Terça-feira, Junho 15, 2004

Azar de uns, sorte para outros

A nossa imprensa já tem novo escândalo para explorar até fartar: foi hoje preso numa grande operação anti-droga um dos filhos de Leonor Beleza. O detido será amanhã apresentado a primeiro interrogatório judicial no TIC de Lisboa, e vamos a ver o que acontecerá - se ficar em prisão preventiva vai ser o bom e o bonito.
Realmente não há nada que não aconteça à senhora. Repare-se que é Vice-Presidente da Assembleia da República, tinha-se visto livre da sombra do processo dos hemofílicos, tinha-se salvo incólume do processo Costa Freire, o irmão Zézé não tem dado bronca nestes últimos anos, os médicos já começavam a esquecê-la... Tudo se conjugava para um dia destes ser lançada para mais altos voos. Agora uma destas!

Na batalha das ideias

Surpreende-me sempre, com algum horror, observar alguns para quem o outro, o que connosco não está em concordância, é sempre um “mete-nojo”, que é preciso alistar de imediato entre a “escumalha” - expressivos vocábulos com que chocamos de vez em quando, e que certamente não possuem potencialidades para fomentar dialéctica minimamente produtiva.
Será provavelmente bizarria ou excentricidade minha, mas não consigo adaptar-me a esses hábitos mentais. Reconheço que estou antiquado, mas também não quero mudar agora. Mesmo correndo risco de linchamento.
Acredito convictamente que as ideias não se afirmam aos berros, que a política não se faz aos pulos pelas ruas, que do frenesim histérico nunca resulta nada, a não ser o rápido esgotamento do artista, perante a indiferença geral. Acredito na força tranquila. Acredito no trabalho continuado e no senso comum. Acredito no conhecimento do outro. Acredito no fascínio exaltante da inteligência e das ideias. Acredito na energia irradiante da palavra. Acredito que fazer política significa convencer e conquistar, e não correr com o próximo a pontapé. Acredito no avanço calmo e seguro da verdade. “Paulatim sed firmiter”.

Teses, antíteses, sínteses

A Filosofia Portuguesa é uma curiosa escola de pensamento onde nunca se encontram dois que estejam de acordo. Nisso também demonstra e manifesta a sua funda identidade lusíada (que meditem os identitários). Fiel a essa tradição da discordância tenho mantido há quase trinta anos convívio intelectual com a obra de Pinharanda Gomes – que sempre me apareceu como um dos mais valiosos e fecundos dos nossos pensadores, embora geralmente com ele me encontre em divergência, na filosofia como na política.
Enfim, delicio-me na leitura e satisfaço-me no saudável exercício do contraditório, mesmo sozinho. Dá ginástica mental, e enriquece o espírito. Encontrei-me de novo em pleno desafio ao deparar com o ensaio publicado por Pinharanda na “Aliança Nacional” sobre o pensamento nacionalista português no século XX.
É indispensável ler, conhecer, pensar. Mesmo que seja para discutir. Recomendo.
Acrescento aliás que no mesmo blogue surgiu-me outro artigo interrogativo e problematizante de Cruz Rodrigues, com quem também tenho o gosto de discordar já há muitos anos, sobre campanhas e oportunidades perdidas. Continua a mostrar-se estimulante, esse exercício criativo de discordar dele. Também recomendo o mesmo exercício.
Entretanto, importa continuar o caminho. Persistir e insistir. A verdade não tem pressa, mas reclama de nós afirmação constante e firme. Deus ajuda os que se ajudam.

Uma campanha necessária

Por iniciativa de algumas personalidades, sobretudo ligadas ao ensino universitário do Direito, está em marcha um abaixo-assinado destinado a suscitar a fiscalização da constitucionalidade da última revisão constitucional, que de modo supreendente veio consagrar uma situação de subalternidade do ordenamento jurídico interno em face de qualquer iniciativa legislativa europeia, abdicando de qualquer reserva de soberania nacional - num gesto que a muitos estudiosos se apresenta como um verdadeiro golpe de estado constitucional.
Este recurso aos mecanismos estabelecidos para a fiscalização da constitucionalidade pode vir a travar o processo, por força dos poderes atribuídos ao Tribunal Constitucional.
Podem os leitores também subscrever a "Petição para a fiscalização da constitucionalidade da última revisão constitucional", aqui em linha.
Pode ser que não sirva para nada; mas nada fazer é que certamente não serve.

Um retornado de luxo

Depois de longa ausência, sem nos dizer por onde andou, ou sequer novas do doutoramento, ressurgiu o Caminhos Errantes. Obriga-nos a uma reflexão dolorosa sobre as relações entre a quantidade e a qualidade: andamos nós aqui a suar e a amargar todos os dias para nos fazermos um poucochinho interessantes (exercício difícil e pretensioso atentas as limitações naturais) e eis que surge de lá o Alexandre, quando quer e os deuses permitem, e reduz-nos ao pó da nossa insignificância. Não sei se vos fale do maravilhamento do espírito se da dor aqui neste cotovelo...

Campanhas eleitorais

As campanhas eleitorais são como fogo de palha. Os entusiasmos gerados pelas campanhas vão-se tão depressa como vieram. O que conta em política não são as campanhas, é o que está entre as campanhas. O que é difícil é existir todos os dias, e não fazer dez dias de epopeia.
Diga-se aliás que em geral os resultados das campanhas dependem pouco das campanhas. O que mais importa a quem queira fazer política é pensar o trabalho político em profundidade, estar presente no dia a dia das pessoas, entrar com naturalidade e familiaridade no círculo de referências habitual de cada um, de modo que na altura da campanha esta seja apenas um aceno cordial a amigos e conhecidos - e não o surgir repentino de uns desconhecidos que aparecem só nessas ocasiões a pedir o nosso voto.
As campanhas eleitorais decidem-se a todo o tempo depois de findar a última e antes de começar a próxima. Só não se decidem no tempo oficial de campanha - aí as pessoas, justamente, têm muito mais dificuldade em acreditar, sobretudo nos intermitentes da política.

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Sugestão

No rescaldo pós-eleições europeias abundam agora os lamentos e as análises, umas culpabilizantes e outras desculpabilizantes, sobre os resultados.
Regra geral os que não gostaram do número de votos que tiveram encerram-se com os amigos e vá de discutir à exaustão o que é que correu mal. Porque é que não tivémos mais votos? Porque é que eles não votaram em nós?
Este exercício pode traduzir-se em perigoso enclausuramento, e conduzir ao erro frequente de confundir com a verdade estatística a orientação dominante no grupo fechado onde se discute - e que pode bem estar na origem do resultado indesejado.
Eu aconselho o método contrário. Podemos chamar-lhe o método do inquérito. É preciso conhecer os motivos da adesão e sobretudo da rejeição por parte dos outros. Quem desejar realmente saber porque foi que os outros não votaram na sua opção o melhor que tem a fazer é perguntar-lhes. Ou seja: organize um caderninho, e em vez de falar com os camaradas procure quem lhe garanta que não votou em tal opção. Depois procure saber a causa dessa recusa, e anote. Vá anotando sempre os motivos de quem conhecendo afastou essa hipótese, e recolha o maior número de respostas possíveis. Também é útil saber quantas pessoas nem tiveram conhecimento dessa alternativa, e os porquês. Quais as formas adequadas para se chegar a essas pessoas a que nem sequer se chegou. Mas eu queria acima de tudo salientar a utilidade do estudo das razões que determinaram aqueles que conheciam a escolha em causa e a puseram de lado. Quanto maior for a amostragem mais representativa será. O essencial do conselho está aqui: vão perguntar aos outros, não aos vossos. De outro modo nunca saberão porque não tiveram mais votos nem a forma de alguma vez vir a ter mais.

O Silêncio da Memória

Por razões que talvez alguns leitores entendam, tenho procurado divulgar e apoiar aqui a acção da APFADA- Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer.
Ao contrário de outras instituições por que tenho manifestado estima, neste caso não estamos perante um projecto de esperança. Trata-se tão só de solidariedade. Atrevo-me a dizer que no entanto ainda é de defesa da vida que se trata. Não da vida que se levanta como uma promessa de futuro, mas certamente de vida que ao nosso lado se extingue inelutavelmente - e nos força a interrogar sobre a sua precaridade, e sobre a sua contingência, para mais e mais intensamente descobrirmos o seu valor.
Proteger e amar as crianças é fácil - corresponde ao nosso interesse pessoal no amanhã, é afinal de contas um investimento. E tudo nas crianças nos transmite a beleza e a alegria do que fomos, a nostalgia da juventude que nos sorriu.
Ao contrário, o problema dos doentes de Alzheimer, como de todos os problemas da morte, da velhice, da invalidez, da miséria e da dependência, coloca-nos frente a frente com os nossos terrores, que se expõem de súbito na fealdade grotesca de situações desesperadas, angustiantes, de que fugimos incomodados.
Por isso nas sociedades contemporâneas, que correm apressadas e ligeiras em busca da felicidade que foge à nossa frente sem jamais se deixar alcançar, esta problemática tende a ser afastada e escondida da nossa vista, como se fosse possível esquecê-la - e fugir...
Daí o heroísmo das associações que, a contracorrente, se erguem do nada para lembrar que a solidariedade pode ser desprovida de outros objectivos que não sejam minorar o sofrimento dos outros, mostrar que mesmo nas situações mais extremas somos orgulhosamente uma sociedade e não uma horda de predadores, ou uma soma de egoísmos individuais. E que a dignidade da vida pode afirmar-se também pela dedicação com que a cultivamos e respeitamos até ao fim. Os valores defendem-se aqui, na fronteira, onde a sua afirmação mais precisa de entrega total, e se confronta a toda a hora com a tentação do abandono e da derrota.
Nestas batalhas, do voluntariado e da organização ao serviço de uma ideia de vida comunitária que passa pela afirmação constante da dignidade da vida humana desde a sua concepção até ao momento da morte natural, joga-se ainda e também a nossa concepção do mundo e da vida. Quem dera que muitas APFADAs mostrassem a saúde e a vitalidade da comunidade de destino em que estamos inseridos.

Aprendizagem da serenidade

Do falecido escritor francês Louis Pauwels quase todos, pelo menos os da minha geração, conhecem "O Despertar dos Mágicos", escrito em co-autoria com Jacques Bergier. Não é exagero afirmar que mudou a vida a muita gente; pelo menos significou para uma imensidão de leitores a descoberta de um outro universo mental, esse mundo paralelo explorado pelo pensamento a que Pauwels denominou de realismo fantástico e que rompia decididamente com o positivismo instalado, entrando sem preconceitos pelas fronteiras do insólito, do desconhecido, da aventura do conhecimento sem fronteiras nem limites. Sei bem que muitos com o tempo acabaram por perder o fascínio por essa atmosfera de fantasia, que lhes tinha enchido a adolescência e a juventude. É a vida, com os seus ditames e exigências. Mas a obra mantém-se entre as mais divulgadas e conhecidas a nível mundial.
Em Portugal, e na mesma linha de "O Despertar dos Mágicos", veio ainda a ser publicado "O Homem Eterno", da mesma parceria Pauwels-Bergier.
Porém, no mesmo processo de crescimento, a mim vieram depois a tocar-me particularmente duas obrinhas bem mais obscuras de Louis Pauwels, também editadas em Portugal. Uma é a "Carta Aberta às Pessoas Felizes", em que o autor apresenta aos leitores a sua tese, simples mas original, de que as pessoas felizes são a maioria, estão em maioria, apenas desconhecem tal facto, submersas que estão pelo domínio absoluto das ideologias que têm como pressuposto a infelicidade dos homens. Descobrissem os felizes essa sua condição maioritária e sacudissem o jugo da má consciência e angústia semeadas permanentemente pelos que vivem da exploração do tema das desgraças do mundo e o conjunto da humanidade poderia ser bem mais feliz.
Este livro de Pauwels mereceu uma resposta de Paul Sérant, escritor da mesma geração e pelo menos em parte dos respectivos percursos seu companheiro de convívios e tertúlias, o qual escreveu de imediato uma "Lettre Ouverte a Louis Pauwels sur les gents inquiets et qui ont bien raison de l'être". Neste escrito, como o comprido nome indica, o autor replicava a Pauwels que podia ele ter muitas razões, mas a verdade é que também não faltam motivos neste mundo para permanecer inquieto, por mais tranquilizante que fosse o quadro visto pelos olhos de Pauwels. Entre a inquietação pessimista de Paul Sérant e o optimismo tranquilizante de Louis Pauwels trava-se interessante diálogo, de agradável e proveitosa leitura.
Também foi publicado em Portugal o ensaio de Pauwels chamado "Aprendizagem da serenidade". Neste, em consonância com a apologia do optimismo e da felicidade apresentada no outro, Pauwels procura desenvolver a receita, expondo-nos a sua visão da necessária serenidade que é estádio indispensável para alcançar a desejável situação de pacífica harmonia e confiança que seria a chave do equilíbrio, próprio e colectivo, propugnado na outra obra. É uma espécie de teoria da indiferença, trabalhada como método de vida. As derrotas não vergam nem afectam a quem a elas permaneça insensível e distante, calmo e seguro no caminho.
Eu confesso que permanecei sempre desconfiado e contrafeito perante as divagações intelectuais de Pauwels nesta sua fase; parecia-me sempre uma curiosa mistura de ocidentalismo entusiasta servido por demasiadas leituras orientalizantes. E, certamente por incapacidade pessoal para aderir aos ensinamentos do mestre, lá continuei de espírito inquieto e agitado, como me vem de nascença. Mas não querendo deixar de reconhecer os méritos da ideia nunca deixei de recomendar aos outros: " - Vejam lá, o que é preciso é a aprendizagem da serenidade... os serenos duram mais..."
E para meu uso particular cunhei também uma filosofia própria: o que é preciso é bossa de camelo. Criar em nós as reservas de energia para continuar, seja o que for que vier de fora. Derrotas, adversidades, desgraças várias, nunca faltaram. Pode-se sobreviver no deserto, se soubermos que é uma prova de resistência. Quem encara cada etapa como o fim da estrada já não tem forças para alinhar na etapa seguinte.

Domingo, Junho 13, 2004

Facilidades e mistificações

Há dias um amigo deste espaço elogiou a minha “facilidade em escrever”. O intuito não era ofensivo, era simplesmente descartar-se das responsabilidades – eu desafiava-o para desenvolver também um blogue e ele assim, coitado, não pode, porque não tem a mesma facilidade em escrever. De caminho passava-me a mão pelo pêlo. Claro que engoli, mas irritou-me. Facilidade? Que sabe ele das minhas facilidades ou dificuldades? Quem sabe da tenda é o tendeiro. Eu é que posso dizer o que custa. Para usar palavras de outro, que têm a vantagem de já estar escritas, aqui só há sangue, suor e lágrimas. Se o pobre soubesse do meu trabalho e dos meus horários caía para o lado.
A verdade é que não existe tal facilidade. Nunca houve tal. Um bom texto, para aproveitar outra vez frases já feitas, nasce de uns dez por cento de inspiração e de noventa por cento de transpiração. Por exemplo, o leitor encontrou já aqui belos textos de Gustavo Corção, que é sem dúvida um grande escritor. Pois dizia este que nunca publicava um artigo sem que, depois de o “acabar”, o lesse pelo menos umas sete vezes – sempre refazendo e alterando o que não soava bem.
O mito da inspiração é música para românticos e preguiçosos. Cai bem nos espíritos de quem procura mistificações ou alibis para a inércia. Mas não existe tal. O que existe sempre em literatura, como em qualquer arte, é trabalho de oficina – tendo atrás a vida, a imaginação, a criatividade, o génio individual, ou lá o que quiserem, mas sempre e necessariamente o trabalho oficinal. Não há espontaneidade que não nasça de muito trabalho.
Claro que sempre houve quem se deleitasse a compôr a imagem. É muito conhecido entre nós um trecho célebre de Fernando Pessoa, que era um grande pintor, em que ele explica aos vindouros a génese da sua sequência “O Guardador de Rebanhos”. Deixou ele escrito que andava à cata de inspiração há um ror de tempo, e nada. Parecia que a fonte tinha secado. E súbita noite, sem aviso ou prenúncio, chegou-lhe repentina vontade de escrever, como se uma força superior o comandasse, e vá de correr para uma mesa onde de jacto foi escrevendo em êxtase profundo os seus versos, até ao fim. Mão oculta pegara na sua e lhe guiara a escrita, enquanto em transe o autor/receptor obedecia.
Evidentemente que a historieta é uma imposturice em que Pessoa é fértil. Serve para encher a imaginação das donzelas letradas, dos ingénuos e dos místicos. Mas é de todo mentira. Os poemas que compõem aquela sequência foram laboriosamente compostos ao longo de anos, até assumirem a forma final e lhes ser dado o enquadramento unitário por que ficaram. Alguns deles nasceram mesmo intervalados de bastantes anos, como acontece também com os poemas da “Mensagem”, a quem o poeta acabou por unificar num livro/poema, em políptico harmonioso e feliz.
A moral da história que a tire quem quiser.

Vamos aos votos!

A minha gente é muito ciosa dos seus votos. Regra geral, não há como levá-la até às urnas. É pessoal que não acredita neles, e pronto: vai daí manifesta forte alergia aos rituais de legitimação do sistema. Seja porque não há em quem votar, seja porque não serve para nada, seja porque não lhe apetece, seja porque tem mais que fazer, o certo é que dificilmente nos apanham lá. É um mecanismo inconsciente, incontrolável, ou sabe-se lá se é inconfessadamente para ficar entre os vencedores - o partido da abstenção é sempre o maior, e isto é tudo gente mais afeita às derrotas que às vitórias - a verdade é que em dia de eleições nessa é que não encontro os meus. Aliás, nesses dias acontece nem os encontrar; ignoro onde se escondem, mas com efeito nessa altura desaparecem de todo e só surgem de novo à luz do dia após cumprido o cerimonial todo, quando o país retorna às ocupações usuais.
Nessa altura regressam todos, aliviados por já ter passado a perturbação eleiçoeira, e tão críticos como antes. Para dizer bem até voltam com o criticismo redobrado, porque é norma os resultados confirmarem que aquilo não servia para nada - e o meu pessoal, nisso não se distinguindo do português médio, adora ter razão e fazê-lo notar.
Não há gente tão crítica quanto ao valor dos papelinhos mas ao mesmo tempo tão agarrada aos mesmos. É o cabo dos trabalhos para largarem um quadradinho de papel devidamente preenchido (sim, porque às vezes, por pressão familiar ou curiosidade para ver como se faz, alguns ainda caminham até lá, mas no sítio não resistem e na posse do mesmo dá-lhes uma fúria e escrevem no dito nem eu sei bem o quê).
É assim a modos que uma superstição, uma mania, uma desconfiança insuperável. Conheci um que me dizia sempre, com ar alarmado: "- Votar?!!! Eu só voto em mim.... e é de pé atrás!..."
Dito isto, o que é que eu quero afinal? Pois quero simplesmente que sorriam e vão votar. Nesta época luminosa em que o progresso, a liberdade e a democracia desfizeram finalmente todos os tabús não temos o direito de ficar presos a medos irracionais. Vamos lá aos votos! Vão ver que não custa nada, e aos depois um homem até se sente melhor. Afinal, cá na nossa sociedade, e como diriam solenes todos os bonzos deste pagode, votar é um grande dever.

Sábado, Junho 12, 2004

MOMENTO

ESTA BANDEIRA QUE SE ALTEIA
NO AR, DE SÚBITO, AGITADO,
COMOVE CADA VEIA
QUE O MEU SANGUE PERCORRE, AFOGUEADO.

Encontro de blogues

O I ENCONTRO DE BLOGS EXPO-GUADIANA irá decorrer no Alandroal no dia 03 de Julho. É uma oportunidade única de conviver com quem está por detrás das páginas e discutir o futuro da blogosfera, entre outros temas que irão ser tratados num colóquio a realizar no mesmo dia. Ao mesmo tempo o Alandroal irá estar em festa. Vai ser ralizada a EXPO-GUADIANA. Esta é uma oportunidade para os bloguistas conviverem entre amigos e ainda ficarem a conhecer mais uma parcela do Portugal desconhecido.
Para saber tudo, contactem os amigos do Alandroal.

Apoio à Vida


O Ponto de Apoio à Vida é uma instituição Particular de Solidariedade Social que nasceu para apoiar grávidas em dificuldades.
Mantém nomeadamente a Casa de Santa Isabel, situada na baixa lisboeta. Para quem sinta o chamamento é uma oportunidade de serviço: a Casa precisa normalmente de monitoras, em regime de turnos. Quem estiver disponível basta contactar directamente a responsável, Fernanda Ludovice.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

Os caminhos da esperança

Volto às minhas queridas instituições: lançar âncora na vida real, criar raízes no corpo social, estar atentos ao que existe, pessoas e grupos, marcar presença no nosso tempo e nas causas em que se definem os rumos do futuro - eis um belo programa de acção, uma orientação permanente para todos os que sonham, contra a fome e a náusea, pão e poesia para a Cidade.

MATERNIDADE E VIDA


FORUM DA FAMÍLIA

Autopsicografia

Como sabem alguns, fui sempre aborrecido e cinzento como um dia de chuva. Mas há um progresso: dantes era-o ao vivo, agora limito-me à prática virtual. Vejam as extraordinárias vantagens: ninguém precisa de se esforçar em amável deferência, ninguém tem que sacrificar-se por simpatia ou timidez. Sou realmente um entusiasta da internet. Afinal, neste intercâmbio entre o escrevente e os seus leitores há mais verdade do que na realidade da vida. Aqui ninguém finge um interesse que não tem; o leitor a quem as peculiaridades do meu blogue tristonho e bizarro ameaçarem de depressão corre logo a ir-se para outra. Não há tempo a perder nas navegações internáuticas. Uma pessoa só se detém onde algo o prende. Portanto, quem fica encontrou. O que fosse não sei. Afinidades? Coitados!... Espero que sejam antes diferenças, oposições, contrastes. A vida para além da tela certamente ressalta contra os tons mortiços desta.
O blogue, assim entre o confessional e o impressionista, sempre serve de alguma coisa. Serve ao dono, por esse modo redimido nesta roda invisível dos falhanços em matéria de sociabilidade, e servirá outros, que cá encontram modelo de estudo e reflexão - sobre o que importa evitar, para não acabar um dia a viver na internet. Só tem virtudes, este vício do bloganço.

Divagações pré-eleitorais

Como já tem sido desenvolvido por mentes mais capazes, a democracia é fértil em paradoxos. Chegados então aos momentos decisivos dos rituais democráticos eles ressaltam até ao mais distraído. Por exemplo, nas eleições. De acordo com a crença mais ortodoxa, a votação pressupõe o esclarecimento. Uma pessoa para votar deve ser conhecedora daquilo que vota. Mas, como é patente, o que acontece as mais das vezes é que só é possível votar no desconhecimento completo. A quem conhecesse não o apanhavam nessa.
Estou a pensar a este propósito no Professor João de Deus Pinheiro. Tudo leva a crer que terá muitos votos. Porquê? É simples: os votantes não o conhecem. Tivessem eles travado conhecimento com o personagem e outro galo cantaria. Eu, por mim, confesso: por azares da vida calhou-me conhecer o sujeito. Resultado: se alguém me disser que eu sou capaz de votar nele eu talvez não passe logo à agressão física mas que me assalta uma súbita vontade isso garanto.
Pessoa de bem que tenha conhecido mesmo ao de leve semelhante criatura não consegue votar nele. Olhem, para verem que não sou só eu, o Dr. Durão Barroso (e nem juro que seja pessoa de bem) conhece-o perfeitamente. E como ele muitos outros lá da mesma agremiação. E julgam que eles votam nele? É o votas! Chegados lá ao escondidinho da Câmara escura não são capazes. Rabiscam qualquer coisa para inutilizar o voto, suspiram, e vão-se embora aliviados. Evidentemente que eles querem que o Prof. Deus Pinheiro tenha os votos suficientes para ir de marcha para Bruxelas,ou Estrasburgo, ou lá o que seja desde que seja longe. Mas só isso. Nunca serão capazes de votar nele, embora peçam aos seus santinhos que haja os suficientes a votar. A que se deve esta aparente contradição? Não há contradição nenhuma, apenas acontece, como eu já tinha dito ali para trás, que eles conhecem-no, e quem o conhece nele não vota. Aliás, a opinião de Durão sobre o cavalheiro já é antiga, e nunca constituiu segredo.
De maneiras que é assim: quem conhece não vota, e quem vota não conhece. Neste sábio equilíbrio vão-se as coisas compondo. E de outro modo não funcionava isto.
De onde se conclui ser indispensável preservar a ignorância das massas, pressuposto essencial ao bom andamento do sistema. Caso contrário, ainda se esboroava a fé, que é alicerce da democracia.

Da vida dos passarinhos

Nesta sexta muitos fizeram como quinta. Nota-se no vazio que enche as ruas. E na expressão mortificada dos que aparecem, ainda assim, ao sacrifício de picar o ponto.
Não era preciso ser especialmente atento para reparar, mas parece-me que o meu posicionamento, sempre circulando por fora, me tornou um excelente observador. Ganhei em distanciamento e perspectiva o que perdi em envolvimento e partilha.
Espectador, pois, mas vigilante. Contudo, inapto para as grandes encenações forjadas pelos consonantes instrumentos de condicionamento do rebanho. Bem podem semear tudo de futebóis, que passo ao lado. Ainda não senti nada com o famosissimo Euro. Será que é deficiência?
Desvantagem creio que sim. A incapacidade para participar gera dificuldades de monta na vida de relação. Um homem que não sente as emoções grupais, que fica indiferente e frio perante a euforia geral, é de desconfiar. Merece ao menos uma prudente reserva. Um olhar de soslaio, e um franzir de testa. Digamos que pode ser boa pessoa, mas é esquisito.
Paciência. Fui realmente ganhando capacidade de observação. Poucos terão dedicado tempo a meditar sobre a vida social dos pintassilgos. Pois saibam que a minha janela é um lugar privilegiado para esse estudo. Os esquivos passarinhos nem dão por mim, entretidos que estão nos afazeres das suas vidas. Primeiro surpreendi-me com a descoberta, ignorante como estava que eles cultivassem aquele gosto por plátanos. Com o tempo,instalado assim à coca por sobre as altas copas das árvores, concluí que realmente as avezinhas gostam dos plátanos. Dos grandes, que lhes dão espaço e protecção, bem longe do chão e das ameaças terráqueas. Os pequenos evitam-nos.
E por ali vivem, sempre afanosamente. Parecem brincar permanentemente, em movimentos de bailado, ou de dança infantil. E são gregários! Sublinho a admiração da descoberta, porque não sabia. Conhecia os pintassilgos de gaiola, desde criança, e dos livres conhecia-os na época do acasalamento e dos ninhos. Qualquer mocinho alentejano e rural conhece: os pobres bichos são muito apreciados pelo seu chilrear alegre e pela vivacidade das cores. Consequentemente, sempre sofreram da tendência para acabar na gaiola. O que eu não sabia, e fui descobrindo nas sessões de observação, é que na realidade eles vivem em bando. Fazem vida colectiva. São animaizinhos sociais, e territoriais. Cada bando tem o seu espaço próprio, que demarcam com os tais voos rituais e o cantar harmonioso que delicia os poetas e os namorados. Suspeito que só passam a fazer vida a dois pelo imperativo biológico em que estarão a pensar. Nessa altura quebra-se a existência colectiva. São casal, e assumem. É a força do amor. Mas cumprida a missão, vivido o romance, assegurada a continuidade da espécie, abandonado o ninho e lançada a ninhada à vida, refaz-se a vida comunitária, até à estação seguinte.
Gosto dos pintassilgos. São simpáticos, e parecem sempre bem dispostos. Bem diferentes dos pardais, que não se calam nos beirais e nos telhados e que nunca perdem o tom irritado de quem discute. Quanto a estes ainda não entendi as quezílias internas que os fazem sempre zangados uns com os outros. Mas que há disputa séria e permanente, isso é certo. Pode ser que venha a conhecer algum ornitólogo que me explique.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

O Anjo de Portugal

A boa doutrina, como já vem sendo norma, chega-nos d'"A Casa de Sarto".
Sabiam que hoje é o dia consagrado no liturgia ao Anjo Custódio de Portugal?
Sabiam que também os povos, como os homens, possuem o seu anjo da guarda?
Sabiam que nas aparições de Fátima não foi só Nossa Senhora que surgiu aos pastorinhos, mas também o anjo custódio da nação? Tudo isso e muito mais há que lembrar nestes nossos esquecidos tempos.
Curiosamente, o JSarto, remetendo-nos para um site brasileiro, acaba por enviar-nos para um texto do Dr. Sebastião Martins dos Reis - o sábio escritor que aos temas de Fátima dedicou muitos anos da sua vida, e que foi uma das estrelas maiores da constelação de sacerdotes que há algumas décadas atrás iluminou Évora, na esteira do milagre que foi o renascimento da igreja eborense com D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Desses, já não há mais...

Lino de Carvalho

Depois do falecimento de Sousa Franco, surgiu a notícia da morte do deputado Lino de Carvalho.
Anoto aqui o seu desaparecimento, porque, sem evidentemente pretender ofender ninguém, se me afigura que este irá ter mais consequências políticas que o primeiro.
Julgo que esta minha afirmação será entendida por muito poucos, e parecerá absurda à maior parte. Mas é o que penso. E creio mesmo assim que no PCP, no Alentejo, ou pelo menos em Évora, haverá quem me perceba.

Feira do Livro de Lisboa

Hoje, dia em que passam 60 anos sobre a cerimónia de inauguração do Estádio Nacional, belamente retratada num célebre documentário de António Lopes Ribeiro, encerra-se a Feira do Livro de Lisboa.
Esta fez já 74 anos, é mais velhinha do que o Estádio Nacional. Começou os seus dias em Maio de 1930, no Rossio, com 17 barracas montadas ao redor do lago, entre a estátua central e o Teatro D. Maria II. Durou nessa primeira edição doze dias, e constituiu um êxito de público.
Teve inauguração solene pelo Presidente Carmona e outras individualidades de então, e os seus obreiros foram João de Araújo Moraes, Gaspar de Almeida, José Francisco de Oliveira e António Maria Pereira, da então chamada Associação de Classe dos Editores e Livreiros de Portugal.
De 1930 a 1941 manteve-se no Rossio, e em 1942 e 1943 subiu para a Avenida (na zona frente ao desaparecido Café Palladium). Em 1944 e 1945 voltou ao Rossio, e em 1946 regressou à Avenida, mas para o outro lado, no passeio fronteiro ao Condes. Aí ficou até que voltou para o Rossio em 1950, onde esteve até 1954. Em 1955 voltou de novo para a Avenida, em zona mais acima. Pela Avenida da Liberdade se manteve por muitos anos, a maior parte da sua vida, oscilando no espaço, no passeio entre a Rua das Pretas e a Barata Salgueiro ou entre o Tivoli e a Alexandre Herculano, ao sabor das obras do metro, até ganhar o seu lugar no Parque Eduardo VII, não me recordo bem em que ano (lembro-me com segurança de a ter visitado em 1978 ainda na Avenida, depois disso não tenho a certeza se já estava no Parque e também não tenho a informação à mão, nem me apetece ir procurá-la). O certo é que mudou para o Parque, até ao presente.
Os retardatários vão por mim dar-lhe um abraço, e passem então pelos já famosos stands da Dislivro onde se encontram os valiosos alfarrábios inencontráveis no circuito comercial; e já agora pela sempre esquecida Imprensa Nacional, cuja actividade editorial tem trazido a público autores e obras que sem esse impulso não veriam a luz (desde filosofia de António José de Brito até à poesia de Couto Viana, Mário Beirão, Tomás de Figueiredo, e muito mais que merece averiguação no local).

Resposta a Camões para sempre

Nunca digas não mais, mesmo que a ferida
Te pareça mortal.
Mesmo que a gente surda e endurecida
Se chame Portugal.

Mesmo que o gosto da cobiça
Te roube o tecto e o chão
E nos pratos da balança da justiça
Pese mais a prisão do que o perdão.

Mesmo que a austera, apagada e vil tristeza
Seja mortalha de silêncio e frio
E só tenhas por rumo e por certeza
Um coração vazio.

Nunca digas não mais à pátria oculta:
Dela, és sonora e límpida garganta.
Exalta o espelho de ti próprio, exulta
E sempre e para sempre canta.

António Manuel Couto Viana

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Amanhã é Dia de Portugal!

Apesar do alheamento do país oficial, amanhã, 10 de Junho, passa mais um Dia de Portugal. A todos os que na intimidade dos seus corações sentem que a efeméride lhes diz respeito, eu chamo a comemorar o Dia da Pátria. Como escrevia o Pinharanda, se o mandamento maior é amar o outro como a nós mesmos então como amaremos o outro se de nós não gostarmos?
Comemorar o Dia de Portugal tem por significado real lembrar que a Pátria Portuguesa tem direito à existência na Soberania, Justiça e Unidade. Mas mais do que lembrar Portugal o Dia deve servir fundamentalmente para afirmar que a Pátria continua. Mais do que nos deleitarmos na lembrança do passado glorioso ou carpirmos o presente de tristeza impõe-se aos Portugueses proclamar altivamente que Portugal existe, continua e triunfará. E que da memória do passado e do desgosto do presente surgirá a alegria do Futuro celebrado na Unidade, na Justiça, na Grandeza, na Liberdade.
Para que todos os dias dos Portugueses sejam Dias de Portugal.

Com este são 1001!

Com o postal anterior o meu blogue atingiu o número redondo de 1000 (mil) entradas. Já se pode afirmar, pelo menos, que tem muito que ler: dediquem-se aí a pesquisar nos arquivos e verão. Nem eu contava com tanto; a escrita foi fluindo, dia a dia, com maior ou menor esforço, e a obra foi crescendo.
Falando francamente, a generalidade do que se encontra não passa de banalidades, umas mais pretensiosas que outras, publicadas ao sabor dos humores, da memória ou da vaidade. Mas quanto a sinceridade eu garanto: a coisa é autêntica, e não tem mais representação do que a estritamente necessária. Representar o que somos tem sempre presente uma dose de encenação; mas dessa ninguém se livra.

Não ficaremos a ver navios, mas a ver passar os comboios é provável...

A Ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, admitiu hoje que poderá vir a ser criada uma universidade de Medicina no Algarve, integrada no futuro Hospital Central, a construir no Parque das Cidades, próximo de Faro.
Por sua vez, o reitor da Universidade do Algarve, Adriano Pimpão, garantiu que a instituição apresentará a sua candidatura a um curso de Medicina em Julho. Ressalvando que "a última palavra cabe ao Governo", Adriano Pimpão sustentou que "não há notícia de interesse por parte da Universidade de Évora". "O Algarve reúne todas as condições para ter uma universidade pública de Medicina", disse, sublinhando que a distância em relação a Lisboa é "um bom argumento" para a candidatura algarvia.
E que dizem a esta notícia os que em Évora já começavam a deitar foguetes?

Terça-feira, Junho 08, 2004

A raiz da coisa

Comentando hoje o fenómeno bloguístico o jornalista Walter Ventura escreve a dado passo que "na realidade, grande parte dos que utilizam os blogs são os párias a quem a comunicação social está para sempre vedada". Pois. Acertou com o dedo numa das feridas. A expressão quantitativa da blogosfera numa dada sociedade parece estar em proporção directa com o grau de exclusão opinativa aí implantado. Por outras palavras: quanto mais estreito o leque da opinião e informação permitidos maior a adesão e entusiasmo com a blogação.
Compreende-se assim que, à escala universal, já tenham sido publicados estudos que revelam estarem o Irão e Portugal, por exemplo, entre os países em que a blogação rapidamente atingiu mais larga e expressiva dimensão.
Não há que estranhar, quando se observa uma comunicação social instalada que em plena campanha eleitoral, em que pode estar em causa o destino da comunidade, alimenta um tipo de cobertura que se entretém com polémicas sobre as carecas, os óculos, as orelhas, o golfe, e outras prendas dos candidatos, entre outros temas da maior transcendência para a compreensão do que está em jogo (não digo do que está em disputa, porque entre eles o que está em disputa é apenas a ocupação dos lugares - em tudo o resto não divergem).
Deste modo, confessemos, para muitos a blogação não é uma escolha - é um recurso. A única voz possível para os que estão condenados a não ter nenhuma nos aparelhos controladores do condicionamento mental imposto.

Os vencidos do catolicismo

Já aqui tinha chamado a atenção para o livro de João Bénard da Costa, "Nós, os vencidos do catolicismo", pela singular importância que se me afigurou ter para o conhecimento do itinerário geracional, e pessoal, de um conjunto de gente, entre as quais personalidades notáveis a vários títulos, que marcaram presença na vida portuguesa a partir da década de cinquenta do século XX.
Desde logo o livro, a que já tinha tomado o sabor pela leitura parcial em crónicas no "Independente", parecia-me ter muito de memória, mas também de testemunho, ou testamento, ou até de carta pessoal e interpelante dirigida a D. António dos Reis Rodrigues. Que assim era pareceu-me de certo modo confirmado pouco depois quando vi nas livrarias as memórias do Bispo.
Adquiri mais certeza sobre a relevância do depoimento e reflexões de Bénard da Costa, como autoretrato dessa geração de homens todos eles agora com mais de setenta anos e que viveram intensamente uma ilusão de catolicismo - e as desilusões desse caminho. Como superiormente está no poema de Ruy Belo, o bardo do grupo, que deu o título ao livro. ("Nós, os vencidos do catolicismo/ que não sabemos já de onde a luz mana"...)
Recordei hoje o livro pela evocação que dele faz em "O Diabo" o Dr. Dinis da Fonseca, que também foi presidente da Juventude Universitária Católica no final do seu curso de Medicina, por 1958/1959.
Não surgirão muito mais depoimentos vindos de dentro, dada a idade dos protagonistas. Poderia ser interessante que o fizessem Alçada Baptista, que está presente nos primórdios e também no final do trajecto, com a sua "Moraes Editores", e "O Tempo e o Modo", como seria interessante conhecer a visão de Vasco Pulido Valente, que apanhou, sendo mais novo, a parte final da história, as iniciativas dos anos sessenta em que, finalmente, acabou por dissolver-se toda a lógica de grupo ou de geração, por degenerescência ou desistência ou transformação. Ou derrota, como no fundo dizem Bénard e Ruy Belo.
O livro traça um percurso de 1954 a 1968. E não consigo afastar a ideia que a isto tudo outros católicos teriam também uma palavra relevante a acrescentar. Até porque a história de uns pode explicar ou ajudar a explicar o percurso dos outros. Podia ser a deixa para o Dr. Cruz Rodrigues.

Ponto de ordem

Alguns leitores amigos mostraram sinais de inquietação com os tons sombrios usados por mim na pintura em alguns postais anteriores. Não deviam ralar-se em demasia. Nada indica que as realidades sejam como eu as pinto. As coisas são como são, e não como me aparecem à vista. Se não são assim, não é assim que passarão a ser. Eu é que as vejo assim. Visão fiel e verdadeira? Ora, ora... Fosse outro o olhar, e outra seria a cor.
Não se deixem ir em literatices, como sabiamente adverte o amigo Dragão.
Aliás, segundo me vem agora à lembrança, já era a tese exposta por Camilo em "Coração, Cabeça e Estômago". E outra não era a opinião da Tia Doroteia na "Morgadinha dos Canaviais" - sendo este um parecer de autoridade acrescida, porque o autor era médico.
Enfim, não tomem muito a sério quadros e aguarelas. Aquilo nunca é a realidade, é só trabalho de pincéis e tinta, ao sabor de quem pinta.

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Fim de tarde

Os pombos da Praça do Giraldo já me conhecem. Sabem que sou inofensivo. Quando abro caminho por entre eles limitam-se a desviar-se, sem grande pressa, e só dois ou três esvoaçam brevemente, num volteio mais de cumprimento que de susto. Voltam de imediato à tarefa de debicar os grãos que vão restando da voracidade do bando. Os dadores são poucos e os bicos são muitos. Não lhes levo a mal a concentração, embora me magoe um tanto a indiferença. Não porque a atitude resulte de alguma antipatia especial para com a minha pessoa. Não há ali hostilidade. Passa-se apenas que em geral são pouco deferentes para com os passantes, desde que sejam pacíficos. Cada um fica na sua. A não ser que algum bruto tome comportamentos agressivos, pois então toda a praça se agita num frémito de asas indignadas.
A fleuma rotineira não é de estranhar. Só eles se mantiveram fiéis à praça que nós abandonámos. Hoje nós passamos, mas eles estão. E são de lá, nasceram e vivem lá. É deles a vida e o bulício da praça. Mesmo assim gostava de mais atenções; afinal temos em comum aquela praça, vai e volta, volta e vai, encontramo-nos várias vezes por dia. Existe já uma cumplicidade tácita. Nunca me esqueço de os cumprimentar. A eles e ao Beato Salú, que me acena de longe com uma mão enquanto com a outra continua a cofiar a barba enorme e desgrenhada. Além do cumprimento gestual diz-me qualquer coisa que não entendo e sorri, com uma vénia cerimoniosa. Tem algo de intrigante, o sorriso do Beato Salú. Parece-me uma certa ironia, e, pode ser que me engane, mas parece-me ironia fina, inteligente. Que estará a pensar o Beato Salú quando me vê passar, e atencioso me reverencia? Hei-de perguntar a algum psiquiatra o que acha disto, quando apanhar um a jeito. Não que confie muito na resposta; em geral os psiquiatras sabem muito pouco de loucos. Percebem mais das mentes sãs, porque obedecem a esquemas conhecidos e normalizados. Os mecanismos comuns e ordinários da mente são cientificamente explicáveis. O pior é a extravagância, a infracção às regras estudadas: essa deixa-os perplexos e desorientados, como a qualquer de nós.
Prossigo, absorto, pelo meio das esplanadas e dos expositores da Feira do Livro. Tenho a sensação que todos esses acrescentos temporários são ali mais estranhos do que os pombos. Estes é que estão em casa. O resto está ali por empréstimo, e de passagem. Como todos nós, os que nos apressamos a caminho de casa. São tudo postiços, amovíveis, consumíveis, descartáveis, colocados artificialmente na nudez da praça.
Dali mesmo é Santo Antão, que nos mira com a fachada austera. Nunca deixo de falar a Santo Antão. É um santo de forte personalidade, cheio de virtudes heróicas, um símbolo do despojamento e do desprezo pelo mundo e por tudo o que neste se venera. Creio bem que o rijo eremita se plantou ali, no topo da Praça do Giraldo, para nos lembrar que há sempre uma porta aberta para um mundo outro, ainda que continuemos ignorando a sua presença, sem deter o passo. Depois os homens foram erguer-lhe mesmo em frente, do outro lado do tabuleiro da praça, como em desafio, a sede do Banco de Portugal. No rosto do santo eremita do deserto, que venceu a carne, o diabo, e o mundo, levantou-se o templo venerador do dinheiro, da matéria, do mundo, em permanente afronta ao primado do espírito. No eixo maior da praça do Giraldo ficaram a confrontar-se os templos levantados a Deus e ao Bezerro de Oiro!
Continuo a marcha, sem me deter. Digo adeus à praça, e sigo. Rumo aos meus queridos jacarandás do Largo da Misericórdia, que me estendem o tapete ao ver-me de volta, e passo.

Eu não sei que tenho em Évora

Nunca compreendi a estranha e difícil relação que sempre mantive com Évora.
A cidade olha-nos desde o fundo dos tempos, muda e esfíngica, fechada nos seus mistérios como uma interrogação silenciosa. Nada ajuda à desocultação do que está, indefinível, na raiz da atracção e da incomodidade que coexistem a cada aproximação.
Vergílio Ferreira apresenta-a como lembrando uma ermida, para onde convergiam os caminhos da planície. Mas é uma ermida que nos interpela, e não responde.
Estando ausentes nunca se perde a sensação vivida do fascínio, a necessidade sempre presente de regressar e ver. Estando presentes logo nos inunda a impressão difícil do silêncio, da incomunicabilidade, do peso que nos esmaga e asfixia. Da paradoxal ausência, não se sabe de quê. A vontade de fugir, de voar, de escapar. A cidade prende-nos como um cárcere invisível.
As pessoas movem-se por entre as pedras e a cal que os poetas cantam de um modo que sempre me deixou uma intrigante sensação de vazio, de fantasmagórica ilusão de vida. Passa-se, por entre a gente, uma vida inteira, e continuamos a sentir-nos intocados e distantes.
Com o calor do Verão acentua-se a irrealidade do conjunto. O calor e a luz enchem cada recanto, e o silêncio instala-se ainda mais pesado e sufocante. Há gente, e não há ninguém. Caminho sempre, como se fosse eu só a perder-me por entre o sol e as sombras de uma cidade esquecida no deserto. Não fossem os velhos jacarandás do Largo da Misericórdia, que se exibem em floração garrida, e juro que não teria visto uma pincelada de vida. Instalo-me na tarde quente e vazia, e olho aqui de dentro, para lá das janelas, por sobre os telhados e os quintais. Nada rasga o manto acolchoado e morno do silêncio que tudo envolve, a não ser o piar insistente de uns pardais, que parecem estar zangados, não sei se entre eles ou também com o mundo, que não traz ninguém contente. Creio que se queixam também. Em Évora não se morre e não se vive.

Domingo, Junho 06, 2004

Escrever na net

Escrever é um exercício solitário. Sempre. Mesmo em experiências de escrita conjunta, por mais que se tente apagar qualquer traço de individualidade no contributo de cada um. Dêem lá as voltas que derem é sempre de dentro de si que cada participante arranca a sua parte. Só depois é possível apagar as marcas, e tentar amassar a ficção da autoria colectiva.
Portanto, escrever é um exercício solitário. Tanto para o adolescente que se confia ao seu diário, que ninguém há-de ler, como para o fabricante de sucessos literários que programa a linha de montagem estudando a melhor maneira de fazer a boca doce aos consumidores. E tanto num monumental "Guerra e Paz" ou "A la recherche du tempos perdu" como no mais insonso dos produtos da fast-food literateira.
Todavia, o exercício não pode fazer-se sem a presença de um outro qualquer - ainda que seja um "alter ego" do autor. É da natureza da escrita, como instrumento de comunicação que é. Vive como um meio, um elo de intermediação entre o emissor e um qualquer destinatário, mesmo que por força de uma duplicação artificiosa de papéis seja o próprio que escreve o seu próprio interlocutor. Diálogo, pois, é sempre, por mais monologante que nos apareça.
Está presente no exercício tanto a sua característica solidão como a necessária presença do outro. Tal como na vida, afinal.
E na rede? A pergunta tem-me surgido, insistente, perante a novidade deste novo suporte. Sublinho que é ainda escrita, tal qual, mas num novo suporte. E este traz algumas novidades. Como se verifica as mais das vezes o escrevinhador escreve sózinho, algures num ponto perdido do universo, frente a um teclado e a um écran, sem o calor de uma presença física. O interlocutor, para ser presente, tem que ser por ele ficcionado ou imaginado. Nisto não se distingue o novo suporte, na sua solitude, dos mais antigos exercícios. O monge na sua cela gravando laboriosamente os seus preciosos manuscritos está na mesma situação em face do mundo distante.
As diferenças, porém, não são para desprezar. Desde logo o tempo, o diferente funcionamento do tempo. Nesta escrita o escriba pode estar a ser lido em tempo real, enquanto escreve, por uma infinidade de destinatários. Logo que solta a mensagem um sem número de receptores, que ele não controla, podem recebê-la e fazê-la sua. E podem reagir! Esta é uma mudança formidável. Aqui o escriba pode ter logo o que em tempos só após longa espera seria possível alcançar: o retorno, o eco, a resposta que mereceram as palavras que largou à sua sorte.
Por este modo o autor pode envolver-se num diálgo imediato e directo com o seu público. Pode discutir com ele, ouvi-lo e partilhar o que ele pensa, ir fazendo a sua obra enquanto mede a temperatura das reacções. Situação inteiramente nova.
Poderá esta novidade afastar a solidão que apontei ao exercício de escrever? Enquanto acto de criação, certamente que não. Criar é como respirar; podemos todos fazer o mesmo, mas cada um faz por si e só pode fazer por si.
E enquanto sentimento? Pode a partilha na rede, a cumplicidade que nasça, trazer o conforto da amizade, ou a graça do amor, ou a alegria do companheirismo e da camaradagem, como se a rede nos desse o que a vida nega?

Sobre solitários

A solidão será sempre um estado, uma mera situação, acidental e transitória, ou será para alguns uma natureza?
Por outras palavras, haverá quem não possa deixar de estar só? Quem nasça ou se faça incapaz para a comunhão plena com outro?
O tema é complexo e difícil. A incapacidade para amar parece que existe. Muitos entendidos assinalam essa deficiência em D. Juan - o homem que procuraria em todas as mulheres o que não pode encontrar em nenhuma. No mito donjuanesco o que estaria representado era esse drama íntimo, essa incapacidade pessoal profunda e intransponível.
Incansavelmente D. Juan conhece mulher após mulher, para em cada uma se descobrir só - ausente o Amor que poderia ser o graal daquela demanda.
Desconhecendo o Amor, o herói está condenado à busca inglória e frustrada, até ao fim. Na desgraça delas prolonga-se a impotência dele. No encontro com a carne ele encontra sempre o vazio, a fome do absoluto, e nunca a saciedade. É ele o vencido, vergado pela sua impotência até ao desepero final. Don Juan, o impotente!
Drieu La Rochelle expõe, no fundo, a mesma angústia em "L'homme couvert de femmes". Ele procura e não acha - a perfeição, a plenitude, a felicidade, o absoluto, ou lá o que for. O que terá ficado perdido, lá para trás, no abismo escuro que é a alma de cada um, que condena um ser à viagem perpétua, à inquietação do que não sabe e não encontra?
O sexo surge aí como uma compensação amarga, um fruto que não é o que Eva prometia - o da eterna sabedoria, da árvore da vida e da morte - mas é o que Eva podia dar. Com sabor de abismo e transcendência, vertigens, de altura e queda.
Por vezes o sentimento de incapacidade chega à renúncia. Já não há sonho, nem procura. Fica só a carne. E nem vou falar de Montherlant (leiam "Pitié pour les femmes"). Lembro-me muitas vezes de uma passagem de Jacques Laurent (em "Les Délices") em que o protagonista (o escritor, a obra é autobiográfica, seja a autobiografia ficcionada ou real) descreve a sua relação com uma leitora jovem que conheceu de passagem, após uma conferência. Tem que dar-lhe conversa, falar-lhe de literatura e da sua literatura, porque sabe que é isso que a traz fascinada até ele. Mas por si não cultiva ilusões, mira-lhe o corpo, cobiça-lhe a frescura do corpo, e sabe que é só isso o que pretende. A dado passo explica coloquialmente ao leitor, com franqueza, enquanto a olha e faz para dentro o diagnóstico sumário da situação, que ela o desejava pelos seus romances enquanto ele a desejava pelas suas pernas. Talvez a troca fosse justa; certamente que nem a moça sabia escrever romances como os dele nem ele tinha muitas possibilidades de fruir de pernas como as dela, sem os romances.
Mas também nessa confidência havia a renúncia, o desencanto, a solidão. Por condenação, destino ou fatalidade, e não por escolha.

Relatório breve

Pela vez primeira estou com a sensação de que há crise na blogosfera. Noto um certo esgotamento, rareiam os assuntos, desertam os blogonautas, fecham blogues, escasseia a inspiração, cai a pique o ritmo da escrita. Há um tom geral de cansaço. Não há polémica que aqueça, nem discussão que afugente o tédio.
O que será? Não sei. Para onde terão migrado atenções e entusiasmos? Para as eleições europeias não, certamente, para a praia pode ser que sim.
Mas é certo que uma vaga atmosfera de aborrecimento instalou-se sobre o vasto mar das navegações blogosféricas. Não digam que não, porque até os visitantes sentem e se passeiam desinteressados com o mesmo ar ausente e neurótico com que costumam pairar por entre as barracas da Feira do Livro. Um gosto a desilusão, de quem esperava novidade e só encontra o já visto e mais que visto.
A nossa blogosfera precisa de ar fresco, gente nova e diferente, outro estilo, outras preocupações, outras ideias. A renovação já não virá dos instalados no mercado, por mais fusões, aquisições, transformações, ou maquilhagens com que se apresentem.
Por mim aqui vou continuar, mas confesso que também tacteando no escuro à procura do tom. Provavelmente vai ser como calhar, ao sabor do dia. Conforme o estado do espírito que comanda a escrita; umas vezes mais sombrio, outras talvez em cores mais garridas. Por estes dias a coloração não anda muito alegre. Sendo embora verdade que já tenho idade para me surpreender pouco, sobretudo com a natureza humana que os incorrigíveis optimistas me asseguram ser excelente de seu natural, nunca a alma conseguiu criar a habituação e o calo precisos para aprender a indiferença - e acontece que me doem as manifestações cruas da bondade e generosidade tão frequentemente proclamadas. Será dos meus olhos, que não têm as luzes dos filósofos, mas parece-me realmente que cada vez que um homem está a afundar-se há sempre outro que não resiste à tentação de lhe pôr o pé em cima. Pessimismo antropológico, quiçá patológico, direis vós - pois sim, fiquem-se na vossa que da minha patologia quem sabe sou eu.

Sábado, Junho 05, 2004

Os homens precisam de discriminação positiva?


Recentemente um médico com responsabilidades dirigentes na sua classe profissional a nível do Norte do país veio alvitrar a necessidade de estabelecer quotas mínimas de entradas em Medicina para alunos do sexo masculino, de modo a conseguir pôr algum travão no predomínio estatístico das mulheres nessa profissão. Algumas vozes, no meio em causa, pareceram pronunciar-se favoravelmente, se bem que com um certo pudor, como foi o caso do próprio bastonário.
O ineditismo da proposta provocou algum alvoroço (veja-se que a situação oposta é que tem sido recorrente, insistindo alguns sectores em apresentar propostas para a fixação de quotas mínimas de mulheses em certas profissões e cargos). Mas depressa foi esquecida (julgo eu).
Mesmo assim ainda provocou alguns protestos, como se encontra no site "Mulheres em Acção".
Por mim, fiquei intrigado com dois aspectos. Primeiro, não encontrei expressa nas tais propostas nenhuma justificação de motivos. São as mulheres profissionalmente menos capazes de nos tratar da saúde? São os homens um grupo social fragilizado e desfavorecido que necessita de medidas de discriminação positiva?
Creio que se torna necessário explicitar a fundamentação da ideia. Não basta a constatação da predominância cada vez maior da presença feminina nos cursos de Medicina. É preciso saber se o facto é negativo, ou é positivo, ou nem uma coisa nem outra. Se for irrelevante também não vale a pena combater o fenómeno.
O segundo aspecto que me deixou perplexo é este, e não deixa de me assaltar sempre que me lembro do assunto: como se sentiriam os rapazes que entrassem em Medicina ao abrigo das tais quotas? Conseguiriam olhar de frente para as colegas que com eles terminassem o secundário, com notas francamente superiores, e que ficassem de fora do curso por força da tal quota reservada em função do sexo?

Não esqueçam o encontro!


E lembrem-se que a inscrição tem que entrar até dia 15 deste mês. Comuniquem quanto antes com os colegas do Alandroal, se fazem favor. Sem tardança!

Forum Eugénio de Almeida

Na galeria de exposições do Forum Eugénio de Almeida encontra-se agora uma colecção de gravuras de Vieira da Silva. Foi inaugurada com a presença ilustre de Agustina Bessa Luís, que escreveu a propósito o texto que acompanha a exposição.
Fica o alerta aos eborenses, e aos visitantes que circularem pela ára monumental da cidade. Trata-se efectivamente de acontecimento cultural de primeira grandeza, a não perder. Num espaço que tarda em ser descoberto e adoptado pela cidade.

Sexta-feira, Junho 04, 2004

Quem te avisa teu amigo é


Estes estão mesmo a calhar para a próxima inventona....

Sugestão de fim de semana

E para quem quiser passar um fim de semana em família, tiver criancinhas, goste do campo, de animais e do Alentejo profundo, há sempre a hipótese do Monte Selvagem...
Poderá também ir à Feira de Pavia, no vizinho Concelho de Mora, mas isso já não será certamente tão repousante.

A campanha: ainda não foi desta que passou para a net

Ao princípio ainda pensei que as presentes eleições fossem as primeiras a ficar marcadas pelo recurso generalizado à internet como meio privilegiado de campanha. Sobretudo por parte daqueles que não têm as menores condições de acesso aos meios tradicionais de comunicação, todos ferreamente controlados pelas mesmas mãos que detêm as rédeas do poder económico, político ou cultural. Quem não tem quaisquer meios para superar com êxito o bloqueio imposto nesses terrenos era de esperar que apostasse em força no único grande meio de comunicação ainda aberto, e para mais com potencialidades infinitas de desenvolvimento que dependem em grande parte do mero execício da imaginação e da criatividade. A certa altura deu a sensação de que podia ser assim.
Mas não: os hábitos, os atavismos, os impulsos convencionais foram mais fortes. Ninguém resistiu à tentação de andar a imitar em pequenino o que os grandes fazem em grande. Os desabafos falam por si: se nós tivéssemos dinheiro para os outdoors que eles têm... se nós tivéssemos meios para pagar os cartazes que eles espalham por aí...
As lamentações traduzem em geral o desgosto de não poder fazer igual aos outros. E então faz-se o mesmo, embora em miniatura. Instintivamente rejeita-se a hipótese de, simplesmente, fazer outra coisa.
Deste modo a campanha, se olharmos o conjunto das treze candidaturas, parece uma corrida de Fórmula 1 em que uns tantos possuidores de uns velhos e ronceiros 2CV não resistiram em ir alinhar na partida ao lado dos reluzentes Ferraris.
Na tentação de mostrar músculo nos mesmos campos em que os gigantes dominam irremediavelmente esqueceu-se como se fora um terreno ainda marginal a aposta na internet. Tanto forum de debate e informação, tanto órgão de informação em linha a pedir comentários e participação, tanto espaço na blogosfera, e nota-se até que tudo foi secundarizado e desertificado pelos afazeres da campanha (entendendo aqui campanha, por deslize inconsciente, nos estritos termos determinados pelos usos e costumes).
Quem ficou na rede em liça foi apenas quem já estava antes. Esta observação é bem constatável na blogosfera, na qual dadas as suas características próprias, de instrumento de grande maleabilidade e flexibilidade, seria de esperar uma possível explosão de novos blogues motivados pela luta eleitoral (já aconteceu noutros lugares).
Enfim, ainda não foi desta. Eu compreendo, porque conheço a psicologia do militante tipo, ardendo de entusiasmo combativo: o fervoroso rapaz do MRPP preferirá mil vezes ir agitar uma enorme bandeira vermelha no Rossio à hora de ponta, sentir no rosto afogueado o vento que agita o pano e o calor que lhe aquece a fé, por entre o ruído da multidão que passa e o olha, do que sentar-se num canto escuro e frio a escrever mensagens para pessoas que nem vê nem o vêem. Com efeito, é uma triste e melancólica cena que nem dá para um cartaz.
Provavelmente o trabalho paciente e sistemático na internet seria bem mais compensador do que a efemeridade da fotografia desse momento. Mas é realmente difícil vencer os instintos profundos (a espécie é gregária, precisa do conforto da camaradagem, do sentir físico das gentes, das ruas, das caravanas, dos comícios, das bandeiras, dos cartazes, dos papéis, das palavras de ordem - até eu gosto!) e desenvolver uma estratégia que só a frieza do raciocínio aconselharia.

Mattos Fernandes

Em tempos que já lá vão, era uso da burguesia lisboeta, como sempre vaidosa nos seus ademanes de "cosmopolita", ironizar com quem viajasse para o Alentejo advertindo que em Évora por mais que andes não encontras senão porcos, Potes e Fernandes.
As mudanças fizeram com que os porcos rareassem, os Potes e os Fernandes dispersassem... Mas lá que ainda os há, lá isso é verdade.
Vem isso a propósito da informação vinda do Emílio de Sousa sobre a realização do convívio da família Matos Fernandes. O anfitrião é Raul Miguel Rosado Fernandes, pelo que o discurso de boas vindas bem poderá ser em grego ou em latim do mais fino recorte clássico. Ou em alentejano vernáculo, que ele é bem capaz disso - fala essas línguas todas!
Ao almoço são esperados mais de mil convivas - uns mais ilustres do que outros, pois claro. Portanto, quem neste fim de semana vier a Évora, ou a Reguengos, não tem que estranhar se a cada esquina ou recanto não encontrar senão hordas de Fernandes, das várias tribos, clãs, gens e fratrias em que a espécie se reparte.

O jogo viciado

Perante o desenrolar da presente campanha eleitoral não consigo deixar de pensar naqueles casinos em que o prémio sai sempre à casa. Nunca tinha sido tão ostensivo o encerramento sobre si mesmo do círculo fechado dos detentores do poder. Nem nos grandes meios de comunicação oficialista se procurou fingir um mínimo de abertura: quem veja os noticiários das televisões, como eu ontem vi, constatará que só existem as candidaturas situadas dentro do arco situacionista. Das outras nem sequer se refere a existência.
Como resultado do entendimento cordial entre os condóminos do país que nos resta, consegue-se o milagre de não aflorar sequer nenhuma das questões que em tese seriam o centro das atenções nesta campanha. Alguém ouviu falar da Europa? Alguma vez se falou sobre qual a Europa que se pretende? Tocou-se uma vez que fosse, e ainda que fosse ao de leve, em questões como a Constituição Europeia, o hipotético referendo, a possível entrada da Turquia, o controlo dos fluxos migratórios, no exterior e no interior das fronteiras comunitárias, a configuração das instituições, seja o Conselho ou o Parlamento, seja o problema do directório ou os poderes de cada Estado, a federação ou a confederação... Nada que pudesse ser relevante foi sequer abordado! Em vez de uma campanha de participação e discussão pública tivémos uma campanha de ocultação.
Os cidadãos são chamados a votar, de entre os eleitos previamente pelo sistema, a partir das suas peculiaridades físicas ou das suas performances em matéria de marketing e comunicação, como numa promoção de supermercado em que se confrontassem o SKIP e o TIDE.
E assim vamos para os votos, já daqui a poucos dias.

De António Sardinha, emocionadamente

A "Invocação" que o poeta de Monforte escreveu para a terra transtagana permanece como um dos mais belos poemas jamais dedicados à "Epopeia da Planície".
Grande lembrança, Pedro!

Quinta-feira, Junho 03, 2004

Canção para os meus filhos

Romeiros de antigamente
A caminho de amanhã
Por caminhos do presente
Voltados ao sol nascente
Vamos saudar a manhã.

Romeiros da Roma antiga
Que ainda hoje nos chama
Só queremos que nos siga
Quem souber numa cantiga
Pôr o calor duma chama.

Romeiros, sim. Os primeiros
Romeiros deste ideal.
Por serras, desfiladeiros,
Planuras, somos romeiros.
Nossa Roma é Portugal.

LUIZ DE MACEDO

Ainda a direita catita e a esquerda caviar

Estou propênsico a aceitar a crítica do Dragão: parece que em muitos casos a pretensiosa distinção que adiantei traduz-se em dignificar demasiado a coisa.
Efectivamente constato que vezes sem conta tudo se resume a "pequenas tribos de amigalhaços" que se reunem aqui e ali "para jogar matraquilhos culturais ou torneios florais politicodoces".
Admito e concedo. Não há nada como uma visão simples da realidade; não adianta estar a armar aqui em culto, inteligente e civilizado, que sou logo apanhado na primeira curva.

As afinidades electivas

Depois de ter encontrado em diversos locais indubitavelmente esquerdistas várias referências carinhosas ao que os autores chamam "a direita culta, inteligente e civilizada" creio ter entendido com algum rigor qual é a coisa a que corresponde a designação. A "direita culta, inteligente e civilizada", a que a esquerda repetidamente se refere, corresponde à direita sociológica que absorveu e interiorizou sem crítica ou objecção a "formatação mental" que define a esquerda.
É aquela burguesia urbana que partilha com a esquerda, por inteiro, as referências culturais, a "forma mentis", os valores, o estilo de vida, o consumo de toda a parafernália de bens colocados no mercado pela produção industrial a que a esquerda se dedica há muito nos terrenos que vão desde o campo artístico e literário até ao mero lazer e entretenimento.
Quando se dedica a actividades intelectuais, essa direita limita-se com naturalidade a passear o intelecto pelo universo esquerdista. No terreno previamente demarcado, aceita a distribuição de papéis: uns são de esquerda, outros são de direita. Mas dentro dos limites dados pelo quadro mental prédefinido.
A relação entre a esquerda e essa direita é assim necessariamente íntima, feita de cumplicidades e subentendidos: os pressupostos são os mesmos, só uns gostos, umas manias e uns afectos é que provocam divergências. Mesmo quando momentaneamente entram em polémica, persiste sempre entre uma e outra mais ou menos a mesma relação que se encontra entre os Drs. Miguel Portas e Paulo Portas. Entre a esquerda caviar e a direita catita a diferença resulta por vezes, apenas, de qual foi o primeiro filme a impressionar-lhes a imaginação juvenil.

Feira do Livro

Tendo em conta as opiniões fidedignas que leio em vários blogues, torna-se indispensável a visita ao pavilhão da DisLivro na Feira do Livro de Lisboa.
Parecem que apresentam ao público obras das velhas Edições Gama, Edições A Rua, Editorial Restauração e Editorial Resistência, todas elas desaparecidas dos circuitos comerciais normais.
Encontram-se autores como Alfredo Pimenta, António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, António Manuel Couto Viana, Amândio César, e ainda Rodrigo Emílio ("Serenata a Meus Umbrais" e "Reunião de Ruínas").
É preciso correr a comprar, e guardar, antes que os barnabés se apercebam e desatem a uivar pela imediata proibição de tão indecorosa e inconstitucional manifestação de ideias interditas....

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Subjectiva

O 10 de Junho ainda é o Dia de Portugal?

Cortes de Coimbra


Para quem frequente a sala das sessões do Tribunal da Relação do Porto, reproduzo aqui o fresco do pintor alentejano Dordio Gomes representando a eleição de D. João I. Já tinham reparado?

Dordio Gomes


Do extraordinário pintor de Arraiolos, que ao Porto e à sua ESBAP dedicou a maior parte da sua vida, e boa parte da sua obra, eis um quadro com Évora ao fundo... A nossa Sé, sempre abençoando a planície.

A campanha

Faltam apenas dez dias para as eleições para o parlamento europeu. Para compensar a indiferença popular, os responsáveis das principais candidaturas soltaram a língua e resolveram aquecer o ambiente tratando de se insultar uns aos outros. Houve logo reacções negativas, deplorando o baixo nível das injúrias recíprocas entre os ditos protagonistas. Confesso que não entendo porquê: ainda não os ouvi dizer nada que me parecesse exagerado. Nestas alturas é que eles dizem a verdade.

Sorraia vai cheio

Em tempos a capital da blogosfera era Avis, dada a relação número de blogues por número de habitantes. Mas agora, tenham paciência os amigos do Maranhão, parece-me que os blogues de Coruche ou relacionados com Coruche já tornaram a capital do Sorraia a terra de maior densidade bloguística do país.
Passo a inventariar os que conheço: Coruche, O Corujão, Em Coruche, Cruxices, Bloguinho, Conspirações, Antiblogue, Biscainho, Minha Querida Terra.
São muitos! E acredito que ainda haja mais...
O que dizem a isto os blogueiros de Avis?

Antigos Alunos do Liceu de Beja

Foi renovada e melhorada a página da Associação dos Antigos Alunos do Liceu de Beja.
Como sempre tenho feito em relação aos Antigos Alunos do Liceu de Évora, espécie de que faço parte, aqui fica o merecido destaque para os compadres do Baixo Alentejo.
A nossa identidade pessoal e colectiva passa pela preservação, também, dessas memórias.
E uma vez que ali se exaltam algumas personalidades ligadas de uma forma ou de outra à memória bejense, aproveito para fazer uma chamada de atenção para o poeta Mário Beirão: em tempo de revalorização crítica da poesia que tem o seu epígono em Pascoais, seria ocasião de relembrar e reler aquele que é, talvez, o mais importante poeta alentejano do século XX (e digo isto sabendo bem que nenhum poderá rivalizar com a popularização de Florbela, por razões que me parecem fáceis de entender).
A Imprensa Nacional/Casa da Moeda também publicou as "Poesias Completas" de Mário Beirão, reunidas em trabalho conjunto de António Cândido Franco e Luís Amaro (o primeiro quase um alentejano de adopção, dada a sua actividade profissional na Universidade de Évora, e o segundo, velho aljustrelense de nascença, um lisboeta honorário, tendo em conta a sua profunda ligação à capital, velha de tantas décadas).
Vamos então a reler Mário Beirão. Podem começar aqui. Mas passem pela INCM na Feira do Livro, que o melhor é sempre ler no papel.

Terça-feira, Junho 01, 2004

A poesia que promete

São os poetas que movem os povos; mas ai dos que frente à poesia que destrói não erguem a poesia que promete...
Essa máxima célebre de um rapaz muito cá de casa serve às mil maravilhas para introduzir mais um poema de Couto Viana, na continuação da homenagem a que me propus, face à publicação pela INCM do conjunto da sua obra poética ("60 anos de Poesia").
Juntamente com "Vitorial", já aqui publicado há mais tempo, é este um dos mais apelativos e convocatórios, e digamos também prometaicos, dos grandes poemas de Couto Viana.
Está musicado, praticamente desde que apareceu, tal como o "Vitorial". Divulgado na voz e na música de Manuel Sobral Torres, primeiro, na voz e na viola de Manuel Rebanda,também, e depois no canto do trovador José Campos e Sousa.
Reparem na afinidade com o "Quinto Império", de Fernando Pessoa ("triste de quem vive em casa/ contente com o seu lar/ sem que um sonho, no erguer da asa,/ torne até mais viva a brasa/ da lareira a abandonar". Leiam, e vão cantando baixinho, para dentro de alma somente.

COMÍCIO

Diz adeus à terra
Que te viu nascer:
Deixa aqui teus filhos
E tua mulher,
Vai buscar a pátria
Onde ela estiver!
Aqui tudo exige,
Ali tudo pede:
Acharás justiça
Para a tua sede
E o peixe divino
Cairá na rede.
Haverá domingos
Por toda a semana,
Ali tudo é firme,
Aqui tudo engana,
Ali a alegria
Tem a forma humana.

Diz adeus à terra
Que te viu gerar.
A palavra imunda
Tem aqui lugar:
Perversão da rosa,
Poluição do ar.
Ali tudo habita
No seu próprio chão.
A raiz só prende
Pelo coração
Aqueles que enlaçam
Pecado e perdão.
Aqui quem procura
Encontra o espelho:
Ali gira um jovem,
Aqui dorme um velho.
Ali todo o sangue
Azul é vermelho.

Diz adeus à terra
Onde o amor não basta.
Vai buscar a pátria
Primitiva e casta
Que o terror repele
E o orgulho afasta.
Aqui todo o espaço
Cabe num só medo.
Aqui há denúncia,
Ali há segredo.
Aqui já é tarde,
Ali muito cedo.
Aqui tens um signo,
Ali tens um nome,
Sem voz que divida,
Diminua ou some.
Ali tens a esperança
Para a tua fome.

Diz adeus à terra
Onde a vida passa
Como um rio de água
Morna, lenta e baça,
Onde o vento é brisa
E o clarim desgraça.
Vai buscar a pátria
De bandeiras vivas,
Busca os gestos livres,
Foge às mãos cativas,
Abandona as sombras
E as fontes esquivas.
Busca o teu futuro,
Nega o teu passado,
Vai erguer teu sonho
Solene e sagrado:
Vai morrer na pátria
Que te faz soldado!

António Manuel Couto Viana

Controlo das fronteiras

Segundo um novo comunicado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desde quarta-feira passada, dia 26, em que passou a fazer-se o controlo documental aos estrangeiros que tentam entrar em território português, já foi recusada a entrada a 1324 estrangeiros, por não reunirem as condições legais.
As nacionalidades mais representadas são os marroquinos, romenos, ucranianos e brasileiros.
A curiosidade deste novo comunicado reside no facto de, tendo passado já alguns dias sobre a aplicação da medida, começar a ser possível estabelecer uma média com alguma credibilidade. Até agora era desconhecida qualquer avaliação numérica da situação. Por estes números constata-se que a média é mais elevada do que se previa, e mesmo do que se afigurou no primeiro dia.
Resta comentar que a medida está para durar apenas até 4 de Julho. Nessa altura o Governo irá simplesmente regressar à situação anterior, ignorando de todo as lições desta experiência?

Páscoa no Minho

Associando-me, como tinha prometido, à recente edição pela INCM dos dois volumes da obra poética de Couto Viana, passo a transcrever alguns dos seus versos, dos que pessoalmente me tocam mais. O poema que segue sempre o vi como um dos mais belos e perfeitos que conheço. Curiosamente, o autor nunca o incluiu nas suas antologias. Chamo a atenção do leitor para a alegre melodia da sua sonoridade, e para o colorido ingénuo da aguarela. Música e pintura, num todo harmonioso e único.
Os mais atentos hão-de lembrar-se de um quadro famoso de Sarah Afonso, “A Procissão”, e também dos versos célebres que António Lopes Ribeiro lhe dedicou (ao quadro, geralmente passa despercebido esse pormenor de os versos serem dedicados ao quadro, chamam-se mesmo “A procissão de Sarah Afonso”, e não a uma cena da vida a que António Lopes Ribeiro tenha assistido). Ninguém há que não tenha no ouvido a voz de João Villaret declamando “A procissão”...
A coincidência das imagens não representa um acaso: Sarah Afonso era conterrânea de Couto Viana, e inclusivamente amiga de infância e companheira de colégio da mãe do poeta. Tinham nos olhos as mesmas imagens. Eis a Páscoa no Minho, segundo Couto Viana.

Páscoa

É tempo de Páscoa no Minho florido.
Já se ouvem os trinos dos sinos festeiros
Na igreja vestida de branco vestido,
Entre o verde manso dos altos pinheiros.

Caminhos de aldeia, que o funcho recobre,
Esperam, cheirosos, que passe o compasso
À casa do rico, cabana do pobre...
Já voam foguetes e pombas no espaço.

Lá vêm dois meninos, com opas vermelhas,
Tocando a sineta. Logo atrás, o abade
Já trôpego e lento. (As pernas são velhas?
Mas no seu sorriso tudo é mocidade.)

Com que unção o moço sacristão, nos braços,
Traz a cruz de prata que Jesus cativa,
Para ser beijada! Enfeitam-na laços
De fitas de seda e uma rosa viva.

Um outro, ajoujado ao peso das prendas
(Não há quem não tenha seu pouco pra dar...)
Traz, num largo cesto de nevadas rendas,
Os ovos, o açúcar e os pães do folar.

Mais um outro, ainda, de hissope e caldeira
Cheia de água benta, abre um guarda-sol.
Seguem-nos, e alegram céus e terra inteira,
Estrondos de bombos e gaitas de fol.

Haverá visita mais honrosa e bela?
Famílias ajoelham. A cruz é beijada.
(Pratos de arroz-doce, com flores de canela,
Aguardam gulosos na mesa enfeitada.)

Santa Aleluia! Oh, festa maior!
Haverá mais bela e honrosa visita?
É tempo de Páscoa. O Minho está em flor.
Em cada alma pura Jesus ressuscita!

António Manuel Couto Viana

Segunda-feira, Maio 31, 2004

De novo as prisões revolucionárias

Retomando o fio do assunto levantado pelos blogueiros de "O Acidental" resolvi escrever mais um breve apontamento sobre o tema.
Como todos os leitores terão notado, a reacção geral quando se fala em perseguições puramente políticas, prisões ilegais generalizadas, até em torturas, no apogeu da gloriosa revolução, é de incredulidade e descrença.
Outra reacção muito vulgar é a dos que acreditam nuns excessos, mas logo os desvalorizam porque se terá tratado de algo muito localizado e que afectou um punhado de pessoas - uns incidentes isolados e lamentáveis (como os do Iraque...). E ainda por cima os lesados foram uns tantos reaccionários, ligados ao antigo regime ou a conspirações várias, para além dos tenebrosos pides...
Em todo o caso o que nunca será de admitir é que se tratou de uma autêntica vaga de fundo, que exprimia a natureza do processo em marcha, e que pelas dimensões que atingiu demonstra ao que se teria chegado se não tivesse havido a reacção vital que pôs fim à marcha da revolução. Nunca por nunca se pode admitir que se tratou da expressão viva da implantação, que estava em curso, de um regime paranóico e obsessivo, histérico e frenético a procurar inimigos por todos os lados, e em crescendo de fanatismo e de repressão cada vez mais acentuada - um regime onde chegou a colocar-se em marcha o sistema cubano dos CDRs (comités de defesa da revolução), pretendendo instituir a delação como regra imperativa, a par das várias polícias políticas embrionárias (era o COPCON, era a 5ª Divisão, eram não sei quantos serviços de informações militares e civis paralelos, todos já com o poder prático de prender discricionariamente).
A verdade dos factos não corresponde a essa versão açucarada. Para se compreender o que estou a dizer, a forma já generalizada e indiscriminada com que se exercia a repressão contra todos os suspeitos de dissidência em relação ao rumo dos acontecimentos, quero lembrar aqui o caso do grupo de extrema-esquerda MRPP, hoje só falado por causa do nosso actual primeiro-ministro.
A razão por que falo desse agrupamento é outra: com efeito, para quem conhece a história da implantação dos regimes comunistas nos países onde vigoraram, é particularmente significativo o momento em que as depurações conduzidas pelo aparelho repressivo instalado deixam de se dirigir apenas contra os inimigos tradicionais (a burguesia, a reacção, o fascismo, os monopolistas e latifundiários, e outras entidades do bestiário da revolução) para se virar também contra a concorrência à esquerda (os aliados objectivos da burguesia, os esquerdistas, a falsa esquerda, os desviacionistas, os revisionistas, os traidores, e quejandas entidades também invocadas nos processos revolucionários).
Ora no nosso caso torna-se particularmente significativo recordar o caso do MRPP. Como se recordarão alguns, desde muito cedo o referido grupo conquistou a antipatia dos donos da revolução, civis e militares, devido à agitação a que se dedicava - e concretamente a sua linha "anti-cunhalista", ou "anti-socialfascista", como se dizia, que praticamente equiparava o "partidão" ao regime derrubado. Por causa disso houve logo prisões, ainda selectivas, como foi o caso dos chefes, tanto Saldanha Sanches como Arnaldo Matos e outros. E houve também perseguições políticas, traduzidas por exemplo no encerramento e proibição do "Luta Popular" e na proibição de concorrer às eleições em 1975 - sem chegar ainda à ilegalização total. Mas a um dado momento, alegando-se não me lembro bem que pretexto, dá-se o assalto geral contra as sedes e as estruturas do MRPP.
A vaga de prisões deu-se sobretudo a 28 de Maio de 1975. Pois sabem os senhores quantos militantes e simpatizantes do MRPP foram arrebanhados e levados para as cadeias - numa mega operação militar-policial de desmantelamento político, contra pessoas a quem indubitavelmente só podia atribuir-se como delito a sua opção política de momento?
Saibam que foram 432 (quatrocentos e trinta e dois). Apenas do citado grupelho de extrema-esquerda, e num período de tempo curtíssimo. O que pensam os leitores da contabilidade a que se chegaria se fosse feita a conta a todos os outros?
Ainda parece que os tais acontecimentos foram apenas uns poucos actos esporádicos, dirigidos contra quatro ou cinco patifórios vindos do antigo regime, e compreensíveis dado o momento de exaltação popular que se vivia?

Poeiras no Sapo?

Encontrei por acaso e quando li fiquei perplexo: por mais que olhasse só lia "poeiras no sapo". Repeti, concentrei-me melhor, e acabei por perceber (esta cabeça já não é o que era). Trata-se da Juventude Popular de Oeiras, que tem um sítio alojado no Sapo. Saúdo o aparecimento na rede dos jovens da linha, que desejo sinceramente sejam mais desempoeirados do que por lapso os julguei ao olhar distraído.

Parabéns!

Este blogador de Castelo Branco fez 18 anos!
Já estão aí a roer-se de inveja, não é? Bem, eu por mim confesso que também já fiz... Não digo é quando.
Vão lá cantar os parabéns ao moço!

Blogoalandroal

Aos nossos amigos do "Alandroal" (sim, aqueles do encontro de blogues...) juntam-se agora os do "Alandroal Jovem". O concelho dos três castelos conta já com equipas de seniores e de juniores a alinhar na blogosfera. Bem vindos!

A poesia de Couto Viana

Há pouco tempo, discretamente, a Imprensa Nacional/Casa da Moeda editou dois volumes contendo a obra poética de António Manuel Couto Viana.
Como se deduz da leitura da respectiva apresentação, o motivo próximo foi a passagem dos sessenta anos da actividade literária do autor.
Corresponde à verdade essa constatação cronológica. Couto Viana estreou-se em livro há mais de sessenta anos. E também é verdade que o seu nascimento ocorreu em Janeiro de 1923.
(Será fatalidade que os poetas só sejam devidamente reconhecidos quando morrem?)
Estando agora a decorrer a Feira do Livro, e tendo eu em especial estimação a obra e o autor, resolvi expressar aqui o meu apreço e a minha admiração, e publicar alguma coisa a tal respeito. Foi ele que escreveu que a melhor homenagem a um poeta é decorar-lhe os versos; irei publicar alguns, em próximos apontamentos. Até breve.

Memórias de um fascista

Os leitores mais letrados julgarão que estou a referir-me ao curioso livro do jornalista e musicólogo Lucien Rebatet que foi publicado há alguns anos pela "Livros do Brasil", na colecção "Dois Mundos".
Mas não, não é disso que estou a falar. Estou a referir-me a um não menos curioso conjunto de textos que têm vindo a ser publicados neste não menos curioso "Fascismo em Rede"... Vale a pena a leitura, tanto a anti-fascistas como a fascistas (se ainda os houver...)

Domingo, Maio 30, 2004

Permanecer e criar

Na hora que passa pareceu-me oportuno transcrever um poema que Couto Viana em tempos dedicou a Rodrigo Emílio. É para ler sempre, mas sobretudo quando tudo nos dá vontade de fugir. Por mim reproduzo-o a pensar no Pedro e no Bruno, infatigáveis companheiros desta odisseia blogosférica.

PARA HOJE

É preciso ficar, aqui, entre os destroços,
E cinzelar a pedra e recompor a flor.
É preciso lançar no vazio dos ossos
A semente do amor.

É preciso ficar, aqui, entre os caídos,
E desmontar o medo e construir o pão.
É preciso expulsar dos cegos dias idos
A insónia da prisão.

É preciso ficar, aqui, entre os escombros,
E libertar a pomba e partilhar a luz.
É preciso arrastar, pausa a pausa, nos ombros,
A ascensão de uma cruz.

É preciso ficar, aqui, entre as ruínas,
E aferir a balança e tecer linho e lã.
É preciso o jardim a envolver oficinas:
É preciso amanhã.

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

Novas do mundo do circo

Princípio maior para os novos tempos: poderá faltar o pão, mas o circo que nunca falte.
Estamos quase no mega acontecimento futebolístico que ao que dizem irá trazer-nos uns largos milhares de exemplares da matulagem mais ordinária que circula pela Europa. Dizem que é a taluda para a nossa indústria turística. A ver vamos. Em todo o caso será uma festa para televisões e outros anexos do comércio do entretém. E mantém o povinho ocupado.
A selecção nacional já começou a mostrar o que vale, esmagando o Luxemburgo. É animador. Espera-se igual brilho frente a Andorra, ao Liechstenstein e a São Marino, se estes cá jogarem.
Entretanto já começou a agitar as multidões o famoso Rock in Rio (mais precisamente, em Monsanto e em Chelas). Entra o Paul McCartney, o Peter Gabriel... Parece um desfile da terceira idade. Mas as massas afluem, escorre o dinheiro e a cerveja. É bom: mantém o povinho ocupado.
Aqui em Évora também estamos em ambiente festivalesco. Ontem queimavam fitas umas quantas centenas de jovens universitários, e como é de uso acorreram não sei quantos milhares de paizinhos e outra parentela emocionada. Foi curioso de se ver o resultado, sobretudo pela antevisão do pandemónio que nos aguarda nestes meses mais próximos. Como era de prever, ao menor afluxo de tráfego o trânsito entope e pára, a cidade torna-se um gigantesco engarrafamento. E o pior é que não há qualquer sítio para estacionar uma viatura, para quem queira simplesmente deixar o burro à entrada da cidade e caminhar a pé.
Já trabalham as equipas de montagem do arraial da Feira de São João. Indiferentes à passagem dos séculos, tratam de tudo nos mesmos locais onde a Feira ficava bem há quinhentos anos. Nos últimos meses, com as obras ainda em curso na zona envolvente, foram eliminadas largas centenas ou milhares de lugares de estacionamento que ainda o ano passado serviram para esse fim, mesmo que em infernal balbúrdia. Como vai ser de ora em diante? A Senhora Câmara já pensou nisso?
Enfim, certo mesmo é que a Feira continua. O povinho continuará ocupado e entretido.
E não querem ver que me esqueci das eleições!...

Sábado, Maio 29, 2004

A nossa Feira do Livro

Uma das terras minhas amadas

Eleições à porta

Embora não se note, começa hoje oficialmente a campanha para as eleições europeias de 13 de Junho.
Na minha volta matutina pela cidade só encontrei uns cartazes grandes da CDU e um melancólico veículo engalanado com o letreiro "Forca Portugal", a debitar música enfadonha. As maiores manifestações localizáveis da dita campanha já estão há muito a enfeitar as rotundas que circundam o burgo, são os famosos outdoors que enchem o país e cujos custos os especialistas avaliam em pelo menos setenta ou oitenta mil contos dos antigos por cada mês de exibição - mas são oficialmente pagos com umas míseras dezenas de milhares de euros que os partidos respectivos apresentam depois nas contas da campanha (verdade esta que por mais absurda que se apresente terá depois chancela de aprovação superior).
Entretanto, antes dos eleitores votarem os grandes meios de comunicação e os donos deles já fizeram a sua selecção prévia. A acreditar nos boletins de voto as listas em competição são treze, mas quem ler o "Expresso" de hoje (é o mais importante órgão da imprensa escrita que se publica no país) ficará convencido que existem apenas cinco listas concorrentes.
Enfim, o que dizer disso? Provavelmente, apenas que cada um faça o melhor que puder.
É preciso ter sempre presente que em política de nada vale sermos excelentes, magníficos, se o povo não chegar a saber. Estabelecer canais de comunicação com as massas e entre as massas, que ignorem as barreiras e as defesas próprias do bloqueio instalado pelos instalados, é talvez o problema técnico crucial da actividade política no nosso tempo.

Manuelinho

Apareceu mais um blogue eborense, o Manuelinho. Este é jovem, barrosista, e tem ambições políticas. Lá em casa dedicam-se aos estudos universitários, com especialização em presuntos.
Também não aprecia o Dr. Ernesto, coisa que parece ser comum na blogosfera local (ainda bem que existem o Monarca Pinheiro, o Alberto Magalhães, o Luís Carmelo, e mais uns tantos rapazes fixes, senão ainda tínhamos o infeliz senhor para aí às voltas com alguma depressão).
Como mandam as regras, aqui estou a desejar ao Manuelinho o bom sucesso da tarefa a que se lançou.

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Controlo de fronteiras

Estarão a entrar em Portugal todos os dias 179 estrangeiros ilegais?
Como é do conhecimento geral, o Governo decidiu repor em Portugal o controlo nas fronteiras, para garantir a segurança interna durante o Europeu de futebol e o Festival Rock in Rio-Lisboa.
Tal medida entrou em vigor há apenas três dias. Voltámos portanto a ter fronteiras, desde anteontem, e voltou a existir alguma fiscalização, embora por meio de brigadas móveis e não com reabertura dos antigos postos fronteiriços.
A notícia está em que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) anunciou já publicamente os resultados do primeiro dia dessa actividade fiscalizadora. Nesse primeiro dia de fiscalização das entradas em Portugal, anteontem, o SEF recusou a entrada em Portugal a 179 estrangeiros, na sequência da simples verificação dos documentos.
Segundo o SEF, as recusas de entrada ocorreram porque os cidadãos em causa estavam ilegalmente no espaço Schengen ou não tinham visto ou documento válido para entrarem ou permanecerem em Portugal. A maioria das recusas incidiu sobre cidadãos marroquinos, romenos, ucranianos e brasileiros. Só no dia referido o SEF recusou a entrada a dez estrangeiros na zona Norte – postos de Valença e de Quintanilha –, 22 no Centro – área de Vilar Formoso e Monfortinho –, 72 no Alentejo – a maioria no posto de Caia – e 75 no Algarve – sobretudo em Castro Marim e Vila Real de Santo António.
A medida em questão, o controlo documental nas fronteiras terrestres portuguesas, está prevista para durar entre 26 de Maio e 4 de Julho. Depois voltará tudo ao mesmo.

Dilema Eleitoral

Páginas para guardar

Um belíssimo artigo de Manuel Brás, a evocar a passagem dos dois meses sobre o falecimento de Rodrigo Emílio. Para ler e guardar.
E volto com o meu entusiasmo pelo artigo de Hipólito Raposo denominado "A Paixão de Évora-Monte": tenham paciência, mas para qualquer um que sinta o encanto da boa escrita e tenha o fascínio da História, o texto tem que ser mesmo para imprimir e ler muitas vezes, saborear lenta e pausadamente. Era o que queria dizer à rapaziada, e não ficou claro no recado anterior.

Encontro de blogues Expo-Guadiana


Está à porta o congresso da blogosfera.
É já a 3 de Julho, falta só um mês, para prepararem as intervenções e fazerem as malas.
Inscrevam-se, carago!
O pessoal do Alandroal já está a ficar com os lugares todos preenchidos.
Depois quem quiser vir fica sem almoço...

Feira do Livro

A notícia está em que a Feira do Livro foi prolongada até ao dia 10 de Junho, como razoavelmente se impunha e era tradição.
Portanto, quem passar pela zona do Parque Eduardo VII não pode perder o acontecimento, que, esteja ou não em crise (desde sempre que ouço dizer que está em crise), é sempre um acontecimento para quem sente aquele prazer indefinível de se perder entre livros, montanhas de livros. Quem não puder ir não ganha muito em visitar o site criado para a Feira, que é realmente demasiado fraquinho e mal concebido para uma realização desta relevância.
Entretanto, quem passar em Évora, pela Praça do Geraldo, encontra já as barraquinhas da nossa Feira do Livro. Também temos uma!

A paixão de Évora-Monte

Nestes últimos dias de Maio, ao passar nas Portas de Moura, olhando para o lado de cima, para o lado da Sé e do Paço Episcopal, ou olhando para o lado de baixo, para o lado do Senhor da Pobreza, lembra-me o coração os dias de agonia que aqui viveu há cento e setenta anos aquele que no dizer de Oliveira Martins foi "o último rei que o povo amou em Portugal". Foi a 26 de Maio que o General Lemos, após decisão do Conselho reunido no Paço, assinou em Évora-Monte a Convenção que os vencedores impunham; foi a 27 que o Sr. D. Miguel, das janelas do Paço, hoje Museu, deu a conhecer a todos o facto consumado, face à impossibilidade de continuar a combater; foi na madrugada de 30 de Maio que o Rei Proscrito desceu a Rua de São Manços e saiu pela Porta do Senhor da Pobreza, rumo a Portel, para atravessar o Alentejo, até Sines, por Ferreira e Alvalade, por entre ameaças de bandos de assassinos e ladrões. Foi em Sines que El-Rei partiu, para nunca mais. Recordo sempre com emoção o mais belo texto que alguma vez me foi dado ler sobre esses dias de 1834: a magnífica evocação que Hipólito Raposo publicou em "A Voz" no dia 26 de Maio de 1934, no centenário da Convenção. Aos meus amigos leitores: é obrigatório ler e reler "A paixão de Évora-Monte".

Quinta-feira, Maio 27, 2004

Prémios Camões?

Ora digam-me se a blogosfera não se está a mostrar um viveiro de talentos, uma manifestação viva de cultura e criatividade, em chocante contraste com a monotonia ronceira e cinzenta da nossa imprensa escrita? (- E isso é que lhes dói!...)
Aqui o Manuel Azinhal, em visão futurante, indigita desde já pelo menos dois candidatos a Prémios Camões: o BOS e o Dragão.
E vou alinhar nos respectivos clubes de fans!

Salazar gear?

Estes americanos são loucos, como diria o Obélix. Mas tem que haver uma mãozinha portuguesa, olá se tem. Salazar gear? Quem será o dinâmico e inventivo empreendedor que se lembrou disto? E depois da loja online? Está previsto o franchise? Vai abrir uma lojinha no Colombo? Mesmo ao lado da FNAC? E a Ana Salazar deixa?

Para pensar "A Paixão" de Mel Gibson

Apareceram dois interessantes textos na blogosfera ainda relacionados com o filme de Mel Gibson. Numa perspectiva católica, escrevem Teresa Martins de Carvalho e o Padre Pablo Arce Gargollo. Ambos para ler, e rever "A Paixão".

Quarta-feira, Maio 26, 2004

Afinal sempre há eleições?

Chega a duvidar-se de tal, considerando a invisibilidade do facto.
Mas dei por mim a pensar que elas existem quando vi a notícia dos ataques do Dr. Durão Barroso ao seráfico prégador baptista Francisco Louçã: diz o primeiro-ministro que este "é desonesto intelectualmente e insuportavelmente arrogante e não merece qualquer resposta". Sendo verdadeira a afirmação, a atitude não deixa de ter aspectos intrigantes. Isto foi dito pelo chefe do governo perante o mais solene auditório do país, e de forma a ter a maior amplificação possível. Sendo notório ainda que já se trata de repetição. E sendo mais que evidente a forma como vai tratando de lhe responder, reiteradamente, em frente das televisões todas, enquanto diz que ele não merece resposta.
Ora o ilustre político que é o nosso primeiro sabe muito bem que na circunstância a melhor forma de desvalorizar o beato Louçã e o seu agrupamento é ignorá-lo - e sabe perfeitamente que as acusações e o esbracejar frenético do grupinho destinam-se precisamente a conseguir publicidade.
Ao dar-lhes troco, e promovê-los a protagonistas de um debate público, ignorando a oposição oficial e institucional, durão manhoso está conscientemente a colaborar na elevação do berloque de esquerda ao papel de aparente e visível força propulsora da oposição. Para depois, evidentemente, como já fez, andar a bramir que esta anda a reboque de um grupelho de extrema-esquerda.
Ou seja, e falando francamente: o Dr. Barroso quer que o berloque tenha o maior número de votos possível, e roa as bases eleitorais do PS e do PCP. Aprendeu e não esqueceu que a inconsistência e efemeridade dos esquerdismos vários, a que Lenine oportunamente crismou de "doença infantil do comunismo", não colocam perigo algum para as forças da situação.
Ao contrário, devidamente utilizados, os esquerdismos folclóricos servem para abalar e destruir a esquerda viável - aquela que ele tem receio que possa reforçar-se eleitoralmente. Escolheu portanto o berloque como o catalizador ideal do voto anti-barrosista, precisamente por ser o mais seguramente inconsequente.
O Dr. Barroso está a impulsionar o berloque loução como em tempos outros promoveram o MRPP, como a força desestabilizadora e desestruturante ideal contra a esquerda portuguesa.
Com que então não há eleições?!!!

Terça-feira, Maio 25, 2004

Marx Bessa ao ataque

Hoje deu-me para recomendar leituras: ora sirvam-se, e saboreiem esta entrevista de António Marques Bessa. Aula de ciência política.
Pequeno aperitivo: "a elite política faz aquilo que a deixam fazer. Se tem uma população com uma cultura política mínima ou inexistente, não há limite para aquilo que a classe política pode fazer. E isso vê-se em coisas tão simples como o facto de, em anos de crise, a classe política ter-se reproduzido, aumentando os seus rendimentos".

Sevícias à portuguesa

Já depois de ter chamado a atenção para a sua existência, resolvi transcrever parte do artigo/depoimento de Walter Ventura publicado hoje em "O Diabo". Sublinho a sua relevância, até porque o Walter não é dos que falam muito - na verdade não gosta nada de andar por aí a exibir as vísceras, como ele diria.
Outros poderiam continuar, como é o caso de José António Veloso, aludido no texto embora o Walter não se lembrasse de mais precisa identificação (creio que os alunos da Faculdade de Direito de Lisboa o identificarão mais facilmente). José António Veloso nunca até hoje publicou uma linha sobre este assunto.
Também seria interessante que outras pessoas, e estou a lembrar-me de um certo psicólogo que há pouco tempo foi candidato à Câmara de Cascais, prestassem o seu depoimento. O Walter, preso havia muito tempo e ainda durante bastante tempo, não podia então saber de tal, mas o referido actual psicólogo e então Capitão Dinis de Almeida esteve presente e participou pessoalmente nos factos ocorridos no Ralis e de que o Walter só viu os resultados, quando lhe apareceram em Caxias os indivíduos de maca e ensanguentados a que se refere, sobretudo o Marcelino.
E não foi o único oficial do Exército a ter co-autoria nessas proezas.
Mas fico por aqui. Já estou demasiado mal disposto, e já dei contributo bastante para a campanha de "O Acidental". Leiam o excerto das memórias do Walter, que é prosa educativa à brava.

"De repente, não percebi bem como, a questão das sevícias praticadas pelos nossos admiráveis revolucionários militares aprilinos apareceu à luz do dia.
Uma chatice, a enodoar uma revolução tão casta e tão incruenta que obrou daqueles bons frutos através dos quais é possível aquilatar a casta da árvore mãe.
Cá por mim, que tive a honra prazerosa de passar dois anos e pico nos cárceres da liberdade, a questão já estava esquecida, salvo quando, em encontros com amigos velhos desses tempos, recordamos peripécias e inépcias dos "capitães de Abril" que tivemos o gosto de conhecer - e gozar- nos bons tempos do prec no prato.
E foi, de facto um prato.
Verdade seja que alguns dos presos da liberdade se deram mal com quem lhes saiu na rifa. Lembro-me de ver o Marcelino da Mata - um herói com Torre e Espada ganha no campo da honra e não numa cerimónia do 25 de Abril em que emparelhasse com uma qualquer D. Isabel do Carmo - entrar de maca no Forte de Caxias. Com ele vinham mais uns dez presos que haviam passado uns oitos dias no Ralis, nunca se apurou por que razões.
Eram todos pessoas ligadas, directa ou indirectamente à Guiné. Curiosamente, só dois ou três ainda estão vivos, tendo a maioria morrido na flor da idade.
Um deles, o meu amigo Coelho da Silva, um fuzileiro corajoso se bem que um tanto louco, fora caçado com a mulher, em fim de gravidez, em plena Praça da Figueira. A mulher, já não sei se a caminho do Ralis se dentro do simpático quartel, levou um pontapé na barriga que lhe provocou um aborto instantâneo. Um "jeep" transportou-a até às imediações do Hospital de São José, onde foi abandonada. 0 Coelho da Silva apenas foi sovado, durante alguns dias até ser levado para Caxias.
À minha cela foi parar um moço de vinte e poucos anos, licenciado em Direito e filho de um juiz que estava numa cela ao lado. Não recordo os nomes, apenas o apelido: Veloso. Contou-me, o que aliás me foi confirmado pelos restantes membros do grupo que acabei por conhecer graças a mudanças sucessivas de cela para cela, que durante dias tinham sido torturados, pai frente ao filho, amarrados a duas cadeiras. 0 pai já dobrara os 60 anos e sofria do coração.
Os dois que chegaram em pior estado foram o Marcelino da Mata que esteve sujeito a choques nos testículos e que tinha ferimentos graves num joelho por lhe terem dado pontapés exactamente onde tinha alojados estilhaços de granada e um outro indivíduo - de momento não recordo o nome e não tenho à mão os apontamentos que então fiz - que fora encarregado de um destacamento das Obras Públicas na Guiné, chegou-nos de maca, apenas vestido com umas cuecas ensanguentadas e com o corpo coberto de ferimentos.
Em Caxias também houve alguns casos interessantes. Recordo que numa dada altura, fui de castigo para uma cela onde estava um homem dos seus 70 anos que na juventude pertencera episodicamente à Pide e mais tarde enveredara por outra profissão. Chamava-se Dá Mesquita e oscilava entre períodos de calma, durante os quais se mostrava pessoa educada, de fino trato e bastante simpática e outros de terrível excitação em que me era penoso suportá-lo.
Contou-me repetidamente que um dia fora levado até ao pátio interior do fortim e, com todas as regras do cinema de mau gosto, amarrado, vendado e encostado ao paredão. Os soldados que o acompanhavam, alinhados à sua frente, receberam ordens de preparar as armas, manobraram as culatras e dispararam à voz de fogo.
É verdade que dispararam para o ar mas foi demasiado para o pobre homem que nunca mais conseguiu recuperar da gracinha.
Não foi a única simulação de fuzilamento que os dignos militares revolucionários engendraram para se divertirem um bocadinho.
"

Para não tomar partido

Depois de ter estabelecido um link para o famigerado "blogue oficioso do CDS" (barnabé dixit!..) não me resta alternativa senão colocar também link para o "Tomar Partido", que é o blogue onde Jorge Ferreira faz o prodígio de escrever "um diário sem periodicidade certa" (fina, esta ironia).
O Dr. Jorge Ferreira, com o exemplar fair-play que sempre o caracterizou, vai aqui dando pública expressão à sua conta-corrente com o CDS restante.
Fica assim reposto o equilíbrio, no ping-pong entre o CDS que houve e o CDS que há. Eles adoram-se!..

Ainda as torturas depois de Abril

Na sequência da campanha lançada por "O Acidental" (blogue oficioso do CDS, no dizer dos barnabés... embora eu só lá encontre assinaturas do PPM) foi publicado hoje no semanário "O Diabo" um importante depoimento do jornalista Walter Ventura (mais de dois anos de experiência em Caxias). Imprescindível ler, a quem ainda esteja interessado no tema. Mas é preciso comprar o jornal, já que este não tem edição em linha.

Eis o Mendo, em entrada fulgurante

No Lusitana Antiga Liberdade, surgiu o Mendo no esplendor da cultura e da inteligência com que o Senhor o dotou. Pena é que tanta vez se perca lá pelos espaços etéreos a que subiu...
Leiam o artigo, se fazem favor.

Leituras na blogosfera

Inspirado mesmo, este Dragão. Em que ignota caverna terá estado escondido durante esta eternidade em que nos faltou?
Fumarento e poluidor, ostensivamente hedonista, remando contra os ditames dos tempos novos e assépticos que vivemos, este adorador de charutos.
E também é eurocandidato!
Teimoso e persistente, este candidato a grande educador do fascismo lusitano. Não quer convencer-se que fala para orelhas moucas.

Segunda-feira, Maio 24, 2004

O bloqueio

E como se fura o bloqueio, perguntais vós?
Responderei à maneira de Sun Tzu: um bloqueio não se fura, a não ser que se possua força de choque largamente superior à do inimigo. Não sendo esse o caso, qualquer tentativa de investir contra o bloqueio traduz-se em esbanjamento de meios, que nos conduzirá à exaustão. O inimigo estará em vantagem insuperável. Investir assim é tentação de animais de chifres.
Normalmente, um bloqueio rodeia-se - dá-se a volta, para surgir em zona que o inimigo tenha desprotegida. Para tal é preciso encontrar caminhos que não estejam bloqueados, e escapar por aí, surgindo implantado em terreno que estava desguarnecido. Um bloqueio tem sempre falhas, pontos insuficientemente guardados. O leão não os encontrará, mas a raposa sim.
Quando somos mais fortes, podemos fazer de leão. Quando somos mais fracos, teremos que ser raposas.
Acontece, amigo, que nestes meses mais chegados temos feito a prova de alguma coisa. Digo mesmo que no campo que escolhemos o inimigo não nos levou vantagem.
E só três ou quatro praticamos na mesma linha. Se fossem quinze ou vinte, o que seria?

Candidatos às Europeias na Blogosfera

O blogonauta Luís Humberto Teixeira, do "Reciclemos",ele próprio candidato, deu-se ao trabalho de inventariar quais os blogonautas que são candidatos às próximas eleições europeias, identificando os respectivos blogues.
Reproduzimos a lista, por ordem alfabética dos partidos a que pertencem as candidaturas.

Candidatos ao Parlamento Europeu com blogue:
Luís Humberto Teixeira (Reciclemos!) - MPT - 11º lugar
João Carvalho Fernandes (Fumaças) - PND - 19º lugar
Bruno Oliveira Santos (Nova Frente) - PNR - 5º lugar
Duarte Branquinho (Pena e Espada) - PNR - 9º lugar
Pedro Guedes (Último Reduto) - PNR - 14º lugar
Ana Gomes (Causa Nossa) - PS - 3º lugar

Aqui fica a lista. Quem conhecer mais que se acuse.

Domingo, Maio 23, 2004

Inconveniências

Como os leitores já notaram, sou pouco respeitador das reverências instaladas.
Os bonzos, os gurus, as santidades da praça, como dizia Sá de Miranda, não me causam temor reverencial, bem longe disso. Então a espécie conhecida pela denominação consagrada de comentadores, uns que se entretêm a perorar sobre tudo e sobre nada enquanto a realidade os desmente e lhes faz figas, causam-me especial aversão.
Tal é o caso do Professor Marcelo, exemplar maior da espécie, que por aí continua imperturbável debitando opiniões pagas à peça, sempre em roda livre girando como um verdadeiro moinho de palavras. Mas não é caso único. Não é preciso falar em Pedro Santana Lopes, personalidade mais digna de enfileirar numa galeria humorística, tão caricatural se me afigura o seu gesticular de presença, necessidade ingente de quem sobrevive da atenção que consiga reunir. Consagrado agora está o santarrão da Marmeleira, meditativo e barbudo descendente do matador da bela Inês, que aplica a tortuosa mente de velho estalinista ao deslumbramento de novos sóis. Na escrita e nas formas mentais não se lhe descobre mudança - e ai de nós se um dia lhe parasse nas mãos mais poder que o resultante da palavra assalariada, de que faz modo de vida.
E não se esgota neste Pacheco Pereira o elenco mais representativo. Mesmo sem ser preciso olhar para exemplares menores que mesmo em bicos de pés não excedem a insignificância, tais como os novos escribas todo-o-terreno, tipo João Pereira Coutinho ou a desgraça de descendente de João Bigotte Chorão (notório acto falhado, de que nenhum progenitor está livre). Estes são filhos família que nem sequer têm vida para encher a prosa.
Outros há, de mais peso e maior vulto. Um que pessoalmente me serve de referência para explicar as razões da minha antipatia pela espécie é o conhecido por Vasco Pulido Valente (só muito tarde vim a saber que não é pulido nem valente).
Este passarão tem algum mérito literário, a que se arrima e encosta para encobrir o vácuo. Confesso que até a mim chegou a ludibriar, levado pelo verniz da verborreia. Sim senhor, houve tempo em que o lia com algum gosto e admiração, fascinado pela palavra escorreita, as imagens fortes e de belo efeito, a aparente coerência e harmonia do raciocínio.
A aparência da escrita, a ilusão gerada pela lógica formal do encadeamento de ideias, faziam presumir o acerto das asserções, pese embora o tremendismo que aqui e ali ressaltava.
Como geralmente escrevia sobre assuntos de que sou largamente desconhecedor, por só os observar de longe, como a generalidade dos meus concidadãos (os que não são comentadores, porque para estes a regra número um é nunca admitir que um assunto lhes é estranho), concedia-lhe a presunção que lhe tem permitido fazer carreira: julgava eu que para lá do brilho da prosa ali estivesse algum conhecimento das coisas e uma inteligência crua e analítica, ao serviço do rigor da crítica.
Eis senão quando, há anos, o famoso publicista deu a lume uns escritos sobre assuntos que eu conheço, talvez não em profundidade, como agora se diz, mas pelo menos a partir de dentro, com saber de longa experiência feito. Foi então que me quedei, paralisado, a ler e a reler o que VPV fez imprimir. A procissão de belas palavras, o foguetório das imagens, a aparente lógica irrefutável das conclusões e das ideias, estavam na mesma. Mas nada daquilo fazia sentido nenhum! Os pressupostos, os pontos de partida, os factos, eram, muito simplesmente, disparates de todo o tamanho. Não me respondam já que se trata certamente de subjectivismos, porque não é nada disso: a falha não estava na matéria opinativa, estava no campo mais objectivo possível, o terreno factual, a pura informação e conhecimento sobre os temas focados. Em termos claros: a prosa podia continuar literariamente fulgurante, mas era feita de ignorância grosseira servida com o mais descarado atrevimento. Quedei-me, por momentos petrificado, a meditar sobre o que constatava. E desabou completamente a glória de VPV. Como é inevitável, fiquei a pensar em quantas das vezes em que me tinha parecido um crítico certeiro, estando a dissertar sobre assuntos que me são estranhos, ele teria sido simplesmente tão ignorante e tão habilidoso na construção aldrabona de um texto como agora na ocasião em que calhava eu ser capaz de verificar o que ele dizia. E nunca mais deixei de o ler com esta precaução. Agora acontece por vezes lê-lo, e sentir na mesma o prazer estético de uma boa escrita; a forma está lá; mas sei que por baixo não há nada, e quanto à substância do que ele diz não presto atenção alguma. Nele tudo é postiço, pretensioso e artificial, tal como o nome.

Maré de azares

O Presidente Bush atravessa uma fase azarada. Só nestes dias, caiu da bicicleta lá no seu rancho do Texas e bateu, literalmente, com a cara no chão, enquanto o "Washington Post" afirma que altos responsáveis militares no Iraque, incluindo o próprio Comandante, General Ricardo Sanchez, chegaram a assistir pessoalmente a interrogatórios nas condições que sabemos, e a imprensa internacional espalha que terá mesmo que concretizar-se o sacrifício de Donald Rumsfeld (o "pato expiatório"), e agora o Júri de Cannes resolveu premiar com grande aparato o documentário anti-Bush de Michael Moore, transformando o festival numa espécie de happenning anti-bushiano.
Numa terra onde dificilmente alguma política subsiste contra o mundo do cinema e o universo do espectáculo e dos media, isto é obra. A coisa está preta.
Fosse o concorrente nas presidenciais alguém um bocadinho menos pior do que Kerry,e a carreira política de George estava seguramente à beira de passar à História. Assim não se sabe.

Sábado, Maio 22, 2004

As eleições europeias

Estive a ler no "Expresso" o que lá se escreve sobre as eleições europeias que se aproximam. A vinte dias de distância, a redacção do "Expresso" está com a mesma sensação que eu. O país em geral ainda nem se deu conta da existência de tais eleições, ou faz questão de abstrair do facto. Salvo algum factor de todo inesperado,tudo aponta para que sejam as mais desinteressantes e irrelevantes eleições de sempre. E também as menos concorridas. Nem sequer o possível estímulo de um voto sanção está a atrair os eleitores aos votos. Os consensos instalados a nível de classe política mataram qualquer interesse por estas eleições. Efectivamente, qual é a diferença entre Sousa Franco e Deus Pinheiro, entre a lista PS e a lista PSD/CDS, no que respeita às questões que se debatem na Europa?
E, indo ainda mais longe, mesmo o PCP e o BE procuram marcar alguma diferença por meio de críticas relacionadas com a política interna, não salientando qualquer divergência de fundo em matéria de política europeia.
O resultado, previsível, é o afastamento dos cidadãos eleitores. Se tudo está assente consensualmente, ninguém sente que valha a pena incomodar-se.
Em matéria de resultados, e tendo em conta a sondagem publicada, inteiramente coerente com as demais já conhecidas, também se afigura que restam poucas incógnitas. Ou seja, parece-me que as únicas dúvidas estão nas flutuações de umas décimas percentuais entre as duas forças principais, que podem modificar a atribuição de dois deputados.
De resto, vinte e dois dos vinte e quatro lugares já têm dono, e de modo que se apresenta como imutável. O PS e o PSD/CDS nunca terão menos que dez lugares, o BE tem seguro o seu, e o PCP guarda outro. A luta que sobra será para definir se surge um empate onze-onze, ou alguém leva uma vitória doze-dez.
De resto, o PND, apesar da forte aposta nestas eleições, apesar das boas condições à partida, pela fusão do PSD/CDS, e apesar do mediatismo do líder, parece condenado ao fracasso. Na verdade, parece um balão que se esvazia.
Outros, leia-se PNR, que poderiam fazer a diferença, não se mostram com força para romper o bloqueio. Os filtros e os controlos do sistema abafam qualquer dissidência, impedindo-a de comunicar com as massas. Qualquer votação expressiva numa outra força que não as suprareferidas seria a novidade do escrutínio, e o único dado político novo.
Poderá este panorama alterar-se em vinte dias?

A entrevista do ano

É o título do "duelo ao sol" entre o BOS e o Clark59. De ler e chorar por mais.

Usos e abusos

Em qualquer prisão do mundo podem verificar-se abusos. Não é possível organizar tudo de forma tão perfeita que não possa nunca acontecer que um guarda, ou vários, aproveitem um momento e um local em que mais ninguém está a ver e espanquem um preso. Como ninguém viu, depois dirão que foi necessário usar a força. Ou que o detido se autoflagelou nas grades da cela. Em todo o caso serão acções isoladas, escondidas, disfarçadas, praticadas sigilosamente e de modo a não ser descoberto. Está bem presente a consciência da ilicitude de tais actos.
Nas imagens divulgadas sobre os chamados abusos dos militares americanos nas pessoas de detidos iraquianos o que salta de imediato à vista é que se trata de algo completamente diferente. Aqueles homens e mulheres não estão a agir com a consciência de fazer algo de contrário ao sistema em que se inserem: ao contrário, riem-se e exibem-se, em poses orgulhosas. Não estão a fazer nada de forma oculta, e em algum recanto escuso: ao contrário, as situações correspondem a cenários montados, nos próprios corredores das celas onde se amontoavam centenas de presos, ou em gradeamentos de passagem. As encenações são feitas para amostra, para ser vistas, quer pelos reclusos quer pelo pessoal militar. Naquela prisão e naquele período de tempo, entre detidos, guardas e outros pode afirmar-se com segurança que passaram alguma dezenas de milhares de pessoas. Os albuns de fotografias e os videos circulavam mesmo em bases sitas na América, entre os militares aí colocados.
Para quem minimamente conheça uma cadeia e olhe para o material divulgado (o não divulgado é muito pior, segundo os senadores e o insuspeito Rumsfeld) afirmar que aquilo se passava no desconhecimento e à revelia de toda a hierarquia ali instalada, que tudo são actos clandestinos de sete soldados mal comportados, é tão absurdo como julgar que é possível passear no Rossio de elefante à hora de ponta sem que ninguém repare.
Aquilo não corresponde em nada ao padrão do abuso; parece corresponder perfeitamente a usos, generalizados e aceites.
Os tais soldadinhos desviados fazem parte de um sistema; e não foram eles que criaram o sistema, mas o sistema que os criou a eles.

Sexta-feira, Maio 21, 2004

Ide como uma praga sobre a estupidez do mundo...

"A Juventude é lealdade e claridade, alegria, confiança. Por isso ela não teme ser apaixonada e dizer, em alta voz de bom timbre, as verdades puras e luminosas, dizê-las vibrantemente ou de modo risonho, dizê-las como o saudável e agreste e ingénuo florescer das montanhas, como o implacável jorrar das fontes. A juventude é insolente, derruba os acomodamentos ou os disfarces. Ela só sabe o que deve à sua função de criar e renovar. E assim ela bem sabe que se deve ao que nos livra da estaticidade, da mesquinhez e do egoísmo. A Juventude é recusa e dádiva. Recusa a compromissos dúbios e facilitadores, a comodismos e a auto-suficiência ou auto-satisfação, recusa à separação e à mediania. E é dádiva: ao que nos transcende, ao que nos realiza, ao que é belo e verdadeiro e justo e ascendente; é dádiva à acção e ao amor, ao ideal e à claridade, à luta e à insatisfação, à amizade e à comunidade. A Juventude é criação perpétua."
(Goulart Nogueira)

Encontro de blogues


No "Alandroal" continuam a trabalhar na organização do encontro de blogues de 3 de Julho próximo, por ocasião da Expo-Guadiana.
Não se esqueçam, e escrevam ao "Alandroal"!

Amigos de Avis


Os nossos amigos de Avis, a terra com maior densidade bloguística do país, convidam toda a gente a estar presente no sábado, a partir das 14 horas na sessão de encerramento dos II Jogos Florais de Avis. A sessão vai ter distribuição de prémios, actuação de grupo coral, beberete/convívio, e poesia em abundância.
Quem estiver pelas bandas do Maranhão, já tem programa para sábado à tarde.

Insucesso

Lastimosamente, a "comissão salvífica da auto-estima nacional", apesar das suas nobilíssimas intenções, não logrou convencer o "Claque Quente" nem o "Dragoscópio". Há gente ingrata! Vejam só o que tais bloguistas dizem da campanha.
E também não convenceu o Vasco Pulido Valente. Estamos perdidos!

Manhã de cinza

Certa vez perguntaram-me de chofre com um ar prazenteiro: " -Sabes o que é um chato?" - Fiz ponto de interrogação, temendo mais uma piada sobre bichinhos incómodos em sítios impróprios, mas não era nada disso. Divertido o meu interlocutor adiantou logo a explicação: " - Chato é alguém a quem perguntamos como está, e ele diz..."
Não consegui sorrir, nem disse nada. Na verdade lembro-me que senti mesmo um calafrio gelado a correr cá dentro.
Encabulei, e gravei. Nunca mais deixei de ter presente a sensação, e a definição. Quando me perguntam "como está" respondo invariavelmente "bem, muitóbrigado". Geralmente é mentira, mas mantenho-me na minha. Não passar por chato é o supremo mandamento das regras de convívio em vigor.
Não sei quanto sofrimento silencioso poderá esconder-se em quantos me respondem que estão bem, obrigados. Desconfio que também não querem entrar para o clube dos chatos. Não imagino quanta solidão e desespero são mantidos escondidos por força das normas de conduta imperantes.
Constato apenas que vivo num mundo onde reina um "tudo bem" obsessivo e geral, com sorriso plastificado em esgar mecânico. E não sinto que nada esteja assim tão bem, nem vejo que os outros o sintam. Sinto antes um mau-estar que alastra por entre os fingimentos convencionais, uma infelicidade muda que se instala, um universo de gente que representa para exteriorizar o que não tem, e esquecer o vazio que efectivamente tem.
Este discurso, como é evidente, é profundamente chato. Ponto final.

Quinta-feira, Maio 20, 2004

Deixem-nos trabalhar!!


Até quando? Até quando o silêncio, a cobardia, a indiferença?

Campanha europeia


Neste período pré-eleitoral, alinhem com a campanha em marcha. Forcem os políticos a definir-se... antes que tudo esteja consumado.

A Casa de Sarto

Fiquei a pensar em Chesterton. Lembrei-me das séries "Father Brown". Cada ideia traz sempre associada outras ideias, ou nomes, ou lembranças. A mim Chesterton traz-me sempre a imagem do Padre Brown. Mas não só: veio-me a memória de Corção. Gustavo Corção admirava Chesterton. Chesterton e Bernanos. Dos grandes escritores do século XX talvez não haja outros que tenham originado semelhante atitude de entusiasmo afectivo no ilustre pensador brasileiro. Agradecia-lhes a obra e a ortodoxia.
E por causa de Corção lembrei-me de novo de "A Casa de Sarto". Continua a ser o único local na rede em Portugal com orientação católica-católica. É uma lástima que não surjam outros. Sugeria-lhe, pedindo perdão para o atrevimento, que na falta de portugueses estabelecesse ligação para os brasileiros que estão na rede como exemplos da mesma orientação tradicionalista: a editora "Permanência", o "Mosteiro de Santa Cruz" e a "Capela de Nossa Senhora da Conceição" (invocação mais portuguesa não pode haver).

Chesterton

Por o ter descoberto através deste blogue (afinal os blogues sempre têm papel importante na difusão dos valores da cultura!) percorri demoradamente as páginas deste sítio da "The American Chesterton Society". Confesso que foi uma surpresa: não pensava que o velho Gilberto fosse objecto de culto tão dedicado. É um magnífico sítio, versando inteiramente a figura e a obra do grande escritor e pensador.
Já conhecias, JSarto?

Conferência "Portugal Positivo"

Nesta 5ªfeira às 15.00h no Pavilhão de
Portugal, na Expo-98, realiza-se a Conferência sobre a "Auto-Estima dos Portugueses" promovida pela campanha "Portugal Positivo".
Serão apresentados os resultados do estudo de mercado já efectuado, e haverá discussão pública sobre o tema, com Marcelo Rebelo de Sousa, Vasco Pulido Valente, Clara Ferreira Alves, Inês Pedrosa e António Borges.A entrada é livre.
O espectáculo promete...

Quarta-feira, Maio 19, 2004

A Harmonia tem um blogue!

A velha Hermonia Eborense, aquela veneranda instituição da Praça do Geraldo, dos bilhares e das jogatanas, e dos nossos bailes adolescentes, renovou-se e até já está na blogosfera.
Longa vida e prosperidade às carradas para o blogue da Harmonia!

20 de Maio

A 20 de Maio passa mais um aniversário da ocupação militar das terras alentejanas do Município de Olivença pelas forças espanholas. De modo a assinalar a data o Grupo dos Amigos de Olivença promove uma concentração no próprio dia 20 de Maio, às 18h45m, no Chiado, em Lisboa, junto à estátua de Fernando Pessoa, onde decorrerá uma cerimónia simbólica evocativa do acontecimento. Convocam-se todos os apoiantes da Causa de Olivença para participar no acto. Lembrem-se: nestes tempos, somos todos de Olivença!

Praça do Giraldo

A Praça do Giraldo é o local onde a gente giralmente se encontra... Mas em Junho, entre o São João e o São Pedro, a cidade muda-se para o Rossio: é a Feira de São João.
Assim acontece há séculos, e há fundamento para pensar que assim acontecerá ainda por muitos anos. Claro que houve umas conversas de mudança, mas parece que já estão esquecidas e são manifestamente incómodas para quem deveria lembrar-se. Outras cidades, com pretensiosas manias de crescer e de avançar, dedicaram-se a fazer Parques de Feiras, Pavilhões de Exposições, promoção de Actividades Económicas. São uns pedantes. Aqui estamos imunes a quejandas modernices. Somos muito apegados aos nossos atavismos típicos. Tem lá jeito mandar a Feira para longe?
Portanto lá nos encontraremos de novo este ano, no Rossio poeirento, por entre encontrões, barracas de lona e o cheirinho do frango e da sardinha assada. Aguarela assim pitoresca, com flor de indiano e tenda de chinês, quem é que tem, quem é?
Entretanto, talvez pelo aproximar da Feira, anima-se a blogosfera eborense. Surgem o "História e Política" e o "Lost Blogs" (parece-me que é uma nova geração a chegar), regressam o "Vivaz" e "O Chaparro". Permanecem, e insistem, outros tantos.
Força compadres!

Mais livros mais livres

Aproximando-se a Feira do Livro de Lisboa, aproveito para aconselhar uma prospecção dos catálogos da Hugin e da Nova Arrancada. Se não encontrarem na feira, encontram-se em rede.

Ajuda de berço


Já fizeram a vossa boa acção de hoje?

Terça-feira, Maio 18, 2004

Forças de bloqueio

Santana e os santanistas estão furiosos com estes malandros... parece que são mesmo uma força de bloqueio, com origens e finalidades a modos que obscuras... Uns patifes, a entravar o progresso e a comprometer os projectos políticos dos outros... São eles e o José Sá Fernandes.

Ciclo de Conferências "Família 2004"

Amanhã, dia 19 de Maio de 2004, pelas 21 horas, no Colégio do Bom Sucesso, em Lisboa,a encerrar o Ciclo de Conferências "Família 2004", que ali tem vindo a decorrer, o Eng. Fernando Castro, Presidente da Direcção da APFN, falará sobre "Família e Demografia".

As doenças da saúde

O caro Dupont do "Vilacondense" travou conhecimento com a negra realidade das urgências hospitalares... Aqui há tempos tinha sido o senense João Tilly a viver a tragédia maior...
Lembro-me constantemente de um artigo de Manuel Silvério Marques que li já há algum tempo: a grande novidade da Medicina do nosso tempo está em que os médicos deixaram de gostar dos doentes... Passaram até a temê-los, como se fossem o inimigo, a fugir-lhes e a evitá-los, a repugnar-lhes o seu contacto físico, a livrarem-se deles apressadamente, a passá-los para outrem...
Porque será que os médicos deixaram de gostar dos doentes?

Até onde vai a Europa?

Aproximando-se as eleições europeias, seria de esperar que se discutisssem as questões capitais da problemática europeia que se deparam no horizonte imediato. A constituição europeia, a adesão da Turquia... Mas não: continua a verificar-se que as forças políticas principais fogem de qualquer debate ou definição clara sobre essas questões: preferem manter as mãos livres para decidir depois o que se apresentar mais conveniente em matéria de alianças externas. Até pode vir a dar-se o caso de ser preciso integrar um grupo ultrafederalista depois de ter andado a falar em Europa das Nações... convém pois ter tento na língua. O melhor é não assumir compromissos públicos muito vincados.
As eleições europeias em vez de ser ocasião para discutir as opções chave quanto ao futuro da Europa vão continuar a ser decididas com base numa chicana ritualizada entre governo e oposição. Exclusivamente por factores de política interna.
Entretanto, noutras bandas cresce a polémica sobre as fronteiras da Europa: a Europa inclui também a Turquia? Veja aqui a campanha francesa do não à Turquia na Europa.
E em Portugal?

Segunda-feira, Maio 17, 2004

Mon pays me fait mal

Este bloguista recorda Brasillach em versão Goulart... Este regressa da estranja... Este aqui encontrou Ratzinger... O Eurico continua em Cannes... E la nave va...
(Do diário de Manuel Azinhal, blogonauta alentejano em expedição na blogosfera lusa)

Revista da manhã

Boas leituras: no "Causa Liberal", no "Dragoscópio", no "Fascismo em Rede"... Todos diferentes, todos originais, criativos, inteligentes... Quem serão os misteriosos CN, Dragão e Camisanegra?
Boas notícias: o processo de libertação e de construção da democracia no Iraque progride a olhos vistos. Aguarda-se com esperança que George Bush resolva assumir no local a chefia do respectivo governo interino.
Necrologia: morreu Marika Roekk. Sabem quem era? Não?! Caramba, também não sabem nada!!

Apanhados

Não costumo comentar os comentários, por princípio, mas hoje não resisto a dar resposta a dois comentadores habituais que deixaram cada um seu apontamento numas caixas aqui atrás.
O primeiro é o Mendo, que me puxa as orelhas por chamar "Estádio do Jamor" ao Estádio Nacional. Tem razão no facto, mas protesto contra a conclusão sugerida: não houve qualquer intenção de diminuir ou desrespeitar o Estádio. É frequente usar como denominação a localização disto ou daquilo em vez da designação formal (ia a escrever verdadeira, mas na realidade nenhuma delas é falsa). O Mendo provavelmente já chamou "Ponte sobre o Tejo" à Ponte Salazar, e com isso não quis faltar ao respeito a ninguém.
O segundo comentador é o Nelson Buíça: revela que aqui há uns anos num jogo Porto-Sporting levou com um yogurte na cabeça e o acidente teve consequências graves. Desfaz-se assim um mistério que intrigava a blogosfera: toda a gente tinha notado que o Buíça tinha apanhado com qualquer coisa na cabeça, mas ignorava-se o que fosse. Agora ficámos todos a saber: um yogurte! Por esta é que ninguém esperava. Quem diria que um simples yogurte podia provocar consequências tão drásticas?

Domingo, Maio 16, 2004

JUVENTUDE

A garantia de vida é a renovação. A juventude revigora, mantém a actividade, impele ao descobrimento, ao avanço, ao entusiasmo e ao idealismo. A juventude é como respiração saudável, é confiança e alegria. Quando um organismo está prestes a parar, quando as células vão envelhecer e mirrar-se, quando as pessoas estão cansadas ou descrentes ou lhes apetece retirarem-se para gozar em sossego, quando as inteligências se tornam hipercríticas ou calculistas, então a juventude rompe toda essa bola de banha e levanta o seu grito insubmisso.
A juventude é, no presente, a afirmação do futuro e só por meio dela o passado pode achar vida, acção, alma. Cada época tem de ter a intervenção da juventude, ou, de contrário, o passado e o presente morrerão, submergidos no caos triunfante sobre o que se tornou antiquado e ronceiro. A juventude é a renovação, é a garantia de vida.
Cada geração tem, indispensàvelmente, a sua hora. Cultivar a juventude e dar-lhe o lugar e a oportunidade - eis a sabedoria dos velhos, a virtude dos prudentes, a vitória dos sábios.
E o que é juventude? Sempre e sempre é dedicação e vanguardismo, ideal e intransigência, saúde e claridade, fé e luta, irreverência e capacidade de sacrifício, camaradagem e iniciação.
Quem não pensa na juventude, e não entende a juventude, e não se torna jovem - morre, e merece morrer. Implacável, a juventude rebenta o lajedo, os jazigos e os bolores, quebra os vernizes e as máscaras, dispara o seu indómito caminho, com esta ou com aquela cor.

Goulart Nogueira

Veritatis

Mudou de alojamento o "Veritatis". Talvez receoso da concretização das ameaças bloguicidas que pairam no ar em terras lusas tratou de instalar-se em terras distantes.
O "Veritatis" é um blogue albicastrense, de um jovem albicastrense (aposto que muita rapaziada do meio alfacinha e tripeiro - leia-se indígenas das duas metrópoles onde pululam os mais ignorantes e limitados dos portugueses que me foi dado encontrar - nunca ouviu tal palavra; mas encontra-se em qualquer enciclopédia ou dicionário. É só ir ver.).
Boa sorte para o "Veritatis!"

Futebol

Hoje à tarde realiza-se a final da Taça de Portugal (de futebol, é disso que estou a falar). Só me dei conta disso devido à notícia da morte inesperada de um jovem futebolista - o segundo em pouco tempo. Será que há algum mistério com esses departamentos desportivos ultra-sofisticados que os grandes clubes possuem?
Não sei, mas não é nisso que vou falar. Com efeito, os temas que giram à roda do tema futebolístico enjoam-me. Passaram a enjoar-me mortalmente desde que constatei que nunca se fala de futebol nos locais onde é suposto ser esse o assunto: veja-se um programa de televisão que tenha como pretexto a jornada de fim de semana e verificarão que só se fala das arbitragens, dos negócios, das transferências, dos dirigentes, dos estádios, da publicidade - em suma, de uma vasta gama de assuntos ligados ao fenómeno futebolístico, mas nunca do jogo em questão. O mesmo se diga também da imprensa escrita. Os aspectos lúdicos do jogo ocupam quando muito umas linhas, e em todo o caso seguramente que muito menos que as dedicadas à vida amorosa de cada futebolista ou às últimas notícias sobre as suas noitadas.
De modos que deixei totalmente, não digo de falar de futebol, que nunca fui muito de falar nisso, mas sobretudo de ouvir de futebol. Desliguei de todo. E isto já há muito mais anos do que estão a pensar. Para dizer a verdade, eu só gostei do jogo enquanto era criança e adolescente, até à primeira juventude. Aí sim, era seguidor atento de tudo o que lhe respeitava. E jogava, jogava muito, mesmo muito. Não digo que jogava bem, porque não seria verdade, mas jogava muito. E ainda deu para alinhar mais a sério em clube federado: pertenci aos escalões jovens do Sport Lisboa e Évora, meritória colectividade que é das mais antigas filiais do Benfica e que dava cartas no futebol juvenil aqui pelo Alentejo (agora não sei de nada). Como quem confessa sempre tem essa atenuante espero que me seja perdoado esse delito juvenil de andar a defender a camisola encarnada pelos campos do Alentejo. E realmente foi há muito tempo. Com a minha transferência para Lisboa ganhei o tal asco aos assuntos do futebol que referi atrás, e nunca mais consegui sequer ouvir falar de tal coisa. E ao que me dizem fiz bem, porque tudo terá vindo a piorar cada vez mais.
Sou aliás um português atípico: nunca pus os pés no Estádio do Jamor, ou no Estádio da Luz, ou no Estádio de Alvalade, nem nos antigos nem nos actuais. A bem dizer, só entrei nos aludidos campos alentejanos, nesses tempos remotos: o Lusitano, o Juventude, o União de Montemor, o Estremoz... joguei bastante nos campos dos Salesianos e da Casa Pia de Évora, que tínhamos sempre disponíveis. Mas fiquei por aí.
A bem dizer, e já agora para ficar confissão completa, as únicas excepções que recordo nestes últimos vinte e cinco anos quanto a contactos com o universo da bola foram uns almoços no Montijo, com uns colegas, no restaurante do pai da Futre, em que o senhor Manuel vinha sempre cumprimentar à mesa e trocavam-se algumas simpatias sobre o rapaz (que não me lembro aliás se estava em Lisboa ou em Madrid). E pela mesma época, também por acaso, tive na Moita algum convívio com um outro moço que ali montou um bar (era o "Manobras") com os dinheiros do futebol, e que se chamava Fernando Mendes. Jogou no Benfica, no Sporting e em não sei quantos mais, mas pela frequência do "Manobras" depreendi que não costumava deitar-se senão de dia (ele e mais metade da equipa).
Há que tempos isto foi!
Mais recentemente, tive a experiência mais marcante: há nove anos e um bocadinho, estando eu no Porto, fui convidado, com convite da direcção do FCP, a assistir a um jogo europeu, que ia decorrer no Estádio das Antas. Não perguntem porquê, que ignoro completamente a razão de tal distinção. Encontrei duas ou três vezes o Sr. Pinto da Costa, com quem troquei no máximo uns cumprimentos protocolares, o mesmo dos acompanhantes dele, recordo Reinaldo Teles, Óscar Cruz, o Dr. Lourenço Pinto, o Dr. Guilherme Aguiar. Não faço ideia do motivo de tal honraria - garanto que não conheço ninguém, nem nenhum me deve nada. O certo é que fosse por me sentir intrigado pelo convite, fosse por estar sózinho e sem nada que fazer numa bonita noite de Primavera/Verão, fosse pela curiosidade de ver o que nunca tinha visto, lá fui até ao Estádio das Antas assistir ao Porto-Sampdoria.
Foi efectivamente experiência única. Do jogo vi pouco; pareceu-me reduzir-se a umas correrias de um moço precocemente careca, acho que se chamava Atílio Lombardo, para quem os italianos bombeavam a bola em lançamentos longos. O tal careca movia-se incessantemente na frente de ataque, isolado e sempre a mudar de posição, à esquerda, ao centro e à direita, e de vez em quando conseguia realmente apossar-se da bola e dar cabo do juízo aos defesas do FCP. As mais das vezes o infeliz careca estava no chão, a torcer-se de dor com a sarrafada metódica do Paulino Santos ou do Jorge Costa. Mas vingou-se, já que num desses lances inesperados fez um golo e acabou com as esperanças portistas. Os italianos ganharam por um a zero.
Seja por ter dado azar ou por qualquer outra razão nunca mais recebi convite algum. O mais provável é que tenha dado muito nas vistas, porque o convite era mesmo lá para um sítio onde só havia velhos dragões, e dragões assanhadíssimos. Imagine-se um morcão ali no meio, sempre calado e de boca aberta a olhar espantadísimo para as exuberantes manifestações das espécies zoológicas que o rodeavam por todos os lados. Dava nas vistas. Mas digo-vos: do jogo vi realmente pouco, mas para a assistência não me fartei de olhar, de olhos arregalados.
Que espectáculo, senhores!