Terça-feira, Junho 29, 2004

Mais destaques

Sobre a problemmática do ensino superior na actualidade e sobre a evolução do sector desde o aparecimento das iniciativas privadas nesse domínio (Universidade Livre) têm surgido importantes contributos e reflexões no Aliança Nacional. Curiosamente, é uma área onde a blogosfera me parece estranhamente carenciada: o ensino e as questões relacionadas com este não provocaram ainda o entusiasmo dos blogonautas, nem a blogação cativou muita gente de dentro desse sistema (do ensino, público ou privado). Não há muitos docentes, nem há muitos discentes, pelo menos nessa qualidade, a marcarem presença na blogosfera.
Os docentes ainda percebo: estão tão habituados a que tudo seja decidido superiormente, lá em cima, em gabinetes e conciliábulos secretos, em comissões inacessíveis aos mortais, ou em conversas de corredores alcatifados e manobras de influentes e notáveis, que se desabituaram da pública reflexão e debate. Mas quanto aos alunos não entendo. É quase como se o ensino fosse uma passagem necessária, uma fatalidade que temos de aceitar, mas que se deve ultrapassar rapidamente sem levantar ondas nem questionar nada. E sair o mais depressa possível, para a vida verdadeira.

Destaques

Hoje na blogosfera sublinho as recentes actualizações do Lusitana Antiga Liberdade, sobretudo a colaboração do Comandante Virgílio de Carvalho, e o aparecimento de um novo blogue, O Porta-Bandeira, ao que parece feito por um jovem decidido a deixar aqui a sua marca pessoal.
É a permanência dos consagrados e o surgir da renovação. Um abraço a todos!

CARTA DO CANADÁ, por Fernanda Leitão

A CASTIGADA MINORIA
A partir de hoje o Canadá tem um governo federal minoritário do Partido Liberal (centro esquerda), liderado por Paul Martin – primeiro ministro em exercício depois da retirada, por limite de idade, de Jean Chrétien. Fica com 136 assentos no parlamento, enquanto os conservadores têm 94, os socialistas (New Democratic Party) 23 e os separatistas do Quebeque 55.
Não é possível uma aliança com os conservadores ou os separatistas, devido a diferendos ideológicos intransponíveis, pelo que se adivinham alianças pontuais com os socialistas, que estes logicamente aproveitarão para apoiarem as causas sociais que são um investimento no seu futuro político.
Todo este cenário era previsível. Paul Martin, o ministro das Finanças do governo Chrétien que acabou com o défice e passou a registar um superavit substancial por anos seguidos, fez a vida difícil a Chrétien por ambição de chegar a primeiro ministro, querendo seguir as pisadas do pai, que foi o ministro e autor da legislação do sistema de saúde, inteiramente estadual, que ainda perdura. Foi visivelmente pouco correcto com Chrétien, um homem de Trudeau com grandes serviços prestados ao país, alcandorou-se a presidente do Partido Liberal e deixou na opinião pública a imagem de uma encapotada traição. Acresce que, sendo o multimilionário dono de uma próspera empresa de transportes marítimos, se viu confrontado com relatos de imprensa que davam essa companhia como fugindo ao fisco por meio de negócios fixos em paraísos fiscais das Caraíbas. Jean Chrétien retirou-se, magoado mas digno, e Paul Martin seguiu-se-lhe no cargo interinamente por acordo da Governadora Geral, Adrienne Clarckson, que representa no terreno a chefe do estado, a Raínha Isabel II de Inglaterra. Um ano depois, a auditora geral do Canadá (que responde à Coroa e não aos governos ou partidos) descobriu, ao peritar as contas públicas, que o governo federal tinha propiciado uma hemorragia de quase 200 milhões de dólares em benefício de agências de publicidade do Quebeque, muitas delas conotadas com os separatistas. O país, pouco habituado a corrupções deste jaez, acordou estremunhado mas depressa recuperou o sangue frio para exigir o completo apuramento do que se passou. A investigação continua, a cargo de um juíz nomeado pela Coroa. Foi então que Paul Martin cometeu dois erros tão primários que só se podem atribuir ao seu intenso desejo de ser primeiro ministro e à sua já provecta idade: negou ter tido conhecimento do assunto, muito embora fosse o responsável pela pasta das Finanças, e não teve o aprumo de guardar o pedido de eleições gerais à Governadora apenas para depois de toda a investigação estar terminada.
Se tivesse procedido de forma mais correcta, talvez viesse a ser o chefe do governo daqui a um ano. Assim, o eleitorado penalizou-o com um governo minoritário que, visivelmente, não vai durar muito para além do termo da investigação criminal. E entretanto fica refém dos socialistas, sob marcação cerrada de um Partido Conservador seguidista da administração americana e dum partido separatista, dirigido e manipulado por um antigo militante comunista, que vive no sonho de fazer do Quebeque uma república à cubana.
A única novidade destas eleições é a vitória do primeiro português que vai sentar-se no parlamento federal, Mário Silva, um açoreano que há vários anos tem vindo a ser vereador da câmara de Toronto. Ganhou confortavelmente a dois candidatos também portugueses, no círuclo torontino de Davenport: Rui Pires, socialista, e Teresa Rodrigues, conservadora. É uma estreia honrosa para a comunidade portuguesa, embora esta não espere muito dum político pouco experiente que cairá quando o governo minoritário caír.
Apesar deste contratempo e de o Canadá ser um país difícil de governar, pela sua extensão desmesurada, os seus invernos glaciais, os seus 33 milhões de habitantes oriundos de 160 países, o país não está em crise. Tem a sorte de contar com uma máquina administrativa montada peça a peça, desde a fundação, pelos ingleses – com tudo o que isto significa de rigor, frugalidade e simplicidade. Os políticos podem desatinar, mas a máquina fica firme, o país continua a ser um dos que tem melhor qualidade de vida, um dos mais prestáveis nas causas humanitárias de que o mundo sofre, um dos mais livres e respeitadores da pessoa humana, mas um dos menos obedientes ao credo da admnistração dos Estados Unidos da América. Quando Bush convocou o Canadá para a aventura do Iraque, com a mesma ligeireza e desplante com que acaba de proclamar que apoia a entrada da Turquia na União Europeia, o governo Chrétien deu-lhe um completo e redondo não, mostrou-lhe que os Estados Unidos não são donos do mundo. Blair, um político da Commonwealth, enguliu em seco.
Enfim, a vida continua. Os deputados sabem o que os eleitores querem. Porque escolheram a profissão de políticos têm de fazer o que os eleitores querem. E nós, os que votámos na segunda-feira, deixamos essas tarefas aos nossos delegados por termos outras coisas a fazer. Por cá não se come e bebe e respira política 365 dias no ano, 24 horas por dia. Trabalha-se. E por isso se pedem severas contas aos políticos que não trabalham ou que trabalham mal.
Fernanda Leitão

Segunda-feira, Junho 28, 2004

As notícias do Iraque

De acordo com as agências noticiosas, os americanos, representados pela sua própria administração no território, puseram em cena o que chamaram a "transferência de poderes" ou a "devolução da soberania" aos iraquianos, numa patética cerimónia convocada à pressa para o interior do Quartel-General das forças militares da "coligação".
O chefe do novo governo iraquiano é um personagem que segundo a insuspeita CNN tem como maior virtude ser um homem da CIA desde há décadas. Portanto, a partir de agora, e seja lá o que for o significado americano para esta palavra, a "soberania" do Iraque foi restabelecida. Não se sabe é se os novos governantes têm ao menos a liberdade de deslocar-se à casa de banho sem pedir previamente licença às forças de segurança que lhes garantem o "poder".
Por mim quero deixar apenas uma observação: um dos verdadeiros objectivos que me pareceu estar presente desde sempre nos planos que levaram à invasão do Iraque, que era a instalação por muitos anos de uma efectiva e generalizada guerra civil no país, parece-me que está em vias de ser garantido pelos autênticos estrategas da guerra.

Suspense

Continua a incógnita sobre a presidencial decisão quanto ao Governo Pedro/Paulo. Entretanto achei deliciosa a lembrança do leitor FGSantos em relação ao passado de Jorge Sampaio. Também este efectivamente foi Presidente da Câmara de Lisboa com um compromisso expresso de cumprir um mandato de 4 anos, e saiu a meio para se candidatar à Presidência da República, após ter usado a Câmara como trampolim, como era o seu verdadeiro objectivo. Talqualmente se diz de Santana Lopes, que nunca quis a Câmara lisboeta senão para se erguer para outros voos. Ora aí está mais uma ironia desta estória.
Se é verdade que Santana é conhecido, e justamente, por ainda nunca ter cumprido compromisso que tenha tomado, e Durão dificilmente escapará à imagem que lhe fica colada de abandonar a governação a meio-mandato, em triste confirmação do que se desconfiava (nunca teve um projecto, ou uma ideia de missão, que o prendesse a um destino nacional), o certo é que Sampaio não é certamente a pessoa com mais autoridade para lhes recordar a volubilidade.
Aguardemos pois, de bancada, o resultado da tremenda confusão de pressões, manobras, rasteiras e golpes baixos que agitam o pais político, com especial turbulência nas áreas do PS e PSD, e epicentro em Belém.

Vade retro, Santanás!

Aquela que é considerada a primeira "manifestação SMS" em Portugal juntou cerca de 2500 pessoas que se mostraram contra a possibilidade de Santana Lopes vir a assumir o cargo de primeiro-ministro. Os manifestantes exigiam "eleições já".
A manifestação foi convocada através de uma cadeia de mensagens escritas por telemóvel e acabou por juntar perto de 2500 pessoas à frente do palácio de Belém, que exigiam ao chefe de Estado a realização de eleições antecipadas, caso se confirme a saída do primeiro-ministro, Durão Barroso, para a presidência da Comissão Europeia.
Entre os participantes na manifestação estava a deputada socialista Helena Roseta, que disse que "quem neste momento está em falta com os eleitores é o primeiro-ministro. Ainda há poucos dias, Durão Barroso disse que não era candidato à Comissão Europeia. Afinal é. Vai rasgar o compromisso que tinha com os eleitores e vai-se embora a meio do mandato. Estamos à espera de uma explicação e o que os manifestantes estão aqui a dizer é que, se o Governo cair com a demissão do primeiro-ministro, então o Presidente da República deverá devolver a decisão aos eleitores e convocar eleições antecipadas".
A manifestação reuniu ainda personalidades políticas como João Soares, do PS, Ana Bravo e Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, e Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril.

Uma breve nota: será que Jorge Sampaio é capaz de resistir à sua gente? Mesmo sabendo que se o fizer, e der cobertura passiva ao cambalacho, as suas relações com os seus nunca mais serão as mesmas?
Outra nota ainda mais breve: os que põem dúvidas sobre as minhas teses sobre o que se pode fazer com a internet por acaso já repararam no que é possível fazer com uma simples onda de mensagens SMS? Lembram-se de Espanha, do que aconteceu a Aznar e ao PP?

Domingo, Junho 27, 2004

CARTA DO CANADÁ

Recebemos da jornalista Fernanda Leitão mais uma das suas cartas do Canadá, dedicada precisamente ao momento político que se atravessa.
Ei-la, tal como chegou lá das longínquas paragens canadianas.

O BECO REPUBLICANO
Esta República, a quem o povo português deve favores que a História registará, um deles foi a “descolonização exemplar” e outro foram as “nacionalizações de roubo”, a que se deve acrescentar o abandalhamento do ensino e a corrupção mais elaborada, desembocou num beco mal afamado e sem saída. Durão Barroso, que vem da escola comunista do maoísmo e foi promovido por Cavaco Silva, mexeu os pauzinhos todos que lhe permitam fugir do país, pela porta da frente, de modo a não ter de dar contas dos abusos, incompetências e coisas nada sérias do seu governo de coligação. Uma coligação ostensivamente protagonizada por um Paulo Portas que, goste ele ou não, está irremediavelmente queimado desde o caso da Moderna. Não se surpreendem os emigrantes portugueses do Canadá com esta fuga, tão descarada, porque, quando em Toronto tivemos a epidemia da gripe SARS, Durão Barroso cancelou a sua presença na festa de homenagem aos pioneiros que chegaram a este país há 50 anos, tendo o topete de se ficar por Otava, entre banquetes e limousines governamentais. A comunidade portuguesa colou-lhe o rótulo inapagável de cobarde. Foi o mínimo que lhe chamaram, à boca cheia, os portugueses deste lado do mundo.
Obriga-me a verdade e a memória a dizer que não me surpreendo por mais este acto de fujão e a explicar porquê. Há anos atrás foi cônsul de Portugal em Toronto um António Tânger Correia que, além de ter apanhado aos incautos dois barcos com o pretexto de ir às Olimpíadas de Seul, o que logo foi desmentido pelo Comité português, deu outras “palmadas” por aí, abandonou o posto diplomático para velejar na Europa, meteu-se em aventuras galantes que deviam ter dado uma inspecção rigorosa se o Ministério dos Negócios Estrangeiros fosse respeitável, ia para o consulado algumas vezes bastante bêbado, e foi nesse estado que expulsou um honrado trabalhador com 29 anos de casa, a quem o estado português nunca fez justiça, etc. etc. etc. Um escândalo, uma lama, uma lástima que nos envergonhou a todos. Era ministro dos Negócios Estrangeiros o Sr. Durão Barroso. Como eu conhecia o Tânger desde catraio e calhou de ir a Lisboa, avisei a sua progenitora quanto ao melindre da situação por ele criada, sugerindo que pedisse ao ministro para o tirar de Toronto. Respondeu-me que não podia ser porque o dito ministro e o delicioso filhinho eram amigos unha e carne. E adiantou uma expressão que me ficou colada na memória: “São dois garotões”.
Porque havia eu de me admirar das piruetas do Durão Barroso nos dias que correm?
Temos, pois, que Durão Barroso está de malas feitas para Bruxelas, numa fuga precipitada, e que sugere para seu sucessor Santana Lopes, o célebre Pedrocas das Larocas, que tem boas razões para fugir da borrada que deixa na Câmara de Lisboa e é íntimo do nunca por demais celebrado Paulo Portas. Este é um beco sujo, mal cheiroso e mal afamado.
Portugal tanto pode estar à beira de varrer a testada e limpar uma boa parte da casa política, como pode estar quase a transformar-se naquilo a que Guerra Junqueiro chamou “uma enxerga podre cheia de percevejos”, quando, arrependido e envergonhado por ter louvado os malditos regicidas, viu no que tinha dado a balbúrdia republicana.
Tudo agora depende do Presidente da República. Este, como é de seu natural, não perdeu as estribeiras, pediu tempo para reflectir e aconselhar-se, recomendou prudência e pequenos passos. Está a ser bastante criticado por isso, com uma paixão a condizer com estes exaltados dias de campeonato de futebol. E no entanto, o PR está certo ao proceder assim. Precisamente por ser Presidente da República. Porque o Presidente da República é em geral proposto e apoiado por um partido, embora seja depois votado por todos aqueles que, mesmo pertencendo a outros partidos ou a nenhum, lhe dão a sua simpatia ou o benefício da dúvida. Quando surge uma situação de encurralamento político, como esta que foi provocada pela Direita Situacionista, a Direita Aproveitadora, o PR tem de ser extremamente cauteloso na solução do problema para não ser acusado de estar a favorecer a formação ideológica de que é oriundo. Frente ao desconchavo criado pela rapaziada dos Jaguares, Copos, Tipas & Ofícios Correlativos, é evidente que apetece convocar eleições antecipadas e pôr tudo a claro, virado da cabeça para os pés. Mas, como em tudo, é preciso perguntar quem é o primeiro beneficiário. E aí é que bate o ponto. Portanto, Jorge Sampaio tem de ser prudente e aconselhar prudência. E o povo, consciente desta realidade, tem de fazer saber ao PR que pode contar com o seu apoio. Porque a situação é séria, é o país que está em jogo com milhões de almas dentro, não é hora de levar isto no calembour, na risada ou no esfregar contente de mãos. O país acima de tudo.
O Rei não tem estes problemas de suspeição em relação a partidos. Pode cortar a direito. E mandar varrer os cacos. Quanto mais o tempo passa mais as pessoas são obrigadas a pensar nestes termos.
Fernanda Leitão

Pela fiscalização da revisão constitucional

Na sequência do que escrevi no postal anterior, relembro que continua aberta à subscrição pública a "Petição para a fiscalização da constitucionalidade da última revisão constitucional".
Ninguém diga em tom fatalista que não é possível fazer nada: todos podem, pelo menos, assinar. E que todos possam dizer que é sua a parte feita - que o por fazer é só com Deus, como dizia Pessoa.

Olivença finalmente na Assembleia da República

A Direcção do Grupo dos Amigos de Olivença divulgou a 25 de Junho, após a Sessão Plenária da Assembleia da República, a seguinte nota informativa:
"A Assembleia da República apreciou hoje, na sequência de Petição subscrita por mais de 8.000 cidadãos, a Questão de Olivença.
Com os representantes de todos os grupos parlamentares a saudarem unanimemente a iniciativa do Grupo dos Amigos de Olivença, a Assembleia, lembrando que é da competência do Governo a condução da política externa, entendeu solicitar ao Executivo o esclarecimento da posição de Portugal sobre Olivença, nomeadamente com a ida da Senhora Ministra dos Negócios Estrangeiros à Assembleia.
Sublinhando o respeito pela legalidade internacional e referindo que o direito internacional continua a indicar Olivença como território português, os Senhores Deputados exprimiram a vontade que o Governo dê resposta à Petição, analisando o litígio e encontrando uma solução para o mesmo como factor de grande utilidade no futuro das relações entre Portugal e Espanha.
O Grupo dos Amigos de Olivença congratula-se com o desenvolvimento político que significa a discussão pública e ao mais alto nível do Estado da situação de ilegalidade em que se encontra Olivença, terra portuguesa desde o séc. XIII e ocupada por Espanha em 1801.
Apoiado na História, na Cultura e no Direito e bem ciente do papel decisivo da opinião pública, o Grupo dos Amigos de Olivença reafirma a sua determinação e convida todos os cidadãos a prosseguirem esforços para o reencontro com Olivença.
Um passo mais pela Terra das Oliveiras!
"

Como português e como alentejano congratulo-me com o inegável êxito político alcançado pelo GAO, que com persistência tenaz conseguiu levar às instituições próprias um problema que estas sempre procuraram ignorar. É um grande exemplo do que se pode fazer, com escassos recursos humanos e praticamente sem meios materiais, através da utilização inteligente e sistemática das vias que a própria legalidade indica, e das formas de acção e sensibilização da opinião pública disponíveis quando o engenho e a imaginação têm que substituir o dinheiro que não existe.

O estado das coisas

Neste momento ainda não se sabe qual é a decisão da Dr.a Maria José Ritta. Mas da parte do sr. Presidente da República já se fizeram ouvir palavras de apelo à "prudência", referências à "estabilidade", tudo temperado com as advertências de rotina sobre quem tem a última palavra, ao momento próprio, à calma, à serenidade, e outras usuais figuras de estilo.
Tudo indica portanto que com mais rodeios ou menos vénias a presidencial figura predispõe-se a sacramentar o cozinhado que lhe fazem presente, e teremos um primeiro-ministro por cooptação. O cessante indigita o sucessor. E este está a formar o seu governo, com manifesta e justa indiferença pela irrelevância presidencial. Teremos portanto, por inacreditável que pareça ainda a muita gente, um Governo Santana-Portas.
Eis a Europa em esplendorosa manifestação. Que batam palmas todos os socialistas, com os chefes à frente, é o que se espera: não foram eles sempre entusiastas incondicionais do modelo? Pois aí o têm.

Sábado, Junho 26, 2004

Entalado

Dividido entre as suas fidelidades e gostos socialistas, que empurram para um lado, e as conveniências europeias, que puxam para outro, o nosso amado Presidente está a passar um mau bocado. Dissolvo? Não dissolvo? Qual será a opinião da Dra. Maria José Ritta?

O governo santanista

Os periódicos insistem na notícia de que Pedro Santana Lopes já está absorvido na formação do seu Governo. Nada se sabe ainda de concreto sobre a respectiva composição, mas corre o rumor de que terá muito poucos homens.

Política: teremos novo Verão Quente?

Adensam-se as nuvens a anunciar tempestade. A vontade de Durão Barroso em afastar-se para aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia mas garantindo ao mesmo tempo que em Portugal não haverá de imediato eleições antecipadas e que o cargo de Primeiro-Ministro passará por indigitação e transmissão directa para Santana Lopes, sem qualquer alteração no quadro político em que assenta o Governo, parece ter ambição a mais.
Jorge Sampaio, que tem o poder de nomear ou não nomear o novo Primeiro-Ministro, e de dissolver a Assembleia e convocar eleições, se assim o entender, iria colaborar nisso porquê? Logo agora que as sondagens publicadas falam em maioria absoluta para o PS? E os dirigentes do PS, sobretudo Ferro Rodrigues, poderão assistir passivamente a tudo isso?
Vamos a ver.
O momento das eleições regionais previsto para Outubro poderá coincidir com as eleições legislativas? Ou o calendário será muito apertado? E o prometido referendo sobre a constituição europeia, falado para os inícios de 2005, ainda se mantém?
E alguém se lembra que as autárquicas terão que ter lugar já na parte final desse ano?
Há muitas incógnitas no ar. O que é certo é que a luta política está aí em força, e tudo permanece em aberto.
Uns estão atentos, organizados e intervenientes, e outros estarão a discutir o sexo dos anjos. É sempre assim.

Sexta-feira, Junho 25, 2004

Alentejo Magazine

Os responsáveis do Alentejo Magazine, na sequência da minha referência anterior, chamam-me a atenção para um erro manifesto, que foi indicar o blogue como centrado em Sines quando o mesmo tem notoriamente a capital instalada em Santiago do Cacém. Fica feita a rectificação (não sei o que me levaria ao escrever a desviar-me para Sines; mas é patente o lapso).
Quanto à questão da publicidade, esclareço que não estou em divergência com a posição apresentada: pelo contrário, se esse for um caminho viável para a consolidação e o desenvolvimento de uma presença na internet que dê voz ao país real, ao local e particular, normalmente afastados dos grandes meios de comunicação social, então aplaudo sem reservas. Todo o serviço tem um custo, é justo que tenha um preço. Só exprimi alguma expectativa reservada exactamente porque sei até que ponto é restrito o mercado publicitário em questão - e como é difícil cativá-lo inclusivamente para os meios de comunicação tradicionais, jornais escritos ou rádios locais, os quais lutam constantemente com a insuficiência desse investimento.
E quanto à rede sempre estariam à frente outro tipo de iniciativas, como são exemplo um jornal em linha como é o Notícias Alentejo ou um portal como o "Tudoben".
E sabe-se como todos enfrentam as mesmas dificuldades. Mas que é preciso ter esperança e ser persistente, isso não duvido. Por mim, todo o apoio para o vosso trabalho.

Novos em rede

Será que finalmente os novos tomam resolutamente o caminho da blogosfera?
Será que vem aí uma nova onda, criativa e renovadora?
Nestes últimos dias encontrei três novos blogues, que à leitura revelam ser feitos também por gente jovem: um é o Lusitano, outro é o Magna Europa, e o terceiro é " O Pasquim da Reacção" (que nome ambicioso, rapaz!).
Dou-lhes as boas-vindas, e faço votos para que venham a marcar pela positiva esta blogosfera morna e insípida em que a rotina se tem vindo a instalar.

Forum Estremoz


O interior alentejano parece encaminhar-se decididamente para a informatização quando encontramos belas realizações como o Forum Estremoz.
Aqui de Évora, os meus sinceros parabéns aos vizinhos de Estremoz!

Quinta-feira, Junho 24, 2004

Amanhã de manhã, encontro em São Bento!

Depois de passarem a tarde e a noite de hoje a gritar contra os bretões, não esqueçam a comparência às 10 horas de amanhã na Assembleia da República, onde por força de petições populares nesse sentido (as assinaturas de pelo menos cinco mil cidadãos têm essa consequência legal) estão agendadas para discussão em Sessão Plenária as questões relativas às indemnizações pelos bens deixados pelos espoliados no Ultramar e à ocupação espanhola do território de Olivença.
As respectivas associações, Associação dos Espoliados de Angola e Associação dos Espoliados de Moçambique, tal como o Grupo dos Amigos de Olivença, solicitam a presença de todos os portugueses interessados em manifestar o seu apoio e solidariedade a essas causas, de modo a fazer sentir a sua posição aos senhores deputados e à imprensa que sempre acompanha os trabalhos parlamentares.
Por mim, recordo o que escrevi ontem: em política o desespero é uma estupidez. Quando menos se espera salta de repente para a actualidade o que se julgava arrumado pela história.

Contra os bretões, marchar, marchar!

Com o país inteiro suspenso do futebol, recordo o verso de Henrique Lopes de Mendonça que é preciso cantar bem alto: "CONTRA OS BRETÕES, MARCHAR, MARCHAR!!"

Quarta-feira, Junho 23, 2004

Persistir e avançar

Porque em política o desespero é uma estupidez, o segredo de quem quer vencer é permanecer, insistir, nunca abandonar a luta. A vitória há-de sorrir ao que ficar quando o adversário se cansar.
Ainda agora houve eleições para o parlamento europeu e já em Outubro próximo serão as eleições regionais nos Açores e Madeira. Durante o ano de 2005, lá mais para o fim, teremos eleições autárquicas. Entretanto, como se soube hoje, haverá o tal referendo sobre a constituição europeia.
E adianto eu que nada nos garante que na altura certa não surja das bandas governamentais a iniciativa de convocar legislativas antecipadas, no momento que se apresentar mais conveniente.
Não há portanto um momento a perder por parte de quem pretenda marcar posição nesses momentos chave que se aproximam rapidamente. Não há lugar a compassos de espera, a interrupções, a adiamentos. Quem quiser ficar e insistir tem que redobrar já o esforço de organização e de preparação. As batalhas de amanhã têm que travar-se a partir de hoje. Não podem é ficar a discutir o sexo dos anjos!...

O referendo

Em política o desespero é uma estupidez, dizia o velho Charles Maurras. Sabia ele que de um momento para o outro tudo o que parece adquirido pode vir a estar de novo em causa, tudo o que parece estável pode desmoronar-se.
Ainda ontem a questão da constituição europeia parecia um facto assente e irreversível, e eis que com o anúncio da convocação de um referendo tudo é posto em jogo, sujeito às contingências da luta política aberta.
Evidentemente que, tanto quanto alcanço, os objectivos do acordo cozinhado nas altas esferas do regime, que envolve necessariamente o Governo, o PR e o PS, é conferir uma legitimidade à coisa, que é por demais notório que lhe falta de todo. Soou lá em cima a campainha de alarme accionada pelo desprezo ostensivo dos povos.
Como o objectivo é legitimar o que está feito, o processo deverá ser conduzido de modo a correr o menor risco possível, o que significa que a haver referendo ele terá que ser marcado a prazo curto para não dar tempo aos adversários de se organizarem capazmente(as oficinas situacionistas não precisam disso, obviamente). Daí a referência já feita a Janeiro de 2005, o que deixará seis meses apenas, não contando que nesse período se inclui a letargia do Verão, para que se preparem os partidários do "Não".
Depois, resta ainda conhecer o teor da pergunta a apresentar a referendo, que é facto de não pequena relevância.
Esperemos atentos para ver o que acontece. Entretanto seria bom começar desde já a limpar armas. Nisto de referendos os riscos para o sistema são sempre reais, dada a imprevisibilidade das massas e o gosto que manifestam em dizer não aos cozinhados que lhes apresentam para homologação.
Recorde-se que nos dois únicos exemplos portugueses, os referendos sobre a regionalização e sobre o aborto, apesar do peso esmagador dos mecanismos de condicionamento da opinião desencadeados a partir do poder político e mediático, o sentido de voto acabou por ser, surpreendemente, contrário ao pretendido pelos senhores que têm nas mãos os cordelinhos com que julgam comandar a complexa máquina de que fazemos parte. O que provou, mais uma vez, que em política o desespero é uma estupidez.
Considerando o andar da carruagem, seria aconselhável que todos os que pretendem combater a imposição desse espartilho burocrático e evitar essa tentativa de asfixia das velhas nações da Europa começassem de imediato a organizar-se em plataformas cívicas em prol do "Não" no referendo à constituição europeia.

Getsemâni

Dormem os meus, gastos de dor
E de cansaço o corpo exangue.
Na minha pele escorre suor
Das minhas veias brota sangue.

Será um Anjo que alivia
A solidão deste meu Horto?
Ele refresca-me a agonia
Dá-me firmeza e reconforto.


De Getsemâni subo a via,
Ao longo vou da noite escura.
A noite é longa, a noite dura,
Ó noite, cheiro da agonia.

Ao meu redor, nada subsiste
de tudo quanto desejei.
Até à morte a alma é triste,
Minh'alma é triste... vigiarei.


Pai, vem a aurora que anunciaste?
Vem perto aquele que me livra?
Ah! que este cálice se afaste!
E que a manhã deixe que eu viva!

Mas se a hora é mais e mais estreita,
Se ninguém quebra esta prisão,
Vossa vontade seja feita,
A Vossa, Pai, e a minha não.

R.B.

Terça-feira, Junho 22, 2004

Alentejo Magazine


Decididamente a blogosfera alentejana parece ter escolhido a via do pioneirismo comercial. Vejam o caso destes simpáticos compadres de Sines, publicitados na gravura aqui ao lado. Recordem o caso do Alandroal.
Já agora repare-se n' O Meu Alentejo.
É verdade que ainda é cedo para proclamar que está Tudoben, mas a coisa promete.
Por enquanto vou ficar a observar os movimentos do mercado.

Abortos, julgamentos, recusas e garantismos

O julgamento das três mulheres que são acusadas do crime de aborto, em Setúbal, foi hoje suspenso, em princípio até 6 de Julho. O advogado de uma das arguidas apresentou no Tribunal da Relação de Évora um incidente de recusa da juíza encarregue de julgar o caso. Para o advogado de defesa da ex-enfermeira parteira acusada da prática de abortos, a sua constituinte "não pode confiar na imparcialidade da magistrada", pelo que pede a sua substituição.
O advogado justifica a medida, que pretende o afastamento da juíza Maria da Conceição Miranda, considerando gravíssimo que a magistrada tenha dito que "como é sabido, quem se dedica a este tipo de práticas criminosas (o aborto) fá-lo por regra como modo de vida e com fins lucrativos". Uma afirmação que, para a defesa, "revela um pré-juízo contra a arguida" sendo, portanto, "impeditivo de um julgamento imparcial".
Se a moda pegar, está encontrada a fórmula de evitar um julgamento que se não deseje, a não ser com um juiz escolhido previamente a seu contento pelo próprio arguido: recusa-se, ad infinitum, cada juiz que resulte da distribuição dos processos... até queimar o tempo necessário, ou encontrar um juiz que dê garantias de pensar do modo que se pretende.
Quanto aos juízes, o único direito que lhes fica é o de permanecerem em silêncio... tudo o que disserem poderá ser usado contra eles, e a recusa pode vir de qualquer dos lados.
Não estou a ver como é que os nossos legisladores irão descansar esta bota: quem for levado a julgamento já sabe - o juiz não agrada, recusa-se. Se for preciso dar verosimilhança à alegada parcialidade, pode com toda a facilidade criar-se uma situação que a demonstre (num instante pode requerer-se algo que já se sabe não pode ser atendido, e venha de lá o indeferimento, aí está feita a prova da parcialidade: depois, recusa-se o julgador, obviamente).
Se isto se generalizar, poucos julgamentos poderão realizar-se. Repare-se que as frases citadas acima não contêm nenhum juízo sobre a arguida em causa (nada indica que a juiza a conheça, de modo a ter alguma simpatia ou antipatia, alguma amizade ou inimizade, alguma ideia feita, boa ou má. Se assim fosse a própria juiz se declararia impedida). Na realidade são palavras que exprimem apenas considerações gerais sobre o que é de regra na prática dos crimes de aborto.
Se Marc Dutroux pudesse ter recusado o juiz por duvidar da sua imparcialidade, apenas com base em considerações genéricas sobre os crimes de pedofilia, certamente não estaria agora condenado. Nem certamente o Al Capone teria sido condenado por crimes fiscais, se pudesse recusar o juiz que tivesse afirmado que quem foge ao fisco o faz em regra para alcançar vantagem patrimonial ilícita em prejuízo do Estado. Mas evidentemente não puderam lançar mão desse recurso.
Lembro que aqui não há muito tempo o nosso amado Presidente discursava solenemente sobre os "excessos de garantismo" (expressão dele) que afectavam a justiça penal em Portugal, contribuindo para a perpetuação de situações de ineficácia, sobretudo quando em face de pessoas que podem recorrer a todos os estratagemas que a lei generosamente lhes faculta de modo a imobilizar os tribunais.
Entretanto o amado Presidente mudou de opinião, por coincidência na altura dos azares do afilhado Pedroso. Eu compreendo, que a ineficácia até é um bem precioso quanto o mal toca de perto, e não faltarão maldosos a comentar até que ela é mesmo uma salvaguarda essencial para o equilíbrio do sistema político vigente.
Mas lá que é verdade que o tal "excesso de garantismo" existe e conduz a ridículos atrozes, lá isso é verdade.

GRUPO PRÓ ÉVORA


Sendo embora este um humilde e desconhecido blogue, pouco apreciado na província porque não vem da cidade, e pouco apreciado na cidade porque vem da província, atrevo-me a sugerir aos meus conterrâneos que se unam no Grupo Pró Évora...
É a mais antiga e prestigiada instituição de defesa do património da terra... e creio bem que Évora vai precisar muito de forças que a defendam.

Espoliados de África: a hora da justiça?

No próximo dia 25 de Junho, pelas 10 horas, será apreciada em Sessão Plenária da Assembleia da República uma Petição relacionada com a indemnização pelos bens deixados pelos espoliados no Ultramar.
As respectivas associações, Associação dos Espoliados de Angola e a Associação dos Espoliados de Moçambique, solicitam a presença de todos os ex-residentes no Ultramar, manifestando a sua unidade e solidariedade.

Assembleia da República discute Questão de Olivença

A Questão de Olivença foi agendada, para discussão conjunta em Sessão Plenária da Assembleia da República, para o próximo dia 25 de Junho, às 10.00 horas.
Face à importância e significado da apreciação da Questão de Olivença pelo Parlamento, é necessário que os apoiantes e amigos de Olivença estejam presentes na Assembleia da República naquela ocasião, testemunhando tão decisivo acto político.

Segunda-feira, Junho 21, 2004

Por um Portugal Livre de Drogasl

No dia 22 de Junho de 2004, pelas 18 horas, na livraria Bertrand, no Centro Comercial Picoas Plaza, em Lisboa, irá decorrer a sessão de lançamento do livro "Um Portugal Livre de Drogas - Contributo Para Uma Nova Política da Toxicodependência", de Manuel Pinto Coelho.
Seguir-se-á o anúncio da criação da "Associação Para Um Portugal Livre de Drogas", presidida pelo Dr. Manuel Pinto Coelho.
Pretende-se "promover a ideia de que a única forma de combater a toxicodependência é através de métodos terapêuticos, sem recurso a drogas de substituição".
Ideia central da APLD será promover o tratamento da dependência de drogas através da abstinência com ajuda terapêutica, combatendo a ideia instalada de que a droga veio para ficar e o único que há a fazer é limitar-lhe os danos.
Essa orientação implica a crítica às entidades responsáveis, nomeadamente o Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), que de modo claro sucumbiram à pressão da indústria farmacêutica e da Associação Nacional de Farmácias (ANF) e abandonaram o tratamento da toxicodependência em favor do uso das drogas de substituição, como a metadona e a buprenorfina, as quais evidentemente não tratam a dependência, apenas permitindo aos toxicodependentes ultrapassar os problemas da "ressaca", o que não constitui qualquer tratamento, pois que a dependência mantém-se.
Sendo embora o próprio Pinto Coelho uma figura controversa no meio ligado ao tratamento da toxicodependência, o certo é que esta orientação de combate à capitulação na luta contra a droga marca um ponto importante a seu favor. Para quem não entenda, as chamadas "terapêuticas de substituição" traduzem-se realmente em ir administrando droga aos drogados com vista a mantê-los bem comportadinhos e incomodarem menos o conjunto da sociedade - desistindo do propósito de os desintoxicar e recuperar em troca do objectivo de "diminuição dos riscos".
Irei seguir com atenção a nova APLD.

Atenção, Berloque de Esquerda!

O adepto inglês condenado pela justiça portuguesa a dois anos de prisão, por ter sido o principal instigador dos confrontos com a Polícia na noite de 15 de Junho, em Albufeira, acusou a polícia portuguesa de o ter agredido, para além de o ter submetido à tortura da privação do sono, enquanto esteve detido. Afirmando-se "uma vítima" da Polícia portuguesa, Gary Mann refere inclusive que "nem estava perto" do local dos confrontos.
Está na cara: isto é um combate para o Chico Louçã!

Identitários?

Parece-me necessário suscitar o debate sobre o que se pretende significar com a utilização como conceito político operativo da designação "identitários".
Com efeito, identitário é um vocábulo que exprime uma determinada relação: identitário é aquilo que é próprio de uma certa identidade. Portanto, assim compreendido, identitário pode ser qualquer traço caracterizador de um indivíduo ou de um grupo. Tudo está na identidade em referência.
Por exemplo: ao deparar com um grupo de pauliteiros de Miranda ou com um coral alentejano eu sei que se trata de monumentos vivos da identidade portuguesa, frutos de séculos de vivência em comum. São identitários, se for essa a identidade de que se fala. Ao encontrar um bando de punks ou de skins (que têm logicamente também a sua identidade própria) eu sei que são realidades estranhas à identidade portuguesa. Não são identitários, se for a identidade portuguesa o referencial. Tudo está na identidade em que pensamos.
Para uma tribo de antropófagos, traço identitário definidor é precisamente a antropofagia. Para um povo de poligamia tradicional, a familia poligâmica é um elemento identitário. Tudo está na identidade a que nos referimos. E da natureza identitária disto ou daquilo não decorre a sua bondade ou maldade. A avaliação não depende dessa mera constatação.

Petição pela fiscalização da revisão constitucional

Continua a estar disponível em linha a subscrição da petição solicitando a fiscalização da constitucionalidade da revisão constitucional recentemente elaborada em São Bento.
Subscrevam aqui, enquanto é tempo de travar mais esse atentado ao que resta de soberania ao Estado português.
Eis um excerto da sua fundamentação:
"É sabido que aquela que esteve para ser a mais minimalista e discreta revisão da nossa Constituição acabou por ser uma das mais significativas e, seguramente, a mais problemática de todas as que até agora se realizaram, quer no plano simbólico, quer no plano substancial.
Referimo-nos, obviamente, às novas disposições aprovadas que autorizam a subordinação política da nossa ordem constitucional ao quadro jurídico da União Europeia, ressalvados os princípios fundamentais do Estado de Direito democrático.
De forma simplificada mas efectiva, referimo-nos, pois, ao espantoso processo que veio permitir que, conquanto a União Europeia seja fiel aos princípios democráticos, as suas normas se imponham no nosso país apesar de, ou mesmo contra, a Constituição Portuguesa.
Entendem os signatários deste documento que tal revisão constitucional, a aguardar ainda promulgação por parte do Senhor Presidente da República, constitui um acto de desvitalização política e de esterilização constitucional, que é politicamente incompreensível e juridicamente inconstitucional...."

CARTA DO CANADÁ

Da jornalista Fernanda Leitão, há muitos anos exilada no Canadá, mas que muita gente em Portugal recorda com saudade, pelo menos os que como eu, e foram muitos, acompanharam os tempos heróicos d'"O Templário" (na altura em que sob a sua direcção o semanário de Tomar atingiu verdadeira expressão nacional), recebi um artigo sobre a recente vitória da selecção nacional de futebol (e não só, como costuma dizer-se...)
Aqui fica o artigo, com os meus agradecimentos à Sra. D. Fernanda Leitão.

AINDA BEM
Qualquer vitória da selecção nacional de futebol daria grande satisfação aos portugueses. Mas, por razões sabidas, uma vitória sobre a Espanha, em meio de um campeonato que gerou controvérsia e manchado por uma derrota face à Grécia que fez perigar o acesso da equipa lusa aos quartos de final, só podia lançar o mais perfeito delírio em Portugal todo ele, o que ficou e o que emigrou. Ninguém ficou imune.
Não fui excepção. Comecei por me irritar fortemente com a derrota, depois de tanta fanfarronada na comunicação social, e acabei, na tarde de domingo, com um sol radioso lá fora, colada diante da TV a ver o jogo transmitido em directo e em italiano (a RTP-I ainda só entra através de grandes antenas, só possíveis em grandes quintais ou subterrâneas, por não serem consentidas as antenas sobre os telhados, mas no prédio onde vivo sou a única pessoa de língua portuguesa e essa despesa não se justifica. A SIC entra por cabo através dum programa televisivo local, propriedade dum espanhol naturalizado português, num processo que não vale o dinheiro que se gasta). Pelo meio ficaram telefonemas de vizinhos canadianos a dizerem-me o proverbial e sempre simpático GO PORTUGAL, GO, e os meus amigos do Mercado de St. Lawrence, mesmo do outro lado da minha rua, onde me abasteço e tomo todos os dias a bica, a pedirem-me posters e a colocá-los mal eu os obtive, as raparigas portuguesas do Churrasco, o único restaurante português da área, a pedirem-me por tudo que lhes arranjasse uma fotografia da selecção, e eu cheia de pena de não ter nenhuma. Ficaram a matar as praias do Algarve, os palheiros de Mira, os campos de golf, sob os olhos da multidão compacta e colorida que, todos os sábados, tem o hábito de tomar o pequeno almoço no mercado e dali levar mantimentos e flores para toda a semana. No sábado, num jantar internacional, com pitéus que iam da Irlanda ao Uruguay, para o qual fui convidada a participar com uma sangria à maneira, surpreendeu-me que os saxónicos, pouco versados em futebol europeu, me perguntassem que palpite tinha eu para o jogo com a Espanha.
Confesso que estava apreensiva quando comecei a ver o jogo, tanto mais que ontem à noite um blogue na internet afirmou peremptório: “amanhã ou ficamos em 1580 ou em 1640”. Que coisa!
Piorei quando me tiraram os olhos do ecran vizinhos e amigos cuidadosos: “Olha que o TeleLatino está a dar o relato, liga para lá, é o canal 35”. Estive naquele desconforto até ao golazo do Nuno Gomes (lembrei-me que, quando era nova e andava no colégio de Tomar, havia aquele entusiasmo maluco pelo mundial de Hóquei em Patins, transformado em verdadeiro sofrimento quando a selecção defrontava a Espanha, e a coisa era de jeito que as meninas internas se deitavam no chão das camaratas, o ouvido colado ás tábuas do sobrado, porque a leitaria por baixo punha o som no ponto mais alto de modo a elas poderem, ao menos, ouvir aquela estridência gostosa do gooooolo...).
Nestes dias apercebi-me, através da internet e de jornais que me foram chegando, que algumas pessoas estavam surpreendidas, e até um pouco incomodadas, com a profusão de bandeiras verde-rubro em varandas, em casas e em ruas, bem como com as multidões cantando o Hino Nacional. Li mesmo algumas prosas estomagadas com aquilo que julgavam ser um nacionalismo descabido e desabrido. Foi a minha vez de ficar surpreendida. É que eu nasci há muitos anos em Angola, e ali a consigna era: Pai é Pai – Mãe é Mãe – Hino é Hino – Bandeira é bandeira. Não se discutia. Amava-se. Respeitava-se. Depois, estou há 21 anos no Canadá, uma monarquia constitucional, de que a chefia do estado é garantida pela Raínha Isabel II de Inglaterra, país libérrimo que alberga em boa ordem comunidades oriundas de 160 países, onde todos podem praticar a sua religião e ter as suas escolas, os seus comércios, as suas bandeiras, as suas manifestações culturais. País em que todos, os que nasceram aqui e os que escolheram esta terra para viverem, têm o culto da bandeira e onde o Dia Nacional do Canadá , em 1 de Julho, é festejado com todo o entusiasmo do Atlântico ao Pacífico. Nas igrejas, dos vários cultos, é normal estarem atrás do altar a bandeira do país a que pertence aquela comunidade e a bandeira do Canadá (e ainda a bandeira da Santa Sé, no caso dos católicos). Nunca ninguém nos chamou nacionalistas mas se chamasse, éramos capazes de julgar que era um elogio.
Mas depois lembrei-me que em Portugal, desde 1974, passou a ser feio chamar Pátria à Pátria, saber cantar o Hino e hastear a bandeira. Tudo por imposição de intelectuais republicanos. Porque os monárquicos, como eu, têm respeito pela bandeira verde-rubra, mesmo não se revendo nela. Não há memória de algum monárquico ter pisado a bandeira, ter arrastado a bandeira no abandono do Ultramar, de a ter posto de pernas para o ar numa varanda entre lençóis e camisas de dormir. Não é a nossa, mas respeitamos o que ela representa para as outras pessoas.
O que este mar de bandeiras representa em Portugal, o que quer dizer o Hino cantado espontaneamente no meio das ruas, é que o Povo anda com saudades de si mesmo e com um desejo enorme de abraçar a Pátria – como aquele soldado das hostes de Paiva Couceiro, de que falam os relatos da Monarquia do Norte, que tomou entre os braços a bandeira branca e a beijou, dizendo numa tremenda e desajeitada ternura: “dá cá um beijo, oh cachopa, que há tanto tempo não te via”.
Se o futebol fez rebentar o dique da timidez popular, então obrigada futebol. Que o patriotismo rebente o dique e regresse de novo às ruas, aos campos, às escolas, às fabricas, às almas, como um grande rio, um salutar rio que lave a terra do que a tem afligido e conspurcado.
Fernanda Leitão

Domingo, Junho 20, 2004

Évora e a feira de São João

Em Évora abriu mais uma edição da secular feira de São João. A constatação a fazer é inevitável: confirma-se e acentua-se ano a a ano a trajectória de decadência do certame.
Por mais que se discuta, por mais controvérsias e projectos, que conheço desde há um quarto de século, a verdade é essa. Todos os anos o acontecimento perde importância e dimensão, banaliza-se, entra no plano de qualquer vulgar mercado mensal ou semanal daqueles que pululam em qualquer terreola do país.
Verdadeira expressão económica ou dimensão de grande acontecimento social e cultural, como já teve, parecem de todo afastadas. E de tudo o que já foi falado, e foi muito, nada de concreto se fez.
A bem dizer o que vemos agora é uma espécie de mercado igual aos que todos os meses enchem o Rossio acrescentado de uns eventos para dar alguma projecção externa, como os concertos de Luís Represas ou de outro qualquer artista contratado, a que se somam ainda um circo e uns carrousséis normalmente ausentes desses mercados mensais, para lhe dar uma atmosfera lúdica que nos mercados se encontra secundarizada pelos aspectos utilitaristas. No conjunto, é uma amostra miserável do que já foi uma grande feira regional.
Uma qualquer semana da Queima das Fitas tem actualmente para Évora maior relevo, arrasta mais gente de fora e entusiasmo e movimento local, que a pobre feira que se arrasta todos os Verões.
O que há a fazer? Por favor, isso está mais que falado e estudado e discutido e planeado e debatido, até à exaustão. Só falta fazer alguma coisa.

Sábado, Junho 19, 2004

Tudo bem?

Estava eu a queixar-me que os meus leitores não me escrevem e vai daí recebo uma simpática chamada de atenção do Tudoben.com, o portal alentejano que, embora feito a partir de Elvas, constitui já um grande exemplo de aproveitamento das potencialidades das novas tecnologias a favor da causa do desenvolvimento regional e local, numa vasta área interior normalmente apática e deprimida. Pelo menos em Évora não há nada de semelhante... e já agora acrescento que em Beja e Portalegre também não conheço.
É preciso apoiar o Tudoben.com, para que o que tem valor não se perca...
E aproveito a ocasião para recomendar também o Notícias Alentejo, um excelente jornal digital destinado a cobrir toda a região alentejana e que é feito a partir de Reguengos de Monsaraz, com muito trabalho e pouca mão de obra. Perfeitamente ao nível do melhor que se faz em qualquer outro ponto do país.
Assim é que se combate a "infoexclusão", aprendam os senhores das comissões, dos colóquios, das conferências e dos congressos.

Um blogue de vanguarda

O Alandroal continua a demonstrar o que é ser um blogue realmente criativo e inovador: depois de se ter lançado na organização do encontro de blogues, marcado para o sábado dia 3 de Julho, agora apresenta em estreia absoluta a publicidade paga na nossa blogosfera.
Já está em linha a tabela de preços: quem quiser anunciar no Alandroal é só consultar e fazer as contas. Grande malandroal!
Vou ficar atento ao sucesso da iniciativa comercial.E se eu desconfiar que tenho leitores para isso ainda vou instalar um sistema de entradas pagas. Mas por enquanto já não é mau se não tiver que pagar a ninguém para me ler. Quanto à publicidade, aqui vai continuar a ser de borla.

Sexta-feira, Junho 18, 2004

Portugal, Olivença e a dinâmica peninsular

O Grupo dos Amigos de Olivença realiza no corrente ano um Ciclo de Conferências denominado «PORTUGAL, OLIVENÇA E A DINÂMICA PENINSULAR».
No âmbito do Ciclo, no próximo dia 22 de Junho de 2004, às 21.00 horas, na Casa do Alentejo, em Lisboa, falará Henrique Neto, empresário e antigo deputado e dirigente nacional do Partido Socialista, sobre o tema “Uma Estratégia Nacional nas Relações de Portugal com Espanha".
O Ciclo de Conferências - espaço aberto a opiniões representativas dos diversos sectores culturais e políticos da vida nacional - pretende propiciar e promover o debate sobre as relações Portugal-Espanha, suscitando também uma aproximação à «Questão de Olivença».

Portal Militar

Espanta-me que não seja mais conhecido o "Portal Militar".
Este portal de assuntos militares na internet, como se designa, tem uma tal variedade e riqueza de conteúdos que constitui uma bela realização, capaz de interessar todos: desde a história militar às associações de militares ou ex-militares, desde os estabelecimentos de ensino às revistas e publicações, desde os livros aos museus, desde as notícias relacionadas com as Forças Armadas ou com os combatentes e ex-combatentes até às ligações para outras páginas afins, tudo se encontra disponível num mesmo local.
Devia merecer maior destaque, sobretudo por parte daqueles para quem não são indiferentes os valores militares - e que em grande parte aspiram ao culto das virtudes militares mesmo na vida civil.

Sexta-feira

Hoje não sei que vos diga. Bem sei que isto já é de obrigação, e que temos aqui encontro marcado. Mas há alturas assim, por mais que uma pessoa queira (e eu juro que queria) não encontra maneira de comunicar. Podia falar de mim, mas o tema angustia-me. A verdade é que não andamos de muito boas relações. Podia falar dos leitores - mas como já disse não conheço nenhum, e estou sem imaginação. Podia falar da nossa relação - mas suspeito que não há relação nenhuma, apenas um encontro virtual que se tornou rotina.
Falar de outros temas não adianta. Não há assunto. O país está todo a futebol e praia. Ainda há dias houve umas eleições europeias e já ninguém se lembra. O Dr. Ferro, que na noite dos resultados apareceu eufórico a dar-se ares de grande triunfador, já desceu à terra, puxado pela vil tristeza do agrupamento. O Manel - lembram-se do Manel? - desapareceu para parte incerta. Uma tristeza, esta desgraça que aconteceu ao Manel. Restam o Portas mais velho e o Louçã, mas esses falam tanto que me deixam sem fôlego. Lembram-me sempre aqueles prégadores americanos capazes de discursar torrencialmente e com o mesmo à vontade sobre os hábitos alimentares dos papuas ou sobre as dimensões dos preservativos entre os esquimós, tudo à luz dos preceitos evangélicos.
Enfim, não há mesmo assunto. Atravessamos aquela época angustiante que toda a gente das redacções teme e receia. É a silly season. Toda a atenção é pouca para não deixar escorregar o pé para a asneira.
Confesso aliás que estou um tanto irritado com os leitores. Afinal por que motivo hão-de ser estas as posições? Eu escrevo, e eles lêem... Bem podia ser ao contrário. Escrevam, que eu também gosto de ler. Estou eu aqui todos os dias a moer o juízo para encontrar inspiração, e ninguém me escreve a mim? Está mal. Fazem o favor de me escrever.

Quinta-feira, Junho 17, 2004

A Europa dos povos?

Se repararmos apenas na realidade eleitoral, constatamos que mais de 55% dos europeus absteve-se de votar nestas eleições europeias.
E se olharmos para além do eleitoralismo, reparamos que nenhuma decisão importante para o futuro da Europa passa por esse Parlamento eleito apenas por menos de 45% dos eleitores.
O Parlamento Europeu permanece em grande medida uma peça experimental do sistema, sendo a tomada de decisões noutra sede, que nem formalmente passa pelo controlo popular.
E mais curiosamente ainda, aproximando-se um momento de grandes decisões (as negociações sobre a Constituição europeia, a hipotética adesão da Turquia), constata-se que os três principais protagonistas de todo este processo serão três representantes de governos severamente batidos nestas eleições europeias.
O partido de Tony Blair alcançou 22%, ou seja 15 pontos a menos que os conservadores, o partido de Jacques Chirac conseguiu 17%, ou seja 11 pontos menos que os socialistas, o partido de Gerhard Schroeder logrou 21%, com 15 pontos a menos que a direita alemã.
Serão estes três governos vencidos que irão conduzir, nomeadamente, o acerto final de um texto do qual os povos não tiveram praticamente qualquer conhecimento, desde que os sábios do directório o encomendaram ao sr. Giscard d'Estaing até ao presente, e cujo debate e discussão foi cuidadosamente evitado ao longo de todo este processo, eleitoral e extra-eleitoral.

Mais política do real


A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) alertou esta quinta-feira, Dia Mundial de Combate à Desertificação, para o facto de Portugal ser um dos países mais susceptíveis à desertificação em resultado das condições climáticas, geológicas e do tipo de cobertura vegetal, mas também em resultado do modelo de ordenamento do território.
Recordamos que a LPN foi criada em 1948, constituindo a associação de defesa do ambiente mais antiga na Península Ibérica.
As questões do património, natural ou edificado, material ou moral, também nos dizem respeito a todos. A Terra e o Povo, a Cultura e o Ambiente, constituem elementos da ecologia essencial em que a cada homem é dado viver.

A política que interessa


Uma grande realização política, esta da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas. Da política do real, do concreto, daquela que toca no dia a dia de cada um. Todos somos pais ou filhos ou ambas as coisas, todos estamos sujeitos à doença ou aos impostos, todos enfrentamos as dificuldades com a sobrevivência, o trabalho, a vida numa sociedade dia a dia mais agreste. Por issso também a sensibilidade imediata e a atenção geral a quem fale sobre os problemas da família, dos filhos, da creche, da escola, da velhice, das reformas, da casa, do doente, da solidariedade, da carga fiscal, do automóvel, dos transportes, do trânsito... Enfim, a vida vivida e verdadeira.
Uma grande realização política, esta APFN.

Quarta-feira, Junho 16, 2004

As alegrias do chinês

Eu acredito que Durão Barroso não esteja tão triste como por aí se diz com os resultados eleitorais. Com efeito, o balanço pessoal dele não é nada mau. De repente remeteu Deus Pinheiro para Estrasburgo durante uns anos, como estava previsto. Excelente, que o sujeito é daqueles que quanto mais longe melhor. De caminho o famigerado Deus Pinheiro ainda levou uma valente humilhação eleitoral, que o fará manter a crista baixa em ocasiões futuras. Tudo óptimo. Com ele irá também Vasco Graça Moura, que é indivíduo atreito a ter umas ideias próprias. Melhor ainda.
Há boas expectativas de que nos próximos anos nenhum deles incomode.
Entretanto, anuncia-se que com a nomeação de Pacheco Pereira para a Unesco este se compromete a manter-se caladinho e virado para frente. Ainda bem. Por este andar o partidão ainda fica reduzido ao Durão e à volta dele uns rapazes como o Miguel Relvas e o José Luís Arnaut, que no que toca a saber ler e escrever apenas aprenderam a assinar, e é preciso dizer-lhes onde. Uma maravilha.

Um espanto!

Conhecem H. P. Lovecraft ou Emil Cioran?
O Dragão conhece! Não lhe bastava já frequentar Céline e outros malditos, afunda-se no negrume fundo dos abismos e de lá nos traz as visões horrendas de Lovecraft, o pessimismo radical de Cioran...
Este Dragão não é deste mundo!...

Cultura e acção política

O que os homens pensam determina o que os homens fazem. Por isso, porque nos homens, como nos povos, o pensamento precede a acção, a acção consciente tem que ser direccionada ao conjunto de representações e referências que em cada um condiciona as suas escolhas práticas.
Deste fenómenos, amplamente estudado por sociólogos, politólogos e historiadores, resultou que nunca nenhuma mutação política ocorreu sem que fosse precedida de uma transformação cultural que a preparou. Antes de acontecer nas ruas cada revolução aconteceu nos espíritos.
Para saber isto não é preciso ser íntimo de Gramsci, nem citar de cor Alain de Benoist; todos os estudiosos da Revolução Francesa já concluíram o mesmo.
São certezas de há duzentos anos. Burke ou Tocqueville já constataram que antes da manifestação política de uma ideia já ela se tinha instalado e era dado assente e pacífico no mundo da cultura, da arte, das concepções gerais sobre a sociedade, o homem e a vida.
A visão épica e espontaneísta excita mais as imaginações; mas tem a desvantagem de ser falsa. Ninguém consegue mudar um mundo sem antes mudar a visão e as valorações que os homens têm dele. Primeiro estão as mentalidades, as ideias, a cultura, o espírito. Quando uma ideia for consensual numa sociedade esta com naturalidade procurará a forma de moldar-se a essa ideia. Na situação contrária tratará sempre de a rejeitar e expelir como um corpo estranho.

Terça-feira, Junho 15, 2004

Azar de uns, sorte para outros

A nossa imprensa já tem novo escândalo para explorar até fartar: foi hoje preso numa grande operação anti-droga um dos filhos de Leonor Beleza. O detido será amanhã apresentado a primeiro interrogatório judicial no TIC de Lisboa, e vamos a ver o que acontecerá - se ficar em prisão preventiva vai ser o bom e o bonito.
Realmente não há nada que não aconteça à senhora. Repare-se que é Vice-Presidente da Assembleia da República, tinha-se visto livre da sombra do processo dos hemofílicos, tinha-se salvo incólume do processo Costa Freire, o irmão Zézé não tem dado bronca nestes últimos anos, os médicos já começavam a esquecê-la... Tudo se conjugava para um dia destes ser lançada para mais altos voos. Agora uma destas!

Na batalha das ideias

Surpreende-me sempre, com algum horror, observar alguns para quem o outro, o que connosco não está em concordância, é sempre um “mete-nojo”, que é preciso alistar de imediato entre a “escumalha” - expressivos vocábulos com que chocamos de vez em quando, e que certamente não possuem potencialidades para fomentar dialéctica minimamente produtiva.
Será provavelmente bizarria ou excentricidade minha, mas não consigo adaptar-me a esses hábitos mentais. Reconheço que estou antiquado, mas também não quero mudar agora. Mesmo correndo risco de linchamento.
Acredito convictamente que as ideias não se afirmam aos berros, que a política não se faz aos pulos pelas ruas, que do frenesim histérico nunca resulta nada, a não ser o rápido esgotamento do artista, perante a indiferença geral. Acredito na força tranquila. Acredito no trabalho continuado e no senso comum. Acredito no conhecimento do outro. Acredito no fascínio exaltante da inteligência e das ideias. Acredito na energia irradiante da palavra. Acredito que fazer política significa convencer e conquistar, e não correr com o próximo a pontapé. Acredito no avanço calmo e seguro da verdade. “Paulatim sed firmiter”.

Teses, antíteses, sínteses

A Filosofia Portuguesa é uma curiosa escola de pensamento onde nunca se encontram dois que estejam de acordo. Nisso também demonstra e manifesta a sua funda identidade lusíada (que meditem os identitários). Fiel a essa tradição da discordância tenho mantido há quase trinta anos convívio intelectual com a obra de Pinharanda Gomes – que sempre me apareceu como um dos mais valiosos e fecundos dos nossos pensadores, embora geralmente com ele me encontre em divergência, na filosofia como na política.
Enfim, delicio-me na leitura e satisfaço-me no saudável exercício do contraditório, mesmo sozinho. Dá ginástica mental, e enriquece o espírito. Encontrei-me de novo em pleno desafio ao deparar com o ensaio publicado por Pinharanda na “Aliança Nacional” sobre o pensamento nacionalista português no século XX.
É indispensável ler, conhecer, pensar. Mesmo que seja para discutir. Recomendo.
Acrescento aliás que no mesmo blogue surgiu-me outro artigo interrogativo e problematizante de Cruz Rodrigues, com quem também tenho o gosto de discordar já há muitos anos, sobre campanhas e oportunidades perdidas. Continua a mostrar-se estimulante, esse exercício criativo de discordar dele. Também recomendo o mesmo exercício.
Entretanto, importa continuar o caminho. Persistir e insistir. A verdade não tem pressa, mas reclama de nós afirmação constante e firme. Deus ajuda os que se ajudam.

Uma campanha necessária

Por iniciativa de algumas personalidades, sobretudo ligadas ao ensino universitário do Direito, está em marcha um abaixo-assinado destinado a suscitar a fiscalização da constitucionalidade da última revisão constitucional, que de modo supreendente veio consagrar uma situação de subalternidade do ordenamento jurídico interno em face de qualquer iniciativa legislativa europeia, abdicando de qualquer reserva de soberania nacional - num gesto que a muitos estudiosos se apresenta como um verdadeiro golpe de estado constitucional.
Este recurso aos mecanismos estabelecidos para a fiscalização da constitucionalidade pode vir a travar o processo, por força dos poderes atribuídos ao Tribunal Constitucional.
Podem os leitores também subscrever a "Petição para a fiscalização da constitucionalidade da última revisão constitucional", aqui em linha.
Pode ser que não sirva para nada; mas nada fazer é que certamente não serve.

Um retornado de luxo

Depois de longa ausência, sem nos dizer por onde andou, ou sequer novas do doutoramento, ressurgiu o Caminhos Errantes. Obriga-nos a uma reflexão dolorosa sobre as relações entre a quantidade e a qualidade: andamos nós aqui a suar e a amargar todos os dias para nos fazermos um poucochinho interessantes (exercício difícil e pretensioso atentas as limitações naturais) e eis que surge de lá o Alexandre, quando quer e os deuses permitem, e reduz-nos ao pó da nossa insignificância. Não sei se vos fale do maravilhamento do espírito se da dor aqui neste cotovelo...

Campanhas eleitorais

As campanhas eleitorais são como fogo de palha. Os entusiasmos gerados pelas campanhas vão-se tão depressa como vieram. O que conta em política não são as campanhas, é o que está entre as campanhas. O que é difícil é existir todos os dias, e não fazer dez dias de epopeia.
Diga-se aliás que em geral os resultados das campanhas dependem pouco das campanhas. O que mais importa a quem queira fazer política é pensar o trabalho político em profundidade, estar presente no dia a dia das pessoas, entrar com naturalidade e familiaridade no círculo de referências habitual de cada um, de modo que na altura da campanha esta seja apenas um aceno cordial a amigos e conhecidos - e não o surgir repentino de uns desconhecidos que aparecem só nessas ocasiões a pedir o nosso voto.
As campanhas eleitorais decidem-se a todo o tempo depois de findar a última e antes de começar a próxima. Só não se decidem no tempo oficial de campanha - aí as pessoas, justamente, têm muito mais dificuldade em acreditar, sobretudo nos intermitentes da política.

Segunda-feira, Junho 14, 2004

Sugestão

No rescaldo pós-eleições europeias abundam agora os lamentos e as análises, umas culpabilizantes e outras desculpabilizantes, sobre os resultados.
Regra geral os que não gostaram do número de votos que tiveram encerram-se com os amigos e vá de discutir à exaustão o que é que correu mal. Porque é que não tivémos mais votos? Porque é que eles não votaram em nós?
Este exercício pode traduzir-se em perigoso enclausuramento, e conduzir ao erro frequente de confundir com a verdade estatística a orientação dominante no grupo fechado onde se discute - e que pode bem estar na origem do resultado indesejado.
Eu aconselho o método contrário. Podemos chamar-lhe o método do inquérito. É preciso conhecer os motivos da adesão e sobretudo da rejeição por parte dos outros. Quem desejar realmente saber porque foi que os outros não votaram na sua opção o melhor que tem a fazer é perguntar-lhes. Ou seja: organize um caderninho, e em vez de falar com os camaradas procure quem lhe garanta que não votou em tal opção. Depois procure saber a causa dessa recusa, e anote. Vá anotando sempre os motivos de quem conhecendo afastou essa hipótese, e recolha o maior número de respostas possíveis. Também é útil saber quantas pessoas nem tiveram conhecimento dessa alternativa, e os porquês. Quais as formas adequadas para se chegar a essas pessoas a que nem sequer se chegou. Mas eu queria acima de tudo salientar a utilidade do estudo das razões que determinaram aqueles que conheciam a escolha em causa e a puseram de lado. Quanto maior for a amostragem mais representativa será. O essencial do conselho está aqui: vão perguntar aos outros, não aos vossos. De outro modo nunca saberão porque não tiveram mais votos nem a forma de alguma vez vir a ter mais.

O Silêncio da Memória

Por razões que talvez alguns leitores entendam, tenho procurado divulgar e apoiar aqui a acção da APFADA- Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer.
Ao contrário de outras instituições por que tenho manifestado estima, neste caso não estamos perante um projecto de esperança. Trata-se tão só de solidariedade. Atrevo-me a dizer que no entanto ainda é de defesa da vida que se trata. Não da vida que se levanta como uma promessa de futuro, mas certamente de vida que ao nosso lado se extingue inelutavelmente - e nos força a interrogar sobre a sua precaridade, e sobre a sua contingência, para mais e mais intensamente descobrirmos o seu valor.
Proteger e amar as crianças é fácil - corresponde ao nosso interesse pessoal no amanhã, é afinal de contas um investimento. E tudo nas crianças nos transmite a beleza e a alegria do que fomos, a nostalgia da juventude que nos sorriu.
Ao contrário, o problema dos doentes de Alzheimer, como de todos os problemas da morte, da velhice, da invalidez, da miséria e da dependência, coloca-nos frente a frente com os nossos terrores, que se expõem de súbito na fealdade grotesca de situações desesperadas, angustiantes, de que fugimos incomodados.
Por isso nas sociedades contemporâneas, que correm apressadas e ligeiras em busca da felicidade que foge à nossa frente sem jamais se deixar alcançar, esta problemática tende a ser afastada e escondida da nossa vista, como se fosse possível esquecê-la - e fugir...
Daí o heroísmo das associações que, a contracorrente, se erguem do nada para lembrar que a solidariedade pode ser desprovida de outros objectivos que não sejam minorar o sofrimento dos outros, mostrar que mesmo nas situações mais extremas somos orgulhosamente uma sociedade e não uma horda de predadores, ou uma soma de egoísmos individuais. E que a dignidade da vida pode afirmar-se também pela dedicação com que a cultivamos e respeitamos até ao fim. Os valores defendem-se aqui, na fronteira, onde a sua afirmação mais precisa de entrega total, e se confronta a toda a hora com a tentação do abandono e da derrota.
Nestas batalhas, do voluntariado e da organização ao serviço de uma ideia de vida comunitária que passa pela afirmação constante da dignidade da vida humana desde a sua concepção até ao momento da morte natural, joga-se ainda e também a nossa concepção do mundo e da vida. Quem dera que muitas APFADAs mostrassem a saúde e a vitalidade da comunidade de destino em que estamos inseridos.

Aprendizagem da serenidade

Do falecido escritor francês Louis Pauwels quase todos, pelo menos os da minha geração, conhecem "O Despertar dos Mágicos", escrito em co-autoria com Jacques Bergier. Não é exagero afirmar que mudou a vida a muita gente; pelo menos significou para uma imensidão de leitores a descoberta de um outro universo mental, esse mundo paralelo explorado pelo pensamento a que Pauwels denominou de realismo fantástico e que rompia decididamente com o positivismo instalado, entrando sem preconceitos pelas fronteiras do insólito, do desconhecido, da aventura do conhecimento sem fronteiras nem limites. Sei bem que muitos com o tempo acabaram por perder o fascínio por essa atmosfera de fantasia, que lhes tinha enchido a adolescência e a juventude. É a vida, com os seus ditames e exigências. Mas a obra mantém-se entre as mais divulgadas e conhecidas a nível mundial.
Em Portugal, e na mesma linha de "O Despertar dos Mágicos", veio ainda a ser publicado "O Homem Eterno", da mesma parceria Pauwels-Bergier.
Porém, no mesmo processo de crescimento, a mim vieram depois a tocar-me particularmente duas obrinhas bem mais obscuras de Louis Pauwels, também editadas em Portugal. Uma é a "Carta Aberta às Pessoas Felizes", em que o autor apresenta aos leitores a sua tese, simples mas original, de que as pessoas felizes são a maioria, estão em maioria, apenas desconhecem tal facto, submersas que estão pelo domínio absoluto das ideologias que têm como pressuposto a infelicidade dos homens. Descobrissem os felizes essa sua condição maioritária e sacudissem o jugo da má consciência e angústia semeadas permanentemente pelos que vivem da exploração do tema das desgraças do mundo e o conjunto da humanidade poderia ser bem mais feliz.
Este livro de Pauwels mereceu uma resposta de Paul Sérant, escritor da mesma geração e pelo menos em parte dos respectivos percursos seu companheiro de convívios e tertúlias, o qual escreveu de imediato uma "Lettre Ouverte a Louis Pauwels sur les gents inquiets et qui ont bien raison de l'être". Neste escrito, como o comprido nome indica, o autor replicava a Pauwels que podia ele ter muitas razões, mas a verdade é que também não faltam motivos neste mundo para permanecer inquieto, por mais tranquilizante que fosse o quadro visto pelos olhos de Pauwels. Entre a inquietação pessimista de Paul Sérant e o optimismo tranquilizante de Louis Pauwels trava-se interessante diálogo, de agradável e proveitosa leitura.
Também foi publicado em Portugal o ensaio de Pauwels chamado "Aprendizagem da serenidade". Neste, em consonância com a apologia do optimismo e da felicidade apresentada no outro, Pauwels procura desenvolver a receita, expondo-nos a sua visão da necessária serenidade que é estádio indispensável para alcançar a desejável situação de pacífica harmonia e confiança que seria a chave do equilíbrio, próprio e colectivo, propugnado na outra obra. É uma espécie de teoria da indiferença, trabalhada como método de vida. As derrotas não vergam nem afectam a quem a elas permaneça insensível e distante, calmo e seguro no caminho.
Eu confesso que permanecei sempre desconfiado e contrafeito perante as divagações intelectuais de Pauwels nesta sua fase; parecia-me sempre uma curiosa mistura de ocidentalismo entusiasta servido por demasiadas leituras orientalizantes. E, certamente por incapacidade pessoal para aderir aos ensinamentos do mestre, lá continuei de espírito inquieto e agitado, como me vem de nascença. Mas não querendo deixar de reconhecer os méritos da ideia nunca deixei de recomendar aos outros: " - Vejam lá, o que é preciso é a aprendizagem da serenidade... os serenos duram mais..."
E para meu uso particular cunhei também uma filosofia própria: o que é preciso é bossa de camelo. Criar em nós as reservas de energia para continuar, seja o que for que vier de fora. Derrotas, adversidades, desgraças várias, nunca faltaram. Pode-se sobreviver no deserto, se soubermos que é uma prova de resistência. Quem encara cada etapa como o fim da estrada já não tem forças para alinhar na etapa seguinte.

Domingo, Junho 13, 2004

Facilidades e mistificações

Há dias um amigo deste espaço elogiou a minha “facilidade em escrever”. O intuito não era ofensivo, era simplesmente descartar-se das responsabilidades – eu desafiava-o para desenvolver também um blogue e ele assim, coitado, não pode, porque não tem a mesma facilidade em escrever. De caminho passava-me a mão pelo pêlo. Claro que engoli, mas irritou-me. Facilidade? Que sabe ele das minhas facilidades ou dificuldades? Quem sabe da tenda é o tendeiro. Eu é que posso dizer o que custa. Para usar palavras de outro, que têm a vantagem de já estar escritas, aqui só há sangue, suor e lágrimas. Se o pobre soubesse do meu trabalho e dos meus horários caía para o lado.
A verdade é que não existe tal facilidade. Nunca houve tal. Um bom texto, para aproveitar outra vez frases já feitas, nasce de uns dez por cento de inspiração e de noventa por cento de transpiração. Por exemplo, o leitor encontrou já aqui belos textos de Gustavo Corção, que é sem dúvida um grande escritor. Pois dizia este que nunca publicava um artigo sem que, depois de o “acabar”, o lesse pelo menos umas sete vezes – sempre refazendo e alterando o que não soava bem.
O mito da inspiração é música para românticos e preguiçosos. Cai bem nos espíritos de quem procura mistificações ou alibis para a inércia. Mas não existe tal. O que existe sempre em literatura, como em qualquer arte, é trabalho de oficina – tendo atrás a vida, a imaginação, a criatividade, o génio individual, ou lá o que quiserem, mas sempre e necessariamente o trabalho oficinal. Não há espontaneidade que não nasça de muito trabalho.
Claro que sempre houve quem se deleitasse a compôr a imagem. É muito conhecido entre nós um trecho célebre de Fernando Pessoa, que era um grande pintor, em que ele explica aos vindouros a génese da sua sequência “O Guardador de Rebanhos”. Deixou ele escrito que andava à cata de inspiração há um ror de tempo, e nada. Parecia que a fonte tinha secado. E súbita noite, sem aviso ou prenúncio, chegou-lhe repentina vontade de escrever, como se uma força superior o comandasse, e vá de correr para uma mesa onde de jacto foi escrevendo em êxtase profundo os seus versos, até ao fim. Mão oculta pegara na sua e lhe guiara a escrita, enquanto em transe o autor/receptor obedecia.
Evidentemente que a historieta é uma imposturice em que Pessoa é fértil. Serve para encher a imaginação das donzelas letradas, dos ingénuos e dos místicos. Mas é de todo mentira. Os poemas que compõem aquela sequência foram laboriosamente compostos ao longo de anos, até assumirem a forma final e lhes ser dado o enquadramento unitário por que ficaram. Alguns deles nasceram mesmo intervalados de bastantes anos, como acontece também com os poemas da “Mensagem”, a quem o poeta acabou por unificar num livro/poema, em políptico harmonioso e feliz.
A moral da história que a tire quem quiser.

Vamos aos votos!

A minha gente é muito ciosa dos seus votos. Regra geral, não há como levá-la até às urnas. É pessoal que não acredita neles, e pronto: vai daí manifesta forte alergia aos rituais de legitimação do sistema. Seja porque não há em quem votar, seja porque não serve para nada, seja porque não lhe apetece, seja porque tem mais que fazer, o certo é que dificilmente nos apanham lá. É um mecanismo inconsciente, incontrolável, ou sabe-se lá se é inconfessadamente para ficar entre os vencedores - o partido da abstenção é sempre o maior, e isto é tudo gente mais afeita às derrotas que às vitórias - a verdade é que em dia de eleições nessa é que não encontro os meus. Aliás, nesses dias acontece nem os encontrar; ignoro onde se escondem, mas com efeito nessa altura desaparecem de todo e só surgem de novo à luz do dia após cumprido o cerimonial todo, quando o país retorna às ocupações usuais.
Nessa altura regressam todos, aliviados por já ter passado a perturbação eleiçoeira, e tão críticos como antes. Para dizer bem até voltam com o criticismo redobrado, porque é norma os resultados confirmarem que aquilo não servia para nada - e o meu pessoal, nisso não se distinguindo do português médio, adora ter razão e fazê-lo notar.
Não há gente tão crítica quanto ao valor dos papelinhos mas ao mesmo tempo tão agarrada aos mesmos. É o cabo dos trabalhos para largarem um quadradinho de papel devidamente preenchido (sim, porque às vezes, por pressão familiar ou curiosidade para ver como se faz, alguns ainda caminham até lá, mas no sítio não resistem e na posse do mesmo dá-lhes uma fúria e escrevem no dito nem eu sei bem o quê).
É assim a modos que uma superstição, uma mania, uma desconfiança insuperável. Conheci um que me dizia sempre, com ar alarmado: "- Votar?!!! Eu só voto em mim.... e é de pé atrás!..."
Dito isto, o que é que eu quero afinal? Pois quero simplesmente que sorriam e vão votar. Nesta época luminosa em que o progresso, a liberdade e a democracia desfizeram finalmente todos os tabús não temos o direito de ficar presos a medos irracionais. Vamos lá aos votos! Vão ver que não custa nada, e aos depois um homem até se sente melhor. Afinal, cá na nossa sociedade, e como diriam solenes todos os bonzos deste pagode, votar é um grande dever.

Sábado, Junho 12, 2004

MOMENTO

ESTA BANDEIRA QUE SE ALTEIA
NO AR, DE SÚBITO, AGITADO,
COMOVE CADA VEIA
QUE O MEU SANGUE PERCORRE, AFOGUEADO.

Encontro de blogues

O I ENCONTRO DE BLOGS EXPO-GUADIANA irá decorrer no Alandroal no dia 03 de Julho. É uma oportunidade única de conviver com quem está por detrás das páginas e discutir o futuro da blogosfera, entre outros temas que irão ser tratados num colóquio a realizar no mesmo dia. Ao mesmo tempo o Alandroal irá estar em festa. Vai ser ralizada a EXPO-GUADIANA. Esta é uma oportunidade para os bloguistas conviverem entre amigos e ainda ficarem a conhecer mais uma parcela do Portugal desconhecido.
Para saber tudo, contactem os amigos do Alandroal.

Apoio à Vida


O Ponto de Apoio à Vida é uma instituição Particular de Solidariedade Social que nasceu para apoiar grávidas em dificuldades.
Mantém nomeadamente a Casa de Santa Isabel, situada na baixa lisboeta. Para quem sinta o chamamento é uma oportunidade de serviço: a Casa precisa normalmente de monitoras, em regime de turnos. Quem estiver disponível basta contactar directamente a responsável, Fernanda Ludovice.

Sexta-feira, Junho 11, 2004

Os caminhos da esperança

Volto às minhas queridas instituições: lançar âncora na vida real, criar raízes no corpo social, estar atentos ao que existe, pessoas e grupos, marcar presença no nosso tempo e nas causas em que se definem os rumos do futuro - eis um belo programa de acção, uma orientação permanente para todos os que sonham, contra a fome e a náusea, pão e poesia para a Cidade.

MATERNIDADE E VIDA


FORUM DA FAMÍLIA

Autopsicografia

Como sabem alguns, fui sempre aborrecido e cinzento como um dia de chuva. Mas há um progresso: dantes era-o ao vivo, agora limito-me à prática virtual. Vejam as extraordinárias vantagens: ninguém precisa de se esforçar em amável deferência, ninguém tem que sacrificar-se por simpatia ou timidez. Sou realmente um entusiasta da internet. Afinal, neste intercâmbio entre o escrevente e os seus leitores há mais verdade do que na realidade da vida. Aqui ninguém finge um interesse que não tem; o leitor a quem as peculiaridades do meu blogue tristonho e bizarro ameaçarem de depressão corre logo a ir-se para outra. Não há tempo a perder nas navegações internáuticas. Uma pessoa só se detém onde algo o prende. Portanto, quem fica encontrou. O que fosse não sei. Afinidades? Coitados!... Espero que sejam antes diferenças, oposições, contrastes. A vida para além da tela certamente ressalta contra os tons mortiços desta.
O blogue, assim entre o confessional e o impressionista, sempre serve de alguma coisa. Serve ao dono, por esse modo redimido nesta roda invisível dos falhanços em matéria de sociabilidade, e servirá outros, que cá encontram modelo de estudo e reflexão - sobre o que importa evitar, para não acabar um dia a viver na internet. Só tem virtudes, este vício do bloganço.

Divagações pré-eleitorais

Como já tem sido desenvolvido por mentes mais capazes, a democracia é fértil em paradoxos. Chegados então aos momentos decisivos dos rituais democráticos eles ressaltam até ao mais distraído. Por exemplo, nas eleições. De acordo com a crença mais ortodoxa, a votação pressupõe o esclarecimento. Uma pessoa para votar deve ser conhecedora daquilo que vota. Mas, como é patente, o que acontece as mais das vezes é que só é possível votar no desconhecimento completo. A quem conhecesse não o apanhavam nessa.
Estou a pensar a este propósito no Professor João de Deus Pinheiro. Tudo leva a crer que terá muitos votos. Porquê? É simples: os votantes não o conhecem. Tivessem eles travado conhecimento com o personagem e outro galo cantaria. Eu, por mim, confesso: por azares da vida calhou-me conhecer o sujeito. Resultado: se alguém me disser que eu sou capaz de votar nele eu talvez não passe logo à agressão física mas que me assalta uma súbita vontade isso garanto.
Pessoa de bem que tenha conhecido mesmo ao de leve semelhante criatura não consegue votar nele. Olhem, para verem que não sou só eu, o Dr. Durão Barroso (e nem juro que seja pessoa de bem) conhece-o perfeitamente. E como ele muitos outros lá da mesma agremiação. E julgam que eles votam nele? É o votas! Chegados lá ao escondidinho da Câmara escura não são capazes. Rabiscam qualquer coisa para inutilizar o voto, suspiram, e vão-se embora aliviados. Evidentemente que eles querem que o Prof. Deus Pinheiro tenha os votos suficientes para ir de marcha para Bruxelas,ou Estrasburgo, ou lá o que seja desde que seja longe. Mas só isso. Nunca serão capazes de votar nele, embora peçam aos seus santinhos que haja os suficientes a votar. A que se deve esta aparente contradição? Não há contradição nenhuma, apenas acontece, como eu já tinha dito ali para trás, que eles conhecem-no, e quem o conhece nele não vota. Aliás, a opinião de Durão sobre o cavalheiro já é antiga, e nunca constituiu segredo.
De maneiras que é assim: quem conhece não vota, e quem vota não conhece. Neste sábio equilíbrio vão-se as coisas compondo. E de outro modo não funcionava isto.
De onde se conclui ser indispensável preservar a ignorância das massas, pressuposto essencial ao bom andamento do sistema. Caso contrário, ainda se esboroava a fé, que é alicerce da democracia.

Da vida dos passarinhos

Nesta sexta muitos fizeram como quinta. Nota-se no vazio que enche as ruas. E na expressão mortificada dos que aparecem, ainda assim, ao sacrifício de picar o ponto.
Não era preciso ser especialmente atento para reparar, mas parece-me que o meu posicionamento, sempre circulando por fora, me tornou um excelente observador. Ganhei em distanciamento e perspectiva o que perdi em envolvimento e partilha.
Espectador, pois, mas vigilante. Contudo, inapto para as grandes encenações forjadas pelos consonantes instrumentos de condicionamento do rebanho. Bem podem semear tudo de futebóis, que passo ao lado. Ainda não senti nada com o famosissimo Euro. Será que é deficiência?
Desvantagem creio que sim. A incapacidade para participar gera dificuldades de monta na vida de relação. Um homem que não sente as emoções grupais, que fica indiferente e frio perante a euforia geral, é de desconfiar. Merece ao menos uma prudente reserva. Um olhar de soslaio, e um franzir de testa. Digamos que pode ser boa pessoa, mas é esquisito.
Paciência. Fui realmente ganhando capacidade de observação. Poucos terão dedicado tempo a meditar sobre a vida social dos pintassilgos. Pois saibam que a minha janela é um lugar privilegiado para esse estudo. Os esquivos passarinhos nem dão por mim, entretidos que estão nos afazeres das suas vidas. Primeiro surpreendi-me com a descoberta, ignorante como estava que eles cultivassem aquele gosto por plátanos. Com o tempo,instalado assim à coca por sobre as altas copas das árvores, concluí que realmente as avezinhas gostam dos plátanos. Dos grandes, que lhes dão espaço e protecção, bem longe do chão e das ameaças terráqueas. Os pequenos evitam-nos.
E por ali vivem, sempre afanosamente. Parecem brincar permanentemente, em movimentos de bailado, ou de dança infantil. E são gregários! Sublinho a admiração da descoberta, porque não sabia. Conhecia os pintassilgos de gaiola, desde criança, e dos livres conhecia-os na época do acasalamento e dos ninhos. Qualquer mocinho alentejano e rural conhece: os pobres bichos são muito apreciados pelo seu chilrear alegre e pela vivacidade das cores. Consequentemente, sempre sofreram da tendência para acabar na gaiola. O que eu não sabia, e fui descobrindo nas sessões de observação, é que na realidade eles vivem em bando. Fazem vida colectiva. São animaizinhos sociais, e territoriais. Cada bando tem o seu espaço próprio, que demarcam com os tais voos rituais e o cantar harmonioso que delicia os poetas e os namorados. Suspeito que só passam a fazer vida a dois pelo imperativo biológico em que estarão a pensar. Nessa altura quebra-se a existência colectiva. São casal, e assumem. É a força do amor. Mas cumprida a missão, vivido o romance, assegurada a continuidade da espécie, abandonado o ninho e lançada a ninhada à vida, refaz-se a vida comunitária, até à estação seguinte.
Gosto dos pintassilgos. São simpáticos, e parecem sempre bem dispostos. Bem diferentes dos pardais, que não se calam nos beirais e nos telhados e que nunca perdem o tom irritado de quem discute. Quanto a estes ainda não entendi as quezílias internas que os fazem sempre zangados uns com os outros. Mas que há disputa séria e permanente, isso é certo. Pode ser que venha a conhecer algum ornitólogo que me explique.

Quinta-feira, Junho 10, 2004

O Anjo de Portugal

A boa doutrina, como já vem sendo norma, chega-nos d'"A Casa de Sarto".
Sabiam que hoje é o dia consagrado no liturgia ao Anjo Custódio de Portugal?
Sabiam que também os povos, como os homens, possuem o seu anjo da guarda?
Sabiam que nas aparições de Fátima não foi só Nossa Senhora que surgiu aos pastorinhos, mas também o anjo custódio da nação? Tudo isso e muito mais há que lembrar nestes nossos esquecidos tempos.
Curiosamente, o JSarto, remetendo-nos para um site brasileiro, acaba por enviar-nos para um texto do Dr. Sebastião Martins dos Reis - o sábio escritor que aos temas de Fátima dedicou muitos anos da sua vida, e que foi uma das estrelas maiores da constelação de sacerdotes que há algumas décadas atrás iluminou Évora, na esteira do milagre que foi o renascimento da igreja eborense com D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Desses, já não há mais...

Lino de Carvalho

Depois do falecimento de Sousa Franco, surgiu a notícia da morte do deputado Lino de Carvalho.
Anoto aqui o seu desaparecimento, porque, sem evidentemente pretender ofender ninguém, se me afigura que este irá ter mais consequências políticas que o primeiro.
Julgo que esta minha afirmação será entendida por muito poucos, e parecerá absurda à maior parte. Mas é o que penso. E creio mesmo assim que no PCP, no Alentejo, ou pelo menos em Évora, haverá quem me perceba.

Feira do Livro de Lisboa

Hoje, dia em que passam 60 anos sobre a cerimónia de inauguração do Estádio Nacional, belamente retratada num célebre documentário de António Lopes Ribeiro, encerra-se a Feira do Livro de Lisboa.
Esta fez já 74 anos, é mais velhinha do que o Estádio Nacional. Começou os seus dias em Maio de 1930, no Rossio, com 17 barracas montadas ao redor do lago, entre a estátua central e o Teatro D. Maria II. Durou nessa primeira edição doze dias, e constituiu um êxito de público.
Teve inauguração solene pelo Presidente Carmona e outras individualidades de então, e os seus obreiros foram João de Araújo Moraes, Gaspar de Almeida, José Francisco de Oliveira e António Maria Pereira, da então chamada Associação de Classe dos Editores e Livreiros de Portugal.
De 1930 a 1941 manteve-se no Rossio, e em 1942 e 1943 subiu para a Avenida (na zona frente ao desaparecido Café Palladium). Em 1944 e 1945 voltou ao Rossio, e em 1946 regressou à Avenida, mas para o outro lado, no passeio fronteiro ao Condes. Aí ficou até que voltou para o Rossio em 1950, onde esteve até 1954. Em 1955 voltou de novo para a Avenida, em zona mais acima. Pela Avenida da Liberdade se manteve por muitos anos, a maior parte da sua vida, oscilando no espaço, no passeio entre a Rua das Pretas e a Barata Salgueiro ou entre o Tivoli e a Alexandre Herculano, ao sabor das obras do metro, até ganhar o seu lugar no Parque Eduardo VII, não me recordo bem em que ano (lembro-me com segurança de a ter visitado em 1978 ainda na Avenida, depois disso não tenho a certeza se já estava no Parque e também não tenho a informação à mão, nem me apetece ir procurá-la). O certo é que mudou para o Parque, até ao presente.
Os retardatários vão por mim dar-lhe um abraço, e passem então pelos já famosos stands da Dislivro onde se encontram os valiosos alfarrábios inencontráveis no circuito comercial; e já agora pela sempre esquecida Imprensa Nacional, cuja actividade editorial tem trazido a público autores e obras que sem esse impulso não veriam a luz (desde filosofia de António José de Brito até à poesia de Couto Viana, Mário Beirão, Tomás de Figueiredo, e muito mais que merece averiguação no local).

Resposta a Camões para sempre

Nunca digas não mais, mesmo que a ferida
Te pareça mortal.
Mesmo que a gente surda e endurecida
Se chame Portugal.

Mesmo que o gosto da cobiça
Te roube o tecto e o chão
E nos pratos da balança da justiça
Pese mais a prisão do que o perdão.

Mesmo que a austera, apagada e vil tristeza
Seja mortalha de silêncio e frio
E só tenhas por rumo e por certeza
Um coração vazio.

Nunca digas não mais à pátria oculta:
Dela, és sonora e límpida garganta.
Exalta o espelho de ti próprio, exulta
E sempre e para sempre canta.

António Manuel Couto Viana

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Amanhã é Dia de Portugal!

Apesar do alheamento do país oficial, amanhã, 10 de Junho, passa mais um Dia de Portugal. A todos os que na intimidade dos seus corações sentem que a efeméride lhes diz respeito, eu chamo a comemorar o Dia da Pátria. Como escrevia o Pinharanda, se o mandamento maior é amar o outro como a nós mesmos então como amaremos o outro se de nós não gostarmos?
Comemorar o Dia de Portugal tem por significado real lembrar que a Pátria Portuguesa tem direito à existência na Soberania, Justiça e Unidade. Mas mais do que lembrar Portugal o Dia deve servir fundamentalmente para afirmar que a Pátria continua. Mais do que nos deleitarmos na lembrança do passado glorioso ou carpirmos o presente de tristeza impõe-se aos Portugueses proclamar altivamente que Portugal existe, continua e triunfará. E que da memória do passado e do desgosto do presente surgirá a alegria do Futuro celebrado na Unidade, na Justiça, na Grandeza, na Liberdade.
Para que todos os dias dos Portugueses sejam Dias de Portugal.

Com este são 1001!

Com o postal anterior o meu blogue atingiu o número redondo de 1000 (mil) entradas. Já se pode afirmar, pelo menos, que tem muito que ler: dediquem-se aí a pesquisar nos arquivos e verão. Nem eu contava com tanto; a escrita foi fluindo, dia a dia, com maior ou menor esforço, e a obra foi crescendo.
Falando francamente, a generalidade do que se encontra não passa de banalidades, umas mais pretensiosas que outras, publicadas ao sabor dos humores, da memória ou da vaidade. Mas quanto a sinceridade eu garanto: a coisa é autêntica, e não tem mais representação do que a estritamente necessária. Representar o que somos tem sempre presente uma dose de encenação; mas dessa ninguém se livra.

Não ficaremos a ver navios, mas a ver passar os comboios é provável...

A Ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, admitiu hoje que poderá vir a ser criada uma universidade de Medicina no Algarve, integrada no futuro Hospital Central, a construir no Parque das Cidades, próximo de Faro.
Por sua vez, o reitor da Universidade do Algarve, Adriano Pimpão, garantiu que a instituição apresentará a sua candidatura a um curso de Medicina em Julho. Ressalvando que "a última palavra cabe ao Governo", Adriano Pimpão sustentou que "não há notícia de interesse por parte da Universidade de Évora". "O Algarve reúne todas as condições para ter uma universidade pública de Medicina", disse, sublinhando que a distância em relação a Lisboa é "um bom argumento" para a candidatura algarvia.
E que dizem a esta notícia os que em Évora já começavam a deitar foguetes?

Terça-feira, Junho 08, 2004

A raiz da coisa

Comentando hoje o fenómeno bloguístico o jornalista Walter Ventura escreve a dado passo que "na realidade, grande parte dos que utilizam os blogs são os párias a quem a comunicação social está para sempre vedada". Pois. Acertou com o dedo numa das feridas. A expressão quantitativa da blogosfera numa dada sociedade parece estar em proporção directa com o grau de exclusão opinativa aí implantado. Por outras palavras: quanto mais estreito o leque da opinião e informação permitidos maior a adesão e entusiasmo com a blogação.
Compreende-se assim que, à escala universal, já tenham sido publicados estudos que revelam estarem o Irão e Portugal, por exemplo, entre os países em que a blogação rapidamente atingiu mais larga e expressiva dimensão.
Não há que estranhar, quando se observa uma comunicação social instalada que em plena campanha eleitoral, em que pode estar em causa o destino da comunidade, alimenta um tipo de cobertura que se entretém com polémicas sobre as carecas, os óculos, as orelhas, o golfe, e outras prendas dos candidatos, entre outros temas da maior transcendência para a compreensão do que está em jogo (não digo do que está em disputa, porque entre eles o que está em disputa é apenas a ocupação dos lugares - em tudo o resto não divergem).
Deste modo, confessemos, para muitos a blogação não é uma escolha - é um recurso. A única voz possível para os que estão condenados a não ter nenhuma nos aparelhos controladores do condicionamento mental imposto.

Os vencidos do catolicismo

Já aqui tinha chamado a atenção para o livro de João Bénard da Costa, "Nós, os vencidos do catolicismo", pela singular importância que se me afigurou ter para o conhecimento do itinerário geracional, e pessoal, de um conjunto de gente, entre as quais personalidades notáveis a vários títulos, que marcaram presença na vida portuguesa a partir da década de cinquenta do século XX.
Desde logo o livro, a que já tinha tomado o sabor pela leitura parcial em crónicas no "Independente", parecia-me ter muito de memória, mas também de testemunho, ou testamento, ou até de carta pessoal e interpelante dirigida a D. António dos Reis Rodrigues. Que assim era pareceu-me de certo modo confirmado pouco depois quando vi nas livrarias as memórias do Bispo.
Adquiri mais certeza sobre a relevância do depoimento e reflexões de Bénard da Costa, como autoretrato dessa geração de homens todos eles agora com mais de setenta anos e que viveram intensamente uma ilusão de catolicismo - e as desilusões desse caminho. Como superiormente está no poema de Ruy Belo, o bardo do grupo, que deu o título ao livro. ("Nós, os vencidos do catolicismo/ que não sabemos já de onde a luz mana"...)
Recordei hoje o livro pela evocação que dele faz em "O Diabo" o Dr. Dinis da Fonseca, que também foi presidente da Juventude Universitária Católica no final do seu curso de Medicina, por 1958/1959.
Não surgirão muito mais depoimentos vindos de dentro, dada a idade dos protagonistas. Poderia ser interessante que o fizessem Alçada Baptista, que está presente nos primórdios e também no final do trajecto, com a sua "Moraes Editores", e "O Tempo e o Modo", como seria interessante conhecer a visão de Vasco Pulido Valente, que apanhou, sendo mais novo, a parte final da história, as iniciativas dos anos sessenta em que, finalmente, acabou por dissolver-se toda a lógica de grupo ou de geração, por degenerescência ou desistência ou transformação. Ou derrota, como no fundo dizem Bénard e Ruy Belo.
O livro traça um percurso de 1954 a 1968. E não consigo afastar a ideia que a isto tudo outros católicos teriam também uma palavra relevante a acrescentar. Até porque a história de uns pode explicar ou ajudar a explicar o percurso dos outros. Podia ser a deixa para o Dr. Cruz Rodrigues.

Ponto de ordem

Alguns leitores amigos mostraram sinais de inquietação com os tons sombrios usados por mim na pintura em alguns postais anteriores. Não deviam ralar-se em demasia. Nada indica que as realidades sejam como eu as pinto. As coisas são como são, e não como me aparecem à vista. Se não são assim, não é assim que passarão a ser. Eu é que as vejo assim. Visão fiel e verdadeira? Ora, ora... Fosse outro o olhar, e outra seria a cor.
Não se deixem ir em literatices, como sabiamente adverte o amigo Dragão.
Aliás, segundo me vem agora à lembrança, já era a tese exposta por Camilo em "Coração, Cabeça e Estômago". E outra não era a opinião da Tia Doroteia na "Morgadinha dos Canaviais" - sendo este um parecer de autoridade acrescida, porque o autor era médico.
Enfim, não tomem muito a sério quadros e aguarelas. Aquilo nunca é a realidade, é só trabalho de pincéis e tinta, ao sabor de quem pinta.

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Fim de tarde

Os pombos da Praça do Giraldo já me conhecem. Sabem que sou inofensivo. Quando abro caminho por entre eles limitam-se a desviar-se, sem grande pressa, e só dois ou três esvoaçam brevemente, num volteio mais de cumprimento que de susto. Voltam de imediato à tarefa de debicar os grãos que vão restando da voracidade do bando. Os dadores são poucos e os bicos são muitos. Não lhes levo a mal a concentração, embora me magoe um tanto a indiferença. Não porque a atitude resulte de alguma antipatia especial para com a minha pessoa. Não há ali hostilidade. Passa-se apenas que em geral são pouco deferentes para com os passantes, desde que sejam pacíficos. Cada um fica na sua. A não ser que algum bruto tome comportamentos agressivos, pois então toda a praça se agita num frémito de asas indignadas.
A fleuma rotineira não é de estranhar. Só eles se mantiveram fiéis à praça que nós abandonámos. Hoje nós passamos, mas eles estão. E são de lá, nasceram e vivem lá. É deles a vida e o bulício da praça. Mesmo assim gostava de mais atenções; afinal temos em comum aquela praça, vai e volta, volta e vai, encontramo-nos várias vezes por dia. Existe já uma cumplicidade tácita. Nunca me esqueço de os cumprimentar. A eles e ao Beato Salú, que me acena de longe com uma mão enquanto com a outra continua a cofiar a barba enorme e desgrenhada. Além do cumprimento gestual diz-me qualquer coisa que não entendo e sorri, com uma vénia cerimoniosa. Tem algo de intrigante, o sorriso do Beato Salú. Parece-me uma certa ironia, e, pode ser que me engane, mas parece-me ironia fina, inteligente. Que estará a pensar o Beato Salú quando me vê passar, e atencioso me reverencia? Hei-de perguntar a algum psiquiatra o que acha disto, quando apanhar um a jeito. Não que confie muito na resposta; em geral os psiquiatras sabem muito pouco de loucos. Percebem mais das mentes sãs, porque obedecem a esquemas conhecidos e normalizados. Os mecanismos comuns e ordinários da mente são cientificamente explicáveis. O pior é a extravagância, a infracção às regras estudadas: essa deixa-os perplexos e desorientados, como a qualquer de nós.
Prossigo, absorto, pelo meio das esplanadas e dos expositores da Feira do Livro. Tenho a sensação que todos esses acrescentos temporários são ali mais estranhos do que os pombos. Estes é que estão em casa. O resto está ali por empréstimo, e de passagem. Como todos nós, os que nos apressamos a caminho de casa. São tudo postiços, amovíveis, consumíveis, descartáveis, colocados artificialmente na nudez da praça.
Dali mesmo é Santo Antão, que nos mira com a fachada austera. Nunca deixo de falar a Santo Antão. É um santo de forte personalidade, cheio de virtudes heróicas, um símbolo do despojamento e do desprezo pelo mundo e por tudo o que neste se venera. Creio bem que o rijo eremita se plantou ali, no topo da Praça do Giraldo, para nos lembrar que há sempre uma porta aberta para um mundo outro, ainda que continuemos ignorando a sua presença, sem deter o passo. Depois os homens foram erguer-lhe mesmo em frente, do outro lado do tabuleiro da praça, como em desafio, a sede do Banco de Portugal. No rosto do santo eremita do deserto, que venceu a carne, o diabo, e o mundo, levantou-se o templo venerador do dinheiro, da matéria, do mundo, em permanente afronta ao primado do espírito. No eixo maior da praça do Giraldo ficaram a confrontar-se os templos levantados a Deus e ao Bezerro de Oiro!
Continuo a marcha, sem me deter. Digo adeus à praça, e sigo. Rumo aos meus queridos jacarandás do Largo da Misericórdia, que me estendem o tapete ao ver-me de volta, e passo.

Eu não sei que tenho em Évora

Nunca compreendi a estranha e difícil relação que sempre mantive com Évora.
A cidade olha-nos desde o fundo dos tempos, muda e esfíngica, fechada nos seus mistérios como uma interrogação silenciosa. Nada ajuda à desocultação do que está, indefinível, na raiz da atracção e da incomodidade que coexistem a cada aproximação.
Vergílio Ferreira apresenta-a como lembrando uma ermida, para onde convergiam os caminhos da planície. Mas é uma ermida que nos interpela, e não responde.
Estando ausentes nunca se perde a sensação vivida do fascínio, a necessidade sempre presente de regressar e ver. Estando presentes logo nos inunda a impressão difícil do silêncio, da incomunicabilidade, do peso que nos esmaga e asfixia. Da paradoxal ausência, não se sabe de quê. A vontade de fugir, de voar, de escapar. A cidade prende-nos como um cárcere invisível.
As pessoas movem-se por entre as pedras e a cal que os poetas cantam de um modo que sempre me deixou uma intrigante sensação de vazio, de fantasmagórica ilusão de vida. Passa-se, por entre a gente, uma vida inteira, e continuamos a sentir-nos intocados e distantes.
Com o calor do Verão acentua-se a irrealidade do conjunto. O calor e a luz enchem cada recanto, e o silêncio instala-se ainda mais pesado e sufocante. Há gente, e não há ninguém. Caminho sempre, como se fosse eu só a perder-me por entre o sol e as sombras de uma cidade esquecida no deserto. Não fossem os velhos jacarandás do Largo da Misericórdia, que se exibem em floração garrida, e juro que não teria visto uma pincelada de vida. Instalo-me na tarde quente e vazia, e olho aqui de dentro, para lá das janelas, por sobre os telhados e os quintais. Nada rasga o manto acolchoado e morno do silêncio que tudo envolve, a não ser o piar insistente de uns pardais, que parecem estar zangados, não sei se entre eles ou também com o mundo, que não traz ninguém contente. Creio que se queixam também. Em Évora não se morre e não se vive.

Domingo, Junho 06, 2004

Escrever na net

Escrever é um exercício solitário. Sempre. Mesmo em experiências de escrita conjunta, por mais que se tente apagar qualquer traço de individualidade no contributo de cada um. Dêem lá as voltas que derem é sempre de dentro de si que cada participante arranca a sua parte. Só depois é possível apagar as marcas, e tentar amassar a ficção da autoria colectiva.
Portanto, escrever é um exercício solitário. Tanto para o adolescente que se confia ao seu diário, que ninguém há-de ler, como para o fabricante de sucessos literários que programa a linha de montagem estudando a melhor maneira de fazer a boca doce aos consumidores. E tanto num monumental "Guerra e Paz" ou "A la recherche du tempos perdu" como no mais insonso dos produtos da fast-food literateira.
Todavia, o exercício não pode fazer-se sem a presença de um outro qualquer - ainda que seja um "alter ego" do autor. É da natureza da escrita, como instrumento de comunicação que é. Vive como um meio, um elo de intermediação entre o emissor e um qualquer destinatário, mesmo que por força de uma duplicação artificiosa de papéis seja o próprio que escreve o seu próprio interlocutor. Diálogo, pois, é sempre, por mais monologante que nos apareça.
Está presente no exercício tanto a sua característica solidão como a necessária presença do outro. Tal como na vida, afinal.
E na rede? A pergunta tem-me surgido, insistente, perante a novidade deste novo suporte. Sublinho que é ainda escrita, tal qual, mas num novo suporte. E este traz algumas novidades. Como se verifica as mais das vezes o escrevinhador escreve sózinho, algures num ponto perdido do universo, frente a um teclado e a um écran, sem o calor de uma presença física. O interlocutor, para ser presente, tem que ser por ele ficcionado ou imaginado. Nisto não se distingue o novo suporte, na sua solitude, dos mais antigos exercícios. O monge na sua cela gravando laboriosamente os seus preciosos manuscritos está na mesma situação em face do mundo distante.
As diferenças, porém, não são para desprezar. Desde logo o tempo, o diferente funcionamento do tempo. Nesta escrita o escriba pode estar a ser lido em tempo real, enquanto escreve, por uma infinidade de destinatários. Logo que solta a mensagem um sem número de receptores, que ele não controla, podem recebê-la e fazê-la sua. E podem reagir! Esta é uma mudança formidável. Aqui o escriba pode ter logo o que em tempos só após longa espera seria possível alcançar: o retorno, o eco, a resposta que mereceram as palavras que largou à sua sorte.
Por este modo o autor pode envolver-se num diálgo imediato e directo com o seu público. Pode discutir com ele, ouvi-lo e partilhar o que ele pensa, ir fazendo a sua obra enquanto mede a temperatura das reacções. Situação inteiramente nova.
Poderá esta novidade afastar a solidão que apontei ao exercício de escrever? Enquanto acto de criação, certamente que não. Criar é como respirar; podemos todos fazer o mesmo, mas cada um faz por si e só pode fazer por si.
E enquanto sentimento? Pode a partilha na rede, a cumplicidade que nasça, trazer o conforto da amizade, ou a graça do amor, ou a alegria do companheirismo e da camaradagem, como se a rede nos desse o que a vida nega?

Sobre solitários

A solidão será sempre um estado, uma mera situação, acidental e transitória, ou será para alguns uma natureza?
Por outras palavras, haverá quem não possa deixar de estar só? Quem nasça ou se faça incapaz para a comunhão plena com outro?
O tema é complexo e difícil. A incapacidade para amar parece que existe. Muitos entendidos assinalam essa deficiência em D. Juan - o homem que procuraria em todas as mulheres o que não pode encontrar em nenhuma. No mito donjuanesco o que estaria representado era esse drama íntimo, essa incapacidade pessoal profunda e intransponível.
Incansavelmente D. Juan conhece mulher após mulher, para em cada uma se descobrir só - ausente o Amor que poderia ser o graal daquela demanda.
Desconhecendo o Amor, o herói está condenado à busca inglória e frustrada, até ao fim. Na desgraça delas prolonga-se a impotência dele. No encontro com a carne ele encontra sempre o vazio, a fome do absoluto, e nunca a saciedade. É ele o vencido, vergado pela sua impotência até ao desepero final. Don Juan, o impotente!
Drieu La Rochelle expõe, no fundo, a mesma angústia em "L'homme couvert de femmes". Ele procura e não acha - a perfeição, a plenitude, a felicidade, o absoluto, ou lá o que for. O que terá ficado perdido, lá para trás, no abismo escuro que é a alma de cada um, que condena um ser à viagem perpétua, à inquietação do que não sabe e não encontra?
O sexo surge aí como uma compensação amarga, um fruto que não é o que Eva prometia - o da eterna sabedoria, da árvore da vida e da morte - mas é o que Eva podia dar. Com sabor de abismo e transcendência, vertigens, de altura e queda.
Por vezes o sentimento de incapacidade chega à renúncia. Já não há sonho, nem procura. Fica só a carne. E nem vou falar de Montherlant (leiam "Pitié pour les femmes"). Lembro-me muitas vezes de uma passagem de Jacques Laurent (em "Les Délices") em que o protagonista (o escritor, a obra é autobiográfica, seja a autobiografia ficcionada ou real) descreve a sua relação com uma leitora jovem que conheceu de passagem, após uma conferência. Tem que dar-lhe conversa, falar-lhe de literatura e da sua literatura, porque sabe que é isso que a traz fascinada até ele. Mas por si não cultiva ilusões, mira-lhe o corpo, cobiça-lhe a frescura do corpo, e sabe que é só isso o que pretende. A dado passo explica coloquialmente ao leitor, com franqueza, enquanto a olha e faz para dentro o diagnóstico sumário da situação, que ela o desejava pelos seus romances enquanto ele a desejava pelas suas pernas. Talvez a troca fosse justa; certamente que nem a moça sabia escrever romances como os dele nem ele tinha muitas possibilidades de fruir de pernas como as dela, sem os romances.
Mas também nessa confidência havia a renúncia, o desencanto, a solidão. Por condenação, destino ou fatalidade, e não por escolha.

Relatório breve

Pela vez primeira estou com a sensação de que há crise na blogosfera. Noto um certo esgotamento, rareiam os assuntos, desertam os blogonautas, fecham blogues, escasseia a inspiração, cai a pique o ritmo da escrita. Há um tom geral de cansaço. Não há polémica que aqueça, nem discussão que afugente o tédio.
O que será? Não sei. Para onde terão migrado atenções e entusiasmos? Para as eleições europeias não, certamente, para a praia pode ser que sim.
Mas é certo que uma vaga atmosfera de aborrecimento instalou-se sobre o vasto mar das navegações blogosféricas. Não digam que não, porque até os visitantes sentem e se passeiam desinteressados com o mesmo ar ausente e neurótico com que costumam pairar por entre as barracas da Feira do Livro. Um gosto a desilusão, de quem esperava novidade e só encontra o já visto e mais que visto.
A nossa blogosfera precisa de ar fresco, gente nova e diferente, outro estilo, outras preocupações, outras ideias. A renovação já não virá dos instalados no mercado, por mais fusões, aquisições, transformações, ou maquilhagens com que se apresentem.
Por mim aqui vou continuar, mas confesso que também tacteando no escuro à procura do tom. Provavelmente vai ser como calhar, ao sabor do dia. Conforme o estado do espírito que comanda a escrita; umas vezes mais sombrio, outras talvez em cores mais garridas. Por estes dias a coloração não anda muito alegre. Sendo embora verdade que já tenho idade para me surpreender pouco, sobretudo com a natureza humana que os incorrigíveis optimistas me asseguram ser excelente de seu natural, nunca a alma conseguiu criar a habituação e o calo precisos para aprender a indiferença - e acontece que me doem as manifestações cruas da bondade e generosidade tão frequentemente proclamadas. Será dos meus olhos, que não têm as luzes dos filósofos, mas parece-me realmente que cada vez que um homem está a afundar-se há sempre outro que não resiste à tentação de lhe pôr o pé em cima. Pessimismo antropológico, quiçá patológico, direis vós - pois sim, fiquem-se na vossa que da minha patologia quem sabe sou eu.

Sábado, Junho 05, 2004

Os homens precisam de discriminação positiva?


Recentemente um médico com responsabilidades dirigentes na sua classe profissional a nível do Norte do país veio alvitrar a necessidade de estabelecer quotas mínimas de entradas em Medicina para alunos do sexo masculino, de modo a conseguir pôr algum travão no predomínio estatístico das mulheres nessa profissão. Algumas vozes, no meio em causa, pareceram pronunciar-se favoravelmente, se bem que com um certo pudor, como foi o caso do próprio bastonário.
O ineditismo da proposta provocou algum alvoroço (veja-se que a situação oposta é que tem sido recorrente, insistindo alguns sectores em apresentar propostas para a fixação de quotas mínimas de mulheses em certas profissões e cargos). Mas depressa foi esquecida (julgo eu).
Mesmo assim ainda provocou alguns protestos, como se encontra no site "Mulheres em Acção".
Por mim, fiquei intrigado com dois aspectos. Primeiro, não encontrei expressa nas tais propostas nenhuma justificação de motivos. São as mulheres profissionalmente menos capazes de nos tratar da saúde? São os homens um grupo social fragilizado e desfavorecido que necessita de medidas de discriminação positiva?
Creio que se torna necessário explicitar a fundamentação da ideia. Não basta a constatação da predominância cada vez maior da presença feminina nos cursos de Medicina. É preciso saber se o facto é negativo, ou é positivo, ou nem uma coisa nem outra. Se for irrelevante também não vale a pena combater o fenómeno.
O segundo aspecto que me deixou perplexo é este, e não deixa de me assaltar sempre que me lembro do assunto: como se sentiriam os rapazes que entrassem em Medicina ao abrigo das tais quotas? Conseguiriam olhar de frente para as colegas que com eles terminassem o secundário, com notas francamente superiores, e que ficassem de fora do curso por força da tal quota reservada em função do sexo?

Não esqueçam o encontro!


E lembrem-se que a inscrição tem que entrar até dia 15 deste mês. Comuniquem quanto antes com os colegas do Alandroal, se fazem favor. Sem tardança!

Forum Eugénio de Almeida

Na galeria de exposições do Forum Eugénio de Almeida encontra-se agora uma colecção de gravuras de Vieira da Silva. Foi inaugurada com a presença ilustre de Agustina Bessa Luís, que escreveu a propósito o texto que acompanha a exposição.
Fica o alerta aos eborenses, e aos visitantes que circularem pela ára monumental da cidade. Trata-se efectivamente de acontecimento cultural de primeira grandeza, a não perder. Num espaço que tarda em ser descoberto e adoptado pela cidade.

Sexta-feira, Junho 04, 2004

Quem te avisa teu amigo é


Estes estão mesmo a calhar para a próxima inventona....

Sugestão de fim de semana

E para quem quiser passar um fim de semana em família, tiver criancinhas, goste do campo, de animais e do Alentejo profundo, há sempre a hipótese do Monte Selvagem...
Poderá também ir à Feira de Pavia, no vizinho Concelho de Mora, mas isso já não será certamente tão repousante.

A campanha: ainda não foi desta que passou para a net

Ao princípio ainda pensei que as presentes eleições fossem as primeiras a ficar marcadas pelo recurso generalizado à internet como meio privilegiado de campanha. Sobretudo por parte daqueles que não têm as menores condições de acesso aos meios tradicionais de comunicação, todos ferreamente controlados pelas mesmas mãos que detêm as rédeas do poder económico, político ou cultural. Quem não tem quaisquer meios para superar com êxito o bloqueio imposto nesses terrenos era de esperar que apostasse em força no único grande meio de comunicação ainda aberto, e para mais com potencialidades infinitas de desenvolvimento que dependem em grande parte do mero execício da imaginação e da criatividade. A certa altura deu a sensação de que podia ser assim.
Mas não: os hábitos, os atavismos, os impulsos convencionais foram mais fortes. Ninguém resistiu à tentação de andar a imitar em pequenino o que os grandes fazem em grande. Os desabafos falam por si: se nós tivéssemos dinheiro para os outdoors que eles têm... se nós tivéssemos meios para pagar os cartazes que eles espalham por aí...
As lamentações traduzem em geral o desgosto de não poder fazer igual aos outros. E então faz-se o mesmo, embora em miniatura. Instintivamente rejeita-se a hipótese de, simplesmente, fazer outra coisa.
Deste modo a campanha, se olharmos o conjunto das treze candidaturas, parece uma corrida de Fórmula 1 em que uns tantos possuidores de uns velhos e ronceiros 2CV não resistiram em ir alinhar na partida ao lado dos reluzentes Ferraris.
Na tentação de mostrar músculo nos mesmos campos em que os gigantes dominam irremediavelmente esqueceu-se como se fora um terreno ainda marginal a aposta na internet. Tanto forum de debate e informação, tanto órgão de informação em linha a pedir comentários e participação, tanto espaço na blogosfera, e nota-se até que tudo foi secundarizado e desertificado pelos afazeres da campanha (entendendo aqui campanha, por deslize inconsciente, nos estritos termos determinados pelos usos e costumes).
Quem ficou na rede em liça foi apenas quem já estava antes. Esta observação é bem constatável na blogosfera, na qual dadas as suas características próprias, de instrumento de grande maleabilidade e flexibilidade, seria de esperar uma possível explosão de novos blogues motivados pela luta eleitoral (já aconteceu noutros lugares).
Enfim, ainda não foi desta. Eu compreendo, porque conheço a psicologia do militante tipo, ardendo de entusiasmo combativo: o fervoroso rapaz do MRPP preferirá mil vezes ir agitar uma enorme bandeira vermelha no Rossio à hora de ponta, sentir no rosto afogueado o vento que agita o pano e o calor que lhe aquece a fé, por entre o ruído da multidão que passa e o olha, do que sentar-se num canto escuro e frio a escrever mensagens para pessoas que nem vê nem o vêem. Com efeito, é uma triste e melancólica cena que nem dá para um cartaz.
Provavelmente o trabalho paciente e sistemático na internet seria bem mais compensador do que a efemeridade da fotografia desse momento. Mas é realmente difícil vencer os instintos profundos (a espécie é gregária, precisa do conforto da camaradagem, do sentir físico das gentes, das ruas, das caravanas, dos comícios, das bandeiras, dos cartazes, dos papéis, das palavras de ordem - até eu gosto!) e desenvolver uma estratégia que só a frieza do raciocínio aconselharia.

Mattos Fernandes

Em tempos que já lá vão, era uso da burguesia lisboeta, como sempre vaidosa nos seus ademanes de "cosmopolita", ironizar com quem viajasse para o Alentejo advertindo que em Évora por mais que andes não encontras senão porcos, Potes e Fernandes.
As mudanças fizeram com que os porcos rareassem, os Potes e os Fernandes dispersassem... Mas lá que ainda os há, lá isso é verdade.
Vem isso a propósito da informação vinda do Emílio de Sousa sobre a realização do convívio da família Matos Fernandes. O anfitrião é Raul Miguel Rosado Fernandes, pelo que o discurso de boas vindas bem poderá ser em grego ou em latim do mais fino recorte clássico. Ou em alentejano vernáculo, que ele é bem capaz disso - fala essas línguas todas!
Ao almoço são esperados mais de mil convivas - uns mais ilustres do que outros, pois claro. Portanto, quem neste fim de semana vier a Évora, ou a Reguengos, não tem que estranhar se a cada esquina ou recanto não encontrar senão hordas de Fernandes, das várias tribos, clãs, gens e fratrias em que a espécie se reparte.

O jogo viciado

Perante o desenrolar da presente campanha eleitoral não consigo deixar de pensar naqueles casinos em que o prémio sai sempre à casa. Nunca tinha sido tão ostensivo o encerramento sobre si mesmo do círculo fechado dos detentores do poder. Nem nos grandes meios de comunicação oficialista se procurou fingir um mínimo de abertura: quem veja os noticiários das televisões, como eu ontem vi, constatará que só existem as candidaturas situadas dentro do arco situacionista. Das outras nem sequer se refere a existência.
Como resultado do entendimento cordial entre os condóminos do país que nos resta, consegue-se o milagre de não aflorar sequer nenhuma das questões que em tese seriam o centro das atenções nesta campanha. Alguém ouviu falar da Europa? Alguma vez se falou sobre qual a Europa que se pretende? Tocou-se uma vez que fosse, e ainda que fosse ao de leve, em questões como a Constituição Europeia, o hipotético referendo, a possível entrada da Turquia, o controlo dos fluxos migratórios, no exterior e no interior das fronteiras comunitárias, a configuração das instituições, seja o Conselho ou o Parlamento, seja o problema do directório ou os poderes de cada Estado, a federação ou a confederação... Nada que pudesse ser relevante foi sequer abordado! Em vez de uma campanha de participação e discussão pública tivémos uma campanha de ocultação.
Os cidadãos são chamados a votar, de entre os eleitos previamente pelo sistema, a partir das suas peculiaridades físicas ou das suas performances em matéria de marketing e comunicação, como numa promoção de supermercado em que se confrontassem o SKIP e o TIDE.
E assim vamos para os votos, já daqui a poucos dias.

De António Sardinha, emocionadamente

A "Invocação" que o poeta de Monforte escreveu para a terra transtagana permanece como um dos mais belos poemas jamais dedicados à "Epopeia da Planície".
Grande lembrança, Pedro!

Quinta-feira, Junho 03, 2004

Canção para os meus filhos

Romeiros de antigamente
A caminho de amanhã
Por caminhos do presente
Voltados ao sol nascente
Vamos saudar a manhã.

Romeiros da Roma antiga
Que ainda hoje nos chama
Só queremos que nos siga
Quem souber numa cantiga
Pôr o calor duma chama.

Romeiros, sim. Os primeiros
Romeiros deste ideal.
Por serras, desfiladeiros,
Planuras, somos romeiros.
Nossa Roma é Portugal.

LUIZ DE MACEDO

Ainda a direita catita e a esquerda caviar

Estou propênsico a aceitar a crítica do Dragão: parece que em muitos casos a pretensiosa distinção que adiantei traduz-se em dignificar demasiado a coisa.
Efectivamente constato que vezes sem conta tudo se resume a "pequenas tribos de amigalhaços" que se reunem aqui e ali "para jogar matraquilhos culturais ou torneios florais politicodoces".
Admito e concedo. Não há nada como uma visão simples da realidade; não adianta estar a armar aqui em culto, inteligente e civilizado, que sou logo apanhado na primeira curva.

As afinidades electivas

Depois de ter encontrado em diversos locais indubitavelmente esquerdistas várias referências carinhosas ao que os autores chamam "a direita culta, inteligente e civilizada" creio ter entendido com algum rigor qual é a coisa a que corresponde a designação. A "direita culta, inteligente e civilizada", a que a esquerda repetidamente se refere, corresponde à direita sociológica que absorveu e interiorizou sem crítica ou objecção a "formatação mental" que define a esquerda.
É aquela burguesia urbana que partilha com a esquerda, por inteiro, as referências culturais, a "forma mentis", os valores, o estilo de vida, o consumo de toda a parafernália de bens colocados no mercado pela produção industrial a que a esquerda se dedica há muito nos terrenos que vão desde o campo artístico e literário até ao mero lazer e entretenimento.
Quando se dedica a actividades intelectuais, essa direita limita-se com naturalidade a passear o intelecto pelo universo esquerdista. No terreno previamente demarcado, aceita a distribuição de papéis: uns são de esquerda, outros são de direita. Mas dentro dos limites dados pelo quadro mental prédefinido.
A relação entre a esquerda e essa direita é assim necessariamente íntima, feita de cumplicidades e subentendidos: os pressupostos são os mesmos, só uns gostos, umas manias e uns afectos é que provocam divergências. Mesmo quando momentaneamente entram em polémica, persiste sempre entre uma e outra mais ou menos a mesma relação que se encontra entre os Drs. Miguel Portas e Paulo Portas. Entre a esquerda caviar e a direita catita a diferença resulta por vezes, apenas, de qual foi o primeiro filme a impressionar-lhes a imaginação juvenil.

Feira do Livro

Tendo em conta as opiniões fidedignas que leio em vários blogues, torna-se indispensável a visita ao pavilhão da DisLivro na Feira do Livro de Lisboa.
Parecem que apresentam ao público obras das velhas Edições Gama, Edições A Rua, Editorial Restauração e Editorial Resistência, todas elas desaparecidas dos circuitos comerciais normais.
Encontram-se autores como Alfredo Pimenta, António Sardinha, Hipólito Raposo, Pequito Rebelo, António Manuel Couto Viana, Amândio César, e ainda Rodrigo Emílio ("Serenata a Meus Umbrais" e "Reunião de Ruínas").
É preciso correr a comprar, e guardar, antes que os barnabés se apercebam e desatem a uivar pela imediata proibição de tão indecorosa e inconstitucional manifestação de ideias interditas....

Quarta-feira, Junho 02, 2004

Subjectiva

O 10 de Junho ainda é o Dia de Portugal?

Cortes de Coimbra


Para quem frequente a sala das sessões do Tribunal da Relação do Porto, reproduzo aqui o fresco do pintor alentejano Dordio Gomes representando a eleição de D. João I. Já tinham reparado?

Dordio Gomes


Do extraordinário pintor de Arraiolos, que ao Porto e à sua ESBAP dedicou a maior parte da sua vida, e boa parte da sua obra, eis um quadro com Évora ao fundo... A nossa Sé, sempre abençoando a planície.

A campanha

Faltam apenas dez dias para as eleições para o parlamento europeu. Para compensar a indiferença popular, os responsáveis das principais candidaturas soltaram a língua e resolveram aquecer o ambiente tratando de se insultar uns aos outros. Houve logo reacções negativas, deplorando o baixo nível das injúrias recíprocas entre os ditos protagonistas. Confesso que não entendo porquê: ainda não os ouvi dizer nada que me parecesse exagerado. Nestas alturas é que eles dizem a verdade.

Sorraia vai cheio

Em tempos a capital da blogosfera era Avis, dada a relação número de blogues por número de habitantes. Mas agora, tenham paciência os amigos do Maranhão, parece-me que os blogues de Coruche ou relacionados com Coruche já tornaram a capital do Sorraia a terra de maior densidade bloguística do país.
Passo a inventariar os que conheço: Coruche, O Corujão, Em Coruche, Cruxices, Bloguinho, Conspirações, Antiblogue, Biscainho, Minha Querida Terra.
São muitos! E acredito que ainda haja mais...
O que dizem a isto os blogueiros de Avis?

Antigos Alunos do Liceu de Beja

Foi renovada e melhorada a página da Associação dos Antigos Alunos do Liceu de Beja.
Como sempre tenho feito em relação aos Antigos Alunos do Liceu de Évora, espécie de que faço parte, aqui fica o merecido destaque para os compadres do Baixo Alentejo.
A nossa identidade pessoal e colectiva passa pela preservação, também, dessas memórias.
E uma vez que ali se exaltam algumas personalidades ligadas de uma forma ou de outra à memória bejense, aproveito para fazer uma chamada de atenção para o poeta Mário Beirão: em tempo de revalorização crítica da poesia que tem o seu epígono em Pascoais, seria ocasião de relembrar e reler aquele que é, talvez, o mais importante poeta alentejano do século XX (e digo isto sabendo bem que nenhum poderá rivalizar com a popularização de Florbela, por razões que me parecem fáceis de entender).
A Imprensa Nacional/Casa da Moeda também publicou as "Poesias Completas" de Mário Beirão, reunidas em trabalho conjunto de António Cândido Franco e Luís Amaro (o primeiro quase um alentejano de adopção, dada a sua actividade profissional na Universidade de Évora, e o segundo, velho aljustrelense de nascença, um lisboeta honorário, tendo em conta a sua profunda ligação à capital, velha de tantas décadas).
Vamos então a reler Mário Beirão. Podem começar aqui. Mas passem pela INCM na Feira do Livro, que o melhor é sempre ler no papel.

Terça-feira, Junho 01, 2004

A poesia que promete

São os poetas que movem os povos; mas ai dos que frente à poesia que destrói não erguem a poesia que promete...
Essa máxima célebre de um rapaz muito cá de casa serve às mil maravilhas para introduzir mais um poema de Couto Viana, na continuação da homenagem a que me propus, face à publicação pela INCM do conjunto da sua obra poética ("60 anos de Poesia").
Juntamente com "Vitorial", já aqui publicado há mais tempo, é este um dos mais apelativos e convocatórios, e digamos também prometaicos, dos grandes poemas de Couto Viana.
Está musicado, praticamente desde que apareceu, tal como o "Vitorial". Divulgado na voz e na música de Manuel Sobral Torres, primeiro, na voz e na viola de Manuel Rebanda,também, e depois no canto do trovador José Campos e Sousa.
Reparem na afinidade com o "Quinto Império", de Fernando Pessoa ("triste de quem vive em casa/ contente com o seu lar/ sem que um sonho, no erguer da asa,/ torne até mais viva a brasa/ da lareira a abandonar". Leiam, e vão cantando baixinho, para dentro de alma somente.

COMÍCIO

Diz adeus à terra
Que te viu nascer:
Deixa aqui teus filhos
E tua mulher,
Vai buscar a pátria
Onde ela estiver!
Aqui tudo exige,
Ali tudo pede:
Acharás justiça
Para a tua sede
E o peixe divino
Cairá na rede.
Haverá domingos
Por toda a semana,
Ali tudo é firme,
Aqui tudo engana,
Ali a alegria
Tem a forma humana.

Diz adeus à terra
Que te viu gerar.
A palavra imunda
Tem aqui lugar:
Perversão da rosa,
Poluição do ar.
Ali tudo habita
No seu próprio chão.
A raiz só prende
Pelo coração
Aqueles que enlaçam
Pecado e perdão.
Aqui quem procura
Encontra o espelho:
Ali gira um jovem,
Aqui dorme um velho.
Ali todo o sangue
Azul é vermelho.

Diz adeus à terra
Onde o amor não basta.
Vai buscar a pátria
Primitiva e casta
Que o terror repele
E o orgulho afasta.
Aqui todo o espaço
Cabe num só medo.
Aqui há denúncia,
Ali há segredo.
Aqui já é tarde,
Ali muito cedo.
Aqui tens um signo,
Ali tens um nome,
Sem voz que divida,
Diminua ou some.
Ali tens a esperança
Para a tua fome.

Diz adeus à terra
Onde a vida passa
Como um rio de água
Morna, lenta e baça,
Onde o vento é brisa
E o clarim desgraça.
Vai buscar a pátria
De bandeiras vivas,
Busca os gestos livres,
Foge às mãos cativas,
Abandona as sombras
E as fontes esquivas.
Busca o teu futuro,
Nega o teu passado,
Vai erguer teu sonho
Solene e sagrado:
Vai morrer na pátria
Que te faz soldado!

António Manuel Couto Viana

Controlo das fronteiras

Segundo um novo comunicado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) desde quarta-feira passada, dia 26, em que passou a fazer-se o controlo documental aos estrangeiros que tentam entrar em território português, já foi recusada a entrada a 1324 estrangeiros, por não reunirem as condições legais.
As nacionalidades mais representadas são os marroquinos, romenos, ucranianos e brasileiros.
A curiosidade deste novo comunicado reside no facto de, tendo passado já alguns dias sobre a aplicação da medida, começar a ser possível estabelecer uma média com alguma credibilidade. Até agora era desconhecida qualquer avaliação numérica da situação. Por estes números constata-se que a média é mais elevada do que se previa, e mesmo do que se afigurou no primeiro dia.
Resta comentar que a medida está para durar apenas até 4 de Julho. Nessa altura o Governo irá simplesmente regressar à situação anterior, ignorando de todo as lições desta experiência?

Páscoa no Minho

Associando-me, como tinha prometido, à recente edição pela INCM dos dois volumes da obra poética de Couto Viana, passo a transcrever alguns dos seus versos, dos que pessoalmente me tocam mais. O poema que segue sempre o vi como um dos mais belos e perfeitos que conheço. Curiosamente, o autor nunca o incluiu nas suas antologias. Chamo a atenção do leitor para a alegre melodia da sua sonoridade, e para o colorido ingénuo da aguarela. Música e pintura, num todo harmonioso e único.
Os mais atentos hão-de lembrar-se de um quadro famoso de Sarah Afonso, “A Procissão”, e também dos versos célebres que António Lopes Ribeiro lhe dedicou (ao quadro, geralmente passa despercebido esse pormenor de os versos serem dedicados ao quadro, chamam-se mesmo “A procissão de Sarah Afonso”, e não a uma cena da vida a que António Lopes Ribeiro tenha assistido). Ninguém há que não tenha no ouvido a voz de João Villaret declamando “A procissão”...
A coincidência das imagens não representa um acaso: Sarah Afonso era conterrânea de Couto Viana, e inclusivamente amiga de infância e companheira de colégio da mãe do poeta. Tinham nos olhos as mesmas imagens. Eis a Páscoa no Minho, segundo Couto Viana.

Páscoa

É tempo de Páscoa no Minho florido.
Já se ouvem os trinos dos sinos festeiros
Na igreja vestida de branco vestido,
Entre o verde manso dos altos pinheiros.

Caminhos de aldeia, que o funcho recobre,
Esperam, cheirosos, que passe o compasso
À casa do rico, cabana do pobre...
Já voam foguetes e pombas no espaço.

Lá vêm dois meninos, com opas vermelhas,
Tocando a sineta. Logo atrás, o abade
Já trôpego e lento. (As pernas são velhas?
Mas no seu sorriso tudo é mocidade.)

Com que unção o moço sacristão, nos braços,
Traz a cruz de prata que Jesus cativa,
Para ser beijada! Enfeitam-na laços
De fitas de seda e uma rosa viva.

Um outro, ajoujado ao peso das prendas
(Não há quem não tenha seu pouco pra dar...)
Traz, num largo cesto de nevadas rendas,
Os ovos, o açúcar e os pães do folar.

Mais um outro, ainda, de hissope e caldeira
Cheia de água benta, abre um guarda-sol.
Seguem-nos, e alegram céus e terra inteira,
Estrondos de bombos e gaitas de fol.

Haverá visita mais honrosa e bela?
Famílias ajoelham. A cruz é beijada.
(Pratos de arroz-doce, com flores de canela,
Aguardam gulosos na mesa enfeitada.)

Santa Aleluia! Oh, festa maior!
Haverá mais bela e honrosa visita?
É tempo de Páscoa. O Minho está em flor.
Em cada alma pura Jesus ressuscita!

António Manuel Couto Viana

Segunda-feira, Maio 31, 2004

De novo as prisões revolucionárias

Retomando o fio do assunto levantado pelos blogueiros de "O Acidental" resolvi escrever mais um breve apontamento sobre o tema.
Como todos os leitores terão notado, a reacção geral quando se fala em perseguições puramente políticas, prisões ilegais generalizadas, até em torturas, no apogeu da gloriosa revolução, é de incredulidade e descrença.
Outra reacção muito vulgar é a dos que acreditam nuns excessos, mas logo os desvalorizam porque se terá tratado de algo muito localizado e que afectou um punhado de pessoas - uns incidentes isolados e lamentáveis (como os do Iraque...). E ainda por cima os lesados foram uns tantos reaccionários, ligados ao antigo regime ou a conspirações várias, para além dos tenebrosos pides...
Em todo o caso o que nunca será de admitir é que se tratou de uma autêntica vaga de fundo, que exprimia a natureza do processo em marcha, e que pelas dimensões que atingiu demonstra ao que se teria chegado se não tivesse havido a reacção vital que pôs fim à marcha da revolução. Nunca por nunca se pode admitir que se tratou da expressão viva da implantação, que estava em curso, de um regime paranóico e obsessivo, histérico e frenético a procurar inimigos por todos os lados, e em crescendo de fanatismo e de repressão cada vez mais acentuada - um regime onde chegou a colocar-se em marcha o sistema cubano dos CDRs (comités de defesa da revolução), pretendendo instituir a delação como regra imperativa, a par das várias polícias políticas embrionárias (era o COPCON, era a 5ª Divisão, eram não sei quantos serviços de informações militares e civis paralelos, todos já com o poder prático de prender discricionariamente).
A verdade dos factos não corresponde a essa versão açucarada. Para se compreender o que estou a dizer, a forma já generalizada e indiscriminada com que se exercia a repressão contra todos os suspeitos de dissidência em relação ao rumo dos acontecimentos, quero lembrar aqui o caso do grupo de extrema-esquerda MRPP, hoje só falado por causa do nosso actual primeiro-ministro.
A razão por que falo desse agrupamento é outra: com efeito, para quem conhece a história da implantação dos regimes comunistas nos países onde vigoraram, é particularmente significativo o momento em que as depurações conduzidas pelo aparelho repressivo instalado deixam de se dirigir apenas contra os inimigos tradicionais (a burguesia, a reacção, o fascismo, os monopolistas e latifundiários, e outras entidades do bestiário da revolução) para se virar também contra a concorrência à esquerda (os aliados objectivos da burguesia, os esquerdistas, a falsa esquerda, os desviacionistas, os revisionistas, os traidores, e quejandas entidades também invocadas nos processos revolucionários).
Ora no nosso caso torna-se particularmente significativo recordar o caso do MRPP. Como se recordarão alguns, desde muito cedo o referido grupo conquistou a antipatia dos donos da revolução, civis e militares, devido à agitação a que se dedicava - e concretamente a sua linha "anti-cunhalista", ou "anti-socialfascista", como se dizia, que praticamente equiparava o "partidão" ao regime derrubado. Por causa disso houve logo prisões, ainda selectivas, como foi o caso dos chefes, tanto Saldanha Sanches como Arnaldo Matos e outros. E houve também perseguições políticas, traduzidas por exemplo no encerramento e proibição do "Luta Popular" e na proibição de concorrer às eleições em 1975 - sem chegar ainda à ilegalização total. Mas a um dado momento, alegando-se não me lembro bem que pretexto, dá-se o assalto geral contra as sedes e as estruturas do MRPP.
A vaga de prisões deu-se sobretudo a 28 de Maio de 1975. Pois sabem os senhores quantos militantes e simpatizantes do MRPP foram arrebanhados e levados para as cadeias - numa mega operação militar-policial de desmantelamento político, contra pessoas a quem indubitavelmente só podia atribuir-se como delito a sua opção política de momento?
Saibam que foram 432 (quatrocentos e trinta e dois). Apenas do citado grupelho de extrema-esquerda, e num período de tempo curtíssimo. O que pensam os leitores da contabilidade a que se chegaria se fosse feita a conta a todos os outros?
Ainda parece que os tais acontecimentos foram apenas uns poucos actos esporádicos, dirigidos contra quatro ou cinco patifórios vindos do antigo regime, e compreensíveis dado o momento de exaltação popular que se vivia?

Poeiras no Sapo?

Encontrei por acaso e quando li fiquei perplexo: por mais que olhasse só lia "poeiras no sapo". Repeti, concentrei-me melhor, e acabei por perceber (esta cabeça já não é o que era). Trata-se da Juventude Popular de Oeiras, que tem um sítio alojado no Sapo. Saúdo o aparecimento na rede dos jovens da linha, que desejo sinceramente sejam mais desempoeirados do que por lapso os julguei ao olhar distraído.

Parabéns!

Este blogador de Castelo Branco fez 18 anos!
Já estão aí a roer-se de inveja, não é? Bem, eu por mim confesso que também já fiz... Não digo é quando.
Vão lá cantar os parabéns ao moço!

Blogoalandroal

Aos nossos amigos do "Alandroal" (sim, aqueles do encontro de blogues...) juntam-se agora os do "Alandroal Jovem". O concelho dos três castelos conta já com equipas de seniores e de juniores a alinhar na blogosfera. Bem vindos!

A poesia de Couto Viana

Há pouco tempo, discretamente, a Imprensa Nacional/Casa da Moeda editou dois volumes contendo a obra poética de António Manuel Couto Viana.
Como se deduz da leitura da respectiva apresentação, o motivo próximo foi a passagem dos sessenta anos da actividade literária do autor.
Corresponde à verdade essa constatação cronológica. Couto Viana estreou-se em livro há mais de sessenta anos. E também é verdade que o seu nascimento ocorreu em Janeiro de 1923.
(Será fatalidade que os poetas só sejam devidamente reconhecidos quando morrem?)
Estando agora a decorrer a Feira do Livro, e tendo eu em especial estimação a obra e o autor, resolvi expressar aqui o meu apreço e a minha admiração, e publicar alguma coisa a tal respeito. Foi ele que escreveu que a melhor homenagem a um poeta é decorar-lhe os versos; irei publicar alguns, em próximos apontamentos. Até breve.

Memórias de um fascista

Os leitores mais letrados julgarão que estou a referir-me ao curioso livro do jornalista e musicólogo Lucien Rebatet que foi publicado há alguns anos pela "Livros do Brasil", na colecção "Dois Mundos".
Mas não, não é disso que estou a falar. Estou a referir-me a um não menos curioso conjunto de textos que têm vindo a ser publicados neste não menos curioso "Fascismo em Rede"... Vale a pena a leitura, tanto a anti-fascistas como a fascistas (se ainda os houver...)

Domingo, Maio 30, 2004

Permanecer e criar

Na hora que passa pareceu-me oportuno transcrever um poema que Couto Viana em tempos dedicou a Rodrigo Emílio. É para ler sempre, mas sobretudo quando tudo nos dá vontade de fugir. Por mim reproduzo-o a pensar no Pedro e no Bruno, infatigáveis companheiros desta odisseia blogosférica.

PARA HOJE

É preciso ficar, aqui, entre os destroços,
E cinzelar a pedra e recompor a flor.
É preciso lançar no vazio dos ossos
A semente do amor.

É preciso ficar, aqui, entre os caídos,
E desmontar o medo e construir o pão.
É preciso expulsar dos cegos dias idos
A insónia da prisão.

É preciso ficar, aqui, entre os escombros,
E libertar a pomba e partilhar a luz.
É preciso arrastar, pausa a pausa, nos ombros,
A ascensão de uma cruz.

É preciso ficar, aqui, entre as ruínas,
E aferir a balança e tecer linho e lã.
É preciso o jardim a envolver oficinas:
É preciso amanhã.

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

Novas do mundo do circo

Princípio maior para os novos tempos: poderá faltar o pão, mas o circo que nunca falte.
Estamos quase no mega acontecimento futebolístico que ao que dizem irá trazer-nos uns largos milhares de exemplares da matulagem mais ordinária que circula pela Europa. Dizem que é a taluda para a nossa indústria turística. A ver vamos. Em todo o caso será uma festa para televisões e outros anexos do comércio do entretém. E mantém o povinho ocupado.
A selecção nacional já começou a mostrar o que vale, esmagando o Luxemburgo. É animador. Espera-se igual brilho frente a Andorra, ao Liechstenstein e a São Marino, se estes cá jogarem.
Entretanto já começou a agitar as multidões o famoso Rock in Rio (mais precisamente, em Monsanto e em Chelas). Entra o Paul McCartney, o Peter Gabriel... Parece um desfile da terceira idade. Mas as massas afluem, escorre o dinheiro e a cerveja. É bom: mantém o povinho ocupado.
Aqui em Évora também estamos em ambiente festivalesco. Ontem queimavam fitas umas quantas centenas de jovens universitários, e como é de uso acorreram não sei quantos milhares de paizinhos e outra parentela emocionada. Foi curioso de se ver o resultado, sobretudo pela antevisão do pandemónio que nos aguarda nestes meses mais próximos. Como era de prever, ao menor afluxo de tráfego o trânsito entope e pára, a cidade torna-se um gigantesco engarrafamento. E o pior é que não há qualquer sítio para estacionar uma viatura, para quem queira simplesmente deixar o burro à entrada da cidade e caminhar a pé.
Já trabalham as equipas de montagem do arraial da Feira de São João. Indiferentes à passagem dos séculos, tratam de tudo nos mesmos locais onde a Feira ficava bem há quinhentos anos. Nos últimos meses, com as obras ainda em curso na zona envolvente, foram eliminadas largas centenas ou milhares de lugares de estacionamento que ainda o ano passado serviram para esse fim, mesmo que em infernal balbúrdia. Como vai ser de ora em diante? A Senhora Câmara já pensou nisso?
Enfim, certo mesmo é que a Feira continua. O povinho continuará ocupado e entretido.
E não querem ver que me esqueci das eleições!...