
A reforma (ou revolução) intelectual e moral do País é, pois, a condição sine qua non, da restauração nacional. Assim como as falsas concepções e os pseudovalores trouxeram a dependência e a decadência, assim as perspectivas de uma política do real hão-de trazer o quadro mental para as soluções.
Tendo uma opção de teoria e valor, a sua dinamização social e comunitária depende dos seus suportes humanos, entendidos como os núcleos de intelectuais, de quadros, de militantes, de cidadãos activos e capazes de entrega e de serviço. Nesta pista haverá que procurar naqueles grupos que fizeram a prova de fogo da generosidade e da dádiva cívicas - como os combatentes - ou que por condição geracional estão libertos da teia manipuladora e paralisante das dependências e interesses criados - como os jovens - a massa crítica de recrutamento dos elementos para uma acção política renovadora. Os núcleos de mobilização e aglutinação de tais forças - ligas, núcleos universitários, movimentos - deverão ser dinamizados e projectada a sua acção numa perspectiva independente mas de convergência unitária, com base num projecto que seja em princípios, em valores e em estilo frontalmente distinto e alternativo à classe política.
A crise nacional tem também, na sua raiz, uma «traição dos intelectuais». Muitos dos mandarins e literatos empenharam-se,, no contrapoder e no grupo de pressão marxizante e, no seio do actual regime, constituíram lobbies que se anicham nos media, nos institutos e nos centros de poder e intoxicação da mediocracia partidocrática, contribuindo para manutenção do statu quo onde, ao lado de tecnocratas e burocratas do sector público e da direcção político-económica do sistema, participam na classe política. Que os intelectuais patriotas e independentes, dentro e fora da Universidade, constituam o contrapoder e a contracultura do sistema, contribuindo para revolução cultural nacional, eis a resposta ao sistema e o seu modo ideal de servir. E numa época propícia, já que, por todo o mundo euro-americano (e entre nós por reflexo) se observa uma decadência do modelo evolutivo e das suas várias versões, que só têm servido para aprisionar ou empobrecer os povos, e uma expectativa de regresso ou instauração das grandes certezas e valores comunitários.
O tempo é escasso e os perigos múltiplos nesta década e meia que nos separa do milénio. Entregues a uma alternativa diabólica dentro do regime - entre os moderados thermidorianos que, cada vez mais isolados ocupam o poder, e os maximalistas radicais que já entraram nos caminhos da desestabilização e da conspiração para o assalto ao Estado - todos os portugueses, patriotas e independentes, que cuidam do bem da Pátria, da continuidade da Família, da defesa das liberdades reais, têm de intervir, com disciplina, com lucidez e com coragem na vida pública, sacrificando os seus gostos e as suas repugnâncias circunstanciais, para cumprir o seu dever.
Só assim sobreviveremos como Nação; só assim podemos continuar como homens livres.

Jaime Nogueira Pinto (1985)

Segunda-feira, Novembro 24, 2003

Apoio à Vítima

Nestes tempos difíceis em que toda a sociedade se confronta com a realidade do crime, importa não esquecer a realidade da vítima.
Existe uma grande organização destinada a institucionalizar mecanismos de apoio à vítima (psicológicos, médicos, jurídicos, ou outros). É a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
A APAV é uma organização de voluntariado social. Os voluntários são a força solidária da APAV e a razão do seu sucesso, disponibilizando determinadas horas por semana para apoiarem gratuitamente as vítimas de crime.
Quem sente a vontade e a disponibilidade para fazer qualquer coisa, tem um caminho: contacte a APAV.

MFA e partidos

Ainda não parei com as recordações do ano de 1974. Não se diga que são lembranças sem interesse, meras curiosidades sem relevância histórica. Com efeito, o quadro político-partidário ainda hoje vigente nasceu dos acontecimentos de então. Os que não passaram dessas eliminatórias nunca mais entraram no campeonato. E os escolhidos da altura monopolizaram até agora a representação política. A direita escolhida pelo poder militar para subsistir e ficar a representar essa função, de modo a poder ser apontada como tal para o estrangeiro apreensivo, foi o CDS. Não pode deixar de notar-se que o relatório oficial sobre os acontecimentos do 28 de Setembro nem uma só vez refere a existência do CDS, que já estava em pleno funcionamento desde Maio anterior. E o certo é que faz referência a acontecimentos concretos, ligados à preparação da famosa manifestação da maioria da maioria silenciosa, em que para além das pessoas e organizações que são mencionadas estiveram também pessoas do CDS e o próprio partido – pelo menos tão envolvidos como outros que ficaram apontados para pagar a conta.
Ou seja: o documento em causa parece-me tão revelador pelo que esconde como pelo que diz. Quem tomou o poder em 28 de Setembro de 1974 fez claramente opções sobre quem podia e não podia continuar em campo. Consequentemente, os partidos, organizações e jornais a quem saiu bola preta foram de imediato ocupados e saqueados, os seus responsáveis presos, e os que não o foram tiveram que exilar-se ou calar-se.
Os seleccionados para, embora de forma condicionada, continuar no sistema a representar a direita e o centro, foram apenas o PPD, porque já estava no governo, e o CDS, porque até estava representado no Conselho de Estado, e tinha fortes ligações internacionais – e sobretudo porque nessa fase a revolução ainda temia as reacções exteriores se avançasse também contra esses.
A evolução posterior veio a determinar que o sistema partidário se consolidasse assim – de modo ainda mais fechado e definido quando o permanecente PDC foi também colocado fora de jogo logo em Março seguinte.
Em resumo: os acontecimentos despoletados pela inventona do 28 de Setembro, completados depois com o processo ligado ao 11 de Março, foram o verdadeiro acto fundacional do sistema partidário português. O pacto MFA-Partidos só reduziu a escrito o contrato já imposto aos aderentes.

Termino agora com um saboroso naco do inestimável “relatório do 28 de Setembro de 1974”, onde os briosos investigadores militares puseram a nu as tenebrosas maquinações da reacção.

“6. Os meios de comunicação social eram, aliás, um dos pólos de atenção dos mentores da ofensiva da extrema-direita.
A sua utilização surge na sequência de uma campanha de dinamização política e financeira liderada por um grupo de influentes elementos fascistas que se organizaram para esse fim, entre os quais se destacam os nomes de: General Kaulza de Arriaga, que assegura o apoio financeiro; Pedro Feytor Pinto, que, perante a "importância dos jornais das vilas", para eles pode fazer uma útil "canalização"; Luís Folhadela de Oliveira, que escreve a um amigo de Vila Nova de Famalicão a comunicar-lhe que "a Rádio Alto-Douro, da Régua, pertence a um tipo fixe que está avançado em idade e quer que se faça barulho" e que andava a averiguar “quem é o titular de uma hipotética licença de estação de rádio para Braga"; Artur Agostinho, de cujos serviços este grupo se procura assegurar.
Diga-se ainda que outro dos propósitos confessados de tal grupo era o lançamento de dois jornais diários - um no Porto e outro em Lisboa; e que o apoio aos periódicos primeiramente mencionados era também ponto assente, em particular depois de, numa reunião efectuada no Algarve em Agosto, com a presença de José Harry de Almeida Araújo e de um indivíduo português da ITT, se ter concluído pela enorme dificuldade em conseguir posição nos capitais das empresas proprietárias de publicações e estações emissoras.
7. A utilização nesta campanha de certos meios de comunicação baseava-se, como é evidente, em três pressupostos:
- 0 de ter a reacção necessidade de fomentar a criação de um clima social propício ao desenvolvimento da manobra que intentava empreender, pelo descrédito que pretendia lançar sobre o Governo Provisório, sobre o Movimento das Forças Armadas e sobre o processo em curso desde o 25 de Abril, de modo a que ficasse justificada a instauração de um poder pessoal que salvasse a Pátria;
- O de serem eles veículos através dos quais poderia fazer chegar a sua voz junto das massas menos politizadas e, por isso, mais sensíveis às ideias que lhes desejava impor, pelo desempenho fiel e sectário do papel que a esses meios de comunicação reservava no contexto da ofensiva - preparação psicológica de certas camadas da população (maioria silenciosa ou não); e ainda
- O de vigorar no País uma liberdade de imprensa que lhe possibilitava pronunciar-se quase impunemente contra a nova ordem estabelecida, pela subversão ideológica confundida e baseada no uso de tal liberdade.
8. Por outro lado, era imperioso para as forças reaccionárias disfarçarem o seu reagrupamento e as suas actividades. Recorriam, para tanto, à invocação de fachadas partidárias muito próprias, sob as quais pretendiam entrar no jogo democrático, que não aceitavam afinal, mas que no condicionalismo presente lhes poderia servir de via para alcançarem os seus objectivos anti?democráticos.
Por isso, as organizações políticas à sombra das quais se refugiavam nomes altissonantes do fascismo, foram surgindo. Sem preocupações cronológicas, refiramos algumas das que mais directamente se relacionaram com o "28 de Setembro" e caracterizemo-las brevemente: (...)


Fica para outra vez a descrição das organizações proscritas, e dos facínoras a elas ligados. Tenham paciência, e não desamparem o blogue.

NOVA DIREITA - OS NÓS DA QUESTÃO

"Nova Direita" é uma designação inventada pela esquerda francesa. Mas que foi aceite, ao menos como bandeira provocadora. A realidade das ideias é mais complexa e deve ser situada com mais rigor.
Se me perguntassem sobre o que entendia como Nova Direita, diria muito simplesmente - e não há como ousar definições para a gente entender-se de uma vez para sempre - que poderemos defini-la como a Direita que avançando para um diálogo com a Ciência e incorporando novas áreas de preocupação, veio a confirmar cientificamente noções que já eram património da Direita tout-court. Ou seja: a “Nova Direita” trouxe à Direita a confirmação científica das suas principais noções. Pela atenção dada aos novos ramos de investigação, os autores que se reclamam da Nova Direita vêm dizer à Direita que as novas descobertas da Ciência confirmam os seus princípios fundamentais e que não há nada a temer - antes pelo contrário - do que se vai descobrindo no campo científico.
As noções de território, hierarquia, pessimismo sobre a natureza humana, desigualdade, totalidade, unidade orgânica, ganharam nova confirmação através dos trabalhos desenvolvidos pelas Ciências que se situam na vanguarda da investigação, desde a Etologia e a Genética das Populações, à Física Teórica e à Teoria Geral dos Sistemas.
“Diálogo com a Ciência” não quer dizer “cientismo” e é importante distinguir-se para poder responder a algumas observações que justificadamente se têm feito e a que não se tem dado a resposta pertinente.
Não se trata de culto da Ciência pela Ciência pois, a ser assim, cairíamos num reducionismo e num relativismo que levariam a erigir a descoberta de cada momento na verdade absoluta, passível, também a todo o instante, de ser revogada. Dar-se-ia o caso de haver descobertas que hoje postulam ou confirmam princípios da Direita, e amanhã logo as impugnam, porque novos dados contestariam o que hoje se tinha como certo e irrefutável.
Trata-se, tão só - ao contrário do que tem sido comum às teorias políticas tanto da esquerda como da direita - de dar atenção ao universo científico, recolhendo - por parte da Direita - a decantação que se vai fazendo e registando dos eixos fundamentais da investigação que se processa.
É sabido - ou deveria sê-lo - como a Mecânica Analítica, teorizada no século XVIII, repercutiu em todo o pensamento que se lhe seguiu, da Ciência à Política, e como a noção de substância fundou todo o conhecimento posterior. Postas em causa uma e outra, surgida a noção de campo, implementada desde a Teoria do Campo Electromagnético até à do Campo Unificado, que a Física Teórica mais avançada desenvolve, é lógico que a sua repercussão nos vários ramos do Saber terá de se sentir. E isto é verdade para uma série de outras noções que o património científico vai adquirindo e que também inevitavelmente acarretará sequências no plano doutrinário.

Divulgar e sintetizar

Quando Konrad Lorenz formulou os princípios fundamentais da Etologia partiu da recolha prévia de dados fornecidos por variados investigadores que trabalhavam, cada um, no seu campo particular de pesquisa. Um dedicava-se ao estudo dos macacos lemures. Outro a certa espécie de pássaro, aquele mais além virava-se para o estudo dos gorilas no Jardim Zoológico de Londres, e por aí adiante. A difusão destes conhecimentos, a sua divulgação feita por Lorenz, levou a criar--se uma corrente muito forte de interesse pela investigação do comportamento animal, de que nasceria uma nova síntese, pois a divulgação feita por Lorenz eclodiria necessariamente num novo enquadramento uma vez que a perspectiva com que esses trabalhos eram apresentados eram só uma e a mesma.
Como se sabe, não há divulgação atomística; há sempre uma ordenação prévia que acaba por hierarquizar os dados fornecidos dando-lhes, mais tarde ou mais cedo, nova animação.
Foi exactamente isto que sucedeu com os trabalhos de Alain de Benoist e é desde esta perspectiva que tem de ser analisada a sua “Antologia das Ideias Contemporâneas”, vista desde o ponto de vista da Direita. Não quero dizer com isto que desses trabalhos saia toda uma nova ciência ou uma nova filosofia; o que eu quero dizer é que está subjacente uma visão e uma ordenação que permitem estabelecer o trânsito da simples divulgação para a teoria, para o pensamento, que vem integrar novos dados num fundo que é permanente.
É neste plano que deve ser analisada a sua obra, e não noutro. E é neste plano que a minha geração lhe deve um serviço inestimável, eliminando certos preconceitos e evitando que caíssemos na perniciosa e tradicional alergia da Direita à Ciência, provando, pelo contrário, que nada temos a ver com o campo arqueológico vastíssimo que ainda é o pensamento político institucionalizado e vigente.

José Valle de Figueiredo

Domingo, Novembro 23, 2003

O pensamento e a acção

Nestes tempos em que a lucidez mandaria limpar armas, a imagem oferecida pela área dos que se dizem nacionalistas é deveras desoladora. Para os que guardam a ilusão de que tudo poderia ser diferente deve ser mesmo angustiante. Numa época em que todos os sinais dos tempos parecem indicar a iminência de grandes coisas, quando o mundo em que nascemos parece abanar por todos os lados e estar em vias de afundamento, seria de esperar que os que a si mesmos se elegeram paladinos de uma Nova Idade ao menos se erguessem em vigilância tensa, aptos e disponíveis para os combates que não podem deixar de vir.
Mas não. É como se os nacionalistas portugueses à força de “viver habitualmente” lhe tivessem tomado o gosto. Mesmo quando tudo aconselha a fazer o contrário. Parece que a habitualidade lhes corroeu a imaginação e a audácia, a inteligência e a fé. Assim, enquanto muitos dormem outros fazem flores.
Alguns limitam-se a repetir erros antigos; no entusiasmo gregário de fardas, hinos e bandeiras, esquecem as ideias, que são sempre o mais importante. Movem-se em círculo fechado, parados no tempo, fazendo gala de uma estética ultrapassada e de uma linguagem que só ela constituiria barreira suficiente para impedir a aceitação pela massas, cujo espírito crítico é apesar de tudo capaz de rejeitar a retórica balofa de quem nada traz de novo.
Outros nem se dão ao luxo de cometer erros. Encerraram-se nas suas torres de marfim, inventaram alibis mais ou menos consoladores para as próprias consciências, e esperam em casa que a história lhes vá bater à porta.
Poucos são os que, no cepticismo de quem conserva a cabeça fria e o espírito lúcido, se mantêm no seu posto sem desânimo nem descrença, sabendo que o futuro começa agora e que Deus costuma ajudar aqueles que se ajudam. Na trincheira que a cada um de nós coube sabemos que é preciso dar forma nova às verdades eternas, deixar morrer o que merece ser enterrado para afirmar no seu fulgor imaculado os princípios que nos comandam. Dentro da linha de modernidade e vanguardismo que é própria dos que se querem construtores do Futuro.
Apesar do panorama traçado não se julgue que pensamos haver razão para derrotismos. Antes pelo contrário: pensamos que o desespero é uma estupidez desprezível. Parece-nos que nada há de estranho em que as coisas sejam como são, e as explicações nem são muito difíceis de encontrar. E acreditamos que o fermento constituído por aqueles que nunca desistiram de intervir, e conhecem o mundo e a história, e sabem o caminho, há-de ser bastante para vencer a ganga que ao passado pertence e imprimir o rumo que leva à vitória.
Para os que não percebem muito bem o que isto quer dizer, deixamos uma frase para reflexão, esperando não os deixar ainda mais perplexos: “Todas as juventudes conscientes das suas responsabilidades tentam reajustar o mundo. Tentam pelo caminho da acção e, o que é mais importante, pelo caminho do pensamento, sem cuja constante vigilância a acção é pura barbárie”.
A frase é de José António e é sempre grata de recordar por quem sente que ela, por direito adquirido, também lhe diz respeito.


(palavras de um velho amigo deste bloguista)

CEIFEIROS

Estes ceifeiros não são
Os ceifeiros do Fialho.
Têm braços, mãos, almas duras,
Têm fogo no coração,
Têm amor ao seu trabalho,
Por ser trabalhar no pão.

Estes ceifeiros são
Grilhetas, são orgulhosos
De darem, ao mundo, pão;
Porque são eles que o dão
A pobres ou poderosos

Está hoje vento suão.
Está quente, - oh gentes! Está quente!
Vamos lá, outro empurrão!
Não vá desgranar-se o grão ...
- E a fila marcha prà frente.

Range o restolho cortado,
Pela serrilha da foice,
E aquele mar ondulado,
Que foi lindo mar doirado,
Não tem espiga que baloice.

Quando a gente está afeito,
Quase não sente o calor.
Cortar o pão quer-se feito
Co'a ternura, gosto e jeito
Com que se fala de amor.

A espiga está grada e bela.
O Inverno ainda vem longe
E, nesta vida singela,
Ter pão é estar à janela
E poder olhar pra longe.

Estes ceifeiros não sabem
Mais que a vida natural.
Mas têm a intuição que cabem,
As mãos que esta fama acabem,
Dons do sobrenatural.

Francisco Bugalho

Outro professor

Esqueci-me de referir outro blogue feito por um professor: o "Crónicas do Deserto", da responsabilidade, conforme se lê in situ, de um jovem eborense, professor de profissão, socialista e benfiquista por opção.
Fica o mea culpa e a reparação ... é sempre mais fácil escorregar para a injustiça do que seguir o rumo justo.

Vozes de professores

Afinal, existem mesmo vozes de professores a levantar-se e a fazer-se ouvir sobre o ensino e os seus problemas.
Encontrei excelentes textos a esse respeito no "Real Colégio", no "Portugal e Espanha" e no "Blogue de João Tilly".
Em qualquer dos casos, saber de experiência feito. Que outros venham, e se façam ouvir, é o que gostaria de esperar.
Estes merecem leitura e reflexão atentas.

Sábado, Novembro 22, 2003

O silêncio dos professores

Fui professor durante alguns anos. Conheci tanto o secundário, em todos os graus deste, como a universidade.
Já então o panorama era desolador.
Entretanto, segui outros caminhos. Afastei-me. Segundo me dizem os conhecidos que continuaram no ensino, as coisas nestes últimos vinte anos só têm piorado - e todos me transmitem uma visão depressiva e pessimista.
Tenho um amigo que é responsável pelo pelouro do pessoal numa Direcção Regional de Educação. Quando me encontra conta-me sempre com renovado espanto o que aprende aí: as baixas, as juntas médicas, as reformas antecipadas – parece que anda todo o pessoal docente em esgotamento ou quase, com problemas psicológicos ou mesmo psiquiátricos. Tudo à beira de um ataque de nervos (os que ainda não chegaram lá).
E não me admiro: o experimentalismo constante, as reformas sucessivas, as estratégias, o planeamento, as fichas para tudo e para nada, as orientações pedagógicas em mutação permanente, as teorias mais delirantes circuladas à vez por cada nova equipa reinante, os programas, os livros, tudo em revolução incessante, tudo somado a um burocratismo amalucado, são para dar cabo da cabeça mais sólida. Nem era precisa a indisciplina que da sociedade alastra para as escolas e para as salas de aula, fruto da deseducação institucionalizada em casa.
Os resultados do regabofe que tem sido o ensino nestas últimas décadas estão à vista de toda a sociedade: já temos resmas e resmas de licenciados que não sabem escrever – e nem ler, e nem falar, se entendermos estas acções como implicando um domínio um pouco mais que rudimentar do vocabulário e das regras básicas da língua.
Resta referir que tudo isto ainda por cima é sempre acompanhado de optimismo oficial e obrigatório – se não está tudo no melhor dos mundos para lá caminha, evidentemente. E o “sucesso escolar” medido invariavelmente pela não retenção do aluno: se todos transitarem de ano é um “sucesso escolar” retumbante - cem por cento, como dirão os relatórios a enviar para a Unesco.
Acresce que, como todos concordam, não é exagerado afirmar que as questões relacionadas com o ensino e a educação são de tal maneira cruciais que condicionam de todo o futuro da sociedade portuguesa.
Ora é perante estas constatações que não cessa de me intrigar o silêncio de uma classe tão numerosa como são os professores. Perante as experiências em que são passivas cobaias, os maus tratos, o desrespeito sistemático, a degradação que não pára, não se vislumbram reacções, nem públicas nem privadas, que não sejam a resignação, o alheamento, o desinteresse, o afastamento, quando a saturação chega e a paciência ou a saúde não dão para mais.
O direito à revolta, proclamado por um dos pais da pátria que temos, ainda não chegou a tais bandas.

Ordem Nova

O movimento “Ordem Nova” (não confundir com outros que noutras épocas usaram o mesmo nome) foi formalmente criado por escritura notarial de 25 de Julho de 1980. Teve como fundadores António Alves Dinis, António Júdice de Abreu, Eduardo Quinhones da Silva Pereira, Gilberto Santos e Castro, João Carlos Beckert d’Assumpção, Joaquim Navarro de Andrade, José Valle de Figueiredo, Luís da Silva Martinez e Zarco Moniz Ferreira.
Teve a sua sede instalada na Rua Tomás Ribeiro, n.º 8, em Lisboa, num terceiro andar em que sucedeu à “Renovação - Associação Nacional de Estudos Políticos e Sociais”, que ali tinha funcionado nos anos anteriores tendo como principais animadores Santos e Castro e José Valle de Figueiredo.
Uma vez em marcha, a Ordem Nova veio a ser fortemente marcada pela personalidade de Zarco Moniz Ferreira, secretário-geral, que lhe imprimiu os seus traços caracterizadores, nas palavras, nos actos, no estilo, na propaganda, até na encenação visual e estética.
Zarco Moniz Ferreira, entretanto falecido, foi presença constante nestes movimentos, desde o “Jovem Portugal” dos primórdios da década de sessenta até uma efémera “Frente de Libertação Nacional Sindicalista”, que criou em finais de 1977 e funcionou durante alguns meses de 1978 – da qual o que mais lembro foi que publicou um manifesto, uns folhetos, uns dois números de uma revistinha, “Em Frente”, e tinha como jovens animadores António Maria Pinheiro Torres e João Gonçalo Dias Rosas, então estudantes do Colégio São João de Brito.
A Ordem Nova atraiu alguma militância nacionalista, sobretudo jovens, dos meios estudantis e também trabalhadores, tendo a sua ala juvenil assumido todo o destaque, dada a crise que desde o início afectou de notória inoperância os órgãos estatutários (e que aliás haveriam de determinar mais tarde a decisão de dissolver a associação).
Essa juventude foi desde o início liderada por Paulo Teixeira Pinto, então jovem estudante de Direito, na Universidade Livre e na Faculdade de Direito de Lisboa, mas já largamente conhecido nos meios nacionalistas.
Teixeira Pinto desde os seus tempos liceais animara um grupo que ainda hoje tem marcas visíveis nas paredes de Lisboa (“Mocidade Patriótica”), nesse tempo em colaboração estreita com, entre outros, Filipe Gouveia. De seguida, ainda acompanhado por Filipe Gouveia, chefiara a Juventude Democrata Cristã, imprimindo-lhe uma orientação pouco consentânea com a designação. Posteriormente, e após um ensaio de aproximação ao Movimento Nacionalista, este já com alguns anos de funcionamento e estruturas de comando mais ou menos fechadas, surgira então como o responsável da juventude da Ordem Nova, fazendo-o enquanto esta durou com todo o entusiasmo, dinamismo e energia.
Para além de Paulo Teixeira Pinto, militaram nesses primeiros anos da década de oitenta na “Ordem Nova” muitos outros jovens, e alguns menos jovens, dos quais recordo Álvaro Santos (também já falecido), Luís Fernandes, Paulo Jorge dos Santos Filipe, Miguel Teixeira Pinto, Manuel Osório de Aragão, Filipe Silva Carvalho, Rui Tabosa, João Diogo, Francisco Garcia dos Santos, João Salvado Martinho, Pedro Cymbron, José Lúcio, Marcos Miranda, Paula Bussaco dos Santos, João Paulo Silva e Sousa, Luís Catarino, Pedro Pimenta Valentim, Nuno Serra, Bernardo Calheiros, Gonçalo Fragoso, Nuno Sarmento de Beires.

Missa de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 23 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III)
(Em qualquer dos outros dias da semana, de Segunda-Feira a Sábado, é às 19 horas, no mesmo local)

Em Monforte: às 18.30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

Sexta-feira, Novembro 21, 2003

A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA

Em 15 de Fevereiro de 1932,em São Paulo, Plínio Salgado fundou a Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P.), que congregou jovens estudantes das escolas e elementos do maior valor intelectual e moral, que acabaram criando um movimento de profunda brasilidade meses mais tarde: a Ação Integralista Brasileira , que foi fundada oficialmente em 07 de Outubro de 1932.
As Raízes do Integralismo vinham de Euclides da Cunha, quando nos mostra o contraste entre o litoral e o sertão, vinha da inspiração de Gonçalves Dias, dos poemas de Olavo Bilac, enaltecendo o serviço militar, vinha do filósofo Farias de Brito, que incutiu no espírito de Plínio Salgado o sentimento espiritualista, vinha de Alberto Torres, que inspirou em Plínio uma apaixonada orientação Nacionalista, e por fim Oliveira Viana, que na opinião de Plínio Salgado foi o maior sociólogo que o Brasil produziu.
A partir daí, Plínio Salgado organizou a AIB em todo o País, ensinando ao povo a mística da Grande Nação. Os Integralistas passaram a pregar a Unidade da Pátria, a independência da Nação de qualquer influência estrangeira, o culto das tradições e dos Símbolos Nacionais; a moralidade e as virtudes públicas e privadas, o respeito à Ordem e o amor da Disciplina, e à Brasilidade mais pura, e o prestígio ao Poder Central.
Grandes figuras públicas brasileiras no início de suas carreiras políticas cerraram fileiras nas hostes Integralistas, como Gustavo Barroso, Miguel Reale, Câmara Cascudo, Alceu Amoroso Lima e D. Hélder Câmara. De 1933 em diante, o Integralismo prosseguiu sua obra construtiva, fundando nesse período mais de 4.000 núcleos de nacionalismo e propaganda doutrinária; puseram em funcionamento milhares de escolas de alfabetização em toda a Nação Brasileira, milhares de ambulatórios médicos, lactários, farmácias, campos de esporte, bibliotecas, cursos profissionais e outros serviços de Benemerência. Fundaram mais de 100 jornais, dos quais 8 eram diários. Fundaram uma revista de cultura, e realizaram numerosos cursos de altos estudos relativos a assuntos nacionais ou universais. Tudo isso, foi feito mediante um sentido de extrema exaltação mística. O Integralismo organizava-se com nobre aspiração religiosa (Deus dirige o destino dos Povos). Pregavam a Revolução Interior, a mudança de costumes das pessoas. Um verdadeiro ascetismo purificava as almas de milhões de homens e mulheres (em 1936, a AIB chegou a ter mais de um milhão de membros filiados!).

(dedico este texto à memória de Plínio Salgado - que Deus conserve para sempre junto do Si - e ao Embaixador Dario de Castro Alves - que Deus conserve muito tempo junto de nós.)

QUEIMADA

Lenta, ondulante, latente,
Fulgurante ou decadente,
A longa queimada vem,
Na faixa do horizonte.

Avança desde o poente,
Enche a noite e cala a fonte.

Tudo se cala, se encerra,
Em volta na escuridão,
Toda a paisagem se aterra,
Não há estrela na amplidão:
- Que o lume, raso se aterra
Matou-lhe a cintilação.

Há cheiro a palha queimada,
A matos secos ardendo,
Gritos soando, na noite,
Há caça, louca, correndo,
Sem saber onde se acoite,
À espera da madrugada.


Francisco Bugalho

Famílias numerosas

A coragem e o heroísmo podem assumir múltiplas formas.
As menos notadas e elogiadas são as que vivem na tranquilidade do quotidiano, ao nosso lado.
Se eu mandasse, havia um monumento às famílias numerosas; e às mães, e aos pais, que dessas famílias fizeram as suas vidas.
Conheçam a associação - e meditem no que eles dizem.

0 Alentejo na poesia de Miguel Torga

MIGUEL TORGA, acima de tudo poeta da terra, foi uma das vozes que melhor sentiu e cantou o encanto da planura alentejana.
Do seu "Diário", ficam aqui dois pequenos poemas do grande escritor transmontano.

"INSÓNIA ALENTEJANA"

Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...

* * *
Terra parida,
Num parto repousado,
Por não sei que matrona natureza
De ventre desmedido,
Olho, pasmado,
A tua imensidade.
Um corpo nu, em lume ou regelado,
Que tem o rosto da serenidade.

A jumentude

Bem o dizia o meu avô, com a sua sabedoria de alentejano velho.
Estes rapazes de agora são como os frangos de aviário: crescem muito, mas não cantam nem galam nada.

Eu já escrevi sobre isso ...

Aqui neste blogue publiquei eu há tempos sete "reflexões sobre o Iraque", que, confesso, acabrunhado, não impressionaram ninguém. Ninguém achou aquilo nada de especial.
Ninguém, vírgula: eu, ao contrário, sempre achei que se tratava das observações mais bem observadas que já aqui deixei para alheia observação.
Com mais reflexão, continuo a reflectir do mesmo modo. Eu é que tinha razão! Agora até já se fala em público na teoria dos três iraques, já se vislumbram fissuras entre as linhas de orientação americanas e israelitas ...
Se isto vai por este caminho, ainda reclamo estatuto de profeta.
E ainda não expus a minha teoria sobre a "guerrilha universal" ...
Ora vão lá reler, se faz favor.

Quinta-feira, Novembro 20, 2003

Tem música, sim senhor!

E para que não digam que ao meu blogue só falta ter música, ou que me esqueci do 20 de Novembro, ofereço aqui a música adequada ao dia que passou.
Vão ao "Cancionero de Juventudes", e ponham-se em escuta. Recomendo que comecem pelo "Cara al Sol", pois claro, e depois sigam com "Montañas Nevadas", "Prietas las Filas" e "Cubre tu pecho".

Montañas nevadas,
banderas al viento,
el alma tranquila,
Yo sabré vencer!
Al cielo se alza
la firme promesa,
hasta las estrellas
que encienden mi fe.

TOSQUIA

Rente, rente, rente
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Vem do campo, em volta,
Mágico fulgor
De aroma, que solta
O feno inda em flor

Aperna-se o gado,
Pra tirar-lhe a lã.
Ficou encerrado
Desde esta manhã.

Rente, rente, rente;
Que a tesoura corta
E, na tarde quente,
Junho está à porta.

Um halo de neve,
Espuma ou algodão,
Envolve de leve
As reses no chão.

Na luz forte, em roda,
Zumbem as abelhas.
E há balidos soltos
E tristes de ovelhas.

E ao soltar aquelas,
Livres, já, dos velos,
Parecem gazelas,
Em saltos singelos.

Rente, rente, rente,
A tesoura corta.
E, na tarde quente,
Junho está à porta.


Francisco Bugalho

De novo a poesia

Deixando o intermezzo histórico, a que todavia regressarei em breve, volto-me novamente para a poesia. O espírito pode debruçar-se sobre o campo chão das coisas do tempo, mas a alma aspira às alturas. E volto a afixar um poema de Francisco Bugalho, que já mencionei pela sua dedicação a Castelo de Vide e ao agro alentejano. Aqui fica, em manifesto deslumbramento pela paisagem e pelo homem que a enche – sempre a fidelidade às raízes.

CORTICEIROS

No silêncio ardente do dia parado,
Há lida de gente no denso montado.
Há troncos despidos, já lívidos, frios,
E troncos que esperam, em funda ansiedade,
Com gestos convulsos, de sonhos sombrios,
Em dor e silêncio, por toda a herdade.

Os pés descalços trepam ágeis,
Sobem ...
O machadinho crava-se e segura,
Como se fora um croque de abordagem,
O homem
A subir, na faina dura.

E há pasmo na canícula.
E há silêncio, de assombro, na paisagem!

Troncos dilacerados!...

E lembra-me, assim vistos a distância,
- Os vultos a trepar pelos troncos gigantes –
Como, em contos de infância,
Cornacas dominavam enormes elefantes.

- Que os troncos majestosos e inermes
Têm o ar daqueles paquidermes,
Lentos, laboriosos, resignados. –

Desses trágicos braços contorcidos,
Que mais tarde, a sangrar ,
São a gala maior desta paisagem,
E, agora, estão gelados, confrangidos
Pela tortura sem par,
No pino da estiagem,
Vão homens rudes, escuros e suados,
Lenço metido sob o chapéu largo,
Arrancando aos bocados,
Em férrea luta obscura,
Com qualquer coisa de febril e amargo,
A epiderme dura.

- Oh, velhas árvores dos montados!

Movimento Popular Português

Continuando aqui generosamente empenhado em fazer luz sobre os acontecimentos de 1974 que têm vindo a ser referidos de forma notoriamente parcial no blogue “Aliança Nacional”, venho hoje aditar o que a fls. 31 e 32 do “relatório do 28 de Setembro de 1974” ficou escrito pelos desconhecidos membros da “comissão ad hoc encarregada de investigar os acontecimentos do 28 de Setembro”.
Com a autoridade que resulta da sua indiscutível fidelidade ao processo revolucionário em curso, e com conhecimento profundo dos factos, escreveram os dedicados militares de Abril, explicando honradamente que o faziam “após termos procedido à análise de número considerável de documentos e termos apreciado as declarações de detidos e outras pessoas chamadas a depor”, as seguintes linhas sobre os delitos imputáveis a alguns antros de delinquência a que o citado blogue lamentavelmente tem procurado dourar a imagem:

“12. Movimento Popular Português (MPP)
A ideia da constituição de uma frente unida de forças de direita que pudesse "dar combate nas eleições" às forças de esquerda era uma das linhas mestras da actuação deste Movimento Popular Português. Nesta base, pretendia que fosse dada existência a uma Frente Democrática Nacional (FDN), que viesse substituir as iniciativas já tentadas de uma Frente Democrática Unida (FDU) e de uma Frente Social Democrata (FSD), a qual englobaria todos os partidos das direitas.
Surgido em Maio de 1974, o MPP envia, no princípio de Julho, uma carta ao Primeiro-Ministro Palma Carlos em que, agradecendo uma audiência que por este lhe tinha sido concedida, adianta os seus “propósitos inequívocos de contribuir com a sua actividade para compenetrar a grande massa silenciosa dos portugueses das suas enormes responsabilidades nesta hora em que é mister para salvação da nossa Pátria no seu todo pluricontinental a criação de uma grande frente unida para combater o avanço das ideias marxistas e para simultaneamente apoiar o Chefe do Estado e o seu Primeiro-Ministro para que possam levar a cabo o programa que nos anunciaram logo após o golpe de estado de 25 de Abril."
Da comissão organizadora do MPP fizeram parte o Eng. Adelino Felgueiras Barreto, o Eng. Agnelo Galamba de Oliveira e o Dr. Manuel Braancamp Sobral, presentes na audiência referida.
Outras das orientações que norteavam a actuação do MPP eram, respectivamente, o anti-marxismo (confundido e identificado com anticomunismo) e o integralismo da Pátria. Estas linhas ressaltam claramente de uma passagem da seguinte carta enviada por um dos seus aderentes: “. . . A ideia inicial consistiu em enquadrar todas as forças da direita e centro-direita, num movimento amplo que não se limitava à propaganda de ideias muito específicas, mas que se lançasse numa acção permanente de combate, como meio para atingir a maioria das várias forças da direita e centro com base em dois princípios fundamentais: o anticomunismo e a defesa da Pátria do Minho a Timor"...
O anti-marxismo foi largamente demonstrado em cartazes extremamente reaccionários que o MPP mandou imprimir e afixar, tarefa para a qual se serviu, no Norte do País, do Partido Nacionalista Português.
A difusão das suas ideias contou ainda com a utilização do Círculo de Estudos Sociais Vector e também da revista "Resistência", na direcção da qual estavam indivíduos intimamente relacionados com o MPP, tais como o Dr. António da Cruz Rodrigues e José Luís Pechirra. Este último, aliás, igualmente esteve na origem de um opúsculo largamente distribuído pelo Pais e que se intitulava "PCP um Partido Fascista", subscrito pelo pseudónimo José V. Claro.
Tal como a revista "Resistência", o MPP tinha como principais centros de implantação os meios católicos do interior e norte do País. Nos seus planos de acção se incluía ainda uma campanha nas aldeias a “desmascarar” os cursos de alfabetização.
O MPP colaborou, finalmente, , com a manifestação da "Maioria Silenciosa".


P. S. – Fartei-me de rir com aquela descoberta sobre o Dr. Pechirra! Andou meio país a perguntar-se quem era o “José V. Claro”, e zás!, os nossos militares revolucionários descobriram logo que quem via claro era o Pechirra. Ah valentes militares sem sono!

ACÁCIAS RUBRAS

Era uma vez ...
Era uma vez uma bela cidade debruçada sobre as águas azuis de uma grande, vastíssima baía, saída de sete rios, entrada para sete mares. Nela vivia gente de todas as raças, - europeus, africanos, asiáticos - como se fossem todos de uma só raça. Nela havia templos de todas as religiões. Era uma cidade ecuménica. E, além de ecuménica, paradisíaca: Todos os anos, quando Outubro chegava, toucavam-se de lilás as copas frondosas dos seus jacarandás; semanas depois, ao romper da manhã, o Sol incendiava as suas acácias rubras.
Era uma vez uma cidade, onde toda a gente se conhecia, onde toda a gente se cumprimentava, onde toda a gente perguntava: -"como está, passou bem?,". Ninguém tinha pressa e todo a gente atravessava as ruas nos sítios onde elas deviam ser atravessadas - e só nesses.
Não havia nessa cidade - e com grande espanto das cidades suas irmãs - o uso da gorgeta. O facto de se servir uma cerveja bem gelada, de se cortar o cabelo e desfazer a barba a uma pessoa, de se deslocar de automóvel um transeunte, implicava, apenas, o custo do serviço.
Também com espanto dos outras cidades suas irmãs, havia cinzeiros nas mesas dos cafés dessa cidade. E ninguém ignorava que os cinzeiros estavam ali para receber a cinza e as pontas dos cigarros e não para serem levados para casa, como se fossem lembranças das Caldas da Rainha. Era, em suma, uma das mais civilizadas, mais bem-educadas cidades que até hoje conheci por todo o mundo.
Tinha a cidade, como todas as cidades, enormes bairros suburbanos; imensas “favelas" - mas por essas favelas qualquer pessoa passava tranquila a toda a hora; a delinquência não vivia ali. E tinha, como todas as cidades já têm, prédios muito altos, muito parecidos com armários, colmeias de cimento, ficheiros gigantescos de aço e de vidro; mas não eram prédios para neles se viver - eram prédios para negócios; para se viver, cada qual tinha a sua casa, o seu pequeno jardim, a sua varanda. Em matéria de urbanização, poucas cidades se lhe comparavam.
No campo gastronómico, essa linda cidade era famosa, pelos seus camarões fritos ou grelhados; eram bons, os camarões. E eram baratos!
Como todas as cidades, grandes ou pequenas, lindas ou feias, também essa tinha os seus segredos, a sua história-que-não-se-conta, as suas esquinas de pecado, que eram, às vezes, apenas, o pecado das suas esquinas. Mas tinha, em contrapartida, o discreto recato daqueles frutos muito doces, muito saborosos, que todavia não dispensam o talher de sobremesa ...
Agora, em cada Outubro, vejo florir num jardim vizinho de minha casa a copa desgrenhada de um velho jacarandá, trazido para Lisboa sabe-se lá por quem, sabe-se lá quando, sabe-se lá de que terra dos trópicos. Sei que tal acontece nos jacarandás da perdida e distante cidade. Sei que todos os anos, quando Outubro chega, continuam a toucar-se de lilás claro os jacarandás, para semanas depois, como sempre, o Sol incendiar as acácias rubras; fazer de cada árvore uma fogueira: Mas o resto, como é agora? O resto, como foi e para onde foi?
Nunca me recordo de como se chama agora aquela cidade. Só me lembro de que se chamava então - Lourenço Marques.

0 RECORDADOR


A pequena crónica acima transcrita foi publicada há 22 ou 23 anos no semanário “A RUA” (não sei a data, porque a encontrei num recorte sem data). Saiu numa coluna intitulada “Do passado ao presente”. Também não tenho a certeza da identidade de quem a escreveu; embora as opções sejam poucas ...
Publico-a hoje aqui lembrando a memória saudosa de António Maria Zorro e de Abel Tavares de Almeida; e com um aceno de amizade para José Maria Zorro, José Maria Tavares de Almeida, e, sempre, Cristina Câmara.

Quarta-feira, Novembro 19, 2003

Papéis Velhos

Constatando que o Dr. Cruz Rodrigues tem vindo a puxar pelas memórias, e porque a história sempre foi uma das minhas paixões, resolvi ajudar recorrendo a material de arquivo.
E, como se verá, a fontes indiscutivelmente autorizadas. Nada menos que o pomposo e solene “Relatório do 28 de Setembro de 1974”, editado pelo Movimento das Forças Armadas, no ano da desgraça de 1975, no qual a “comissão ad hoc encarregada de investigar os acontecimentos do 28 de Setembro” deu a conhecer ao país e ao mundo as malfeitorias de que tinham sido capazes as negras forças da reacção no período subsequente à alvorada libertadora – até ao dito 28 de Setembro, altura em que as forças da liberdade se tinham encarregado de pôr fim a tais desmandos, pondo a bom recanto, em levas prisionais de centenas de cada vez, os malfeitores que não puderam ou quiseram atempadamente colocar-se no seguro do exílio.
Por agora fica só aqui uma pequena amostra; a fls. 23 e 24 figuram uns trechos directamente relacionados com o que tem vindo a ser publicado na Aliança Nacional. Ora lá vai.

“Por agora, detenhamo-nos na enumeração de alguns dos factos mais significativos apurados, após termos procedido à análise de número considerável de documentos e termos apreciado as declarações de detidos e outras pessoas chamadas a depor.
A matéria de que dispomos permite afirmar, desde já, que manobra de tal envergadura fora objecto de preparação consciente e responsável. Com efeito, a partir de fins de Julho, o País começou a assistir a uma ofensiva orquestrada pela extrema direita, que se manifestava nas inscrições provocatórias, na difusão de boatos alarmistas, numa ampla afixação de cartazes com palavras de ordem reaccionárias e ainda, com especial relevo, através de uma certa imprensa identificada com o seu ideário. Nesta imprensa se destacaram os periódicos "Tempo Novo" (órgão do Partido Liberal), "Tribuna Popular" (órgão do Partido do Progresso) e "Bandarra", que pretendia apresentar-se como independente para se poder afirmar "imprensa livre".
4. Este último - propriedade da "Editorial Restauração" que meses antes suspendera a publicação de um outro semanário cronicamente deficitário , e que também lhe pertencia, "O Debate" - merece uma referência particular, seja pela forma opulenta com que se apresenta, seja pela matéria criminosa com que preenche as suas páginas.
Quanto ao primeiro aspecto - o do financiamento do luxo das edições - refira-se desde já que o Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa aceitou duas livranças de quatrocentos mil escudos, subscritas pelos administradores da editorial.
Este empréstimo justificava-se, uma vez que o movimento da empresa não era de molde a proporcionar-lhe lucros que pudessem cobrir os custos do semanário. Diga-se ainda, a propósito, que dela são accionistas preponderantes Pedro Soares Martinez, Bernardo Mendes de Almeida (Conde de Caria) e Filipe de Bragança.
Quanto ao segundo aspecto - o da matéria escrita, onde se multiplicavam as provocações à população e ao Governo Provisório e tendo como constante a agressão ideológica, realizando assim uma das finalidades da citada ofensiva da extrema-direita, mais exactamente, a preparação de um clima social e psicológico propício ao êxito da manobra.
O autor desses textos é Manuel Múrias, salazarista dos mais convictos, responsável, juntamente com Míguel Freitas da Costa, pela orientação deste periódico, o qual, na edição com a data de 28 de Setembro, anunciava implicitamente a vitória sobre as forças democráticas.
5. Além destes três citados jornais, muitos outros colaboraram na propagação do clima contra-revolucionário. Uns, ligando-se directamente a elementos activos de partidos reaccionários e outros, apenas por identificação ideológica.
É curioso citarem-se alguns, para exemplo, sem se esgotar, porém, a sua enumeração. Assim, referimos de Lisboa "A Resistência" e o "Economia e Finanças", de Braga "O Clarim", de Ovar o "João Semana", de Valença do Minho "O Valenciano", de S. Tiago (Seia) o "Mensageiro Paroquial", de Beja o "Jornal do Sul", o "Jornal da Bairrada", o "Vilaverdense", o "Jornal de Famalicão".
Seria longa a lista de publicações que procuravam denegrir a nova ordem portuguesa. Em especial no Minho, encontramos muitas outras que poderíamos abarcar nesta referência. Julgamos desnecessário prolongá-la, pois o teor de muitos outros jornais de província facilmente evidencia o seu reaccionarismo”.


Creio que está esclarecido o mistério das letras que nunca foram apresentadas a pagamento pelos novos responsáveis do Banco; pura e simplesmente a “comissão ad hoc” tinha-se apoderado delas como documentos comprovativos dos crimes da reacção, e nunca mais as devolveu. Perderam-se. E deixaram de existir para o banco: não estavam na instituição!
Muito mais existe no delicioso relatório, no mesmo estilo de detective de caserna. Mas lá iremos. Em pequenas doses.

César escuta como cantas

É preciso que canteis com o folgo poderoso
com que canta o mar as suas mais roucas marés
porque na planície floresceu uma voz que não perece com o vento
uma voz de homem dourada como o sol
que vem dizer como hão-de ser escritos os vossos corações de homens.
É preciso que canteis
enquanto reste um sangue que soluce
uma espiga que não dê pão
uma terra que não tenha o nosso nome.
É preciso.

Quisera que existisse uma árvore cujos ramos
nunca tivessem ouvido o abraço do vento.
Saltarias como potros à sua primeira voz
e mesmo no tempo da neve dura
dariam flores vermelhas como lábios.
É ele, sabeis?, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis.
Nasceu essa voz na planície quando num céu de carvões
a morte entornava os seus poços assassinos.
Não veio essa voz para fantasmas nem para os peitos secos
pois nasceu para homens com asas
e o coração ardente como um licor proibido.
Para nós veio essa voz e por isso cantamos com o vigor real dos robles
até que todo o sangue corra nas veias
até que todas as espigas amadureçam
até que todas as terras digam o nosso nome.
Com as nossas camisas azuis
com os nossos mortos parindo terra debaixo dos nossos pés
com os nossos corações recentes como filhos
sobre o mundo nos vemos como ressuscitamos.
É certo que cantaremos até ao fim.

Oh, tu!, essa formosíssima voz que não cessa!
Oh, tu!, a quem os homens chamam
vem, vem cantar connosco as canções do teu próprio sonho.
Todos quereríamos ter-te nas nossas gargantas
para que à tua carne passasse o tremor dos nossos gritos.
Neles soa o teu nome
como uma espada de César contra um bosque de chamas.
Ouve-nos cantar desde esse bosque
onde foste vencer o teu último sonho.
Cantamos porque tu entre nós
deixaste arder o teu corpo soberano.
É preciso que cantemos até ao fim.
Que José António saiba que não há medo
nem cobras nem lodo nem fome crua.
Que cantemos até que não falte
nem um coração de homem escrito à sua palavra.
Porque é ele, sabeis!, é aquele homem
que havia de vir porque se manda sonhar quando se é moço
e as mãos não podem secar-se eternamente
com muros de lama no deserto.
É preciso que canteis como canta o mar as mais roucas marés
porque ele escuta como ressuscitamos.


ÁLVARO CUNQUEIRO
(versão portuguesa de ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, publicada no semanário “A RUA”)

Intervenção Nacionalista

Em Junho de 1980, através de um comunicado enviado aos jornais, deu a conhecer a sua existência uma nova organização política, a “Intervenção Nacionalista”.
A comissão organizadora então designada era constituída por Armando Costa e Silva, Goulart Nogueira, Rodrigo Emílio e Walter Ventura, e estava encarregada de “promover os trabalhos necessários para estruturar e constituir o Movimento”.
Como coordenadores dos diversos departamentos ficaram nomeados Abel Tavares de Almeida, António José de Brito, António Paulo Ruckert Moreira e Caetano de Mello Beirão.
No seu manifesto a "Intervenção" declarava com ênfase “rejeitar qualquer fórmula que, ao sabor do falso realismo, se traduza em comprometer os princípios e em sacrificar os objectivos últimos, na mira de sucessos tácticos necessariamente precários ou de resultados inevitavelmente ilusórios, como é o caso da chamada “Frente Nacional”.
Com clareza ficava assim à vista o que tinha sido o detonador próximo desta intervenção: a “Frente Nacional”, tentativa também ela efémera de organizar o espaço à direita do regime e que tinha sido posta em marcha no ano anterior (houve eleições parlamentares em Dezembro de 1979), com orientações que chocaram o sector doutrinariamente mais intransigente do nacionalismo português.
Nota-se aliás a semelhança da situação com a existente em 1974 com o Movimento Federalista Português, em que essencialmente a mesma gente que fundou em 1980 a “Intervenção Nacionalista” tinha então criado o “Movimento de Acção Portuguesa” – também em nome do combate ao confusionismo ideológico e à cedência doutrinária em que seguiam antigos companheiros de percurso.
Do que foi este debate não vou fazer aqui o relato – assinalando apenas que Manuel Maria Múrias empenhou-se particularmente em apoiar o projecto da Frente Nacional, mobilizando para isso o semanário “A Rua”, enquanto outros sectores, como os jovens do Movimento Nacionalista, então dirigido por Vítor Luís, Nuno Rogeiro e Luís Andrade, rejeitavam essa via que reputavam de eleitoralista e oportunista.
A “Intervenção Nacionalista” apresentou-se ainda ao país em conferência de imprensa no dia 10 de Julho de 1980, promovida pelo Movimento Nacionalista mas que acabou por ser conjunta, reafirmando aí as suas teses.
O movimento viria a ter vida curta, não chegando a abrir sede ao público. Como se verifica dos seus folhetos de divulgação indicava para qualquer contacto a Rua Costa Pinto n.º 42 em Paço d’Arcos, que era a residência do saudoso Caetano Beirão (meu querido e inolvidável descobridor de tartéssios, infatigável cata-cacos da arqueologia do sul).
Viria também a utilizar por cedência de favor um andar na Rua António Enes, perto da maternidade Alfredo da Costa.
Cito um trecho do boletim da Intervenção:
“Um país que tudo perdeu não pode ter uma política externa conservadora, pronta em favorecer a estabilização internacional, apressada em submeter-se às situações criadas e em ceder aos poderes de facto.
Não nos interessa a manutenção do mapa, mas sim que ele seja recomposto. Não nos interessa o fortalecimento dos poderes tais como estão, mas sim que se desentendam sobre os despojos.
Da agitação e da mudança, Portugal pode obter algo ou não. Se as coisas se alterarem, poderá surgir alguma via de regresso ou não haver. Existe uma possibilidade positiva. Mas da acalmia e da aceitação resignada é que nada temos a esperar.
A realidade e o facto são dados. Existem diversas maneiras de os encarar, de agir sobre eles e de mover-se entre eles.
Realismo é, às vezes, um nome falsamente invocado para o acto de quem é curto de vista; outras vezes, redução a um modo cómodo; outras, um alibi”.

Terça-feira, Novembro 18, 2003

Mestre Alberto Cutileiro

Não sei se algum dos leitores foi alguma vez afectado pelo vírus do coleccionismo, do modelismo, ou a mania das miniaturas, da construção, da reprodução à escala - ou se tem algum amigo assim, doido por soldadinhos de chumbo, uniformes, kits de aviõezinhos e tanques, sonhando reproduzir batalhas e regimentos, enchendo garagens e sótãos com prateleiras alinhadas em parada, ou de peças desalinhadas do equipamento militar a montar e a pintar, de mistura com óleos, tintas e pincéis.
Deve ao menos conhecer um doente assim.
Nesse caso, não erro se afirmar que já ouviu falar da "Casa do Cavaleiro à Porta".
É um lugar lendário, um centro de culto onde todos vão procurar o que em mais sítio nenhum se encontra, ou o esclarecimento e a informação impossíveis de encontrar.
É assim há muitas décadas. Nenhum maníaco no país inteiro desconhece a "Casa do Cavaleiro à Porta", na Rua das Furnas, em São Domingos de Benfica, bem perto da Igreja das Furnas e do Jardim Zoológico de Lisboa, anunciada na rua por aquela singular tabuleta com o cavaleiro pintado.
E certamente que aquele que falou do lugar falou também da figura mítica que ali se encontrava; o sumo sacerdote daquele culto, o supremo artista das reproduções e dos restauros, o sábio que podia desfazer qualquer dúvida sobre a minúcia que faltava. Curiosamente, a generalidade dos fanáticos que falavam na casa e no personagem ignoraram sempre o nome; mencionavam sempre o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta .... e também não sabiam que do mundo inteiro afluíam solicitações idênticas.
Para a minha geração, distraída, ele foi sempre e apenas o velhote da Casa do Cavaleiro à Porta; faleceu ontem, com 89 anos.
Para quem o conhecia mais de perto era o Mestre Alberto Cutileiro, artista eborense, antigo Director do Museu de Marinha, exímio desenhador, pintor e restaurador, com atelier na capital.

“Um marquês em mangas de camisa que chamava camaradas aos operários”

Passando no dia 20 de Novembro mais um aniversário do fuzilamento de José António, no pátio da prisão de Alicante, em 1936, resolvi afixar aqui as palavras do seu testamento político, escrito por ele a 18 de Novembro de 1936, após ter conhecido a decisão que o condenava à morte (justiça célere e expedita, como por vezes se reclama em Portugal: sentença a 17, execução a 20 – sem apelo nem agravo nem outros expedientes dilatórios).
O título acima é uma frase desdenhosa do conhecido historiador marxista Hugh Thomas, que sempre me pareceu conter mais verdades na sua ingénua tentativa de catalogação caricatural do que foi capaz de compreender o seu ilustrado autor.
Aqui ficam então os trechos relevantes desse testamento político (a tradução é idónea, de José Miguel Alarcão Júdice).

“Testamento redigido e assinado por José António Primo de Rivera y Saenz de Heredia, de trinta e três anos, solteiro, advogado, natural e residente em Madrid, filho de Miguel e Cacilda (falecidos), na Prisão Provincial de Alicante, a dezoito de Novembro de mil novecentos e trinta e seis.
Condenado ontem à morte, peço a Deus que, se não me livrar desse transe, me conserve até ao fim a coragem da resignação com que o aguarde e, ao julgar a minha alma, o não faça pelos meus merecimentos, mas pela medida da sua infinita misericórdia.
Assalta-me o escrúpulo sobre se não será vaidade e excesso de apego às coisas da terra querer neste momento apreciar alguns dos meus actos; mas como, por outro lado, arrastei a fé de muitos camaradas meus em número muito superior as minhas possibilidades (bem conhecidas por mim, ao ponto de escrever esta frase com a mais clara e estrita sinceridade), e como até levei muitos deles a arrostar riscos e responsabilidades enormes, parecer-me-ia grande ingratidão afastar-me de todos sem nenhuma explicação.
Não é preciso repetir agora o que tantas vezes disse e escrevi sobre o que os fundadores da Falange Espanhola queríamos que ela fosse. Espanta-me que, já passados três anos, a imensa maioria dos nossos compatriotas persistam em julgar-nos sem ter começado, nem ao de leve, a entender-nos e até nem ter procurado nem aceitado a menor informação. Se a Falange se consolidar duradouramente, espero que todos percebam a dor por se ter derramado tanto sangue, por não se nos ter aberto uma brecha entre a raiva de um lado e a antipatia do outro. Que esse sangue derramado me perdoe a parte que tive em provocá-lo, e que os camaradas que me precederam no sacrifício me acolham como o último deles.
Ontem, pela ultima vez, expliquei ao Tribunal que me julgava o que é a Falange. Como em tantas ocasiões revivi os velhos textos da nossa familiar doutrina. Uma vez mais, observei que muitíssimas caras, inicialmente hostis, se iluminavam, primeiro por assombro e depois com simpatia. Nos seus olhos parecia-me ler esta frase: "Se soubéssemos que era assim, não estávamos aqui!» E, certamente, não estariam ali, nem eu ante um Tribunal Popular, nem outros matando-se nos campos de Espanha. Não era já possível, no entanto, evitar isso, e eu limitei-me a retribuir a lealdade e a valentia dos meus queridos camaradas, ganhando para eles a atenção respeitosa dos meus inimigos.
Isso fiz, e não procurar para mim, com falsa nobreza, a reputação póstuma de herói. Não me considerei responsável por tudo nem me ajustei a nenhuma outra variante de padrão romântico. Defendi-me com os melhores recursos da minha profissão de advogado. Talvez venha a haver comentadores póstumos que me censurem não ter preferido a fanfarronada. Cada um faz o que lhe parece melhor. A mim, para além de não ser actor principal em tudo que está a decorrer, parecia-me monstruoso e falso entregar sem defesa uma vida que ainda podia ser útil e que me não foi concedida por Deus para a queimar em holocausto à vaidade como girândola de fogo de artifício. Além de que não descia a ardis reprováveis nem comprometia ninguém com a minha defesa, antes, cooperava na de meus irmãos Miguel e Margot, processados comigo e ameaçados de penas gravíssimas (...).
Outra coisa tenho de rectificar. O isolamento absoluto para com o exterior em que vivo desde a altura da revolta militar foi quebrado por um jornalista norte-americano que, com permissão das autoridades daqui, me pediu algumas declarações em Outubro. Até conhecer, há cinco ou seis dias, o processo instruído contra mim, não tive notícia das declarações que me eram atribuídas pois nem os jornais que as trouxeram nem nenhuns outros me eram acessíveis. Ao lê-las agora, declaro que entre os vários parágrafos que se dão como meus, designadamente fiéis na interpretação do meu pensamento, há um que afasto completamente: o que censura os meus camaradas da Falange por cooperarem no movimento insurreccional com «mercenários vindos de fora». Nunca disse nada de semelhante, e ontem mesmo o declarei solenemente no Tribunal, apesar de me prejudicar por o dizer. Eu não posso injuriar as forças militares que prestaram em África enormes serviços a Espanha.
Nem posso lançar daqui censuras a camaradas que ignoro estarem agora sábia ou erradamente dirigidos, mas que de certeza tentam interpretar na melhor boa fé, pese embora a incomunicação que nos separa, as minhas regras e doutrinas de sempre. Queira Deus que a ardorosa ingenuidade dos meus camaradas não seja nunca aproveitada noutro serviço que não o da Espanha grande com que sonha a Falange.
Oxalá seja o meu sangue o último que se perca em discórdias civis. Oxalá o povo espanhol, tão rico em qualidades profundas, encontre já na paz, a Pátria, o Pão e a Justiça”.


Segunda-feira, Novembro 17, 2003

MÚSICA BRASILEIRA

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.


Olavo Bilac, “Poesias”

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Aproxima-se o tradicional convívio do 1º de Dezembro!
Está em marcha a organização do jantar e ceia, que são de obrigação.
Preparem-se, e visitem o site dos Antigos Alunos, onde aproveitam para se informar - e inscrever.

Eça de Queiroz em Évora

Os factos assentes e geralmente conhecidos são simples e fáceis de resumir.
José Maria d’Eça de Queiroz formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra em 1866. Em Dezembro desse ano, com 21 anos, surge em Évora expressamente para fundar e dirigir o bissemanário da oposição “Districto de Évora”.
Logo a 6 de Janeiro de 1867 foi publicado o primeiro número do periódico. Daí em diante dedicou-se a escrever o jornal, que lá foi saindo todas as Quintas-feiras e Domingos.
A redacção e administração (substantivos colectivos que serviam, como muitas vezes ainda acontece, para encobrir realidades efectivamente singulares) estavam instaladas na Praça D. Pedro IV, n.º 3-A. Ou seja, traduzindo para os eborenses de hoje, ficavam naquele primeiro andar por cima da Pastelaria Violeta, mas com entrada pela Praça Joaquim António de Aguiar, o popular Jardim das Canas, onde está aliás colocada uma lápide evocativa da presença do escritor nesta cidade.
Na edição de Domingo dia 4 de Agosto de 1867 o jornal publicava uma curta nota de despedida em que Eça secamente declarava que “desde o dia 1º de agosto deixou de ser o redactor e diretor político do jornal “Districto de Évora”, e, desligado da empresa fundadora, dá como terminada a sua responsabilidade material, moral, politica e litteraria”.
Esse número de 4 de Agosto já ostentava como “proprietário e responsável” Francisco da Cunha Bravo, a quem a empresa tinha sido trespassada.
Portanto, o último número da responsabilidade de Eça foi o de Quinta-feira dia 28 de Julho de 1867.
Entretanto, nesse mês de Agosto de 1867 o nosso escritor regressou para Lisboa, de onde tinha vindo pouco mais de sete meses antes.
Tudo isto é por demais conhecido, e felizmente estão também publicados os escritos do “Districto de Évora”.
Mas aqui ao Manuel Azinhal sempre o intrigou o que nesta história não é conhecido (pelo menos não encontrei explicado em parte nenhuma, pode ser que seja ignorância crassa).
Repare-se na expressão usada por Eça: declarava-se desligado do jornal “desde o dia 1º de agosto”; não desde o dia 28 de Julho em que tinha saído o último número dirigido por si.
Terá isto algum significado? Seria que o contrato que o trouxe tinha duração convencionada até final do mês de Julho?
Não sei. Mas não tenho dúvidas que contrato havia. Dizendo claramente (esperando que ninguém se ofenda...): Eça de Queiroz, que nada ligava a Évora e que nunca aqui havia posto os pés, era evidentemente uma caneta alugada.
Um rapaz talentoso, que já se tinha feito notar pela sua queda para as literatices e para a polémica, que estava recém formado, e desempregado. Alguém terá conhecido o moço, já apontado como brilhante valor da nova geração, e que em Lisboa procurava glória – e no imediato pelo menos algo que lhe garantisse a sobrevivência – e lhe fez uma proposta que ele no momento não podia recusar..
Teria que ser alguém que frequentasse o meio social, político e literário lisboeta. E alguém com interesses e actividades políticas na oposição de então. E alguém cujos interesses estivessem sediados ou fortemente ligados a Évora.
E, evidentemente, alguém com capacidade financeira para criar e sustentar um jornal em Évora, e contratar, instalar e sustentar também o encarregado de tal tarefa, o nosso José Maria.
Quem seria que pagou o “Districto de Évora”, e pagou também, consequentemente, a estada de Eça de Queiroz em Évora?
Estas são as questões mais relevantes para a história do “Districto de Évora”, e para a compreensão da política local nesse curto período.
Não sendo eu um conhecedor profundo da vida política e social da cidade no período em causa, tenho no entanto uma suspeita. Só vejo um capitalista que a meu ver reunia os requisitos todos que enunciei, e com interesses políticos e económicos em Évora que justificavam o empreendimento. Mas é apenas palpite, intuição – nada tenho para o comprovar. Deixo o assunto para quem saiba mais.

Domingo, Novembro 16, 2003

Fala apócrifa de Camões para hoje

Exaltei o passado, num presente
Triste, apagado, vil.
Mas havia o futuro, mar em frente,
Para epopeias d’África e Brasil.

Doído, condenei,
A cobiça e a traição.
Mas tinha, ao alto, um rei
Por pai e capitão.

Só quando a pátria amada
Cedeu às ambições alheias,
A minha voz ficou calada,
Parou o sangue em minhas veias.

Só quando o rei de Portugal
Deu a alma ao Céu
E o corpo nu no areal
Não mais, musa, não mais fui eu.

Quis quanta vez ressuscitar!
Bastava um rasgo de heroísmo,
Asa de esperança, súbito, a rasar
O abismo.

E logo o pulso me pulsava,
A voz subia na garganta
E o que há de mim em mim gritava:
Canta!

Mas novas nuvens da desgraça
Encobriam as praias portuguesas
E o ímpeto da raça
Naufragava em baixios e baixezas.

Hoje, o presente
É ainda mais vil e apagado e triste
Porque, no mar em frente,
Nenhum futuro existe.

A cobiça e a traição,
e não um rei, é hoje quem governa:
dorme, pois, para sempre, coração!
Sê tu, silêncio, a minha pátria eterna!


António Manuel Couto Viana
(publicado originalmente em “A RUA”)

O mito da igualdade

Que todos os homens são iguais é uma proposição à qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma operação perigosa não age sob a presunção de que tão bom é um médico como outro qualquer. Quando são precisos funcionários públicos, até os governos mais “democráticos” fazem uma selecção cuidadosa entre os seus súbditos teoricamente iguais. Mas, na realidade, quando abstractamente analisamos a sociedade “democrática”, pensamos ou agimos em termos de igualdade dos homens, ou pelo menos – o que na prática vem a ser o mesmo – procedemos como se estivéssemos certos de que os Homens são iguais.
A quantidade de tempo durante o qual eles estão empenhados em pensar ou agir politicamente é muito reduzida quando comparada com todo o período das suas vidas; mas as breves actividades do homem político exercem uma influência desproporcionada sobre a vida diária do homem trabalhador, do homem a divertir-se, do homem pai e marido, do homem senhor de propriedades. Daí a importância em se saber o que ele pensa na realidade e porque é que o pensa.
Os políticos e os filósofos políticos falaram, muitas vezes, acerca da igualdade do Homem como se fosse uma ideia necessária e inevitável, uma ideia em que os seres humanos têm de acreditar, exactamente como têm de acreditar em noções tais como peso, calor e luz. O Homem é “por natureza livre, igual e independente”, diz Locke, com a segurança de alguém que sabe que está a dizer qualquer coisa que não pode ser negada. Era possível citar literalmente milhares de afirmações semelhantes. “É preciso ser-se louco”, diz Graco Babeuf, “para negar tão manifesta verdade”.
No entanto, do ponto de vista do facto histórico, a noção de igualdade humana é um produto recente, e, longe de ser uma verdade directamente apreendida e necessária, é uma conclusão tirada de assunções metafísicas preexistentes. Nos tempos modernos as doutrinas cristãs da irmandade dos Homens e da sua igualdade perante Deus foram invocadas em apoio da democracia política. Muito ilogicamente, no entanto. As famílias têm os seus patetas e os seus homens geniais, as suas ovelhas ranhosas e os seus santos, os seus êxitos mundanos e os seus falhanços. A igualdade perante Deus não significa a igualdade entre os Homens pela simples razão de que comparadas com uma quantidade infinita todas as quantidades finitas podem ser consideradas iguais. Perante Deus, ele é o ser absoluto e objectivo; é o portador de valores eternos. Mas na vivência dinâmica é o ser subjectivo e diferente que todos conhecemos da realidade prática.
Os escritores que no decurso do século XVIII forneceram à moderna democracia política a sua base filosófica não se voltaram para o cristianismo para encontrarem a doutrina da igualdade humana. Eles eram, quase sem excepção, escritores anti-clericais para quem a ideia de aceitar qualquer auxílio da Igreja teria sido extremamente repugnante. Além disso, a estrutura da Igreja, orientada e organizada para as suas actividades terrenas, não lhes ofereceu qualquer auxílio, mas sim uma franca hostilidade. Ela representava, ainda mais que o estado monárquico e feudal, aquele princípio medieval, hierárquico e aristocrático contra o qual, precisamente, os igualitários protestavam. A origem da ideia moderna da igualdade tem de encontrar-se na filosofia de Aristóteles, que na verdade, como veremos, não era lá muito “democrática”. Vivendo, como o fazia, numa sociedade detentora de escravos, ele considerava a escravatura como um estado necessário das coisas. Estamos portanto perante uma contradição. Esta incoerência revelar-se-ia ao longo da história, na medida em que os bem-pensantes de todas as épocas souberam pôr de um lado o romantismo, se assim se lhe pode chamar, das suas concepções metafísicas sobre o Homem, e do outro lado a realidade – a sua vivência de classe -, a contradição evidente da igualdade humana. No entanto esta falácia romântica viria a influenciar decisivamente o espírito esclarecido dos demo-liberais, pois é na teoria da igualdade humana que a democracia moderna encontra a sua justificação filosófica e uma parte, pelo menos, da sua força motriz. Os preconceitos “democráticos” parecem, àqueles que os acarinham, sagrados, bem como moralmente certos, verdadeiros. A democracia é natural, boa, justa, progressiva, e assim por diante. Os seus opositores são reaccionários, maus, injustos, anti-naturais, etc. Para um vasto número de pessoas, a democracia tornou-se uma ideia religiosa que é dever tentar pôr em prática em todas as circunstâncias, indiferentemente dos requisitos práticos de cada caso particular. A metafísica da democracia, que na origem próxima foi a racionalização dos desejos de certos homens, como Rousseau, por exemplo, para melhorarem a sua sociedade, tornou-se numa teologia universal e absolutamente verdadeira, que “é do mais alto dever de toda a Humanidade pôr em prática”. Assim, Portugal tem de ter a sua democracia, não porque o governo democrático seja melhor do que o governo indemocrático que existia (verifica-se que se está a tornar incomparavelmente pior) mas porque a democracia, em toda a parte e em todas as circunstâncias, está certa.
Tratámos até aqui do pressuposto primário de onde flui toda a teoria e prática da democracia – que todos os homens são iguais. No entanto as investigações científicas do nosso século permitem tirar conclusões completamente contrárias. Desde que se abandonem os preconceitos metafísicos e se desça à investigação do biotipo humano, a realidade é bem diferente.

(in “Camarada”, “jornal do combate nacional-revolucionário”, Maio de 1976. Como se verifica pela análise dos textos, o autor é o mesmo dos dois já atrás publicados sobre a tecnocracia. Não digo o nome, para que não fiquem a saber tanto como eu).

Sábado, Novembro 15, 2003

Reconquista

Surgiu actualizado, e com o vigor e a acutilância que o caracterizam, o “Reconquista”, site libertário, monarquista e nacionalista.
É uma voz independente, livre e original – que atrai tanto mais quanto mais se afasta do pronto-a-vestir ideológico corrente.
Desafio a que façam uma visita todos os que se sintam tocados pelo menos por uma das três definições do lugar – libertário, monarquista e nacionalista. Com as restantes cada um logo tratará de ajustar as contas que tiver.

Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 16 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D. Afonso III)
(Em todos os dias de Segunda-Feira a Sábado é às 19 horas, no mesmo local)

Em Perolivas, Reguengos de Monsaraz: às 18. 30 horas, na Capela de São José
Rua do Forno, n.º 25, em Perolivas, Reguengos de Monsaraz

Ainda a tecnocracia

Os actuais regimes demo-liberais caracterizam-se por serem dirigidos na prática não por um homem ou uma equipa política agindo através de instituições visíveis e definidas, mas sim pelo poder de uma casta de alguns milhares de directores dependentes do sector privado ou do sector público, tendo recebido a mesma formação, únicos iniciados no funcionamento complexo da economia moderna da qual preservam ciosamente os segredos, mantendo os outros num estado de conhecimento fragmentário.
Motivados mais pela vontade de poder dada pela manipulação das forças económicas que pelo simples desejo de enriquecer – já satisfeito –eles têm uma consciência profunda da sua superioridade. O seu desdém pelos outros homens, que eles não vêem senão através de estatísticas e gráficos económicos, é total. Para eles as comunidades humanas não passam de enormes sociedades anónimas das quais o funcionamento anárquico deve ser ordenado pela criação de um grande mercado planetário racional e normalizado. Os senhores ocultos do capitalismo estão bastante próximos dos seus colegas soviético, pelos quais têm uma visível admiração. Eles aderem aliás em grande número aos esquemas marxistas que justificam as suas ambições em linguagem pseudo-filosófica. Pouco ansiosos de publicidade, desdenham a prática política, que lhes é submissa, camuflam o seu poder real por trás do pára-vento que são as instituições, os políticos, os fabricantes de opinião.
A cortina das grandes palavras (democracia, socialismo, liberdade, progresso) permite-lhes enganar o povo e mantê-lo sujeito.
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TECNOCRACIA: fase actual da evolução das sociedades capitalista e comunistas, fundadas sobre um mesmo conceito materialista da tecnologia e uma mesma filosofia da indiferenciação. É caracterizada pelo poder da casta (particularmente implantada em Portugal), pelo estabelecimento de um plano económico ditado por tecnocratas, pelo estrangulamento das profissões independentes e pelo emprego de técnicas de anestesia e sujeição nas populações exploradas. O Mercado Comum é uma realização tecnocrática.
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(in “Combate”, “órgão nacionalista de acção revolucionária”, Outubro de 1977)

Sexta-feira, Novembro 14, 2003

"Talent de bien faire"

Já agora, os queridos leitores farão bem em frequentar um outro blogue que encontrei na minha vagabundagem pela blogosfera: "Portugal e Espanha".
Interessante, profundo - e de actualidade cada vez mais premente.
Para além do seu tema favorito (o relacionamento com os nossos vizinhos do lado), ainda se lembrou do aniversário da morte do Infante D. Henrique (infame D. Henrique, lhe chamava a esquerda da minha juventude ...), a 13 de Novembro, e da divisa pessoal deste, o seu célebre "talent de bien faire".
Notável, numa terra dominada toda ela por inequívoco "talent de rien faire"...

O fogo dos deuses

Não há dúvida: o espírito sopra onde quer, e quando quer. Mas no que respeita a blogues é notoriamente parcial.
Vejam o “Nova Frente” e descubram o que quero dizer.

Congresso Nacionalista

Recebemos da respectiva Comissão Organizadora, para divulgação, o texto seguinte.

“Vai realizar-se nos dias 15 e 16 de Novembro de 2003, em Lisboa, o II Congresso Nacionalista Português, com carácter não partidário.
O Congresso enquadra-se dentro daquilo que, na generalidade, se tem designado por Movimento Nacionalista – um movimento intelectual, cultural e político, de criação de correntes de opinião e de pensamento nacional – com os seguintes objectivos:
- Apurar e debater o que pensam os nacionalistas sobre o presente e o futuro da Nação.
- Definir os princípios capazes de recriar ideias de Portugal e de unir os portugueses.
- Despertar os espíritos para os eventuais perigos que correm a nossa soberania, liberdade e independência, perante ameaças como o centralismo europeu, entre outras.
É absolutamente assumido pelo Congresso, como espaço de debate que é, que cada participante – orador ou assistente – pensa pela sua cabeça e diz com liberdade e responsabilidade pessoal, razão pela qual a organização do Congresso não se compromete com comentários, opiniões e conteúdos emitidos nas comunicações e nos debates.
Local: Hotel Roma (Sala Veneza).
Mais informações podem ser obtidas em: www.nacionalismo-de-futuro.blogspot.com

Gottfried Benn

O poeta de “Morgue” não é certamente das minhas maiores simpatias; mas, enfim, marca uma época ... lá vai.


FRAGMENTOS

Fragmentos,
descargas de alma,
coagulações do século vinte -

cicatrizes - interrompido curso da aurora do mundo,
as religiões históricas de cinco séculos demolidas,
a ciência; rachas no Parténon,
Planck correu com a sua teoria dos quanta
ao encontro de Kepler e Kierkegaard confundiu tudo -

Mas noites houve que tinham as cores
do pai primigénio, repousadas, fluidas,
irrevogáveis no seu silêncio

de perpassante azul,
cores do introvertido,
e então uma se compunha,
as mãos nos joelhos pousadas,
como um camponês, singela
e ao quieto beber dada
por harmónicas dos servos -

e outras
dadas aos íntimos arquivos,
tensões dos arcos,
pressões de estilizados edifícios
ou demandas do amor.

Crises da expressão e ataques de erotismo:
eis o Homem de hoje,
o interior um vácuo,
o contínuo da personalidade
garantido pelas roupas
que duram dez anos se o tecido é bom.

O resto fragmentos,
semi-tons,
trechos de música nas casas vizinhas,
spirituals, negros ou
Ave-Marias.


Gottfried Benn (tradução de Jorge de Sena)

Quinta-feira, Novembro 13, 2003

Lucas Pires e Brasillach

Também em Portugal o fascínio de Brasillach exerceu intensa atracção sobre inúmeros jovens intelectuais que descobriam através dele “o fascismo imenso e rubro”, numa imagem vigorosa e pura, longe dos compromissos e das concessões a que o tempo, a política, e o poder, por vezes obrigam.
A figura do jovem poeta condenado à morte que, ouvindo a sentença, na sala de audiências em que alguém exclamava “c’est une honte!”, logo corrigia “c’est un honneur!”, inflamava os espíritos e os ideais.
O fuzilado de Fresnes foi aliás motivo de inspiração ao longo dos anos para sucessivos autores: assim de memória estou a lembrar-me de poemas, estudos ou simples artigos de Rodrigo Emílio, José Valle de Figueiredo, João Conde Veiga, Amândio César, António José de Brito e .... Francisco Lucas Pires.
Durante toda a segunda metade da década de sessenta um dos mais empenhados e entusiastas clercs da militância coimbrã, da geração que começa no “Combate” e culmina no “Itinerário”, na “Oficina de Teatro”, e na “Cidadela”, foi Francisco Lucas Pires.
O pequeno artigo que aqui transcrevo, fica como uma curiosidade datada. Lucas Pires, nascido em 1944 e falecido em 1998, teria 20 anos quando o escreveu.
Comme le temps passe …”


Brasillach cumpriu-se...

Brasillach veio declarar a violência ao seu mundo, e mataram-no.
Desde Cristo que é assim: os que vieram para escandalizar são mortos, mas depois regressam e já ninguém se pode libertar da sua escandalosa presença.
Aos carrascos deixou a sua morte - o remorso; a nós deixou-nos a sua vida - o exemplo.
Exemplo de juventude que se identifica pela insolência e pelo espírito, ele foi novo até na generosidade com que dispersou os seus talentos. Até nisso integral.
A juventude é uma coisa e a idade outra. Mas a Brasillach nem sequer foi permitido atingir a idade em que os homens se costumam tornar velhos. Melhor: assim nos ficou a memória de uma imagem de juventude inteira: da física e da espiritual.
Foi ainda dessa maneira total que ficou connosco. O seu testemunho não está destinado à guarda dum erudito conservador de museu - está destinado à fidelidade dos seus voluntários camaradas - .
Por isso melhor cumpriremos, colectivamente, a tarefa e o cinismo de o testemunhar. É a melhor homenagem que devemos à sua magnífica lição de camaradagem - a nossa própria camaradagem.
A sua permanente atitude de afronta contra a hipocrisia e o cinismo e a audácia com que se manifestou a coragem reúnem-nos de novo, para confirmar a unidade original do espírito na unidade da acção.
Brasillach cumpriu-se: «Daqui a 20 anos ouvirão outra vez falar de nós». Ele preveniu-os.



Francisco Lucas Pires (Diário da Manhã, Fevereiro de 1965)


A revista “Itinerário”

Em textos já publicados mais para trás, fiz várias referências e citações retirados da revista “Itinerário”, todas datadas de 1966. Vem a propósito então fornecer uma breve explicação do que foi a revista “Itinerário”.
Em minha opinião, que julgo bem acompanhada, a mais elevada e conseguida publicação dos sectores intelectuais conotados habitualmente com a direita situada fora do regime, ou extrema direita, desde a segunda grande guerra até à actualidade, foi o “Tempo Presente”, que dominou o período situado entre 1959 a 1961 e marcou todas as gerações posteriores. A altíssima qualidade da produção inserida nos seus vinte e sete números permanece bem patente para quem se disponha a investigar.
Depois disso, durante os anos sessenta, os mesmos sectores só passaram a ter expressão pública com o jornal “Agora”, naturalmente centrado muito mais no imediato, virado que era para o combate político – isto para além de alguma colaboração solta, no “Diário da Manhã” ou no “O Debate”. Mas isto passava-se em Lisboa.
Entretanto, em Coimbra, mantiveram-se sempre importantes e valiosos núcleos de uma direita (sobretudo académica, mas não só) doutrinada e interveniente, apoiada nalguns mestres como Miranda Barbosa e Braga da Cruz, e activada por novos protagonistas que iam chegando.
A primeira publicação de relevo, por voltas de 1961 e 1962, foi o jornal “Combate”, de que foi director o então muito jovem José Valle de Figueiredo.
O “Itinerário”, revista de actualidade cultural, foi a mais importante realização da direita coimbrã no período que vai de 1965 até ao aproximar do fim dos anos sessenta.
Aproximando-nos e entrando na década de setenta temos que considerar como tal a “Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra” e a “Cooperativa Livreira Cidadela”, centros polarizadores da actividade intelectual da direita, na cidade do Mondego, no fim dos anos sessenta e até ao 25 de Abril – sublinhando-se aqui a fronteira definida pela tempestade da crise académica de 1969, embora naturalmente vamos encontrar numa e noutra fase muitos nomes que marcam a continuidade, tal como aconteceria também se considerássemos os primeiros anos de sessenta, estes assinalados pelo referido “Combate”, dirigido por José Valle de Figueiredo.
O “Itinerário” tinha como proprietário Aníbal Pinto de Castro, e teve sempre como Director e Editor o escritor João Conde Veiga, já mencionado aqui a propósito da sua ligação a Vila do Conde.
O Conselho de Redacção era constituído por António Leite da Costa, Armando Luiz, Carlos Alberto de Faria, João Bigotte Chorão e José Pinto Mendes.
Os redactores eram Amiel Bragança Miranda, José Ávila Costa, J. Carlos Falcão Lucas e Manuel Cirilo da Rocha.
Colaboraram com a revista, pelo menos, Álvaro Bastos Araújo, Álvaro Ribeiro, Aníbal Pinto de Castro, António Ayres, António Carlos de Carvalho, António d’Oliveira Santos, António Leite da Costa, António Manuel Couto Viana, António Quadros, António de Sèves Alves Martins, Armando Luiz, Armor Pires Mota, Arnaldo Miranda Barbosa, Artur Lambert da Fonseca, Azinhal Abelho, Carlos Alberto de Faria, Fernando de Freitas Coroado, Fernando Guedes, Fernando Pacheco de Amorim, Francisco Lucas Pires, Gonçalo Sequeira Braga, Guilherme Braga da Cruz, Heitor Chichorro, Horácio Caio, João Bettencourt, João Bigotte Chorão, João Conde Veiga, José Manuel Pereira da Silva, José Pinto Mendes, José Valle de Figueiredo, Jorge Ramos, Juan Soutullo, Lobiano do Rego, Luís Amoroso Lopes, Luís Andrade de Pina, Manuel Gama, Maria de Lurdes Hortas Moreira, Mário António, Miguel Anacoreta Correia, Miguel Freitas da Costa, Navarro de Andrade, Nuno de Miranda, Nuno de Sampayo, Paulo Novais, Pedro Madeira, Pinharanda Gomes, Rodrigo Emílio, Ruy Galvão de Carvalho, Victor Cepeda Mangerão e Zarco Moniz Ferreira – fora os que esqueço.
Além dessa colaboração, a revista publicou ainda textos inéditos ou traduzidos de D. António dos Reis Rodrigues, Natércia Freire, Raul Leal, Gustave Thibon e Michel de Saint Pierre – também ressalvando as faltas.
Eis o que me ocorre – a partir dos arquivos da memória e de uns papéis velhos. As falhas não são intencionais.

Quarta-feira, Novembro 12, 2003

Brasil

Brasil onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.

Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.


Miguel Torga

Um quase inédito de António Sardinha

Em 1981, há já vinte e dois anos, o semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, publicou sob o título “Um inédito de António Sardinha” um soneto do autor datado de 1916.
Não está acompanhado de nenhuma explicação, pelo que nada sei sobre o modo como o poema ali chegou.
Teria sido algum familiar do poeta? Existiam sobrinhos de António Sardinha, mas não sei de relações de algum com a redacção do semanário.
Nessa altura ainda era viva a viúva de António Sardinha, Sra. D. Ana Júlia, vivendo em Elvas na sua Quinta do Bispo.
Mas até pela sua idade e pelo seu afastamento da turbulência lisboeta não creio possível que tenha sido ela a oferecer o soneto a alguém ligado ao jornal.
Fico portanto na ignorância. Quanto aos motivos da sua falta de publicação em vida do autor eles percebem-se bem, face ao teor dos versos.
O soneto, sentido e belíssimo, versa sobre o drama pessoal de Sardinha, o mais íntimo dos seus desgostos. Homem de família, sentia-se amputado do que mais queria, marcado para sempre pela morte do único filho, ainda de berço. A ausência ficou para sempre presente em todos os momentos da sua vida – que se iria velozmente, sem ter conhecido a velhice que o poema ternamente antevia.
Gostaria que os leitores apreciassem tanto como eu este soneto, que, a meu ver, enfileira entre os mais belos da língua portuguesa. E cabe sem favor em qualquer antologia de poemas de amor, como ainda recentemente vi nos escaparates.


Soneto do desalento

Deita a cabeça sobre os meus joelhos,
- descansa a tua dor na minha dor.
Como seremos nós em sendo velhos?
Como seremos nós então, amor?

Agora ainda os lábios são vermelhos.
Temos ainda mocidade e cor.
Mas que seremos nós, em sendo velhos,
Quando nas veias nos faltar calor?

Como é que iremos nós contando os dias,
sem ter um filho, com um berço em casa,
deserto, frio, como as coisas frias?

Oh, esse berço embala-o docemente!
E assim cantando à dor que nos abrasa
que bom será o envelhecer da gente!


António Sardinha (1916)

A tecnocracia

Literalmente entendido, tecnocracia significa “o governo dos técnicos”. Trata-se portanto de um conceito utilizado para designar uma das mais significativas alterações ocorridas nos últimos anos, em todos os aparelhos de estado. De facto, tem-se assistido, de há bastante tempo para cá e progressivamente, à chamada de especialistas para a engrenagem do Poder, por parte dos seus detentores.
Assim, tanto a Oeste como a Leste, processa-se uma cada vez maior predominância e influência dos “técnicos” na vida política. Sequela ou não, consequência ou não, do positivismo do século XIX, o que é facto é que estamos perante uma vaga avassaladora de cientismo, inimigo da verdadeira ciência, e, o que é mais grave, inimigo do humano.
É preciso considerar que o avanço científico do século XIX foi positivo, enquanto se tratou de dar combate ao obscurantismo de épocas recuadas. Mas, por outro lado, negativo, na medida em que convenceu muita gente e principalmente os marxistas de que a aplicação de métodos científicos à vida social traria a felicidade ao homem.
Qual foi o raciocínio? Tratando-se de ciência infalível e perfeita (era assim aceite) ela poderia eliminar a imperfeição do próprio homem. Formou-se assim um conceito deturpado do papel da ciência e da tecnologia na vida humana. Passou-se pois a reduzir a solução dos problemas sociais a uma espécie de engenharia social. Mas o que qualquer “especialista” parece não compreender até hoje é que o humano é qualitativo, e, portanto, os problemas humanos não se poderão resolver com meras fórmulas de quantidade.
Contradição, é a dita imperfeição humana (caso para perguntar em nome de quê é ela assim denominada ...) não passar de características dialécticas inerentes à própria natureza.
Quanto à “ciência”, não é ela isenta de características de classe. Nem ela nem os tecnocratas. Neste sentido, é evidente que não se pode falar deles como uma classe, mas sim como uma camada, camada essa que, por enquanto, vai só prosseguindo nos seus próprios objectivos de camada, consubstanciados nos objectivos da classe que os contrata : a “classe dirigente”. Mas a gravidade desta questão é que a ideologia tecnocrática tende a espalhar-se para além dos limites da sua camada originária, como um veneno mortal, insidiosamente ministrado. Trata-se disto, mas não apenas disto.
Hoje já se está a assistir ao nascimento de algo a que se pode chamar o “homo tecnocraticus”, o cibernantropo. Uma nova forma de homem, no pensar, no ser, no estar, num actuar que, de humano, provavelmente nada tem.
Por outro lado, que o poder recuperou e foi recuperado pela ideologia tecnocrática é também um factor extremamente evidente nas duas superpotências. Não governa mas proporciona a governação. É que cada vez mais os técnicos impõem os seus pontos de vista, reclamando-se de “objectividade científica”, utilizando-se desse conceito para iludir o problema palpável da sua posição, também objectiva, no sistema. Mas não fiquemos por aqui. Curiosamente, também costumam eles afirmar que não são burgueses, mas sim “homens modernos”.
Uma maneira fácil, defensiva e hábil, de se subtraírem à crítica social. Mas há ainda mais do que isso: estão tentando atingir a posição de uma casta intocável e detentora do saber absoluto. Por esse motivo pactuam com o Poder.
No entanto, em certos países, como os U.S.A., a sua ideologia propagou-se de tal modo que hoje o Poder já se encontra nas suas mãos. Reunindo todos os sinais e sintomas é lógico deduzir que, dentro de alguns anos, a maioria dos países do mundo serão governados pela tecnocracia, logo pelos tecnocratas.
E que será o governo da tecnocracia? A resposta tem sido constantemente dada por muitos ficcionistas atentos ao mundo em que vivem, só que a maior parte dos seus leitores, por via de um abaixamento da sua própria capacidade crítica e imaginação, julgam estar na presença de um delírio persecutório. O governo da tecnocracia será um novo totalitarismo uniformizante, onde se verificará uma significativa inversão. Em vez dos métodos brutais de repressão usual (pouco eficazes e pouco consentâneos com a mentalidade tecnocrática) imperará um sistema para alienação total dos homens, alienação essa conseguida por meio de psicodrogas e de novos e vários consumismos. Será o paradoxo do génio, a solução final proposta pela tecnocracia e posta em movimento por ela para obviar problemas da sociedade humana. A fórmula última pode ser já hoje resumida: o amor dos escravos à própria escravidão!
Mas não paremos aqui. Devemos ir mais longe e esse mais longe é a “ditadura da cibernética”. Não é o que se pode chamar uma hipótese porque essa ditadura é decorrente das características do “tecnocraticus erectus”, o cibernantropo.
Esse ser limpo, asséptico, certeiro, equilibrado como o bom cientifista, detestará, até com horror (claro que já não sentirá horror) quaisquer sinais de desequilíbrio individual ou social. Admirador profundo da perfeição auto-limitante da máquina, procurará identificar-se com ela na sua auto-regulação automática. Lógicamente, ele vai abominar a emoção, a espontaneidade, e todos os factores que colidam com o princípio sagrado da economia. O princípio da economia é o princípio da execução de objectivos sem as mínimas divagações. Sem desperdícios! É o princípio que preside ao anti-espírito da máquina. A máquina é perfeita, no âmbito das suas limitações: as limitações de uma objectividade mecânica. Mecanizar o homem é sem dúvida destruir a sua subjectividade e isto é destruir o próprio homem. Caminhará o mundo para uma ditadura cibernética onde os homens-máquinas e as máquinas suprimirão os homens-homens? Não é tão remota a hipótese como parece. Ela será um facto se se verificar a predominância ideológica de camadas que advoguem a necessidade de o homem se adaptar a uma ciência e a uma técnica. Eis porque a utilização da ciência e da técnica para o bem estar dos homens e à sua medida, terá de passar pela destruição do mito tecnocrático tanto a Leste como a Oeste.


(Nota: o texto supra foi escrito e publicado em 1977, quando ainda não se discutia o fim da história, nem se via iminente a queda do império soviético.)

Terça-feira, Novembro 11, 2003

Safa!

Tenho sempre a curiosidade de ir espreitar de onde vêm os visitantes que aqui chegam trazidos pelas pesquisas na net.
Até agora o mais original foi uma visita que resultou de uma pesquisa por "burro lusitano+adopção".
Ignoro se o visitante ficou satisfeito, mas suspeito que não encontrou o que pretendia (digo eu ...).
Agora encontro outra visita determinada por uma pesquisa por "João de Deus Pinheiro".
Esta é demais! Pode o incógnito visitante ir bater a outra porta, que aqui não há disso.

A rainha de Espanha, constitucionalissimamente falando

Traduzimos para o nosso blogue uma broma (séria!) do ilustre Professor Rafael Gambra, que, embora não recente, ganhou especial actualidade, atentos os acontecimentos.

Aqui tratamos o tema da futura Rainha de Espanha só em hipótese ou possibilidade – futuríveis, como dizem os filósofos -, mas sempre dentro do marco constitucional vigente.
Isto assente, pensamos que a futura Rainha de Espanha pode ser um negro homossexual, companheiro sentimental ou parceiro de facto do Rei, de religião muçulmana ou sem religião.
Porque não? Pensa-se espontaneamente que deve ser uma mulher. Mas isto seria com mentalidade preconstitucional e antidemocrática. A Constituição baseia-se na igualdade e na não discriminação. Se as mulheres podem ser militares ou guardas civis, porquê um homem não poderá ser rainha ou consorte ou parceiro do rei? Esta discriminação sexual está politicamente abolida.
E porque há-de ser heterossexual? Isso dependerá da livre orientação sexual do monarca. Outra discriminação do passado.
E porquê de raça branca? Discriminar raças é a mais odiosa discriminação para uma mente democrática. Racismo puro.
E porquê católica? Esta discriminação seria hoje odiosa até para o Vaticano progressista.
Assim, pois, uma Rainha varão, negro, homossexual e muçulmano seria uma opção politicamente correcta. E objectar algo, fascismo puro.


Os estudantes e a Universidade

"A imagem de correntes a fechar simbolicamente a Universidade não está de acordo com a justeza de reivindicações ...
Talvez fosse mais ousado e criador decidirem todos frequentar as aulas, as bibliotecas; exigirem acesso aos computadores, aos laboratórios e aos projectos de demonstração experimental; solicitarem novas metodologias de aprendizagem, exigirem que os melhores professores ensinassem nos primeiros anos, que o ensino tutorial fosse obrigatório em disciplinas com elevadas taxas de repovações ... Seria exemplar exigirem que as universidades funcionassem (....)

(Veiga Simão, no semanário "O Diabo" de hoje, 11 de Novembro)

Combatentes

“Tinham-nos dito, no momento em que deixámos a terra natal, que partíamos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença, tantos benefícios concedidos às populações que têm necessidade do nosso auxílio e da nossa civilização.
“Pudemos verificar que tudo isso era verdade, e, visto que era verdade, não hesitámos em derramar o imposto de sangue, em sacrificar a nossa juventude, as nossas esperanças. Não lamentamos nada, mas enquanto aqui este estado de espírito nos anima, dizem-me que em Roma se sucedem as intrigas e as conspirações, se desenvolve a traição, e que muitos, hesitantes, perturbados, cedem com facilidade às piores tentações do abandono e aviltam a nossa acção.
“Não posso acreditar que tudo isso seja verdade e, no entanto, guerras recentes mostraram até que ponto podia ser pernicioso um tal estado de espírito e ao que ele podia levar.
“Suplico-te, tranquiliza-me o mais breve possível e diz-me que os nossos concidadãos nos compreendem, nos defendem, nos protegem como nós próprios protegemos a grandeza do Império.
“Se tudo fosse diferente, se tivéssemos de deixar em vão os nossos ossos embranquecidos sobre as pistas do deserto, então, cuidado com a cólera das Legiões!”


Marcus Flavinius (Centurião da 2ª Coorte da Legião Augusta, a seu primo Tertullus, em Roma)

Segunda-feira, Novembro 10, 2003

Crónicas satânicas de Rodrigo Emílio

Por 1982 publicou o Rodrigo Emílio no semanário “A Rua”, de Manuel Maria Múrias, algumas “crónicas satânicas”, colocadas expressamente sob a égide evocadora de Céline, “bagatelas para um massacre”.
Transcrevo uma das crónicas, ora amarga ora bem humorada, em que não escapa às alfinetadas o então novo “Futuro Presente”, fundado no ano anterior por Jaime Nogueira Pinto, António Marques Bessa, António Maria Pinheiro Torres, Nuno Rogeiro, Vítor Luís, Duval Bettencourt Gomes e Manuel Avides Moreira.
Era também a época em que a aragem que vinha da Polónia começava a sentir-se em todo o Ocidente.


Perguntas e (más) respostas

P. - Para variar, não quererás responder hoje ao questionário de Proust?
R. - Bem sabes que nunca gostei de me “proustituir”.
P. - Sendo assim, não insisto. Já vejo que pouco mudaste.
R. - Enganas-te, meu velho. Dantes, era eu um português “de longo curso” ...
P. - Então, e agora?
R. - Agora, sou um português “de via reduzida”.
P. - Morador?
R. - Na Avenida das Descobertas, 108, - 5º Império.
P. - Profissão?
R. - Candidato a “deportado”.
P. - Por onde?
R. - Pelo Jardim Etológico de Lisboa.
P. - Estado: interessante?
R. - Não. Deplorável.
P. - A brincar, a brincar, quantos anos tens tu?
R. - Tenho trinta de liberdade e sete de democracia. Logo... deita-lhe as contas.
P. - A teu ver, que resta hoje do “peito ilustre lusitano”?
R. - Restam umas quantas “peitaças” de comício ... e pouco mais.
P. - A tua ocupação favorita?
R. - Perder tempo. Adoro perder tempo.
P. - Nesse caso, porque não te transferes para o futuro presente?
R. - Mal por mal, prefiro ficar-me pelo “passé simple”.
P. - Pois acho que fazes pessimamente. O futuro presente, tanto quanto sei, é hoje uma “coutada” muito concorrida.
R. - Foi sempre e sempre há-de ser. Nesta e em todas as repúblicas do mundo ...
P. - Se não é pedir-te muito, pretendia, já agora, que arriscasses um diagnóstico sobre os males que afligem a 2ª República.
R. - A 2ª República debate-se com os problema da 3ª idade. E se a idade não perdoa, a 3ª muito menos ... Bem o sabes por ti. Que mais queres que eu te diga?! ....
P. - Olha lá, menino: que cheiro esquisitíssimo vem a ser este?!....
R. - Tens razão. Cheira a “água de Polónia” que tresanda!... Mas é bom sinal. Não te dê isso cuidado.
P. - Que tens sido na vida?
R - Um paciente coleccionador de facadinhas nas costas.
P. - Lá inimigos, portanto, atrais tu ...
R. - Em quantidade que davam para formar, à vontade, uns oito pelotões de fuzilamento!
P. - És nacionalista?
R. - O mais possível.
P. - E exerces?
R. - Faço o que posso.
P. - Flor que mais prezas?
R. - A flor-de-lis.
P. - Flores que te despertam maior antipatia?
R. - As flores de retórica.
P. - Qual é a reforma que mais admiras?
R. - A Contra-Reforma.
P. - Que gostava tu de ser neste mundo?
R. - Agente secreto de Deus.
P. - Por que razão?
R. - Cá por coisas ...
P. - Cor que sobremodo abomines?
R. - A cor de convicção quando foge.
P. - .......................!
R. - E por hoje, meu velho, encerrei para obras. (Para obras literárias, bem entendido....) Assim sendo põe-te a mexer. Desampara a loja. Vai “chagar” outro!


Rodrigo Emílio

Felizes são

Felizes são os jovens que chegaram
Depois de mim, quando eu ainda dormia
Sob os escombros da minha alegria.
Felizes são os jovens que chegaram.

Erguem no ar grinaldas matinais.
Escuto as vozes com eles chegadas
Mais claras do que as finas madrugadas.
Erguem no ar grinaldas matinais.

Não creias, derrubado caminhante,
Na Terra vã do teu contentamento
Sem a celebração do pensamento.
Não creias, derrubado caminhante.

O mistério da vida renovada
Abre as portas simétricas da morte.
Onde o mais destruído? Onde o mais forte?
O mistério da vida renovada!

Felizes são os jovens que chegaram
Depois de mim, quando eu ainda dormia
Sob os escombros da minha alegria.
Felizes são os jovens que chegaram.


Fernando de Paços
(in “A Rua”, 1981)

Domingo, Novembro 09, 2003

Globalização

Perante a mundialização, a única resistência eficaz é a defesa das identidades, nacionais, regionais, culturais, religiosas ou outras.
Face à massificação, opor a diversidade e a identidade.

Dois romancistas

Brasillach tece em romance as coisas que amou, Nimier vai contra as coisas que não pode amar.”
(João Conde Veiga, in “Dos Hussardos - Nota sobre Roger Nimier e a sua Histoire d’un amour”, "Itinerário", n.º 7)

O “Contrato Social”

Uma sociedade é um grupo de seres diferentes organizados para fazer frente a necessidades comuns.
Em qualquer espécie sexualmente reproduzida a igualdade dos indivíduos constitui uma impossibilidade natural. Portanto a desigualdade deve ser considerada como a primeira lei dos agrupamentos sociais, tanto na sociedade humana como em qualquer outra. A igualdade de oportunidades deve ser considerada entre as espécies vertebradas como a segunda lei. As sociedades de insectos podem incluir geneticamente determinadas castas, mas isso não pode ocorrer entre as espécies vertebradas. Cada ser vertebrado, exceptuando somente algumas espécies raras, goza de igualdade de oportunidades para desenvolver as suas potencialidades.
Enquanto que uma sociedade de seres iguais – quer se trate de babuínos, gralhas, leões ou homens – representa uma impossibilidade natural, a sociedade justa constitui uma meta realizável. Dado que o animal, ao contrário do ser humano, raras vezes se vê tentado a perseguir o impossível, em poucas ocasiões se nega ao realizável na sua sociedade.
A sociedade justa, segundo a vejo, é aquela em que existe ordem suficiente para a protecção dos seus membros, por diversos que sejam os seus dotes, e desordem suficiente para que cada indivíduo tenha oportunidade de desenvolver o seu potencial genético, qualquer que ele seja. Este equilíbrio entre ordem e desordem, cujo rigor varia de acordo com as condições ambientais, é o que eu considero como o contrato social, equilíbrio que, no meu entender, por se tratar de um imperativo biológico, ficará bem patente à medida que investiguemos entre as espécies.
A violação do imperativo biológico trouxe o fracasso do homem social. Embora sejamos vertebrados, temos ignorado, desde os primeiros tempos da civilização, a lei da igualdade de oportunidades. Embora sejamos seres que se reproduzem sexualmente, pretendemos hoje que não existe a lei da desigualdade, e, de ilustrados que estamos, enquanto perseguimos o impossível, impossibilitamos o realizável.
Triste será a manhã em que a diversidade dos homens se tenha desvanecido como a última estrela com o brilho da aurora: se temos de despertar numa manhã como esta, então peço a Deus que leve a minha vida durante o sono.
E apesar de tudo, sabendo-o ou não, esta é a manhã porque nos esforçamos: você e eu, capitalistas, socialistas, amarelos, brancos, morenos. É a manhã pela qual os professores apelam em conjunto com os polícias, aquela que tem sido exaltada pelas filosofias dos últimos dois séculos; a manhã da igualdade, do reflexo condicionado e colectivamente induzido, a manhã da realidade igualitária, de um mundo feliz, da ordem sem discussão, das sombras sem distinção, da resposta uniforme ao estímulo uniforme, a manhã da tintilante campainha da ovelha dirigindo-se à pastagem. Prefiro não despertar nela.
É a manhã que exaltamos e pela qual rogamos nas nossas organizações industriais, nas nossas granjas colectivas, nos nossos concílios eclesiásticos, nos nossos procedimentos governamentais, nas nossas relações entre estados, nas nossas correctas súplicas de que todos sejamos iguais algum dia. É a manhã contra a qual a juventude, sabendo-o ou não, se levanta em protesto. E é a manhã que, louvados sejam os céus da nossa origem, não amanhecerá nunca. (...)
Da mesma forma que a vida é maior que o homem, assim também é mais sábia do que nós. Da mesma maneira que a evolução nos tornou possíveis, assim também a evolução estabelecerá um juízo final. Da mesma forma que a selecção natural nos qualificou e acolheu, assim a selecção natural nos desqualificaria e rejeitaria se permitíssemos que nos vencesse essa tentação do impossível, do “hubris”. Mas essa desolada manhã cinzenta não a veremos nunca, porque umas leis mais fortes que você e eu, com imparcial e imperecível harmonia, ante um tribunal nocturno e no decurso das trevas do homem, nos condenarão à extinção como espécie. Ou, o que é mais provável, nos obrigarão a guardar a observância das leis da carne.


Robert Ardrey


Sábado, Novembro 08, 2003

"Não pagamos! Não pagamos! Não pagamos!"

Contaram-me há muitos anos uma pequena história dos anos sessenta, em que o protagonista era um cineasta italiano, não sei se Fellini, numa ocasião em que passava na rua e calhou ver-se no meio de uma daquelas batalhas rituais entre um grupo de estudantes universitários, militantes de causas de extrema-esquerda, e a polícia chamada para dominar o tumulto. No meio da gritaria ouviam-se slogans que falavam em "filhos do povo".
O tal cineasta passante fazia ponto de interrogação e questionava: "filhos do povo? Mas onde estão os filhos do povo? São os estudantes ou os polícias?"
A estorinha lembrou-me muita vez, sobretudo no tempo em que frequentava a universidade; como era chique aquela malta! No meu tempo, conheci na Faculdade de Letras de Lisboa, como activissimos líderes trotskistas, pelo menos um conde e um marquês ...
Veio-me isto agora de novo à lembrança devido ao cíclico recrudescer das manifestações dos sofredores estudantes universitários portugueses.
Como vibram aquelas almas com as injustiças deste mundo, em viva solidariedade com os deserdados da fortuna!
Como são elevados e generosos os sonhos que os alimentam!
Nem me atrevo a comentar, tal a delicadeza dos sentimentos que estão à vista.

Enfim: a propósito do triste espectáculo da contestação protocolar, reverenciada por todo o mundilho venerador da falsa irreverência, convencional e pré-programada, surripiei uma síntese brilhante ao vizinho Isidoro de Machede, que pode não ir comigo à missa mas é bicho da terra, autêntico e verdadeiro, com a escola da vida, e não franguinho de aviário criado a farinhas, hamburguer e cola.


Mote principal: “Não pagamos”.
É curto, muito curto. Esperava que dissessem que esta universidade não serve porque está desligada da realidade. Esperava que proclamassem que esta universidade não serve porque vive olimpicamente fechada sobre si mesma, ignorando, regra geral, o local e a região onde está instalada. Esperava que se insurgissem contra o facto da maioria dos cursos existentes estarem descontextualizados do mercado de trabalho. Esperava que se rebelassem contra esta universidade por continuar a produzir funcionários “doutores” cinzentos para um país cinzento. Esperava que propusessem uma discussão séria e alargada sobre a universidade que faz falta na construção de um país a cores.
Nada disto, antes pelo contrário. Continuam apenas bem trajadinhos e defensores de práticas iniciáticas do tempo da maria cachucha, verdadeiramente ofensivas da dignidade a que cada um tem direito. Quanto a reclamações, ficamos pelo “não pagamos” aconchegado de mais uma mão mal cheia de ideias atamancadas, manifestas sob a forma de uma fotocópia truncada de um tempo em que ainda não havia fotocópias.
Onde deveria haver pujança, rebeldia e ideias inovadoras, há apenas um reflexo de uma anquilosada juventude desentendida com um país igualmente desentendido consigo próprio. Vamos longe!



Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 9 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D: Afonso III)

Em Monforte: às 18. 30 horas, na Capela Nossa Senhora Rainha de Portugal
Avenida General Humberto Delgado, n.º 3

João Conde Veiga

Em tempos, julgava que Vila do Conde se chamava assim por ser a terra do João Conde Veiga (conhecido vilacondense ... nascido em Soure); depois cresci, e aprendi que não, também era a terra de José Régio, e outra gente boa – e parece que se chama assim desde há muitos séculos.
Entretanto, passaram anos, décadas mesmo. João Conde Veiga continua a batalhar por Vila do Conde.
Eu por mim fazia-o Presidente da Câmara. O que a cidade ganhava, com um poeta, e guitarradas de Coimbra!
Mas deixemos os sonhos, e vamos às memórias.
Em Outubro de 1966 completavam-se dez anos sobre o levantamento de Budapeste contra o regime comunista. Assinalando o aniversário da revolta, o “Itinerário”, revista de actualidade cultural, então publicada em Coimbra, publicou um vibrante editorial do seu director, João Conde Veiga, sobre os acontecimentos trágicos e heróicos de dez anos antes.
E para ilustrar a homenagem acrescentou algumas belas fotos desses acontecimentos, e um poema alusivo, do próprio director.
O aniversário das chacinas que sobrevieram à revolta, nesses, já longínquos, últimos dias de Outubro e primeiros dias de Novembro do ano de 1956, passou agora, sem uma palavra que o lembrasse nos grandes meios de comunicação de massas.
Hoje a Hungria já não está ocupada pelos blindados soviéticos, nem amordaçada pelo regime comunista. O sangue dos mártires de 1956 frutificou em novas auroras de liberdade.
Mas tantos mortos, tantos !!!
Fiquemos antes pelos versos.


Já o vento se levanta
na bruma d’alvorecer
o poeta espera e canta
milagres d’acontecer.
Mil rosas caem das mãos
esparsas pelos caminhos
apanham-nas os irmãos
que nas vão dar aos vizinhos.
Aberta bruma desperta
os ritmos do coração
jorra luz da noite aberta
colhe-se o gládio na mão.

Quem desvendou o antigo
solo do meu país?!
Quem profanou, inimigo,
os nossos numes civis?!
Quem colheu a nossa espiga
no campo fértil do rio?!
Quem subjugou à quadriga
cavalos do nosso brio?!

É vingança em nós clamada
A vingança que não cala,
Vem desperta a madrugada:
É só colher, ir buscá-la!



João Conde Veiga


Sexta-feira, Novembro 07, 2003

Libertação

Quando amanhã os banqueiros
Fugirem dos palácios roubados
E em vez deles homens verdadeiros
Forem monges, poetas e soldados

Então, na mão direita de Deus
Rolará a Terra.
E será perfeita.


Pedro Homem de Mello

Humor Negro

Notícia da TSF:
"Eduardo dos Santos vai combater corrupção.
O presidente do MPLA, garantiu, esta sexta-feira, que vai combater a corrupção e o comportamento negativo de alguns dirigentes. José Eduardo dos Santos falava no início da VIII reunião do Comité Central do partido, que prepara o Congresso
".

Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora

Atenção rapaziada: aproxima-se o 1º de Dezembro!
Parece que já está em marcha a organização da tradicional ceia.
Preparem-se, e visitem o site dos Antigos Alunos, onde vem tudo explicadinho.

Ezra Pound

Os versos que seguem foram publicados em Agosto de 1980 no boletim “Intervenção Nacionalista”, do movimento que teve o mesmo nome.
O tradutor não vem identificado, mas creio não haver motivo para dúvidas: foi certamente o Goulart Nogueira.
Ei-los.


Grande Deus, se estamos condenados a ser sonhos, apenas,
deixa que os nossos sonhos façam tremer o mundo
e que, sonhando, sejamos donos do mundo.
Deixa que sejamos sombras que façam tremer o mundo
e que do mundo nos apoderemos, apesar de nos sabermos sombras.

Deus Todo-Poderoso, se os homens são como pálidos e enfermos espectros
que hão-de viver nestas névoas e doces penumbras
e tremem com a ameaça das horas sombrias
ou delas fogem com o passo rápido;
se esses teus filhos, ó grande Deus, criaram finezas tão efémeras,
peço-te que pegues no caos e que engendres
alguma nova linhagem titânica que amontoe as colinas
e anime, outra vez, a terra.


Ezra Pound

Quinta-feira, Novembro 06, 2003

João Cidade

João Cidade foi o nome dado no baptismo ao mais universal dos santos alentejanos.
Da sua terra, Montemor-o-Novo, surge agora um blogue com o seu nome: João Cidade.
E logo atrás dele outro vem, lançando Palavras de Fogo.
Aproveito esta nota de boas vindas para lembrar o santo que tão arredio anda das nossas lembranças.
Dos lisboetas, sobretudo, que são gente superficial e apressada.
Tropeçam todos os dias no Chiado, e não sabem quem era o irrequieto alentejano que ali ficou perpetuado.
E passam todos os dias pela sua paróquia de São João de Deus, e pela bela igreja da Praça de Londres, sem conhecerem que se trata do nosso João Cidade.
Pois assim é: em tempos o Cardeal Cerejeira criou novas paróquias em Lisboa, e a uma delas foi dada a honra de homeanagear o santo de Montemor. Em sua honra também se ergueu o templo onde a paróquia veio a ficar instalada.
Por ali paroquiou várias décadas o inesquecível Padre Teodoro - e também a este fazem por o esquecer aqueles que mais o deviam lembrar.
Mas não vou adiante, para que não digam que nada de positivo encontro para realçar.
Tenho: aqui há alguns anos o António Manuel Couto Viana publicou uma delicada homenagem ao santo. A antologia "S. João de Deus na Poesia Portuguesa". Está editado na "Nova Arrancada".

O PERIGO ESPANHOL E OLIVENÇA

Não pretende este trabalho analisar profundamente o problema do “Perigo Espanhol”, mas tão só reflectir sobre um caso concreto, muitas vezes relacionado com a problemática de se tentar “adivinhar” qual poderia ser o futuro de Portugal se, por qualquer motivo, ficasse sob o domínio de Madrid.
Antes, talvez seja de recordar as palavras de Jordi Pujol, dirigente da Catalunha, ao “Expresso” de 12 de Outubro de 2002: «...imagine que em 1640 a sublevação Portuguesa tinha sido derrotada, e que desde então até hoje Portugal estivesse incorporado (...) em Espanha; Portugal teria sofrido a supressão das Instituições Políticas, do poder Administrativo Português, a perseguição da sua cultura e a proibição do ensino do Português nas escolas, na administração, na comunicação social e, inclusivamente, durante muitas e muitas décadas, a proibição de que se editassem livros em Português ou até mesmo que se desse catequese em português. Imaginem (...) que hoje a Praça dos Restauradores se chamasse Praça Felipe III e a Alameda D. Afonso Henriques se chamasse Alameda Felipe I.»
Será interessante discutir se Jordi Pujol estará ou não a exagerar. Não nos é possível saber o que sucederia exactamente se Portugal tivesse perdido no conflito de 1640-1668. Ao fim ao cabo, só há um caso concreto, e é esse que aqui se vai analisar, de um território de cultura portuguesa unido com Madrid. Trata-se da região de Olivença.
Não é possível saber se, unido a Espanha, Portugal seria transformado numa Gigantesca Olivença. Talvez a dimensão de território e o peso da população não tivessem permitido tal. Todavia, mesmo sem se chegar à situação do “Território das Oliveiras”, causa alguma apreensão pensar simplesmente que se poderia chegar a uma situação intermédia, de tal forma negativa em certos aspectos ela se apresenta hoje em Olivença. É que... intermédia seria ainda bastante mau!
Já se sabe. Olivença foi conquistada por Espanha em 1801. Segundo a interpretação diplomática portuguesa, o tratado que se seguiu foi anulado em 1807, e tal anulação foi reconhecida pela Europa em Viena de Áustria em 1815, em documento assinado por Madrid em 1817.
O problema começa aqui. Mais de 80% dos Oliventinos desconhece tais factos, e acreditam que Olivença foi trocada por Campo Maior, ou que veio para Espanha no dote de uma Rainha, ou qualquer outra historieta sem fundamento histórico.
Mas há mais. Em nenhuma escola de Olivença se ensina a verdadeira História da região, mas tão só a História de Espanha. E isto desde há duzentos anos. O Oliventino cresce a aprender (e a lutar por) uma história que não é sua.
É verdade que se ensina português em Olivença actualmente. Mas só no Ensino Primário. No Secundário, tal não foi autorizado. E, claro, aprende-se o Português como algo de folclórico, algo de exterior à região. O velho português alentejano, falado pelos idosos, é desvalorizado. Não há continuidade geracional.
A nível de consciência colectiva, o Oliventino tem poucas referências. Os seus apelidos e a toponímia, sempre que possível, foram adulterados, traduzidos, mudados. E não vislumbram esforços no sentido de reverter tal situação.
Os apelidos “sobreviventes” são explicados das formas mais engenhosas possíveis. Por exemplo, a mais comum é dizer que se tem um antepassado vindo de Portugal. Após falar com vinte oliventinos, mais de metade afirma ser essa a origem do seu nome. Donde se conclui, com espanto, que das duas, uma: ou os locais não têm consciência de que os nomes eram quase todos portugueses na sua terra durante séculos e séculos, ou que vagas de imigrantes portugueses escolheram misteriosamente a região de Olivença para se instalarem... opção obviamente ilógica.
Como se imagina, é desconcertante ouvir dizer que nomes como “Vidigal” ou “Valério” são espanhóis... principalmente neste último caso, pois um dos heróis da resistência Lusófona em Olivença chamava-se Vicente Vieira Valério, que, por não querer escrever em castelhano, ficou sem recursos para sobreviver. Contam-se pelos dedos das mãos os oliventinos que conhecem este nome.
É chocante ouvir um professor de História de Olivença, de apelido Silva, dizer que os Portugueses não devem reclamar o território, tal como os espanhóis não reclamam Campo Maior...
Muitos outros exemplos podiam ser dados, como o de se argumentar que o nível de vida é superior em Espanha (nunca se diz que já foi superior em Portugal; nessa época a Ditadura Franquista reprimia todo o sentimento português; e, claro, esquece-se que o nível de vida de Gibraltar é superior ao de Espanha), o de se dizer que Olivença só cresceu sob domínio espanhol (recorde-se que, em 1801, Olivença era comparável a Elvas e Badajoz, e que no século XIX decresceu... mesmo porque muita população foi obrigada a refugiar-se em Elvas, Alandroal, Vila Viçosa, etc. ), ou o de se dizer que entre 1297 (Tratado de Alcanizes ) e 1801 Olivença foi território espanhol ocupado por Portugal!!!
Apenas os Monumentos dão aos Oliventinos alguma noção de que algo não-espanhol existiu na localidade... e mesmo assim com algumas confusões. O casario, tradicionalmente igual ao meridional português, vai sendo demolido ou abandonado. As chaminés alentejanas vão desaparecendo... bem como as janelas estreitas e os “poiais”.
As autoridades locais, mais “abertas” em democracia que noutros tempos, não conseguem resolver tais contradições. Pelo menos os monumentos estão muito bem cuidados e aproveitados, e nesse campo só se pode aplaudir. Mas... são corpos sem “alma”!
Todavia, mantêm-se vivos inúmeros preconceitos antiportugueses, baseados em concepções “culturais” absurdas, falseadas, mesmo xenófobas. Que não nasceram do acaso. Houve uma “Desportugalização” intencional e legislada (não esquecendo a proibição da língua desde o século XIX), variando de intensidade mas sempre presente, e nunca esquecendo a repressão franquista, época em que tal política foi particularmente intensa.
È espantoso o que se pode encontrar em Olivença, se se aprofundar a análise Histórica aos aspectos sociais, culturais, económicos, ou outros. É toda uma destruição de uma cultura, uma negação da história, uma perversão das consciências.
Dir-se-á que Olivença é uma região de 454 quilómetros quadrados, e um caso pontual. Como alguém já disse, uma “ Borbulha” nas relações Luso-Espanholas.
E, contudo, uma “ borbulha “ com duzentos anos, tratada com tanto desrespeito na sua substância, submetida a tantos atropelos, não permite encarar com optimismo uma eventual União de Portugal e Espanha.
Talvez Madrid ainda não o tenha compreendido, mas a sua persistência em não reconhecer dúvidas (diplomáticas) sobre a posse do território, em “calar” qualquer queixa portuguesa, alimenta, e muito, aquilo que alguns consideram um mito: o “Perigo Espanhol”.
Mas diga-se também, em abono da verdade, e quase a concluir, que o “Perigo Espanhol”, a existir, deverá ser também fruto do pessimismo português. O hábito de, por tudo e por nada, se descrer das capacidades portuguesas, de se considerar que o País “não vale a pena”, e que os portugueses são pouco inteligentes ou incapazes, não ajuda em nada à afirmação, saudável e não chauvinista, de Portugal.
Veja-se o caso de Olivença: há duzentos anos que se chora a sua ocupação, mas, para além do não-reconhecimento da presença espanhola, pouco se tem feito. Salazar, que tão nacionalista surge no pensamento de tantos, sabia o que o Franquismo estava a fazer na cidade: descaracterização total! E todavia, nunca interpelou Franco a tal propósito.
Políticos e élites (escritores, jornalistas, etc.) continuam a evitar falar de Olivença. Como se receassem um anátema. Continuam sempre a considerar que não é o momento oportuno. E há duzentos anos que pouco se faz. Porque é politicamente incorrecto. Porque é de direita. Porque é de esquerda. Porque as relações com Espanha são desfavoráveis. Porque as relações com Espanha são óptimas. Porque não devemos perseguir ilusões.
“Não. As ilusões nunca são perdidas” - dizia Bento de Jesus Caraça – “Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir; perdidos são aqueles períodos de história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta sem enxergar no horizonte nada a que se entreguem”.
Talvez o “Perigo Espanhol” esteja, afinal, nas limitações de cada um dos portugueses.


Estremoz, 21 de Outubro de 2002

Carlos Eduardo da Cruz Luna

Quarta-feira, Novembro 05, 2003

Vivaz

E ainda uma palavrinha de agradecimento ao Mário Simões, mestre e operário do jornalismo alentejano, que do seu Vivaz nos dirige elogios imerecidos.
Vocês não vêem, mas acho que estou a corar.
Obrigado!

Mais Um

Acrescento também ligação para o Portalegreblog, que acabo de descobrir.
Há sempre mais coisas no céu e na terra, e na blogosfera, do que sonha a nossa vã filosofia.

Dias Bravo

Um blogue é um espelho da vida. Num momento rimos, e logo de súbito uma notí­cia nos fere e cala.
Embora já esperada, a morte de Dias Bravo, hoje de manhã, não pode deixar de doer a quem o conhecia.
Nestes tempos em que soa tão estranha qualquer concepção de serviço, Dias Bravo era, integralmente, um homem de serviço.
Serviço do outro - trabalhando incansável na causa da justiça, a quem dedicou, no seu estilo humilde e simples, mais de quarenta anos de vida.
Serviço do outro - também na sua dedicação à  Fé em que acreditava, e que fez dele o vulto mais universalmente aceite e respeitado das igrejas evangélicas portuguesas.
José António da Rosa Dias Bravo, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, alentejano, nascido em 1935, em Juromenha, Alandroal, falecido esta manhã em Lisboa, era sem favor ou dúvidas uma das personalidades mais marcantes da Justiça portuguesa nestas últimas décadas.
Trabalhou até ao fim, ignorando a "doença prolongada", ciente que um homem vale pela regra que serve.
Já estará junto de Deus, ele que O procurou toda a vida.

Beirões

Manuel Azinhal é de sua natureza um manifesto vivo contra a xenofobia; alentejano fundamentalista, vibra todavia, em família, quando está entre transmontanos, como já aqui ficou consignado a propósito dos barbos da Foz do Sabor e de um inolvidável bulho em Peredo (com vénia ao Aviz...)
E o mesmo acontece com os beirões; sempre lhe calharam ao jeito. Gosta de beirões - autênticos, activos, rijos e teimosos - mesmo que tenham nascido no Congo Belga ou em Cabinda.
Certo é que da Beira também era o João Brandão, conhecido combatente liberal do século XIX, mas mesmo no Alentejo nem todos nascem perfeitos.

Boa Onda

Aditei aos links o "Portalegre a Crescer".
Assim passo a passo se vão firmando na blogosfera as fronteiras do reino da açorda, realidade que define os limites naturais do Alentejo.
Este escrevinhador, Manuel Azinhal de sua graça, também por andanças do destino habitou em tempos idos em Portalegre, a olhar para a escadaria da Senhora da Penha.
O Jardim do Tarro era então o seu habitat natural, o Cadislegre o lugar da bica e do jornal.
Bicho curioso e de feitio explorador, conheceu então Castelo de Vide, e Marvão, e a Portagem, e a Serra de São Mamede, até a estrada que nos leva e traz a Valência de Alcântara.
Aquela entrada em Portugal, vindo de Cáceres, pelo portal natural onde de súbito se descobre imponente o cerro granítico de Marvão, é a mais bela de toda a terra lusitana.
O Norte Alentejano está subrepresentado na blogosfera: às armas, gente!

Eleições à porta

Para crítica social e lições de sociologia política e eleitoral temos aqui à mão o Conde de Monsaraz, que já há mais de cem anos os retratava a corpo inteiro.
Da sua “Musa Alentejana”, leia-se esta deliciosa caricatura do notável local dos finais de oitocentos.


O Senhor Morgado

O senhor morgado
Vai no seu murzelo,
Todo empertigado.
É um gosto vê-lo,
Próspero, anafado,
Véstia alentejana,
Calça de riscado:
Homem duma cana!
Vai, todo se ufana –
De ir tão bem montado
E ela na janela ...
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai nas próprias pernas,
Todo bandeado;
Tem palavras ternas
Para cada lado.
Quando passa, sente
Que é temido e amado;
Fala a toda a gente,
Topa um influente:
“Sou um seu criado”...
Eleições à porta
Seja Deus louvado!

O senhor morgado
Vai na sege rica
Todo repimpado:
Ai que bem lhe fica
O chapéu armado,
E a comenda ao peito
E o espadim ao lado!
Que homem tão perfeito!
Deputado eleito,
Muito bem votado,
Vai para o Te Deum,
Seja Deus louvado!


Conde de Monsaraz

Terça-feira, Novembro 04, 2003

Para Vila do Conde

Agradeço ao Vilacondense a presteza da resposta; e deixo aqui prometidas mais umas evocações que ligam a essas bandas. Em breve ....
Por hoje fica só uma aguarela.

Até Senhora da Guia,
Me deixava ir devagar,
Até à Senhora da Guia,
Que entra já dentro do mar,
Como uma pomba que as ondas,
Receassem de levar;
Talvez como uma gaivota,
Colhida num vendaval...
Ou rosa branca, trazida,
Quem sabe de que lugar,
Que embaraçando nas pedras,
Ficasse ali sem murchar,
O pé metido no rio,
E a flor já na água do mar.


José Régio

Ainda a massificação

O Miniscente fez uma referência benevolente a um escrito que ficou aqui para trás.
Porém, crítico e inteligente, caminha do comentativo para o propositivo e daí para o interrogativo.
Não lhe sei responder. O tempo, grande detector de mentiras e ilusões, irá dando respostas.
Mas fiquei com a sensação de que Luís Carmelo, que não consta ser religioso, é todavia homem de muito mais fé do que eu.

Coisas do Diabo

E se o Dr. Manuel Monteiro agora vai confessar-se ao "Público", e dizer coisas que acha avançadas e bué de progressistas, certamente porque lhe disseram lá na última reunião que era preciso não se deixar acantonar na extrema-direita, mais espantosa ainda é a prática dos contestatários socialistas encherem as páginas centrais do semanário "O Diabo" todas as terças feiras.
O José Rebordão deve divertir-se com a coisa, por entender que assim põe os outros a dizer o que ele gosta, mina ainda mais a chafarica do Largo do Rato e de caminho vende mais uns exemplares (também alarga o seu espaço, como o Dr. Monteiro julga fazer ...)
O que não se percebe é o que leva os dirigentes socialistas em causa a escolherem aquele local para espanejarem as suas diatribes (é o termo certo).
Há tempos era o Candal; hoje é Henrique Neto, malhando incessantemente no Ferro. Será que mais ninguém lhes atura os desabafos?

Segunda-feira, Novembro 03, 2003

Quem tudo quer tudo perde

O chefe do novo Partido da Nova Democracia deu uma entrevista de apresentação ao “Público”.
Começa assim:
Manuel Monteiro deixou no início do ano o seu partido de sempre, o CDS, para fundar a Nova Democracia, um partido que, diz, pretende romper com o actual sistema. Será um partido tão diferente do CDS que até admite ir ao encontro de um eleitorado que defenda a legalização de algumas drogas e a interrupção voluntária da gravidez”.

O Alentejo a crescer

Aqui o Manuel Azinhal tem um gostinho especial pelo Alandroal. Feita a aproximação pelo Redondo, ou por Vila Viçosa, ou vindo de Elvas, ou a partir de Reguengos, sente-se ali a emoção autêntica de descobrir o mundo como era antes do plástico e da poluição. Tudo respira ainda silêncio e autenticidade. Alandroal, Terena, Juromenha..... terras do Lucefecit, entre a Serra de Ossa e o Guadiana, mirando Olivença que saudosa nos olha do outro lado. Raízes profundas da pátria antiquissima e eterna: outeiro de São Miguel da Mota, santuário de Endovélico, ermida da Boa Nova, castelos como sentinelas a desafiar o tempo.
Em Juromenha, os ecos da tragédia do Batalhão Académico, quando a minha universidade, reitor à frente, fechou as aulas e partiu para a guerra - para morrer quando lhe chegou a notícia da vitória, na explosão do paiol, enquanto no céu explodiam foguetes de alegria.
Povo, povo, eu te pertenço ...
Bem vindos à blogosfera! Este entusiasmo todo foi para saudar o aparecimento do Alandroal.
Aproveito para dar também as boas vindas a outro blogue com sede na capital da blogosfera (para quem não saiba, é Avis). Agora surgiu o Bentos e Bentinhos. Que cresça e apareça!
É tão grande o Alentejo....

O estudo da História

Lemos também um blogue de nome “A Monarquia Portuguesa”.
O nome é um tanto pesado, mas o empreendimento é valioso e bem intencionado. Quer rememorar a História.
Vindo de gente que se topa à légua estar nos alvores da mocidade, a coisa é ainda mais de louvar.
Os tempos modernos exigem o desprezo pela história: o apagar da memória é uma fase necessária no processo de anestesiamento colectivo.
O rolo compressor do nivelamento global passa também por aí.
Um povo que não se conhece não pode amar-se, nem defender-se. Está pronto a aceitar as imagens que os outros lhe sirvam de si próprio.
Viva pois a História; o futuro há-de ser daqueles que tiverem a mais longa memória.


Vila do Conde

Descobrimos mais um blogue de gente simpática, de escrita escorreita e agradável, sem imposturices tolas nem arrebiques de estilo: O Vilacondense.
Tem ainda mais para nos agradar: é um blogue situado, com raiz na terra.
Já tinha aqui ficado, mais para trás, uma referência saudosa para Vila do Conde, a propósito de Régio (“lembra-me Vila do Conde, entre pinhais rio e mar...)
Reiteramos as saudades.
E já agora fica uma pergunta: Eça de Queiroz, afinal, nasceu na Póvoa ou em Vila do Conde? Anda o povinho intrigado.
As biografias conhecidas davam-no como nascido na Póvoa, quase sómente devido a um seu desabafo (descreveu-se como “um pobre homem da Póvoa de Varzim”); mas têm sido lançadas dúvidas, e agora até o Prof. José Hermano Saraiva andou a mostrar uma casa em Vila do Conde onde, a seu ver, provavelmente o homem terá nascido.
Por aí já decifraram o mistério?

Domingo, Novembro 02, 2003

Os Santos

Marmelos e romãs, amêndoas e nozes, castanhas e figos secos, passas, batatas-doces ....
São os santos, senhores, é dia de comprar, aviar, provar.
Ou guardar, que dá sorte para o ano inteiro.
Dos campos de Alvito aos vinhedos de Borba, feiram-se os Santos. É feirar, é feirar.
E depois é esperar pelo São Martinho, quando se vai à adega e prova o vinho.

Fernando Viscaíno Casas

Neste domingo morreu Fernando Vizcaíno Casas.
Era um español íntegro, valente e simpático. Um grande escritor e um conversador e humorista impagável.
Tinha nascido em Valência, a 23 de Fevereiro de 1926. De sua profissão original advogado laboral, tornou-se um fenómeno de popularidade e de vendas quando se lançou a escrever a crónica divertida do processo de transição e subsequente democratização de Espanha, com todo o seu cortejo de ridículos, grandes e pequenos.
O seu poder de observação e genial capacidade para descrever com ironia certeira a sociedade espanhola da sua época fizeram com que as suas obras chegassem ao espantoso número de quatro milhões de exemplares vendidos.
Foi então considerado como um "fenómeno sociológico" e chamado "mister bestseller" - sem que no entanto lograsse o reconhecimento dos círculos da cultura oficial.
Bem fácil de compreender a quem tenha lido as suas sátiras...
Destacam-se os títulos: "Contando los 40", "La España de la posguerra", "Café y copa con los famosos","Niñas...¡Al salón!","De Camisa Vieja a chaqueta nueva","...Y al tercer año resucitó","...Y habitó entre nosotros", "Las Autonosuyas", "Isabel, camisa vieja", "Viva Franco(con perdón)", "Cien años de honradez", "Los rojos ganaron la guerra", etc. Creio que dois ou três foram traduzidos e editados em Portugal (lembro-me pelo menos de "Meninas à sala!" e "Ao terceiro ano ressuscitou").
Os seus últimos êxitos foram as suas memórias, publicadas en três volumes.
Distinguiu-se sempre pela boa disposição, pela amabilidade, pela sua plena disponibilidade para todos os que procuravam o seu convívio e a sua ajuda - sem nunca vacilar na fidelidade aos seus ideais de toda a vida.
O Céu ficou a ganhar.

Criacionismo

"O Homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer.”

Leonardo Coimbra

O Problema da Filosofia Portuguesa

«Tudo depende não de aclimatar, não de continuar, mas de recomeçar uma tradição; tudo depende da eleição de um ponto de partida e da acção de um escol que venha a revelar em actual expressão ontológica o pensamento implícito nos documentos teológicos, políticos e literários que assinalam os decisivos passos da vida do nosso povo, e que venha a formular em sistema ou sistemas a filosofia própria da fisionomia nacional.»

Álvaro Ribeiro, 1943

Sábado, Novembro 01, 2003

Um sábio que vendia tractores

Num daqueles prédios sem graça de Santo António dos Cavaleiros, num apartamento igual a todos os outros, mora há muitos anos um cidadão pacato em que nenhum olhar se detém.
Como os demais moradores, veio de longe. Nasceu em Quadrazais, entre penhascos a mirar a Espanha, em 1939.
Das serranias da Guarda rumou à capital – e aportou ali. Desde meados da década de sessenta que ocupa fielmente um lugar entre os paroquianos daquele lugar em tempos deserto.
Todas as manhãs, cedinho, o formigueiro imenso dos dormitórios acorda, e os vizinhos buscam os transportes e o emprego.
O nosso homem, humilde e indistinto, segue também entre os mais. Passa Frielas, de fugida, e marcha até Moscavide, ou Sacavém, ou lá o que é, onde a fealdade dos edifícios e das barracas violenta a paisagem.
Trabalha no departamento comercial de uma grande empresa que vende maquinaria agrícola.
Rectifico: trabalhava. Reformou-se há pouco tempo. Completou o limite de tempo que a um honesto empregado se exige para vender tractores, escarificadores, grades de discos, e outros apetrechos que tais.
Entretanto, sem que isso adivinhasse quem contactava com o empregado comercial afável e discreto, ele estudava e escrevia.
Não me perguntem como, que milagres não se explicam. Mas estudava e escrevia. E investigava. Sempre. Muito. Estudava e escrevia, sempre e sem parar.
Sobre filosofia, história, teologia, literatura, poesia, filologia, sobre Portugal ou sobre a Guarda, sobre a Igreja ou sobre a cabala, sobre o falar de Quadrazais ou sobre Platão, ou Aristóteles, ou Heidegger, ou Leonardo, ou Álvaro Ribeiro, ou José Marinho.
Acreditem que o seu saber não cabe nas minhas pobres palavras. E a enormidade da sua obra já escrita enche bibliotecas – e não de saber vão e inútil, bom para os ratos e as traças.
Quando me perguntam qual é o mais importante dos portugueses vivos, eu faço uma pausa. Penso um momento no que ficará quando assentar a poeira do tempo. E respondo, sereno: para mim, é o Pinharanda Gomes.

Missas de Domingo

Horário das missas de rito tradicional latino-gregoriano marcadas para este Domingo, 2 de Novembro:

Em Lisboa: às 11 horas, no Priorado São Pio X
Estrada de Chelas, 29-31 (junto à Avenida D: Afonso III)

Em Fátima: às 11. 30 horas, na Casa do Menino Jesus de Praga
Rua da Imaculada Conceição, n.º 8 (entre a Capela de Santa Luzia e o Convento das Clarissas)
Bairro Moita Redonda

António de Navarro

Poeta dos mais representativos da Presença, no dizer de Régio.
Nasceu em Vilar Seco, Nelas, em 1902, faleceu em Lisboa, em 1980.
Foi-lhe atribuído o "Prémio Camilo Pessanha", no ano de 1974.
Publicou como obras finais do seu itinerário poético “O Acordar do Bronze” e “Guitarras em Madeira d’Asa”.


Sensação musical para embalo de almas

Onde a vida foi, fugitiva,
a forma inatingível,
a pura música cativa
e livre, como um sensível
alheio a nós, e sendo-nos,
há só o puro longe, o pólen
em suspensão e estige
de ausência - pétalas cismantes
recortando a sua origem
não em nós, na morte de instantes.


António de Navarro


Sexta-feira, Outubro 31, 2003

Terra e Povo

Porque me agarro, cada vez mais, à minha identidade cultural alentejana?
Simples. Os reflexos identitários são num povo o equivalente a um sistema imunológico.
Garantes de sobrevivência.
Hoje o localismo aparece-me como alternativa global à globalização.
Quanto mais locais mais universais; e mais longe do impulso geral para o cinzentismo e a indiferenciação próprios das ideologias dominantes.
O enraizamento, ou a queda no homem abstracto e uniforme sonhado por todas as engenharias sociais.
That's the question!

Gente Fina

Como uma desgraça nunca vem só, e para que nada falte ao infeliz Dr. Ferro, a Dra. Fátima Felgueiras vem lembrar que existe e lança vigorosa campanha para as eleições autárquicas em Felgueiras.
Vem tudo no jornal A Voz de Felgueiras, e merece leitura cuidada.
Para além de muito mais, a dado passo diz a senhora:

"É uma vergonha que um Secretário-Geral do maior partido da oposição não hesite, nem por um segundo, e decida afundar o PS – consigo e com o seu melhor amigo – num escândalo que, ao que sabemos, nada tem a ver com actividade política.
(...) É no mínimo muito estranho que o líder de todos os socialistas só meta as mãos no fogo por um amigo indiciado por 15 crimes de violação de menores!"

José António

Neste ano de 2003 completaram-se cem anos sobre o nascimento de José António, a 24 de Abril de 1903; passam sessenta e sete anos sobre o seu fuzilamento, a 20 de Novembro de 1936; e setenta anos sobre o acto de fundação da Falange, a 29 de Outubro de 1933.
Pelo que sei, mesmo em Espanha tais efemérides têm passado e passarão razoavelmente despercebidas. A Espanha actual prefere esquecer.
Em Portugal, onde o impacto e o conhecimento da obra e da personalidade de José António nunca alcançaram mais que núcleos muito limitados de admiradores, apesar da expressão que aqui também teve, in illo tempore, um precário movimento nacional-sindicalista, os aniversários referidos terão por destino passar inteiramente esquecidos.
E todavia, mesmo assim, a figura do mártir de Alicante alimentou também entre nós sonhos e paixões de gerações que no seu discurso e no seu exemplo pensaram encontrar o caminho da verdade política.
Quando eu, imberbe ainda, começava a minha pessoal caminhada pelas andanças da política, José António surgiu como uma revelação. No meu pequeno grupo recebemos todos com entusiasmo quase devoto o livrinho que José Miguel Alarcão Júdice lhe dedicou, editado em 1972, em Coimbra, pelas Edições Cidadela (agora não surge entre a bibliografia do autor), e creio que foi a admiração daí nascida que explica, em parte, a adesão logo dias depois do 25 de Abril ao Movimento Federalista Português (esquisito nome para uma organização onde ninguém era federalista; mas tudo tem a sua explicação).
O Júdice estava lá ...
O MFP surgiu logo no princípio de Maio de 1974, tendo à frente Fernando Pacheco de Amorim e Costa Deitado. Veio a falecer de morte matada em 28 de Setembro de 1974, crismado já então de Partido do Progresso. E os que não foram levados a conhecer a obra prisional do Estado Novo foram então conhecer a Espanha, a salto, que então ainda havia fronteiras, e bem guardadas.
Foram cinco meses de vida; todavia, tão intensos que marcaram para sempre uma geração, como marcaram um país. Muitos dos jovens dos núcleos nacional-revolucionários existentes em Coimbra, no Porto e em Lisboa tinham seguido naturalmente atrás de Miguel Júdice, de José Valle de Figueiredo, de Miguel Seabra, de Manuel Rebanda, de Diogo Miranda Barbosa, de Manuel Sobral Torres, e de outros que lhes davam garantias. E foram apanhados no turbilhão.
Os precavidos, que não vão a foguetes, tinham formado entretanto o MAP, Movimento de Acção Portuguesa, mas esses não eram os jovenzinhos inconscientes que nós éramos – e essa é outra história. Mas lá que não tiveram mais sorte, isso também é verdade.
Como o propósito era evocar José António, deixo aqui um pequeno artigo que Jaime Nogueira Pinto, então também na verdura da mocidade, publicou vai já para trinta e seis anos.

UMA JUVENTUDE

Escrever sobre José António Primo de Rivera é para nós como falar «dum irmão mais velho, que, antes de nascermos, tivesse abandonado a casa paterna», para correr mundo e morrer longe, um desses retratos amarelecidos, cartas e papéis em arca velha, uma história a recontar, um exemplo a seguir... Tudo isso nos legou José António e por tal, três décadas volvidas o achamos na juventude, e na juventude o temos como modelo, como padrão, como símbolo, como caminho...
Folheio o volume das Obras Completas reunidas e prefaciadas por Agustin del Rio Cisneros. Das páginas dos discursos, das notas políticas, das narrativas das batalhas, deste memorial, deste diário duma Alma e dum Movimento vejo recortar-se, imprimir-se, indelével, na imaginação e na manhã dos dias, a figura do Jovem César, um Espírito, um Destino, um Homem. Bardèche, num livrinho que muitos temos à cabeceira, Qu`est-ce que le Fascisme, escreveu: «...O único doutrinador de quem os fascistas do após-guerra admitem as ideias quase sem reservas, não é nem Hitler, nem Mussolini, mas o jovem chefe da Falange que um destino trágico poupou às agruras do poder e aos compromissos da guerra. A escolha deste herói não é puramente sentimental. Ela mostra tudo o que existe de idealismo no mito fascista. E contém mais, um testemunho: os fascistas preferem os seus mártires aos seus ministros. Como toda a gente».
Preferimos os nossos mártires... Creio que é verdade e talvez aí esteja uma das nossas virtudes que são nossas fraquezas.
Preferimos José António a outros mestres tão coerentes, talvez mais ortodoxos, talvez mais lúcidos... Porque para nós ele significa a Coragem, a Fidelidade, a Alegria, a Juventude, o «sentido ascético e militar da Vida», queremos esse Paraíso difícil, implacável, onde se está de pé com os Anjos. Como ele somos jovens e temos Camaradas, como ele pedimos ao Senhor Deus das Tempestades e das Batalhas, que nos dê o Caminho mais difícil e mais justo, leve a capitólios ou rochas tarpeias não importa, mas que seja o nosso Caminho. E que o sigamos com a mesma Fidelidade, a mesma Alegria, o mesmo Amor, com que José António o trilhou, desde sempre, por boas e más horas, do Discurso da Comédia àquela manhã de Novembro, em Alicante, quando uma vez mais o rubro do Sangue e o negro da Terra se fundiram no epílogo dum «destes combates em que se deixa a pele e as entranhas».


Jaime Nogueira Pinto (In «Agora», n.º 332, pág. 7, 25.09.1967)


Quinta-feira, Outubro 30, 2003

Três meses

Ao findar Outubro, no cair da folha, o “Sexo dos Anjos” completa três meses.
A melancolia do Outono bate forte, fortemente.
Mas continuo, gostando de me sentir de vez em quando como dos seus gatos dizia o meu conterrâneo Fialho de Almeida: “miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca”.
Presunção, claro. A água benta que não falte.


José Valle de Figueiredo

Poeta e crítico literário, nascido em Tondela, em 1942.
Em tempos director do jornal Combate e da revista Commedia.
De um rigor oficinal vigilante, só razões exógenas ao "dizer poético" o não tornam mais compartilhado.
Um dos poetas urgentes dos tempos novos.


CANTO PARA A JUSTA ACLAMAÇÃO DE VISEU

Palavra declamada em pedra,
que à arte mineral e pura se deu,
senhorial e descobridora,
com sílabas de granito
se abriu ao mundo:
foi além e acolheu-se
ao mar antigo e à terra estranha,
à gente remota e afeiçoada.
Daquela janela saudosa,
como verso que se faz poema
no curso vário, secular,
do alto se desvelou e viu,
e a novo canto se deu:
arte viva, grã cidade, Viseu.


José Valle de Figueiredo

Outra de Nelson Rodrigues

Como já tinha referido, Nelson Rodrigues participou activamente na campanha de recolha de fundos para evitar o fim da revista “Permanência”, de Gustavo Corção. Aproveitou mesmo para isso a tribuna de que dispunha no jornal “O Globo”, lançando daí o apelo bem humorado que segue (repare- se como parece fácil dizer coisas sérias a sorrir).
Fica aqui de presente, tanto para os que cultivam o prazer da leitura, puro e simples, como para aqueles que adicionalmente cultivam o hábito reflexivo de ler e pensar.

CARTA AO MILIONÁRIO BRASILEIRO
1
Meu caro milionário paulista. Não, não. Melhor será dizer: brasileiro. Meu caro milionário brasileiro: em primeiro lugar, devo dizer-lhe que não sinto nenhum preconceito contra o rico. Fica-lhe muito bem a sua fortuna e vou-lhe dizer mais: desejo do fundo da alma que você tenha uma casaca. Se a tem, creia-me: está justificado o fato de você ter nascido.
2
Nem pense que a casaca seja um dado frívolo, intranscendente. Sabe você por onde se demonstra o nosso racismo jamais confessado? Por um fato muito mais dramático do que se imagina: até hoje, não se viu um preto brasileiro de casaca. Não importa que os nossos sociólogos ponham a mão no fogo por uma democracia racial que nunca existiu. Primeiro, a casaca; depois, a sociologia.
3
Mas como ia dizendo: não tenho o preconceito contra a fortuna e tenho o preconceito oposto, ou seja: contra a miséria. Entendo que o Dom Hélder ame a miséria, ame a mortalidade infantil, ame a fome. Tudo isso é o seu ganha-pão. Por uma questão de sobrevivência e de turismo (ele, que viaja tanto), interessa-lhe que o Nordeste apodreça de fome infantil e adulta. Mas eu quero, inversamente, a multiplicação dos ricos.
4
Está escrito que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Escrevo isso e já uma dúvida me ocorre: será “fundo de uma agulha” ou “buraco de uma agulha”? Em ambas as hipóteses, tanto faz. Não sei se é católico e, em caso afirmativo — que tipo de católico? No passado, o católico era simplesmente católico. Mas hoje tudo mudou. Os “padres de passeata”, ditos “progressistas”, questionam todos os dogmas e, até, acham graça nos dogmas. Uns são católicos-marxistas, outros católicos sem vida eterna, e ainda outros “católicos-maoístas'“, ou “católicos-fidelistas” etc. etc. Só não são católicos.
5
Se meu caro milionário está na linha de D. Hélder e Dr. Alceu, a história do camelo e da agulha não passa de fábula de “gibi”. Mas quero crer que você seja um católico de verdade e não dos falsamente chamados “progressistas”. E, nesse caso, entre o efêmero e o eterno, você terá escolhido a eternidade.
6
Mas pergunto: entrará você no reino dos céus? Façamos aqui uma breve meditação sobre o seu destino efêmero e o seu destino eterno. Na Terra ou por outra — no Brasil, ser rico é um risco. Duas forças o ameaçam: de um lado, o comunismo; de outro lado, o anticomunismo. O que o salva do comunismo é o comunista. Com que inépcia, cegueira, obtusidade, irrealismo, alienação o comunista liquida o comunismo.
7
Resta o anticomunismo, que, por um ressentimento ingênuo, também não gosta dos ricos. Outro dia, dizia-me um milionário: “Ainda vou-me disfarçar de ceguinho.” Não brincava. Falo muito no ceguinho da Rua do Ouvidor. É o que toca ao violino sempre o mesmo tango: “La Cumparsita”. E o meu amigo milionário, nas suas fantasias, imagina-se de óculos escuros, bisando eternamente “La Cumparsita”. Gemeu: “O ceguinho da Rua do Ouvidor está muito mais seguro do que os milionários do Brasil.” Certamente, há, no seu pânico, um relativo exagero.
8
Eu me pergunto se você será ou não um herdeiro. Fez a sua fortuna ou se a recebeu, de graça? Em ambas as hipóteses, não há mal nenhum. Admitamos que seja um milionário de berço. Antes da primeira chupeta, já era milionário. Resta saber que destino escolheu para a sua herança. Você a dinamizou, você a potencializou, você injetou-lhe a sua vontade criadora?
9
Não sei se você passa muitas vezes pela Avenida Atlântica. É o meu caminho diário. Aquelas máquinas, aqueles guindastes, aquelas estacas, aquelas dragas, tudo aquilo parece a fundação do mundo. Todas as manhãs, faço o caminho do Forte ao Leme. E sinto que a praia da véspera não é a mesma do dia seguinte; que o mar é outro; que as dunas conquistam o mar. E como a praia muda, e muda o mar, e as espumas, tudo começa a mudar. É um delírio. Eis o que eu quero dizer: o seu dinheiro pode transformar também a realidade. Pode fazer inventar outras praias, outros mares, outros horizontes, outras ilhas.
10
Quero saber se você, meu bom milionário, tem feito horizontes, ilhas, praias. Há de gostar de uísque. Ou por outra: não gosta, mas toma uísque. Ninguém gosta e todos se encharcam de uísque. Está maravilhosamente certo. Ninguém bebe o que quer, ninguém come o que quer, ninguém tem a mulher que quer. Também finge que adora o seu jardim. Mandou Burle Marx fazê-lo. E o seu jardim só tem uma cor: um verde obsessivo, apavorante, alucinatório. Nós sabemos que não há nada mais feio do que uma cor sem as outras. E as visitas invejam o seu insuportável jardim e acham Burle Marx um gênio.
11
Você gosta de ter, nas imediações, decotes ideais. Nada disso o impedirá de atravessar o buraco da agulha (não o estou chamando de camelo). Mas o que é que você faz ou que é que você tem feito? O Brasil está para ser feito, nós temos de fazê-lo. Você nasceu, e como justifica o fato de ter nascido? É milionário e o acusam de ter dinheiro. Estão contra você o comunismo e o anticomunismo. E é possível que você mesmo, em suas insônias, faça uma autoflagelação.
12
Estou dizendo tudo isso para lhe fazer um pedido, meu bom milionário. Não quero de você nada de épico, de sublime. Pelo contrário. É um pequeno ato, de uma infinita modéstia. Sim, ato humilde, que não vai absolutamente promovê-lo. Ninguém vai saber que você o fez, senão você mesmo. É o seguinte: há, no Brasil, uma revista católica chamada Permanência. Imagino o seu pânico: “Revista católica?” Não se assuste, meu caro milionário. Permanência é uma desesperada batalha contra os “assassinos da Igreja”.
13
Não sei se você sabe, e, se não sabe, fique sabendo: a maioria absoluta, a quase unanimidade das revistas católicas são feitas, precisamente, pelos anticatólicos. Outro dia, li um pequeno jornalzinho e lá Cristo é apresentado como um guerrilheiro. Sim, como um assassino. Dirá alguém: “Mas o guerrilheiro não é assassino.” Acontece, porém, que é perfeitamente — assassino. Sabemos que qualquer guerra é monstruosa. Na última, morreram milhões e milhões de pessoas. Essa abundância cadavérica chega para o nosso horror. Pois a guerrilha é a mais infame das guerras, a chamada “guerra suja”. Direi, apenas, que é a guerra sem prisioneiro, que não admite prisioneiros, que mata prisioneiros. Você entende? Se quem mata prisioneiros não é assassino, quem o será?
14
Permanência constitui uma dramática exceção. É uma das raras, raríssimas revistas católicas feitas por católicos e não pelos inimigos da Igreja. Vive e sobrevive graças ao esforço abnegado e solitário de uma meia dúzia. E, sem meios promocionais, é pouquíssimo conhecida. Imagino que você, milionário, diga: ”Eu nunca a li.” E outros dirão: ”Nem eu, nem eu.” Não importa que ninguém a tenha lido. Mesmo sem um único leitor, Permanência precisa existir, continuar, não morrer.
15
Bem. Vamos ao pedido. Eu queria, milionário, que você fizesse o seguinte: mandasse um cheque para Permanência. Ninguém saberá, ou por outra: saberá aquele que o receber. Mas não mande uma quantia pequenina e vil. Se você, milionário, me pedisse uma sugestão, eu diria: um cheque de vinte milhões antigos. Gostaria de saber se, entre os milionários brasileiros, há um capaz desse gesto de amor. Se você fizer isso, meu amigo, o camelo passará pelo buraco da agulha. Sua doação será um momento da consciência católica.

NELSON RODRIGUES
(O Globo, 27-12-69)

«Vencer a matéria pelo espírito. O que seria preciso era a formação de um escol. A Filosofia Portuguesa é que tem o segredo da espiritualidade necessária para a transformação do Mundo. Não podemos esquecer Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Sampaio Bruno, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, e muitos outros. Mas, se é a Filosofia Portuguesa que tem o segredo dessa espiritualidade, os mais novos é que têm o segredo da transmutação. Se os jovens forem na corrente actual, então está tudo perdido. Nota-se, de facto, muitos jovens interessados no pensamento português. Se daqui resulta algo, só Deus é que sabe. Nós temos é de fazer as coisas.»

(António Telmo)

Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Blogues

Eu já conhecia o melhor blogue do Chiado.
E descobri agora o melhor blogue de Seia.
E o melhor blogue de toda a Beira Interior.

António José de Brito

António José Aguiar Alves de Brito, nascido a 22 de Novembro de 1927, no Porto, e no Porto residente, construiu ao longo do último meio século, em constante labor intelectual, uma obra de cuja vastidão e importância não parecem dar-se conta nem sequer os amigos.
Pensador comprometido com o seu tempo, longe da imagem tranquila do sábio de biblioteca, moveu-se sempre por uma preocupação de rigor e fundamentação que fizeram dele um dos casos mais sérios de vocação filosófica em toda a segunda metade do século XX em Portugal.
Ao acaso da memória, entre obras que tenho e outras que não tenho ou não encontro, elaborei a amostra que vou deixar aqui já a seguir, de títulos de livros publicados por António José de Brito.
Ficam por ordem alfabética, que outra organização implicaria trabalho a que não posso dedicar-me. Espero com isto impressionar, e motivar alguém a interessar-se, e ler – com o profundo respeito que merece um trabalho que não tem igual em Portugal, e não sei se terá similar em qualquer outro pensador vivo encontrável na família política em que orgulhosamente se insere.
Permanecem de fora, evidentemente, os inumeráveis exemplos dispersos da sua actividade de publicista, espalhados ao longo dos anos, desde a juventude até à actualidade, por jornais e revistas de desigual valor e notoriedade.
Quase todos os livros referidos são hoje muito difíceis de encontrar; sugiro mesmo assim que sejam procurados na Hugin e na Nova Arrancada, onde é possível que alguns deles estejam disponíveis.

- A propósito de juízos de existência
- Contradição e identidade
- Destino do nacionalismo português
- Diálogos de doutrina anti-democrática
- Estudos de Filosofia
- Filosofia contemporânea
- Le point de départ de la philosophie et son développement dialectique
- Nota sobre o conceito de soberania
- O problema da filosofia do direito
- O professor Jacinto Ferreira e o destino do nacionalismo português
- Para a compreensão do fascismo
- Para a compreensão do pensamento contra-revolucionário: Alfredo Pimenta, António Sardinha, Charles Maurras, Salazar
- Para uma filosofia
- Pensamento e realidade em Leonardo Coimbra
- Positivismo e idealismo na ética
- Razão e dialéctica: estudos de filosofia e história da filosofia
- Reflexões acerca do integralismo lusitano
- Sageza e ilusões da filosofia
- Será o homem uma pessoa?
- Uma “defesa do racionalismo”, no Porto, na segunda metade do século XIX
- Valor e realidade

Os católicos e a política

Nestes tempos mais próximos tem sido muito falado o apelo do Papa João Paulo II aos cidadãos católicos para que se empenhem na coisa pública, surjam activos na defesa dos princípios e valores que lhes são próprios, usando dos meios que a legalidade vigente lhes oferece e proporciona.
Cumpre observar que essa orientação não é nova, e antes tem sido uma constante nos ensinamentos papais desde a parte final do século XIX.
Em Portugal esse empenhamento traduziu-se logo nos primórdios do século, numa época de tormentas várias, pela criação do Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra, sempre associado a Salazar e Cerejeira, e posteriormente no Centro Católico, que viria a ter papel importante durante a primeira república na mobilização da opinião pública católica. Na fundação destes dois organismos salienta-se a presença prestigiada do professor Diogo Pacheco de Amorim, que para além do seu contributo pessoal prolongou ainda o seu legado à causa deixando sucessores, filhos e netos que ao longo do século marcaram presença em todos os momentos decisivos da vida nacional.
Este prólogo destina-se a explicar porque fica hoje aqui um curioso documento, não muito conhecido, todavia do maior relevo para a compreensão da acção política dos católicos durante a primeira república, e especialmente as suas relações com o sidonismo, no curto período em que esse movimento marcou a actualidade.

Manifesto do Centro Católico

Aos católicos portugueses:
Vimos, em nome do Centro Católico, expor aos católicos portugueses, em termos sinceros, francos e leais, o que se nos afigura ser na hora presente dever seu indeclinável.
Começaremos por definir a missão do Centro.
Não pretende este constituir um partido, que desça à arena política para disputar o poder.
Outra e mais alta é a sua ambição. Agremiando os homens de crenças vivas e acendrado patriotismo, sem distinção nem sacrifício de ideais políticos para fazerem imperar na vida pública os princípios cristãos de justiça e caridade e reivindicarem e defenderem os direitos e liberdades da igreja.
Como cidadãos, querem os católicos ver assegurada a sua liberdade religiosa sem ofensa dos direitos de outrem.
Propõe-se ainda o Centro exercer acção moderadora sobre as paixões políticas, defendendo os interesses superiores do país, sobranceiros às competições partidárias, como supremo critério da vida pública.
É singularmente difícil e incerta a situação actual, mercê das convulsões internas e dos perigos externos.
Cá dentro, a disciplina social abalada; os princípios fundamentais da ordem esquecidos ou violados; o espírito cristão enfraquecido; a vida económica e financeira profundamente perturbadas.
Lá fora, achamo-nos envolvidos na terrível guerra mundial, solidários com os nossos aliados. Cumpre-nos afirmar bem alto os direitos da nossa gloriosa nacionalidade e manter integro o seu património territorial.
Antes e durante este período crítico da vida nacional a demagogia sectária calcou aos pés todos os direitos e desencadeou as mais ruins paixões. Viram-se os católicos despojados das liberdades essenciais de culto, de associação, de ensino e consumada a apostasia do Estado pela quebra das relações seculares com a Santa Sé.
Máxima foi a nossa culpa. Não tínhamos organizado a defesa, mercê de comodista individualismo, propenso à passividade resignada e ao menosprezo do dever cívico.
A revolução triunfante em 8 de Dezembro último veio iniciar de surpresa a emancipação do país do jugo demagógico, que sobre ele pesava.
Por isso de norte a sul aclamaram entusiasticamente todas as classes sociais, sem distinção de opiniões, o actual Chefe do Estado, prestigioso caudilho daquele movimento libertador.
A parte sã do país manifestou - por modo mais significativo que uma consulta eleitoral - que daria todo o apoio a quem lhe garantia ordem, administração honesta e patriótica, respeito das consciências, exercício das legítimas liberdades.
A essas solenes demonstrações correspondeu o formal apelo do sr. dr. Sidónio País ao concurso patriótico de todos, sem distinção de crenças, nem de ideais políticos, à união de todos os bons portugueses para salvarem a Pátria nesta hora angustiosa.
Essa obra reparadora foi iniciada.
No que respeita a liberdade religiosa, algumas demonstrações de boa vontade foram dadas aos católicos e prometeu-se-lhes a reforma dessa lei odiosa e iníqua, que durante sete anos fora declarada pedra angular e paládio intangível, a lei chamada de separação e que foi apenas instrumento de expoliação e opressão. O que a Igreja sofreu e nós com ela, tratados como párias num país católico!
Veio a reforma prometida, mas, por lamentável contradição, não correspondeu a nossa expectativa, nem traduziu o propósito justiceiro do Chefe do Estado.
Derrogaram-se, é certo, alguns preceitos odiosos da antiga lei, mas outros permaneceram vigorando, em estranha antinomia com o critério anunciado.
Urge modificar a actual situação legal da religião católica entre nós, embora em regimen de separação; pondo-se termo ao funesto conflito entre o Estado e a consciência religiosa da grande maioria da nação.
Por esse propósito justiceiro e pacificador - que parece ser o do actual ministro da justiça -, importa orientar sem demora a acção governativa e parlamentar em matéria religiosa.
A primacial manifestação destas tendências deve ser um pronto e leal entendimento com a Santa Sé, consoante o exigem iniludivelmente os superiores interesses do país e o Centro Católico tem insistentemente reclamado.
Vai-se proceder a eleições para confirmar o mandato revolucionário que investiu o sr. dr. Sidónio País na presidência da república e para escolha dos membros de câmaras constituintes.
Qual o dever dos católicos em tal conjuntura?
Definiu-lho em termos claros e iniludíveis a última Pastoral colectiva. Devem votar e votar bem, preferindo os candidatos que melhores garantias derem de apoiar as suas reivindicações. Para isso importa que se façam recensear e que procurem esclarecer a consciência dos eleitores, acerca do alcance moral do acto que vão praticar.
Ao problema religioso junta-se o problema da ordem, da honesta e patriótica administração.
É no sr. dr Sidonio País que a nação confia para o resolver neste momento angustioso.
Por isso, devemos conceder, por desinteressado patriotismo, a ele e ao governo a que preside, apoio leal e franco, contribuindo para lhe fortalecer o prestígio pela consagração dos votos da grande massa conservadora.
Podemos e devemos fazê-lo sem quebra de dignidade, nem sacrifício dos nossos princípios.
Tem de ser reformada a Constituição.
Esforcemo-nos por fazer expurgar dela preceitos incompatíveis com a verdadeira liberdade da consciência. Cooperemos para que se fortaleça o poder executivo, libertando-o da abusiva invasão de atribuições pelo parlamentarismo, que em vez de exercer apenas a sua missão legislativa, sujeita os governos a tutela humilhante e corruptora, e impede a continuidade e salutar desafogo da sua acção.
Aconselhamos pois as católicos a dar o seu voto ao sr. dr. Sidónio Pais para a presidência da república.
Quanto à escolha de candidatos, depende de circunstâncias regionais. Onde a nossa organização nos permite fazer vingar uma candidatura do Centro, outra não pode ser a solução. Fora desses casos impõem-se os acordos honestos e dignos com o Governo e com os partidos que nos mereçam confiança sobre a base do apoio às nossas reivindicações essenciais.
Para unidade da acção, que a torne mais eficaz, as combinações eleitorais devem ser submetidas à Direcção Geral do Centro, à qual compete, segundo o regulamento, orientar e dirigir superiormente as trabalhos de acção eleitoral.
Fica assim traçada a linha de conduta que em consciência se nos afigura mais consentânea com a defesa dos superiores interesses da Religião e da Pátria.
Para a zelo dos católicos apelamos, cheios de confiança, pedindo-lhes que cumpram o seu dever.

Porto, 14 de Março de 1918.

A Direcção Geral do Centro,

José Fernando de Sousa
Diogo Pacheco de Amorim
Alberto Pinheiro Torres

Terça-feira, Outubro 28, 2003

Pedro Homem de Mello

O poeta D. Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello nasceu no Porto a 6 de Setembro de 1904 e veio a morrer na mesma cidade a 5 de Março de 1984.
Deixou vasta obra marcada por um lirismo profundamente português, nascido da sua própria vivência íntima e numa sentida e autêntica sintonia com o povo.
Foi muitas coisas na vida; advogado, professor ... sempre e sobretudo poeta.
A popularidade veio-lhe mais da sua actividade como estudioso e divulgador do folclore português, tarefa que o apaixonou durante décadas, e que o levou desde as romarias do Minho até aos programas da televisão.
A sua poesia espraiou-se por muitos livros: “Caravela ao Mar”, “Segredo”, “Há Uma Rosa na Manhã Agreste”, “Grande grande era a cidade”, “Eu Hei-de Voltar um dia”, “Eu Desci aos Infernos”, “Grande Poeta é o Povo”, “O Rapaz da Camisola Verde”, “Bodas Vermelhas” ....
Mas nunca ela, que tinha nascido do povo, teria alcançado a glória da voz do povo se não fora o encontro com Amália. Mágico casamento, que nos deu, entre o mais, “Fria claridade”, “Prece”, “O rapaz da camisola verde”, e, acima de tudo, “Povo que lavas no rio”.
Dou-vos hoje de presente “Povo que Lavas no Rio”, do Poeta D. Pedro.


Povo que lavas no rio

Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Há-de haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
Um beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seios...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

PEDRO HOMEM DE MELO

Segunda-feira, Outubro 27, 2003

"Há dois mistérios capazes de atrair a morte e de a aniquilar: escrever e amar, experiências originárias e últimas, a morte da morte ..."
(Vintila Horia, in Viagem aos Centros da Terra)

Nelson e Corção

Tenho a certeza que a primeira vez que li um artigo de Nelson Rodrigues foi em 1975, nas páginas de “O Dia”.
O quotidiano lisboeta, dirigido então por Vitorino Nemésio ou já por David Mourão Ferreira, ou pelos dois, não recordo bem, publicava pequenas crónicas do grande escritor brasileiro.
Fixei o momento porque o sabor único e inconfundível daquela prosa vigorosa, viva, envolvente, a visão daqueles pedaços de vida que ali ficavam expostos, com um toque de humor incomparável, constituíram de imediato um deslumbramento, uma descoberta que nunca mais esqueci.
Não se escrevia assim em Portugal – e ainda hoje se pode dizer o mesmo.
Desde então nunca mais afastei a minha atenção do formidável Nelsão. Entretanto, passou tempo, e muitos outros partilham o gosto. Não era assim nessa época, em que o autor era aqui um desconhecido, e pouco ilustre.
Mas falo de Nelson para falar de Corção.
Este nem depois de morto logrou o reconhecimento. Continua no índex.
Não por falta de empenho de Nelson: sempre, até ao fim, este exaltou o amigo em todas as oportunidades que lhe deixavam. Sempre sublinhou a grandeza do vulto cultural que os bloqueios imperantes condenavam ao silêncio.
A dedicação de Nelson chegou ao ponto de andar a fazer peditório a favor da “Permanência”, a revista de Gustavo Corção, lutando contra o iminente encerramento pela razão do costume.
Fica aqui o artigo, que já tinha prometido: uma crónica de Nelson Rodrigues sobre a personalidade de Gustavo Corção.


Tudo em Corção é Amor

Outra figura brasileira consagrada pelos palavrões: - Gustavo Corção. Ninguém diria, de maneira sucinta e inapelável: "É uma besta!" Bem que as esquerdas gostariam que o fosse. Mas os seus piores inimigos sabem, e não teriam o cinismo de negar, que Gustavo Corção é uma das inteligências mais sérias do Brasil. Certa vez aconteceu-me uma passagem extraordinária com o grande pensador católico.
Era domingo. Voltava eu, não sei se de um clássico ou de uma pelada. Na saída do Estádio Mário Filho, alguém me chama. Volto-me e dou de cara com um amigo, uma flor das esquerdas, um doce radical como o Antônio Calado ou como o Hélio Pelegrino. Eu e o amigo caminhamos no meio da torcida. Acontecera um empate e ninguém gritava. A multidão tinha algo de tristeza fluvial no seu lerdo escoamento. Então, o meu companheiro falou: - "Estou besta! Com a minha cara no chão!" Pensei que ele, Fluminense como eu, estivesse desiludido com o Tricolor (realmente, o meu clube não compra ninguém). Mas ele continuou: - "Nunca pensei que o Corção..." Fez uma pausa e repetiu: - "Estou besta! besta!"
Entre parênteses, esse meu amigo tem, pelo Corção, um ódio comovente. Não lhe diz o nome sem acrescentar... Acrescentar não. Não lhe diz o nome sem lhe antecipar um palavrão. Chega ao nome pelo palavrão. E, súbito, falava do inimigo com uma impostação diferente e, mesmo, inédita. Perguntei-lhe: - "Mas estás besta por quê?"
Esquecia-me de dizer que o meu amigo levava um radinho de pilha. Abriu uma pausa na conversa para ouvir os comentários do João Saldanha e as gravações dos "goals". Só depois do Saldanha é que voltamos ao Corção. Rádio desligado, e o outro me perguntou, na sua impressão profunda: - "Leste o artigo que ele escreveu? Que escreveu sobre o filho? Ó rapaz! O artigo do Corção sobre o filho?"
Não era um artigo do dia ou da véspera. Da sua publicação, transcorrera toda uma semana. E, através dos sete longos dias, o artigo do Corção ficara badalando dentro do meu amigo, como um sino inexorável. Membro da "festiva", freguês do "Antonio's", havaiano de praia, relera o inimigo umas quinze vezes. E a cada leitura a sua perplexidade era cada vez mais amarga. Súbito, via um novo Corção, um Corção jamais suspeitado, um anti-Corção.
Vejam vocês: - o grande prosador escrevera uma página sobre o filho, Rogério. Foi um artigo de funda e dilacerada ternura. O nosso Rogério estava no Vietnam, como um dos representantes do Brasil. Lá, as balas não escolhem, não discriminam, e tanto estouram a cara de americano, como de brasileiro. E havia no artigo todo um amor insuportável, e uma solidão desesperadora.
O assombro do meu amigo tinha a sua lógica. Durante anos, criara, e recriara, dia após dia, uma imagem hedionda do "reacionário". Ele imaginava que, se o Corção passasse a mão pela face, havia de sentir a própria hediondez. Nunca lhe ocorrera que aquela besta-fera pudesse ter costumes, usos, gestos, como outro qualquer. Impossível um Corção tomando cafezinho ali na esquina; inadmissível uma gargalhada do Corção, ou um assovio do Corção. E aquele Corção pai, simplesmente pai, e simplesmente terno, e simplesmente infeliz, e simplesmente órfão do próprio filho, contrariava toda uma imagem feita de palavrões, de insultos, de baba.
Mas, vejam toda a operação psicológica do meu amigo. A princípio não entendera uma palavra, tão desconhecido, tão estrangeiro, tão alienado parecia aquele Corção vergado, sofrido, perdidamente solitário. Só depois é que, limpando a figura dos palavrões, dos ultrajes, das calúnias, é que o freguês do "Antonio's" pode chegar à luz última e verdadeira do inimigo.
Por fim, quem estava infeliz, na volta do Estádio Mário Filho, era o membro da festiva. A partir daquele momento, os seus palavrões soariam falsos aos próprios ouvidos. O meu amigo estava comovido e, pior, furioso com a própria comoção.
E, então, chegou a minha vez. Não me lembro de tudo o que disse de Gustavo e de Rogério. O esquerdista ouvia só, numa desesperada impotência para negar a imagem que eu ia elaborando de Corçâo. Expliquei-lhe que tudo em Corção é amor; poucas pessoas conheço com tanta vocação, tanto destino, para o amor. O que parece ódio, nos seus escritos, é ainda amor. Amor que assume a forma das grandes e generosas procelas.
Bate forte, muitas vezes. Mas sempre por amor. Está fatalmente ao lado da pessoa e contra a antipessoa. É a luta que o apaixona. Todos os dias, lá vai ele atirar o seu dardo contra as hordas da antipessoa. Eis o que eu repeti para o meu amigo das esquerdas: - o Corção tem um coração atormentado e puro de menino.
Quem o sabe ler, percebe em todos os seus escritos o pai de Rogério, sempre o pai de Rogério, querendo salvar milhões de filhos, eternamente.


Nelson Rodrigues

In “O Óbvio Ululante”, Livraria Eldorado Editora, 1968, pp. 164-166


Domingo, Outubro 26, 2003

Ser liberal em Portugal

Na Catalaxia publicou o Rui um valioso texto em que, primeiro, dá notícia do lançamento no Porto de um livro de Carlos Abreu Amorim, com o título “É difícil ser liberal em Portugal”.
Porque se trata de duas pessoas que me merecem estima e consideração, como já ficou patente neste blogue por três ou quatro referências, não quero deixar passar em branco o acontecimento.
Antes do mais, porém, confesso, neste ponto dirigindo-me mais aos dois mencionados, que o título me causou um sorriso, ao mesmo tempo divertido e amargo. Não porque não acredite que é efectivamente difícil ser liberal em Portugal; admito perfeitamente, até porque em Portugal é habitualmente difícil ser seja o que for, desde que se queira ser com inteireza e carácter.
Todavia, inevitavelmente, tenho que observar que há opções bem mais dolorosas; fosse o Carlos por outros caminhos e logo veria como em vez da intensa actividade cívica que se lhe conhece teria por destino fatal a irremediável morte civil, quando não pior (dependeria dos momentos históricos).
Ser liberal, ainda assim, não me parece das coisas mais inconvenientes.
Mas isto são desabafos pessoais, de menor importância. O que mais queria salientar era a parte substancial do texto do Rui, onde este alinhava as múltiplas razões pelas quais, a seu ver, a seiva salvífica da ideologia liberal nunca foi recebida e assimilada pelo débil organismo da nação portuguesa.
O seu raciocinar enuncia algumas observações de indiscutível pertinência, relevância e actualidade, na caracterização que faz da sociedade portuguesa e das suas fragilidades. Mas não basta descrever o doente.
Perdoar-me-à, mas, embora ressalvando a valia do artigo, parece-me que este se detém onde deveria prosseguir.
O que deixa escrito são em geral constatações factuais. Mas quais as razões fundas para essa incompatibilidade radical? Quando a criança não se alimenta há que analisar os motivos.
Existe alergia congénita? Ou o produto não tem as propriedades precisas?
O bébé não sabe mamar? Ou essa mama é que não dá leite?

A obra intangível do Dr. Abílio Fernandes

Frequentes vezes, conversando longe de Évora, pessoas as mais diversas romperam espontaneamente em elogios à gestão municipal que foi aqui vigente ao longo de um quarto de século. Os elogios eram sempre estranhamente iguais. “fui outro dia a Évora. Que beleza! Vocês têm muita sorte em terem lá aquele presidente de câmara! Tudo tão preservado, tão cuidado ... uma maravilha!”.
Como já estava habituado a tais desabafos, geralmente fazia cara de ponto de interrogação: “Porquê tal elogio?” Os meus interlocutores admiravam-se, e engasgavam-se. “Então... não se está mesmo a ver? Não diz toda a gente? Tudo tão bem conservado! Tantos e tão belos monumentos!!!”.
A conversa acabava neste ponto. Observava divertido que nenhum dos monumentos era obra desta gestão autárquica; e que não me parecia grande mérito esse de conservar. Os cargos em causa não têm por missão a destruição do que existe. Conservar o que se recebe é o mínimo dos mínimos no cumprimento das obrigações.
Fiquei porém com uma ideia assente: na gestão da imagem, sobretudo para o exterior, foi o poder autárquico dominado durante 25 anos por Abílio Fernandes realmente mestre indiscutível.
Para dentro da cidade nem tanto; nunca por cá ouvi os rasgados elogios correntes na imprensa bem pensante ou na opinião moldada por esta.
Com efeito, findo o período histórico em questão, nada se encontra que possa servir de emblema, de marca de orgulho ou distinção para os responsáveis pelo poder local durante este passado quarto de século.
Nada, para além da tal conservação – e mesmo a este respeito os indígenas têm visão um tanto diferente do forasteiro que aqui passou uma vez como turista, ou viu algures umas reportagens.
Outros poderiam gabar-se – e lembro que ainda estão vivos pelo menos outros dois antigos presidentes de câmara desta cidade, Henrique Chaves e Serafim Silveira – de legados pessoais imperecíveis: “no meu tempo lancei e inaugurei as piscinas municipais”; “no meu mandato planeei e executei a zona de urbanização n.º 1 ou n.º 3” ....
Abílio não: ficam como sinais do seu tempo quatro ou cinco rotundas, e o monumento ao bombeiro ...
Mas conservar é realmente escasso mérito; repare-se que mesmo num conservador de museu actualmente é consensual que essa virtude não basta; pretende-se que anime o sítio, que faça do seu espaço um centro vivo de difusão da cultura, não que seja um guardião de memórias mortas.
Conservar é virtude capital em congelador ou arca frigorífica; espera-se mais de um governante.